quinta-feira, setembro 28, 2006

Jaloco, um vinho de Badajoz

Eu não sou nada versado, entendido ou conhecedor de vinhos estrangeiros. Nem espanhóis, nem franceses, nem italianos, nem australianos. O que bebi ou o que bebo, salvo raras excepções, são pingas direccionadas para as grandes massas. Portanto, nada de extraordinário. Aliás, devo-vos dizer que quando me colocam um vinho estrangeiro na mesa, parto do principio que aquilo é bom. O rótulo escrito noutro idoma, dá sempre outro aspecto. E eu fico a pensar que sou um profissional: Até já bebo vinhos estrangeiros. Muito Bem!
Todo este enredo serviu para falar um pouco sobre um vinho proveniente do outro lado do Guadiana. Do Guadiana espanhol, da Ribera del Guadiana. Jaloco Zafra Cosecha 2003 (Crianza) de António Medina e Hijos. Um vinho que tinha uns simples 12,5% de graduação alcoólica. Um lote de Tempranillo e Grenache/Garnacha, como quiserem. Vinha envolvido numa garrafa tipo alvarinho, o que não deixa de ser curioso num vinho tinto.
Na apresentação inicial parecia não convencer. Alguns dos meus companheiros de prova torceram o nariz. Soltavam-se expressões do tipo: "Que raio! Que é isto?". O tempo de espera acabou por ser um óptimo conselheiro. Os aromas eram pouco vulgares. Pelo menos, para mim. Um registo onde a fruta não desempenhava o principal papel. Só para terem uma ideia, em alguns momentos, parecia que estava a entrar na sala de jantar das nossas avós. Estão a sentir o cheiro das folhas secas, dos saquinhos do chá, dos rebuçadinhos de açúcar, dos figos e frutos secos, dos caramelos e de outras coisas mais que geralmente se encontravam dentro daqueles curiosos armários de madeira velha, que rangiam quando abríamos uma das portas? É isso mesmo.
Na boca, um pouco terroso, mas transmitindo algumas sugestões provenientes do armário da avó. Elegante e fino. Com boa frescura. Final anizado.
A nota que atribui não tem comparação possível com outro vinho. Clássico e anacrónico.
Nota Pessoal: 16
Post Scriptum: Uma nota de curiosidade. Foram as mulheres que gostaram mais deste vinho. E eu, é claro!
Agora só venho para a semana. Vou até à terra. Vamos começar as vindimas. O ano parece ser fraco.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Um Branco das Terras de Tavares

O contacto que tive com este produtor do Dão é muito reduzido. Apenas conheci uma pinga tinta, nascida em 1997, e que me deixou interessantes recordações. Alguns dos entendidos da nossa praça dizem que pertence à velha escola. Para uns ainda bem, para outros nem por isso.
Desta vez o reencontro com o produtor, João Tavares de Pina, do Dão, aconteceu com Terras de Tavares (br) de 2005. Uma novidade.
Um vinho correcto, limpo, asseado. Educado. Sem grandes virtudes, mas também sem problemas na endrenagem.
No aroma esteve mineral e apresentou leve floral, lembrando a tília e a maia. Suave anizado. Sempre num registo low profile. Um pouco de garra não lhe faria mal. Pelo contrário.
Na boca fresquinho, bonitinho. Boa duração. Libertava um rasto simpático.
Um vinho para beber despreocupadamente, com uns petiscos.
Nota Pessoal: 13,5

terça-feira, setembro 26, 2006

O Reserva do Altas Quintas

Não há muito tempo um amigo bloguista dizia-me: "se o Alentejo começa a fazer vinhos em altitude, ainda começas a gostar de vinhos alentejanos". E o alentejano Altas Quintas começa a tornar-se um caso sério, no que diz respeito às minhas escolhas pessoais. Os ares das montanhas, das serras só fazem bem.
Depois de ter já conhecido o Altas Quintas normal, meti conversa com o Reserva 2004.
O estilo mantêm-se. Muito floral. Um autêntico ramo cheio de flores. Agora é só colocarmos a imaginação a funcionar e escolher aquelas que mais apreciamos.
Não sendo um vinho branco, é refrescante. A fruta mostra personalidade silvestre. Leva-nos para dentro de um bosque, para sentirmos a terra húmida, os cedros, os fetos, as cascas de árvores. No regresso da viagem aquece-nos o espírito com cacau amargo, com folhas de tabaco, com charutos.
Na boca super elegante. Todo ele milimetricamente projectado. Cada ponto de partida vai de encontro a um ponto de chegada bem preciso, sem qualquer desvio. Muito melhor que as bombas inteligentes dos norte-americanos, que são mais conhecidas pelos seus efeitos colaterais.
O sabor que me transmitiu estava cheio de qualidade. Fê-lo através da subtileza, sem o recurso a um comportamento mais brusco ou bruto. Calmo, discreto, sem esmagamentos da boca ou da alma. Longo nas recordações que nos deixa.
Um estilo que adoro, que gosto e que raramente encontro nos vinhos da grande planície. Um vinho que, para mim, demonstra o que é ser verdadeiramente elegante e complexo.
Nota Pessoal: 17,5

domingo, setembro 24, 2006

Trindade e Ribeirinho nas Baceladas

Acabou o Fim de Semana, o descanso. A semana que passou foi extenuante. Muitas reuniões, muitos critérios pedagógicos para aferir. Horários para corrigir (obrigações de um Presidente de Conselho Pedagógico. Já lá vão uns bons anos). Como a ministra disse no Prós e Contras: "Está tudo a correr pelo normal". Eu rolei a rir. Desta vez, ela tinha uma claque a bater palmas. Tá certo, também merece.
Vamos é falar das pingas do descanso...
Depois de ter tido uma visita menos feliz na Casa de Atela, regressei e reparei que andava um branquinho chamado Torre da Trindade, de 2005, arquitectado com Fernão Pires. Uma casta que tenho vindo apreciar. Já agora, peguem no Companhia das Lezírias Fernão Pires e depois digam-me alguma coisa. Mas voltemos a Atela.
Aromas verdes, bem frescos. Casca de laranja, tangerina e limão. Evolução para um comportamento mais denso. A hortelã e menta refrescavam a fruta e enriqueciam o conjunto. De pregar o nariz no copo.
Na boca elegante, com boa duração. Fresco. Arrumadinho, sem grandes desvios. Final de boa memória. Um conjunto que me pareceu com alguma personalidade, elegante e muito saboroso. Gostei.
Nota Pessoal: 15
Agora um tintinho que acompanhou umas massas. Do produtor Luis Pato, Quinta do Ribeirinho Primeira Escolha 2003.
Um vinho que não sendo muito complexo ou difícil de analisar cumpriu muito bem a sua função. Sem defeitos. Aliás quem sou eu para declarar, de forma taxativa, que determinado vinho tem problemas. Como sabem as minhas apreciações têm por base o meu gosto, o meu prazer. Gosto, não gosto.
Aromas silvestres e vegetais. Muitas amoras, mas mesmo muitas. Terra molhada, algumas flores. Pareceu-me encontrar toques de apara de lápis (lembro-me sempre da minha escola primária. Aquele cheiro...). A compota adoçava o conjunto. Na boca, deu-me a ideia que tinha um pouco de gordura. Taninos bem metidos no corpo. Bebe-se e bebe-se, sem pensar muito. Final silvestre. Uma boa opção.
Nota Pessoal: 15
Termino com um vinho que começa a ser uma escolha quase obrigatória, para mim. Quinta das Baceladas. Ando de volta dele, desde a colheita de 1999. Sempre apreciei o seu estilo. Diferente. Boa relação qualidade/preço.
Desta vez a saquei a rolha (sempre que saquem a rolha vão até aqui) de uma garrafa de 2003. Mantém o estilo das anteriores colheitas. Continua apelativo, sem arestas a picar ou magoar. Todo ele bem desenhado. E ainda bem. Deviam existir muitos mais vinhos assim. Abrem-se e voilá. Não falham. Este Bairradino (abandonou a denominação Beiras) foi construído com Cabernet Sauvignon, Merlot e uma pequena pitada de Baga.
Aromas frutados, balsâmicos. Muito bosque, cogumelos, fetos. Chocolate, canela e caramelo. Bolas, que delicioso. Na boca, era fresco, elegante. Guloso, saboroso. E, neste momento, estou a ficar com dificuldades para encontrar mais uns quantos atributos. Vocês já devem ter notado.
Nota Pessoal: 16,5

quinta-feira, setembro 21, 2006

Monte Aljão, um Monte do Dão

Um produtor que não fazia a mínima ideia que fazia vinho. Conhecia-o apenas pela produção de azeite (tenho um tio que entrega azeite no lagar). Situado na freguesia de Cativelos, Concelho de Gouveia, mesmo ao lado da estrada (nacional 232) que vai de Gouveia a Mangualde. Muito fácil de encontrar. Basta perguntar...
Reza a história que foi em 1998, com 21 anos, que Sandro Santos Seabra comprou, com ajuda de um tio, a primeira parcela de terra com 1,2 ha de área. Apesar de não haver na família qualquer tradição vitivínicola, a ambição de fazer um vinho só dele, motivou-o, nesse mesmo ano, a plantar a primeira vinha. Actualmente estão 25 ha de vinha em plena produção. Divididas em três parcelas, das quais 3 ha são de vinhas velhas. Exclusivamente castas brancas. Não deixa de ser curioso. Não acham?
Todas as vinhas novas produzem as castas tintas: 11,5 ha de Touriga Nacional; 7 ha de Tinta Roriz; 2,5 ha de Jaen e 1 ha de Tinto Cão. Em 2004 foram feitas 60.00 garrafas, das quais 5.000 são de vinho branco. O objectivo é chegar, a médio prazo, às 250.000 garrafas. O portefólio deste produtor inclui o Cativelos tinto e branco (gama baixa), MonteAlvão tinto e branco e um Monte Alvão Reserva tinto. A responsabilidade enológica é de Anselmo Mendes. Produzem também azeites. Vamos então às pingas, que é o que interessa, pois a conversa já longa.
Cativelos Branco 2004
Na garrafa estavam misturadas as castas Encruzado, Bical e Malvasia Fina.
Pedra lascada, lembrando a saudável água mineral, depois de uma noite de excessos. Fruta tropical, que sugeria aromas de manga, ananás, envolvida com muita erva fresca. Depois surgiram umas notas muita curiosas, que gosto de sentir nos vinhos brancos. Folha de tomate, ou feijão verde, acabadas de serem regadas. Estão a imaginar a cena? Depois surgiram toques da hortelã e menta.
Na boca, comportamento mineral, com a fruta bem presente. Bom comprimento. Sem esmagar, é um vinho branco muito bem feito, cheio de sugestões aromáticas que farão sorrir os apreciadores de vinhos bem cheirosos e exuberantes. Nota Pessoal: 14,5
Monte Aljão Branco 2004
Mais sisudo, menos evidente que o seu mano lá de cima. Mais austero. Menos exuberância. Menos sorridente mas, para mim, mais misterioso. Mais complexo. Componente vegetal mais forte, com a fruta a parecer mais escondida na fase inicial. A mineralidade é a senhora que domina.
Na boca, o seu comportamento pareceu-me dizer que é capaz de aguentar bem na garrafa, durante mais algum tempo.
Aparentemente pareceu-me ser um vinho indicado para acompanhar um belo peixe gordo. Num estilo que aprecio mais. Nota Pessoal: 15,5
Monte Aljão Tinto 2004
Chegados à última estação. O tinto! Entraram no lote a Touriga Nacional e a Tinta Roriz. Pouco falador na apresentação. Na primeira impressão parecia que estava a entrar num lagar de granito, com todos aqueles aromas que se sentem e pressentem. Lufadas vegetais de boa qualidade iam aparecendo, dando a sensação de que me estava a bater na cara aquela brisa serrana, que tanto aprecio. O mineral, o balsâmico juntaram-se de forma progressiva, ajudando a perfumar o ambiente. Por lá ficaram. A fruta era silvestre, fresca, sem enjoos. No ponto. Momentaneamente apareceram notas suaves de tabaco e chocolate amargo. Com a elevação da temperatura, pareceu-me que andava por ali qualquer coisa mais exótica. Talvez especiaria, não sei! De qualquer forma gostei...
Na boca, entrou vivaço, fresco, com uns taninos bem apoiados pelo corpo. Equilibrado. Final médio, mas de boa qualidade. Para voltar a beber mais tarde. Nota Pessoal: 16
Post Scriptum: Não tenham medo de arriscar nos vinhos do Dão. Actualmente existem bons produtores que querem fazer melhor e diferente. Faz bem fugir, um pouco, ao domínio avassalador do Douro e do Alentejo. Pela diferença também se aprende.
Termino com mais um motivo de regozijo. Voltei a provar o Quinta do Corujão Grande Escolha 2004, desta vez em prova cega. E resultado foi brilhante. Foi aclamado por grande parte dos compinchas que estavam ao meu lado. Um belo vinho! Atribui nessa prova a nota de 16,5.

terça-feira, setembro 19, 2006

Assemblage

Depois ter deixado as areias de Fernando Pó, subi um pouco mais acima e parei na Quinta de Pancas, na "Zona Alta de Alenquer". Um produtor da nossa Estremadura. Em tempos passados, bebia com alguma regularidade o chardonnay& arinto. Os monocastas criados, nesta casa, sempre foram interessantes. Tenho boa memória do Merlot 1999, do Cabernet 1997 e do Touriga Nacional 2001. Por lá trabalha/trabalhava o enólogo Rui Reguinga.
Adormecido pelo clima tristonho das feiras de vinhos que estão a decorrer nas diversas áreas comerciais, arranquei da prateleira um Quinta de Pancas Assemblage (tn) 2003. Pareceu-me diferente, no meio de tanta coisa sem interesse. Um vinho construído com touriga nacional, cabernet sauvignon e merlot. Um lote curioso. Duas castas francesas lado a lado com a nossa casta rainha. Antes de entrar na garrafa passou por carvalho francês e americano.
Na primeira cheiradela, os vegetais apresentaram-se. Acompanhavam com compinchas de perfil balsâmico. Fresco, airoso. Mais tarde, sem fazer grande alarido, o mineral veio cumprimentar-nos. A fruta que tardava a surgir, lá veio. Silvestre e fresca.
Na boca, suave, vegetal, balsâmico e fresco. Sempre alegre e bem disposto. Final mediano. Curioso este vinho. Um toque afrancesado.
Nota Pessoal: 14,5

domingo, setembro 17, 2006

Quando o Pó não incomoda!

Um vinho que pertence à mesma Dona deste. Representa, para mim, o que um consumidor e apreciador de uma boa pinga quer para o seu dia-a-dia. Um líquido que demonstre que é possível beber com qualidade, a baixo preço. Não querendo ir pelo caminho das apostas (a minha avó sempre me disse: "teima, mas não apostes"), era capaz de afirmar que envergonharia alguns famosos da nossa praça.
Numa refeição super normalíssima, daquelas que fazemos quase todos os dias, em nossa casa, abri uma garrafa de Terras do Pó (tn) 2005. Nascido e criado em vinhas onde o Castelão domina. Aliás, não sou muito adepto dos vinhos onde esta casta é a senhora toda poderosa. Feito este apontamento pessoal, falemos um pouco sobre este vinho, que veio das areias de Fernando Pó.
Aromas limpos, sem qualquer problema que incomodasse o meu nariz. Fruta silvestre, no ponto. Baunilha e rebuçado. Algum tabaco e chocolate, davam-lhe um toque mais internacional.
Na boca, mediano, com taninos brincalhões. Um final também mediano, mas aprazível.
Não existem razões para continuarmos a beber pingas más. A vida é curta de mais para isso.
Nota Pessoal: 14,5

quinta-feira, setembro 14, 2006

BOCA 2004

A Casa Agrícola Roboredo Madeira, mais conhecida de todos nós por CARM tem lançado para o mercado um conjunto de vinhos assinados. Vinhos que são idealizados por um conjunto de individualidades convidadas por esta casa duriense. São elas que escolhem os lotes que entram nos seus vinhos. A CARM fica responsável pelo seu estágio, acondicionamento, rotulagem e distribuição. E este BOCA 2004 foi planeado nestes moldes. A criação deste vinho do Douro é da responsabilidade dos sócios da Garrafeira Coisas do Arco do Vinho. Uma pinga com Touriga Nacional e Tinta Roriz, sendo que a Touriga Nacional é maioritária (70%). Ficou aconchegado durante 12 meses em barricas de carvalho francês. Provado em prova cega.
Muito fechado no início. Pouco clarividente. Alguns vernizes e sugestões vetegais na primeira onda de aromas. Com o estender das operações e após o ter maçado durante algum tempo, a torrefacção, o chocolate preto bem amargo, juntamente com a baunilha começaram a aparecer. Sempre num registo sóbrio, pouco conversador. Algo masculino. Complexo.
Na boca, mostrou-se robusto, grosso, espesso, mastigável. Sem agressões provenientes do excesso de álcool ou maturação. Manteve um interessante equilíbrio entre todos os elementos da orquestra. Pessoalmente, acho louvável. Com um longo final. Um vinho a pedir alguma serenidade e tempo. Pareceu-me que vai ter um belo caminho pela frente.
Nota Pessoal: 16
Post Scriptum: Um vinho concebido no âmbito das comemorações do aniversário da Garrafeira Coisas do Arco do Vinho. BOCA é um anagrama das iniciais dos seus criadores: Barão da Cunha e Oliveira Azevedo, sócios gerentes da referida Garrafeira.

terça-feira, setembro 12, 2006

Manuel Vieira

Uma breve passagem para vos falar um pouco (vai ser mesmo muito pouco) de um Rosé de Vinho Verde. Rosé Manuel Vieira 2005. Um vinho lançado este ano. Uma novidade no portefólio da Sogrape. Aliás, este gigante tem nos vindo a surpreender com algumas opções comerciais. Pessoalmente, algo confusas.
Cor característica deste tipo de vinhos. Rosada.
Aromas a morangos, menta e a habitual bolinha de neve, mais uma vez esteve presente (já alguma vez sentiram este odor?). Alguma doçura.
Na boca, com boa acidez, tornando a pinga refrescante. Sabores a morangos e a pastilha elástica. Um conjunto equilibrado, num estilo vivaço e engraçado. Um vinho para ajudar a combater o calor, que tarda a ir embora.
Nota Pessoal: 12,5

sábado, setembro 09, 2006

PortoCarro, o irmão do Anima

Não ficaria descansado com a minha consciência se não partilhasse com todos vós os meus apontamentos sobre o outro vinho produzido na Herdade de PortoCarro, Álcacer do Sal. A viagem não ficaria verdadeiramente concluída só com a prova do Anima L4.
Seria necessário que ficassem registados alguns apontamentos sobre o Herdade do PortoCarro 2003. Um vinho Regional Terras do Sado.
Acanhado no início, pouco expansivo. Tive que o convencer em partilhar comigo um pouco mais. O rodopiar do copo ajudou a libertar-se do seu embaraço inicial. Sorrateiramente foi despertando com aromas a bolo tostado, talvez cheesecake. A fruta que surgia era de coloração negra. Perfumado por umas leves aragens de pinheiro e eucalipto. A especiaria, que ia despontando, tornava o conjunto mais picante e exótico. O repasto era feito com um ligeiro café, tabaco e cachimbo.
Na boca pareceu-me algo curto. Com o álcool um pouco desamparado, até incomodativo. Um final de boca médio, que ia deixando boas recordações.
Pareceu-me ter um estilo um pouco mais quente, não tão fino, nem complexo como o Anima. Mesmo assim um belo vinho. Para mim, um período de repouso na garrafa é capaz de lhe fazer bem. Pode ser que o álcool, que passeava por ali, sem saber o que fazer, perceba que tem de andar alinhado com o resto da trupe. Acredito que crescerá mais ainda. Aguardemos, então!
Uma palavra final para a felicidade que tive em contactar com este produtor. Fico contente por descobrir pingas que gosto. Já não era sem tempo!
Nota Pessoal: 16

quarta-feira, setembro 06, 2006

Assim é Complicado!

Travar conhecimento com alguém que não conhecemos e não ficar com boa impressão no primeiro contacto, é capaz de ser injusto. Mas que podemos fazer? É um risco que todos nós corremos nesta vida. Todos nós sabemos da importância que damos à primeira vez, ao primeiro contacto, ao amor à primeira vista. Quantos de nós foram tocados pelo amor à primeira vista?
Bom, mas este palavreado serviu para quê? Para falar de dois vinhos que, mais uma vez, não trouxeram nada de novo aos meus ficheiros pessoais [como diz o pedro sousa(pt)]. Dois desconhecidos.
Sinceramente não percebo, não entendo. Fico completamente de mãos atadas, de nariz entupido, de boca estragada e muito embaraçado quando tenho que classificar (para mim) vinhos repletos de tiques estranhos, que ultrapassam a fronteira daquilo que eu geralmente gosto.
Tomem nota de dois tintos do Douro provados em prova cega.
Quinta da Roseira Reserva 2003
O seu berço situa-se em Peso da Régua. Do produtor Barrigas de Azevedo (penso não me ter enganado no nome).
Um vinho que parecia ter passeado por um laboratório farmacêutico, tais eram os odores a éter ou algo do género. Como não bastava, deve ter seguido até uma estrebaria, para se sentar aos pés de uns cavalinhos.
Na boca? Fraquinho, débil, com pouco interesse pessoal. Fico-me por aqui. Posso ser mal compreendido por algum visitante que não me conheça bem. Nota Pessoal: 9,5
Negreiros 2004
Produzido na Quinta das Amendoeiras, em Carrazeda de Ansiães.
Um exemplo da provável pressa que houve em colocar cá fora um vinho, não lhe dando o necessário o tempo para ele se equilibrar, se organizar internamente.
Andou sempre com um comportamento estranho, incaracterístico, pouco afinado. Inconstante.
Inicialmente com aromas a borracha queimada. Pensei naquelas pilhas de pneus a arder. Conhecem o cheiro? Depois com o arejamento, despertaram algumas sugestões químicas e vegetais (apesar de tudo, menos mau). Os tais aromas queimados é que regressaram.
Na boca, por incrível que pareça, esteve melhor. Que diabo!? Onde andariam todos aqueles estranhos aromas?
Acabei por colocar este vinho de lado e fui provando outros. Com duas horas de copo, começou a revelar algo mais interessante. Mas não era o suficiente para mudar a minha opinião.
Nota Pessoal: 12

Post Scriptum: Falar de vinhos que pouco nos dizem, que pouco oferecem é como acertar em todos os números do loto. Um desafio árduo. Ainda por cima, não estive particularmente inspirado. Ao escrever este texto, as palavras pareciam-me todas vazias de conteúdo, sem qualquer emoção. Há dias difíceis...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Quinta das Bajancas, Douro

António Alfredo Lamas, um produtor do Douro, mais um. Nascido e criado em São João da Pesqueira. Mais uma novidade, entre tantas. Quase diariamente sou confrontado com novos produtores, novas marcas. Esta febre percorre o nosso país de Norte a Sul. A ver vamos até onde ela vai. Mas falemos de dois vinhos deste produtor, que provei recentemente em prova cega.
Bajancas (tn) 2004

Saltivavam aromas agradáveis, aprazíveis e limpos. Com um interessante nível de complexidade. Mentol, balsâmicos e casca de árvore. Morangos, amoras e cerejas. Tudo temperado por uns ligeiros toques de musgo e fetos. Com uma boa amplitude aromática. Daqueles vinhos que nos agarra um pouco.
Na boca muitos morangos, muitas amoras. Refrescante. Bom prolongamento e fino no seu comportamento. Um tinto bonito, simpático, guloso e bem feito, que merece o meu aplauso.
Nota Pessoal: 15

Bajancas (br) 2005
Uma cor quase branquinha, clarinha.
Um vinho que eu chamaria de prudente, calmo. Postura discreta.
Pareceu-me encontrar notas petroladas na minha primeira abordagem. Depois despertou para umas discretas notas de fruta e envolvidas por suaves tiques vegetais e minerais.
Na boca, mantinha a linha petrolada e vegetal. Pareceu-me encontrar pouca fruta na boca (não é necessariamente negativo). Elegante.
Num estilo curioso. Fiquei com vontade de voltar a prová-lo melhor, com mais tempo e ponderação, pois pareceu-me um pouco diferente do habitual.
Nota Pessoal: 14
Post Scriptum:
Uma feliz e interessante entrada no mercado. Mas aqui entre nós será que o mercado aguenta com tantas marcas? Pessoalmente gostaria.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Um Chardonnay contraditório

Está calor, muito mesmo. Como já vos disse, não suporto muito bem o calor. Talvez tenha no meu código genético qualquer informação nórdica (toda a minha familia é do Norte. Com muitos loiros, com muitos olhos verdes, muitos olhos azuis. Pele branca). Para me refrescar peguei num vinho branco, para acompanhar uma refeição à base de chocos, temperados com coentros, azeite e muito alho. A escolha da pinga que iria acompanhar o repasto, se calhar, não era das mais óbvias. Foi a que me veio à cabeça. Escolhi um Chardonnay. Português, nascido em Trás-os-Montes, terra do meu pai. Lugar de muitas memórias, que prezo com muito orgulho. Um chardonnay repleto de tiques do novo mundo, muito ao estilo californiano (Jerry Luper é o enólogo da Real Companhia Velha). Baptizado com o nome de Quinta do Cidrô Reserva 2003. Dormiu durante algum tempo em madeira de carvalho francês.
A sua cor era amarelinha, inclinando-se para os torrados. Já agora, nunca fui bom nas cores. Evito falar nelas. Fico confuso. Mas avante e falemos da pinga.
Muita baunilha, caramelo, fruta madura e mel (pensei naquele que é clarinho). Para além disto, (peço que me dêem um desconto) ainda fui parar ao doce de gila. Tudo refrescado por lascas de verdura. Sempre num registo altivo, exuberante, com muito neon.
Na boca, a durabilidade era grande. Saboroso, gostoso. Robusto.
Um vinho cheio de contradições, dado que não se enquadra no estilo de vinhos que eu geralmente aprecio. Alinho mais pela subtileza. Mas que se lixe. O ser humano está cheio de incoerências.
Porventura mais indicado para beber quando a temperatura da rua estiver mais fresca. Nota Pessoal: 15
Post Scriptum:
O vinho não me refrescou. Não ajudou a esbater o calor que senti. Mas soube-me bem.