domingo, julho 30, 2006

Um belo branco

Aproveitando uma pequena brecha nas minhas férias. Estou neste momento a empacotar os utensílios da praia. Daqui a alguns dias irei até às montanhas, um pouco mais a Norte. Será o epílogo do meu período de descanso. Bom, o que vos queria deixar são alguns comentários sobre um vinho branco que bebi nestes dias que passaram e que me impressionou. Era capaz de cometer o atropelo de dizer que estive perante um branco que é vinho. Bem sei que não é o único vinho branco de elevada qualidade. Provavelmente será uma afirmação exagerada aquela que proferi, mas para mim são poucos aqueles que têm a honra de poderem ser chamados água de Baco.
CampoLargo Arinto 2004, vinho que é feito um pouco ao arrepio das modas. Na refeição em que esteve o seu comportamento foi distinto, personalizado, cheio de qualidade. Numa actuação algo masculina. Segundo o que diz o rótulo, é fermentado em madeira e possui 13% de graduação alcoólica.
Do ponto de vista aromático, pareceu-me sentir um conjunto de sensações bastante complexas e individualizadas. Com alguns registos aromáticos de difícil compreensão. A velha história que já vos contei, por diversas vezes. Quando o desafio aumenta, aumentam as minhas dificuldades. Sou confrontado com inúmeras limitações pessoais. Mas voltemos ao vinho.
Com pouco tempo de abertura, este arinto apresentou sugestões a combustível, que foram desvanecendo com o tempo. A fruta que tentava saltar do copo fazia-me pensar no ananás, na ameixa e na cereja branca. Mas o mais curioso, a partir de certo momento, foi a constante sensação que tangerina, a laranja e algumas clementinas andavam por ali. A presença delas não me incomodava. Muito pelo contrário. A madeira e os aromas que lhe estão associados, e que inicialmente me pareceram algo evidentes e um pouco impositivos, foram-se integrando discretamente no meio do conjunto. Tudo era refrescado por umas raspas de casca de lima e limão.
A boca era boa. Bastava esta afirmação tão rudimentar, tão simples, para vos transmitir o prazer que tive e terminar o comentário. Mas convém escrever mais qualquer coisa. Gordo sem ser pesado. Fruta, mel e baunilha estavam por todo lado, sempre apoiados por uma acidez correctíssima. Final longo. Um vinho que merece e não desmerece. Feito para envelhecer em garrafa e para ir bebendo calmamente, sem pressas. Tentem provar e depois digam-me alguma coisa, certo?
Nota Pessoal: 16,5

quarta-feira, julho 19, 2006

Encerrando para Férias

Não é todos os dias que nos sentamos à mesa e regamos o nosso repasto com alguns dos melhores vinhos do país, idealizados, concebidos por um dos produtores que eu mais aprecio. Em jeito de encerramento do ano lectivo, eu e alguns colegas meus, juntámos-nos para um valente jantar. Beber um bom vinho, fumar um bom charuto e depois regressar a casa com a sensação de dever cumprido, ou não! Tal como um velho guerreiro. Outras batalhas irão surgir. Mas adiante que vos quero falar de dois vinhos que bebi nessa noite. Dois vinhos tintos que são produzidos por Dirk Niepoort. Mostram carácter, personalidade e um objectivo bem definido. A vontade para conceber melhor, com diferença, com consistência. Que fiquem registados na memória de cada um de nós. Na minha, na vossa.
Não me quero perder com grandes considerações, porque todas as palavras que possa encontrar, bem como os adjectivos que possa mencionar acabariam por se tornarem em lugares comuns, a roçar a bajulação, o rídiculo. Falemos dos vinhos.

Redoma 2000
A sua apresentação mostrou que estavamos perante um líquido personalizado. Construído para aguentar alguns anos. Revelou capacidades olfactivas e gustativas de grande qualidade.
Um conjunto de aromas muito frescos, com notas balsâmicas bastante agradáveis, misturadas com toques de terra, de musgo, fetos e frutos silvestres ainda no mato, sem se sentir aquele toque enjoativo que caracteriza muitos tintos do Douro. Tabacos, charutos. Qualquer coisa deste género.
A boca era viva, também muito fresca, sentindo-se mentolados, o lado silvestre e a fruta. Taninos presentes, mas cobertos pelo corpo, a dizerem-me que ainda vai durar. Denso, mas ser bruto. Bom final, deixando um rasto saboroso e de boa memória. Este Redoma surpreende-me cada vez mais. Cada vez que me cai no copo (e já lá vão algumas vezes), noto que tem vindo sempre a aumentar os níveis de complexidade, abandonando alguma da sua rústicidade inicial. Parecia que combinava quase na perfeição a elegância, a complexidade com a robustez. É obra. Pareceu-me estar a entrar numa saudável fase de acalmia, mais fácil de domar.
Nota Pessoal: 17,5

Redoma 2001
Inicialmente não consegui entender muito bem o que saltava do copo. Percebi que necessitava de alguma (muita) concentração para decifrar o vinho. Abstrai-me, por alguns momentos, das típicas conversas que os meus colegas costumam ter. Assuntos de trabalho...
Tive que acordá-lo lentamente. Começou a bocejar, a espreguiçar-se. Lá dentro, saltaram directamente aromas de fruta muito fresca, bem vermelha (acho eu). Como se não bastasse, apareceram toques de inspiração silvestres, que enobreciam este conjunto. Fez-me viajar, mais uma vez, para as margens do Douro. Para a esteva, o xisto, para a terra revolvida, todo aquele perfume que percorre as encostas. De difícil definição. São registos muito pessoais.
A madeira, libertava aromas de grão de café e chocolate preto. Tudo bem misturado, colocado ao milimetro, sem desvios.
Na boca, era denso, com taninos bem vincados, robustos. Um ataque interessante. Enchia por completo toda a minha boca. Sentia-se chocolate amargo, café e fruta. Muito fresco, por causa de uma acidez colocada de forma correcta. Um final longo, deixando na boca um rasto muito agradável. Está mais arisco, mais irrequieto que o seu irmão de 2000, mas mesmo assim, um belo vinho que merece ser bebido. Não acham?
Nota Pessoal: 17,5
Um comentário final. Vinhos destes, por muito que se diga, fica ainda muito mais por dizer. Uma coisa é certa, estão aí para durar, para nos fazer ainda mais felizes.
Post Scriptum. Dou a mesma nota aos dois vinhos, porque eles foram provados num jantar de colegas, num ambiente muito descontraído. Apesar de terem tido comportamentos um pouco diferentes. Achei por bem atribuir-lhe a mesma classificação. Evito, desta forma, problemas familiares.
Uma palavra para a noite e para o significado que ela teve. Começo a reparar que tenho colegas que estão a apaixonar-se pelo mundo dos vinhos e tudo o que o rodeia. Já não estou tão sozinho. É muito duro ser considerado um excêntrico, um maníaco, um louco que só bebe em determinados copos, que tem a mania das temperaturas e nunca bebe o vinho da casa. Apesar de ser apaixonado por uma valente Pinga, ela tem que ser boa.
Posto isto, vou de férias. Primeiro irei até à costa alentejana, depois passarei pela terra. A velha terra. É lá que está a minha essência. Espero ansiosamente que os incêndios não destruam o pouco que existe. Até lá, deixo-vos a chave da minha casa, do meu blog. Tomem conta dele.

terça-feira, julho 18, 2006

Uma abadia acolhedora

Uma Abadia entre muitas que existem espalhadas pela Espanha. Detentora de um estilo discreto e simpático. Não abundam rosáceas nem rendilhados. Não possui aqueles claustos enormes, que nos fazem ficar de boca aberta e esmagados pela imponência que apresentam (estou a pensar, neste momento no nosso Mosteiro dos Jerónimos), nem as suas torres caminham em direcção ao céu, como em França ou Alemanha.
Esta é simples, acolhedora. Ideal para aconchegar um caminhante enófilo. O arquitecto que a idealizou no papel, pretendia construir, acima de tudo, um local onde pudessem entrar o maior número de peregrinos (da pinga, naturalmente).
Falo-vos de Abadia Retuerta Selección Especial 1999. Santa Maria de Tetuerta, Sardón del Duero, Valladolid, Espanha. Um vinho de Castilla y León (o regional lá da zona).
Desenhado a partir das castas Tempranillo (75%), Cabernet Sauvignon (20%) e Merlot (5%). As uvas são provenientes das 54 vinhas que a Abadia Rutuerta possui. Este 1999 foi a primeira edição, a quem Robert Parker atribuiu 92 pontos. O que para muitos consumidores é importante. Pessoalmente, passo completamente ao lado das notas que este famoso crítico "oferece". Para conhecer melhor este produtor espanhol passem neste local.
Mas regressemos à nossa abadia. Pelas suas paredes sentia-se o cheiro a fruta preta, envolvida por tabaco e folhas secas. Breve especiaria e couros. Leve mineral e verniz. Sempre num registo limpo, sem impurezas, sem qualquer conflito de interesses. Bem comportado, nada de aromas extraordinários.
Na boca era directo, com taninos finos, sem grandes agressividades. Para pensar pouco. Não era para grandes complexidades. Nem é o vinho ideal para colocar a nossa imaginação a trabalhar. Nada disso. Simplesmente para desfrutar descansadamente e despreocupadamente. De abordagem simples. Foi um vinho que me soube bem, que me aconchegou durante o jantar. O preço, lembro-me que rondava os 20€.
Nota Pessoal: 15,5

segunda-feira, julho 17, 2006

Para tempos de Crise

Valle Central, Wine of Chile 2005 !!!
Um vinho branco elaborado com Sauvignon Blanc e Chardonnay. Custou-me a módica quantia de 1.99€ no LIDL. Sim no LIDL! Não me digam que nunca fizeram compras nesta área comercial. Outro companheiro bloguista vai lá muitas vezes.
Pois bem, de vez em quando, eu faço investidas por este local para ver o que se pode comprar. Aliás, verdade seja dita, compro cada vez mais produtos por aqui. A crise económica assim o pede. Cada dia que passa a minha carteira está a encolher e quem paga são os vicíos que temos. O de beber bons vinhos é sem dúvida uma brincadeira bem carota.
O vinho (espero que o seja) mostrou aroma de erva fresca, caldo verde ou talo de couve. Algum caroço de pêssego, tal como cereja branca.
Na boca é que o comportamento deste chileno foi fraquinho. Delgado, sentindo-se apenas algumas sugestões vegetais e limonadas. Com um final curto. Nada mais.
Como experiência, valeu bem a pena, mas sem vontade de voltar a repetir.
Nota Pessoal: 11,5

sexta-feira, julho 14, 2006

Serra cor de rosa

Está muito calor, mesmo muito. Caramba, isto está de mais. Dizem os entendidos que estas altas temperaturas estão relacionadas com massas de ar vindas de África e de Espanha (nem bons ventos nem bons casamentos). Eu dou-me mal com este tempo. Devo ter qualquer coisa no meu código genético que reage mal. A minha mulher é que sofre. Nem imaginam as discussões que temos quando vamos ao Alentejo, nesta altura. Ela como mulher do Sul está habituada...
Para combater este forno, nada melhor que beber um branco, um espumante ou um rosé. Desta vez, optei por beber um rosadinho.
A minha escolha recaiu para mais um vinho das Terras do Sado. Produzido pela Bacalhoa Vinhos, Serras de Azeitão Rosé 2005.
Até este momento, falar deste nome era sinónimo de branco ou tinto. Ambos muito correctos, que cumpriam na perfeição o seu objectivo. Boas opções para o nosso dia-a-dia. Pessoalmente, sou um adepto confesso do branco.
No que respeita este vinho, libertava aromas típicos de rosé. Morangos, framboesas, alguma menta para dar graça e pouco mais. Numa linha muito comedida, quase imperceptível.
Na boca, entrava refrescante, mas rapidamente desaparecia no meio dela. Pouca presença na boca. Senti um vazio qualquer. Alguma secura para animar. Pouco mais que água. O seu final deixava pouco para recordar. Desculpem a minha frontalidade!
É menos doce que o Rosé do Domingos, que já provei, mas é mais fraco, com menos personalidade. Nada mais tenho para dizer. Uma história pequena! Custou-me menos que 3,5€ numa superfície comercial. Dos rosés que bebi neste ano (foram muito poucos), O Barranco Longo, foi aquele que mais gostei.
Já agora de onde vem esta enorme febre de rosés? Excesso de produção? Moda?
Nota Pessoal: 12,5

quinta-feira, julho 13, 2006

Atravessem o Oceano...

Dois blogs muito interessantes. O tempo gasto na visita não é mal empregue, pois os assuntos são mais que muitos e a qualidade é enorme. Costumo ir até lá.
Façam o mesmo, atravessem o Oceano e leiam Kafka na Praia e Pisando em Uvas. Vão ver que não é tempo perdido, muito pelo contrário.
Uma abraço para o Eduardo (os seus textos são extraordinários e uma inspiração para mim) e para a Karen (as suas receitas deixam água na boca, demonstram muita sabedoria e paixão).

É pena ter este nome!

Porca de Murça Reserva Branco 2004. Douro. Com 14% de graduação alcoólica estagiado parcialmente em barricas de carvalho novo. Produzido pela Real Companhia Velha, onde a equipa enológica é ou era comandada por Jerry Luper (que produz o Quinta da Carolina, que sinceramente nunca provei, a carteira não dá para tudo).
Um vinho branco, que se não estou em erro e a minha memória não me falha (e ela anda a pregar-me partidas), recebeu alguns elogios por parte do jornalista José António Salvador nos seus guias. Lembro-me do Reserva 2000.
Este Porca RBranco pareceu ter um registo aromático denso. Com alguma untuosidade. Impacto inicial muito vegetal e citrino. Maçã verde misturada com uns gomos de laranja e lima. Evolução para a meloa, melão e pêra. Pareceu-me ter detectado a presença de hortelã ou menta que apimentava o conjunto. Havia qualquer coisa curiosa no vinho que eu não percebi muito bem o que era. O cheiro caracaterístico que a lamiácea liberta foi a minha escolha. Tenho partilhado com vocês a minha incapacidade para descobrir novos aromas. Nem sempre consigo. Até aqueles que me parecem ser evidentes, na maioria dos casos, são capazes de estar errados! O que me tem safado é a minha imaginação. De regresso ao vinho. Com o inevitável aumento do tempo de abertura, surgiram os toques da madeira.
Na boca, ele entrava com aparente robustez, sem ser demasiado pesado. Com equilíbrio. A acidez estava colocada de forma a proporcionar frescura, ajudando atenuar o seu grau alcoólico. Senti alguma baunilha e mel. Um final correcto, de média duração.
Um vinho que me pareceu bem feito, directo e limpinho, sem grandes complexidades, mas guloso. Provavelmente não fará arregalar os nossos olhos de admiração, mas é capaz de agradar a muitos de nós.
Acompanhou perfeitamente uns peixinhos assados nas brasas. Na garrafa, nada ficou e o meu pai gostou particularmente dele. Não fosse ele um transmontano de gema!
Já me ia esquecendo, este Porca de Murça vem agora vestido com um rótulo novo e custou-me um pouco menos de 4€. O nome é que não cativa muito.
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum: Voltei a escrever e espero continuar a actualizar o meu blog. O estado de saúde da minha mulher parece ter estabilizado. O regresso não foi o que pretendia, como podem ter reparado. Um comentário a um vinho que anda por aí e é fácil de encontrar nas prateleiras das grandes superfícies. A vontade para beber, provar e escrever não tem sido muita, como podem ter reparado.

segunda-feira, julho 03, 2006

Uma tarefa difícil

O que irei escrever, descrever ou partilhar com todos vós, representa certamente um dos maiores desafios, desde que me tornei num apaixonado pelo vinho. Tenho feito várias tentativas para colocar no papel, ou melhor no computador (tenho que ir na onda do choque tecnológico), um pequeno texto que consiga espelhar na perfeição tudo o que senti na noite de 27 de Junho de 2006. Mas a demanda não tem sido fácil. Escrevia, apagava. Voltava a escrever, voltava a apagar. Enfim, muita insegurança, muito receio.
Perceberão nas minhas palavras as diversas hesitações que tive, na interpretação de três magníficas peças enófilas. Quadros quase perfeitos. Constatei o nível de ignorância que ainda tenho. Ando a brincar com assuntos sérios, levado por uma embriaguez que, em muitos momentos, me faz cegar, não deixando ver o essencial.
Falemos dos vinhos que bebi, mais uma vez com o Pedro, o Fernando e o Jorge. Continuámos em Alcochete (a terra que me adoptou). Escolhemos desta vez o restaurante Arrastão, que é conhecido pelo seu extraordinário bacalhau e peixe fresquíssimo, bem como pela simplicidade das carnes grelhadas, sempre no ponto ideal. Fomos muito bem recebidos. Disponibilizaram-nos uma sala reservada, climatizada, longe dos cheiros que saltavam dos grelhadores. Os vinhos foram decantados e servidos rigorosamente à temperatura correcta.
Peter Lehaman Stonewell Shyraz 1995. Com 13,5% de graduação alcoólica.
Já tinha tido contacto com este vinho australiano, se não estou em erro, através as colheitas de 1996 e 1998. Bebi o meu primeiro Peter na pequena cidade de Martigny, na Suíça. A empatia foi imediata. A vontade de voltar a bebê-lo era, portanto, enorme. Nada melhor que fazê-lo junto de alguns amigos.
Todo o seu comportamento foi repleto de sensualidade e provocação. Aromas iniciais muito docinhos, mas sem entrar em exageros. Sugestões que me faziam lembrar caixa de rebuçados. Alguma madeira envernizada. A presença de um lado mineral e balsâmico proporcionava frescura e aumentava a complexidade. A fruta, essa era preta, que vinha no cesto juntamente com uma "garrafa de anis". Caril? Cravinho? Pimenta? Que me perdoem, pois não consegui descortinar concretamente qual delas estava a aquecer o ambiente. Estaria a minha lucidez toldada por causa de tanta beleza? Deu-me a entender que tudo era permitido, que a imaginação não devia ter limites. Tostados, caramelo e baunilha de enorme qualidade.
Na boca, tal como no nariz, sensual e provocatório. Longo, envolvente e super guloso. Mas sempre num registo equilibrado e aprumado. Foi o meu eleito, foi aquele que percebi melhor (julguei eu. Pobre alma!). Muito diferente. Não consigo encontrar no nosso portefólio nacional um vinho que tenha o mesmo registo que este australiano. Nota Pessoal: 18,5
Quinta do Monte D'Oiro Homenagem António Carqueijeiro Syrah 1999, com 13% de graduação alcoólica.
Uma homenagem concebida por José Bento dos Santos. Um vinho badalado e desejado. Ganhou um famoso duelo ibérico.
Um vinho mais contido, mas não menos interessante. Cavalheiro, discreto, personalizado. Este vinho foi o que mais luta me deu. Aquele que mais questões me colocou. Aquele que me fez questionar sobre muita coisa. Muito perfumado, silvestre e floral. Presença de nuances de flor de laranjeira, juntamente com alguma casca da mesma fruta (que me perdoem estes atrevimentos). Notei algo parecido a figos, ou frutos secos envolvidos em açúcar em pó.
Fruta era banhada por um caldo mineral refrescante. Alto nível de compexidade. Tudo desenhado a régua e esquadro, sem exageros, sem evidências. Os diversos aromas apareciam de forma ordeira, sem sobreposições. Madeira de grande qualidade.
Na boca, muito elegante, de perfil fresco, silvestre e muito mineral. A necessitar de muita atenção e muito cuidado, por parte do provador. Subtileza e sensibilidade imperam neste vinho. Foi uma tarefa árdua e provavelmente a minha classificação reflecte esse facto, pois ele meteu-me respeito. Nota Pessoal: 18
Barca Velha 1999. Com 13,5% de graduação alcoólica.
Um símbolo português. É o vinho. É o tal. Mesmo aqueles que não dominam as ciências enófilas, conhecem o nome, sabem quem ele é.
Uma apresentação bem mais portuguesa (para mim, não é nenhuma indelicadeza classificá-lo desta forma). Num registo identificável (mais um abuso da minha parte). O seu berço era perceptível. Quente, robusto, sólido, mais masculino, mas também elegante.
Inicialmente pareceu-me ter encontrado tiques que sugeriam aquele cheiro dos típicos lagares de granito. Fruta vermelha, fresca e densa, com esteva e terra húmida. Sentia-se o xisto, o restolho, a terra, os aromas de mato que tanto caracterizam aquela parte do distrito da Guarda onde é feito este tinto. Levaram-me rapidamente para a beira transmontana, onde o calor é torrido no Verão e o frio é duro no Inverno. Havia por ali alguma rusticidade, um carácter muito bem vincado.
Na boca mais robusto que os seus companheiros da noite. Com muita personalidade. Muita juventude. Mastigável. Um Douro! Sim senhor. Jovem. Vai evoluir brilhantemente e vou guardar uma, pois 1999 é a data do meu casamento. Nota Pessoal: 17,5


Epílogo
Preciso de aprender muito, muito mesmo. Ter feito o que fiz é capaz de ter sido um pecado, uma agressão para quem idealizou estes vinhos. São líquidos que não estão ao alcance de um simples mortal (esqueçamos a questão monetária). Possuem registos de difícil interpretação. Em última análise, foram feitos para serem assim mesmo. A simples contemplação bastaria. Para quê complicar ainda mais?
Confrontei-me com as minhas limitações, com a minha incapacidade para entender o que tinha ali à minha frente. Simplesmente três grandes vinhos. Por esta razão, peço perdão pelas palavras que usei, pelos termos mais ou menos infelizes que escolhi para falar sobre tudo que senti.
Post Scriptum. Caros amigos, por motivos de saúde da minha companheira, da minha mulher, irei abandonar a actualização do meu blog. Servirá também para reflectir um pouco sobre tudo o que me rodeia, nesta vida. Espero voltar brevemente...