terça-feira, Junho 27, 2006

Também há lugar para beber com a Família

Beber com a família também faz parte da nossa vida. Se calhar, é com a família que se bebe mais e demais. Nem sempre com qualidade. Assumo que em muitas ocasiões se fazem alguns excessos, que no futuro irei pagar uma factura elevada. Mas até lá...
Desta vez, juntei alguns famíliares à mesa, aproveitei para voltar a tomar o pulso a um vinho que já tinha provado e gostado no passado. Nem sempre aquilo que nós gostámos no passado, volta a saber bem. Nós mudamos. E a vida, como sabem, é cheia de variáveis que não conseguimos controlar, que podem influênciar determinadas atitudes. Fundamental é manter a boa disposição viva. Sentimento que ultimamente não tenho conseguido ter. Sinto que a minha úlcera a dar o sinal. Ela manifesta-se quando ando irritado, chateado, sem qualquer sentido de humor. Estes últimos dias têm sido fertéis em más notícias. Bom, esqueçamos este pequeno desvio de filosofia barata e voltemos ao que conta.
Os comentários mais uma vez são meus, feitos à medida que ia bebendo e conversando.
Tive que aguentar durante toda a refeição o tom de gozo, as piadas daqueles que estavam comigo à mesa. Tentei ao máximo distanciar-me de toda a risota que se instalou à minha volta. E olhem que algumas das piadas faziam mesmo rir. Se calhar até tinham razão. Onde é que encontro estes todos aromas e sabores? Grande parte da resposta, se calhar, está na brutal imaginação que anda a vaguear pela minha cabecinha em certos dias. Vocês lá me dirão se ando a exagerar ou não. Como sempre digam, se quiserem, de vossa justiça.
FSF Garrafeira 2001. Um vinho feito de um lote com syrah, tannat e trincadeira. Com 14% de graduação alcoólica. Das Terras do Sado, bem ao lado onde moro.
Aromas de fruta. Quente, mas sem grandes exageros na maturação. Apontamentos florais e silvestres com alguma intensidade, juntos com tiques balsâmicos e impressões vegetais que tive alguma dificuldade em descrever ou, se calhar, começa a não ser fácil encontrar adjectivos. Depois evolução para musgo, fetos. Alguma especiaria, café, mineral e couros. Com alguma densidade. Gostei muito dos aromas, muito mesmo.
A boca com fruta, com frescura e estruturada. Taninos envolvidos pelo corpo. Acidez proporcionando frescura, nunca caindo no abismo. Um vinho com pujança, mas pareceu-me comportado, cavalheiresco e com alguma distinção, tal como o senhor que está retratado no rótulo.
Final entre o médio e o longo, deixando um rasto picante agradável. O tempo fez-lhe bem, ficou mais equilibrado. Um vinho que não ficou preso do castelão e introduziu uma casta "exótica" como é a tannat. Pessoalmente não faço a minima ideia como se comporta. Uma desconhecida para mim. Custa qualquer coisa como 20€. Tenho-o visto regularmente nas prateleiras de alguns hipermercados. Em resumo, um vinho que me agradou, o que é importante e deu para fugir um pouco às tradicionais regiões. Nota Pessoal: 16,5

Moscatel JP 2000. Bacalhôa Vinhos. Moscatel de Setúbal. Cor amarelo-torrado, com laivos alaranjados. Nariz fresco, bem feito e agradável. Casta de laranja caramelizada, amêndoas e nozes. Algum limão. Boca correcta, fresca e docinha, que deixa um rasto muito saboroso na boca. Servir fresquinho. Deu para iniciar e terminar o repasto. Um moscatel muito correcto, barato e que agora vem datado. Por 4€, melhor será impossível. As coisas simples também têm lugar na nossa vida. E ser simples não é de certeza sinónimo de inferioridade. Nota Pessoal: 15

A ementa foi feita por mim. Nada de especial. Um crepe recheado com cogumelos e aves, com molho bechamel. Uma agulha de vaca estufada que acompanhou com um arroz selvagem, aromatizado com hortelã e oregãos. Para a sobremesa, umas fogaças de Alcochete. Ninguém foi parar ao hospital por minha causa.

1 comentário:

eduardo lima disse...

Caro Confrade, aqui por estas terras de além mar têm boa fama os vinhos da Bacalhoa, com destaque especial para o Quinta. A mim também agrada bastante o Meia Pipa. Agora, aproveitando o gancho da crônica do amigo,fiz recentemente um jantar em casa para a família em que um honesto Serras do Azeitão satisfez de modo pleno as axigências dos numerosos comensais e do meu combalido bolso. Bem sabes que a moeda aqui não é tão forte e, apesar do tamanho continental, não há neste Brasil nem alentejo nem uma península de Setúbal para nos prover de bons vinhos. Grato pelo elogio do texto.