segunda-feira, maio 29, 2006

Vinhos e amizade

Ao ler esta crónica, acabaram por achar que o título pouco tem haver com o texto. Sinceramente tive muita dificuldade em escolher um tema que fosse adequado. Escolhi Vinhos e Amizade, porque foi através da amizade que alguns vinhos apareceram. De outro modo seria impossível. Porque aqueles que se juntaram no dia 24 de Maio de 2006, para além de serem apaixonados pelo vinho e por tudo aquilo que o rodeia, são acima de tudo amigos. Não escolhemos vinhos para impressionar os outros. São para dar, para dividir, para oferecer! Aprendemos muito mais, sem qualquer preconceito ou receio por aquilo que se sentimos. Partilhamos com liberdade tudo aquilo que nos vai na alma. Por estas razões e mais algumas que resolvi escolher este título.
Mas comecemos a falar um pouco sobre o que se passou nesse dia de Maio. Local escolhido. Alcochete, junto à marginal. O enquadramento não podia ser o melhor. O Rio Tejo e os barcos, dos poucos pescadores que existem na vila, alinhavam-se desordenamente. Cores bonitas. O Rio está calmo, parecia um espelho...da janela olhava-se para Lisboa a despedir-se, dizendo-nos até amanhã!
Começamos o nosso serão com dois vinhos brancos já com alguns aninhos. Não foram provados em prova cega. Não havia necessidade. A ideia era mesmo desfrutar. Foram ofertas do Brandão.
Dão Caves Velhas 1978. 12,2%
Apresentou-se com uma cor muito parecida ao moscatel. Os meus olhos regalaram-se de espanto. Era bonito, mas será que estava em condições de se provar? Relutantemente coloquei o nariz e ... ele disse-me: "Ainda aqui estou!"
Aromas muito curiosos que me faziam lembrar a casca de laranja banhada por um toque de licor. Deixe-lhe tempo. Deixe-lhe espaço para me ir contando histórias. Sussurrava com suavidade, muita elegância. Sem pressas. Abriu então para provocantes notas de canela, mel e leite creme acabado de ser tostado. Um mimo...
Na boca voltou a partilhar comigo todos os seus aromas. Estava fresco, com boa acidez e algum melaço. Sempre bem comportado. Acabei por deixá-lo no copo durante toda a noite, acabando por fazer uma deliciosa parelha com um pijaminha de doces conventuais.
Quinta de São Miguel 1944. No seu rótulo, meio desfeito, era possível observar algumas indicações algo curiosas: Vinho de Meza A. Marques. Próximo do Bussaco. Alguém sabe do que estamos a falar? Nem nós sabíamos.
Cor mais clara, sugestões de combustível, talo de couve, que depois evoluiu para algo parecido vinho da madeira. Não deixaram de ser sessenta e dois anos de mistérios e histórias fechados numa garrafa, que valeram a pena serem contadas.
Terminada a etapa dos brancos, que serviram para descontrair, falar um pouco sobre a vida de cada um, passámos para uma pequena prova cega. Cada um (éramos quatro), trouxe uma botelha. A única condição; 1996 ou 1997. Porquê estes anos? Porque sim. Poucas razões existem para fundamentar a escolha.
Quinta dos Roques Touriga Nacional 1996. 13,5%
Um verdadeiro vinho do Dão. Nem mais nem menos. O tempo que tem parece não ter passado por ele, fê-lo melhorar ainda. Estava com um vigor que faria corar algumas das estrelas da actual feira de vaidades. Muitas delas não chegarão ao calcanhar deste Roques. É bem feito.
Cor bem escura. Aromas profundos, cheio de classe e categoria. Pujante, com muita vida!
Muito floral na sua apresentação. Violetas e hortênsias que lembravam os canteiros que existiam nos balcões, daquelas casinhas de pedra da Beira Alta. Era bonito ver as velhotas de lenço na cabeça a regar logo de manhã os vasos. Quando a água batia nas plantas parecia-me que os aromas tornavam-se mais fortes, mais intensos. Foi isto que o vinho me fez sentir. Balsâmico e silvestre. Licores. Evolução para amoras e alguma compota. Bom envolvimento, nada desalinhado. Minerais.
Boca com muita presença, com tudo no sítio. Estava para as curvas. A morte ainda caminhava bem longe dele. Outros serão chamados primeiro ao juízo final. Assim espero, pois dádivas destas existem poucas.
Nota Pessoal: 17

Pêra Manca 1997. 14,5%
Quente no comportamento. Uma postura mais provocante. O que era isto?
Aromas com muitas compotas. Uma misteriosa sugestão a laranjeira que intrigava, mas que apreciei particularmente. Groselhas e moras. A presença de alguma frescura, conseguia aliviar um pouco o seu lado mais doce, tornando-o mais complexo. Iogurte de cheesecake. Bolas de neve. Sim! Lembram-se daquelas rebuçados que vinham envolvidos em papel celofame vermelho? Pois, acreditem que me recordei desses rebuçados. Engraçado, não é? Suave torrefacção, com alguma manteiga.
Na boca era sedoso, gordo, mas não enjoativo. Alinhado. Taninos a darem uma agradável secura. Bom corpo, mas a dizer que provavelmente não ganhará muito em estar fechado numa garrafa. Mas as surpresas podem acontecer.
Nota Pessoal: 16,5

Quinta da Foz de Arouce 1996. 12%. Feito com baga.
Começa a ser um habitué a presença deste vinho beirão. Soube evoluir dignamente durante estes anos. Mostrou que a baga também dá bons vinhos. Não é nenhum monstro que nos faz caretas. Nada disso. É preciso ter olhos e espirito aberto para perceber a lógica dos néctares feitos com esta casta.
Impacto aromático com muitas sugestões de cedro e casca de pinheiro. Balsâmico, juntamente com alguma hortelã. Musgo, terra e bagas. Sugestão mineral que me faziam lembrar a lousa, a pedra. Os tais penedos e fragas que não saiem da cabeça. Perdoem-me estas sucessivas recordações!
O pior, o pior foi a sua boca. Algo magrinha. Com um prazer algo inferior ao que obtive no nariz. Foi pena, mas mesmo assim um vinho que merece e não desmerece! Provem.
Nota Pessoal: 16

Finalmente o momento choque. A desilusão.
Tapada dos Coelheiros Garrafeira 1996. 13%
Apresentação aromática cheia de toques metálicos, algo fechada e muito incaracterística. Precisei de esperar algum tempo para comprender melhor se era defeito meu ou dele. Continuou pouco esclarecedor. Apareceram depois impressões a cartão. Barril avinhado, daquele bem velho e mal lavado. Algum vegetal e balsâmico que ajudou a melhorar a sua prestação.
Conseguiu comportar-se um pouco melhor na boca, mas sem deslumbrar. Será que presenciámos o fim de um ícone? Não creio. Prefiro acreditar que esta garrafa não estaria em condições. Que sofreu algumas amarguras da vida. Ou se calhar fui eu que o não consegui compreender.
Nota Pessoal: 15
Não vos falei, ainda do Restaurante. Assentámos praça no Alcaxete, em Alcochete, como já tinha dito. Um belo espaço. Um antigo lagar de azeite. Começamos por um paté, queijinho de Azeitão e uns enchidos de porco preto, muito bem cortados. Tudo de boa qualidade. Como prato principal foi-nos proposto um bife de vitelinha com umas triviais batatas fritas e esparregado. Confecção normal, sem deslumbrar. Para a sobremesa um pijaminha de doces conventuais, que estavam bem bons.
O próximo encontro já está agendado.

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