quarta-feira, Novembro 29, 2006

Douro sombrio

Parece que existem vinhos que definem muito bem um estado de espírito ou uma época do ano. Neste caso, e apesar de terem sido provados em momentos diferentes, bem podiam ter sido no mesmo dia. Num destes dias de chuva, já escuros na cor.
Vinhos que não percebi, que não entendi, que pouco prazer deram. Ambíguos, sem alma, sem chama (não aqueceram o corpo). Fizeram-me, mais uma vez, pensar na eterna questão: Vale a pena existirem tantos produtores?
Cabe-me a função de partilhar o pouco prazer que tive. Dois Produtores do Douro. Dois desconhecidos.
Alva Corgo 2005, Quinta da Azinheira, Santa Marta de Penaguião.
Aromas simples, directos, onde morangos envolvidos em licor de aniz e cacau marcavam presença. Algum vegetal fresco.
Uma boca gaseificada, que fez lembrar um verde tinto. Estranho, muito estranho. Ausente de sabores, demasiado neutro.
Nota Pessoal: 11

Estopa Reserva 2003, José Pinheiro.
Aromas que lembravam leite com chocolate, muito docinho. Ameixa preta. Mais uma vez directo, sem dar qualquer pica na prova.
Boca muito doce, demasiado cansativo, eternamente chato.
Nota Pessoal: 11,5

Que venham melhores dias, mais risonhos, mais acolhedores. Hoje, estou particularmente cansado. Foi um dia duro, senti-me desamparado. Parece que fui atropelado por um cilindro. Farto de gente mesquinha, que dá mais importância ao acessório do que ao essencial. Farto, empanturrado de gentalha que está à espera que os outros falhem.
Volto para a semana. Vou com a minha filha e companheira ver o resto da família, que anda lá por cima. Pode ser que recupere das minhas desventuras.

domingo, Novembro 26, 2006

Evel Grande Escolha 2000

Ao olhar para o Evel Grande Escolha 2000, o que salta à vista (pelo menos à minha) é o rótulo. Gosto dele. Mostra classe, categoria, personalidade e distinção. O novo, para mim, é feio, incaracteristico, não diz nada. Inócuo. Não percebi esta mudança, principalmente vindo de uma casa com muitos pergaminhos na história do Douro.

Mas e o vinho? Todo ele é educado. Com aromas clássicos, bem envolvidos, sempre digno e brioso. Senta-se na mesa, ao nosso lado, sem grandes exibições, sem grande celeuma. Vai fazendo companhia. Gosto destas características. Alguns dizem que é sinal de quem não gosta de arriscar. É capaz de ser possível.
Durante o diálogo, ia libertando fragâncias minerais. Fetos e folhas secas lembravam o Outono. Um charuto para fumar ao pé da lareira. Madeira envernizada do armário, onde estão cestinhos de fruta cristalizada e frutos secos. Acompanhavam com um suave licor de baunilha. Terminava com café perfumado com canela (sim, eu gosto de mexer a minha bica com um pauzinho de canela).
Entrava devagar pela boca. Não ofendia, pedia licença. Fresco, balsâmico.
Depois da garrafa estar quase no fim, fui acossado por uma questão. Quais serão os vinhos portugueses, da nova geração, que irão ter esta calma ao fim de 6 anos de vida?
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, Novembro 22, 2006

Henrique UVA

Henrique Uva, um produtor que já teve honras na Revista de Vinhos (com reportagem alargada). Produz milhares e milhares de litros de vinho, lá no meio do Baixo Alentejo, na Herdade da Mingorra. Terra de muito calor. Quase deserto.
Dois tintos. Um regional alentejano e um vinho de mesa. Este último enquadra-se na categoria em que está o Dado (parceria Álvaro Castro-Dão/Dirk Niepoort-Douro). São vinhos concebidos com uvas provenientes de diferentes regiões. Mas não é caso único. Dourat (uvas do Douro com uvas do Priorat) e Pião (uvas de Piemonte com uvas do Dão), são outros exemplos. Estas "combinações, estes arranjos vinícolas" não podem mencionar ano de colheita, nem castas. A legislação nacional não permite (preciosismo).
No entanto, não são novidade no nosso país. Fizeram escola nos anos 50/60 do século XX. Era comum existirem vinhos (garrafeiras) elaborados com lotes do Dão e da Bairrada. A enóloga Filipa Pato tenta renascer essa filosofia com os seus Ensaios.
Mas voltemos, à Herdade da Mingorra. Apesar das diferenças que tiveram no nascimento, o estilo, o comportamento dos tais dois tintos é similar, muito parecido. Numa linha impositiva, raçuda e peituda.

Vinhas da Ira 2004 (Alentejo)
Todo ele é pujante, químico. Lembrei-me mais uma vez da minha clássica tinta da China. Sente-se extracção (para mim, em demasia). Posterior evolução para vegetal (que tentava refrescar). Café e chocolate. Sempre num registo potente, capaz de desintupir as narinas mais tapadas.
Entra na boca de forma brusca, intensa e forte. Assusta. Um pouco mais de suavidade, não faria nada mal.
Um vinho que carece de tempo para abrir, para respirar e acalmar. Mesmo assim, tenho dúvidas que se torne num cavalheiro. Nota Pessoal: 15
Uvas Castas 2004
Feito com uvas do Douro e do Alentejo. Um rótulo muito curioso. Bem idealizado e esclarecedor. Mais uma vez, o estilo robusto e concentrado a dominar.
Pareceu abrir, curiosamente, com aromas mais frescos, mais interessantes e ?elegantes? que me orientavam para a flor de esteva (seria o Douro a querer mostrar-se?). Café, cacau e baunilha faziam o arranjo final, sobre um cenário com fundo terroso.
Na boca, com força, um pouco mais equilibrado que o Vinhas da Ira. O corpo aguenta, e bem, com os taninos e com a acidez. Secura nas genivas. Final com alguma doçura.
A precisar de uma boa dose de brandura, de meiguice. Dava jeito. Nota Pessoal: 15,5

segunda-feira, Novembro 20, 2006

Smith Woodhouse LBV 1995

Os Portos são a grande lacuna na minha aprendizagem como enófilo. Que o meu pai não leia estas palavras. Ele é um filho do Douro. Para ele, aliás, não existe vinho do Porto. "Onde têm as vinhas?" Existe vinho fino, do Douro. Percebo onde ele quer chegar. São os homens que trabalham a difícil terra que oferecem ao mundo este néctar e não os outros que vivem lá na cidade.
Fruta madura quente, envolvente, com o caramelo e baunilha no primeiro impacto. Breves sensações a mato húmido davam-lhe complexidade (imaginação?). Chocolate e frutos secos, com umas pitadas de canela, eram o toque final. Nunca me cansei de cheirar.
Na boca muito guloso, redondo, com a acidez a proporcionar uma excelente frescura. Mastigável. Um final médio longo. Bebe-se com muito prazer, sem se tornar simples.
Um LBV que pertence ao universo da Symington Family e parente do Warre's (ainda tenho o 1994). Coloca-nos num patamar de elevada de qualidade. Para quem não chega aos Vintages, por variadas razões, é uma óptima opção. Gostei francamente. A nota que lhe ofereço não tem qualquer termo de comparação, dado que o leque de Portos que provo é muito reduzido. Nota Pessoal: 17
Algumas Questões
Pareceu-me que este LBV tinha capacidade para evoluir positivamente em garrafa. Será vantajoso guardar alguns LBV's? Ou estamos perante vinhos que são para beber, logo que saiam para o mercado? Lembro-me de uns Quinta do Infantado LBV 1996 e 1998 que tinham arcaboiço para durar (eram musculados, excessivos).
Amigos meus, mais doutos na capacidade de análise, comentavam bastas vezes que muitos LBV's podem durar uns bons 10 aninhos. Verdade ou nem por isso?
Gostaria de criar um banco de LBV's para ir provando ao longo dos próximos anos.

domingo, Novembro 19, 2006

Um Encontro de Eno-blogs. Que acham?

Caros amigos eno-bloguistas, será que não estamos no momento ideal para nos juntarmos e realizarmos uma Conferência/Encontro entre todos? Dito de outra forma, e mais ligeira, não estará no momento certo para realizarmos uma jantarada?. Discutir sobre alguns temas, reflectir um pouco sobre o vinho e a comida. Conversar. A Internet é uma excelente ferramenta, uma enorme fonte de informação, mas o contacto pessoal, o olhar nos olhos é primordial e muito mais interessante.
Todos nós trabalhamos (modestamente) em prol do vinho em geral e do Português, em particular. O que nos une é a paixão, o amor pelo líquido de Baco.
Esta ideia não é minha. Foi discutida com o Nuno do Saca-a-rolha em privado. A malta do Krónikas Vinícolas também lançou o repto no seu blog (muito recentemente). Com o João do Copo de 3, falo regularmente. Também ele aprecia a ideia.
É o meu primeiro lançamento. A minha primeira deixa. E vocês o que dizem? Vale a pena ou nem por isso?
Post Scriptum:
A decorrer no dia 12 de Janeiro de 2007

sábado, Novembro 18, 2006

Quinta da Carolina 2003

Uma estreia em absoluto (para mim). Um vinho que tenho visto por aí. Ouço falar dele. Até ao momento, nunca consegui encontrar dois indivíduos que tivessem a mesma opinião sobre este transmontano concebido por um estado-unidense. Uma curiosa combinação.
A Quinta da Carolina é pertença do enólogo, da Real Companhia Velha, Jerry Luper (ainda é?). Um norte-americano que reside há muitos anos no nosso país e que escolheu o Douro para viver. Pessoalmente escolheu muito bem.
Os únicos dados que obtive foram sobre a colheita 2000. De qualquer maneira, dá para termos o uma ideia sobre a filosofia do projecto. "(...) o americano Jerry Luper revela o ponto ideal de "maturação", que é como quem diz, de conhecimento e domínio da pequena propriedade onde se instalou com a mulher Carolee, em meados da década de 90. (...) apresentando-se como expressão muito mais equilibrada e conseguida dos 2,7 hectares de vinhas velhas na margem esquerda do Douro, nos arredores do Pinhão. Arriscamos mesmo dizer que é com a colheita de 2000 que Luper eleva a sua pequena produção familiar ao nível esperado a partir de anteriores realizações no nosso país. Além do trabalho pioneiro na Califórnia e da ligação a alguns ícones do vale de Napa (Diamond Creek), vale a pena lembrar que estamos perante o director técnico da Real Companhia Velha, responsável pela projecção dos vinhos de mesa da casa para patamares de qualidade que valeram, por exemplo, o troféu da Revista de Vinhos para a melhor empresa em 1999. Antes dessa data, esteve também ligado à ascensão da Quinta de Pancas, assistindo na criação dos varietais "Special Selection". No caso do Quinta da Carolina, consegue finalmente harmonizar a antiga tradição duriense - lagares de pedra, pisa artesanal, prensa vertical manual - com a experiência enológica Californiana. O resultado é, como se disse, um enorme salto em relação a anteriores colheitas: um tinto de estrutura mais equilibrada, final mais elegante e prolongado, e, sobretudo, taninos melhor domados. (...) Um vinho elaborado a partir de um lote com Tinta Roriz 30%; Tinta Barroca 25%; Touriga Francesa 20%; Tinta Carvalha 15%; outras 10%. A mistura de castas tradicionais foi pisada 6 a 8 dias em lagares de pedra (leveduras seleccionadas). Estágiou em 14 meses em barricas de carvalho americano, francês e português" Retirei esta informação daqui.
Bom, o que eu achei dele. Gostei. No início, não foi muito simpático. Nada mesmo. Sisudo, pouco conversador. Por vezes, até desagradável na forma como se apresentou. Pertence ao lote daqueles que necessitam de atenção e paciência. Aromas animais, a lagar e a azeitona esmagada tomaram a dianteira. Assustaram e quase fizeram abandonar o vinho. A fruta (madura, mas fresca), o vegetal, o café envolvido por lavanda conseguiram cativar. Deram-lhe um semblante bem mais interessante.
Na boca elegante, diferente. Algo rústico, rural. Atraente, envolvente e com complexidade. Se calhar um pouco anacrónico (gosto desta palavra) e distante dos outros Douros. Acredito que possa ter uma boa evolução. Um vinho para pensar. Com personalidade vincada. Nota Pessoal: 16,5
Post Scriptum:
Mais uma vez um vinho que não foi consensual.

quinta-feira, Novembro 16, 2006

PROVA À QUINTA - Vinho com menos de 13% Vol.

O primeiro Touriga Nacional feito pela COOP de Tazém. Nascido em 2000. Nesse ano nasceram quatro varietais. Tinta Roriz, Alfrocheiro Preto, Jaen e naturalmente o Touriga Nacional. Foi o inicio da mudança na Cooperativa de Vila Nova de Tazem.
Um vinho com alguma elegância, suave e discreto. Uma forte componente vegetal aliada a interessantes sugestões florais. Todo o ambiente aromático anda à volta dos pinhais, do mato e folhas secas. Impressão de lagar, dá-lhe um certo carácter.
Na boca, com boa frescura, taninos finos. Com sabores vegetais, mentolado. Final médio/curto.
Um correcto Touriga Nacional, vindo lá da Terra.
Nota Pessoal: 14
A minha resposta ao desafio do
Copo de 3.

quarta-feira, Novembro 15, 2006

Um desafinado Oboé

Um vinho com nome de um instrumento musical (de sopro, com timbre semelhante ao da clarineta, embora mais agudo e anasalado. Possui bocal de palheta dupla, situado no final de um tubo perfurado, de formato ligeiramente cônico. Introduzido na Europa no final do século XIV, foi aperfeiçoado no século XVII, na França. É geralmente utilizado como solista em passagens líricas).
Não tenho grande ouvido para a música, nem sou especialista na matéria. Gosto de ouvir simplesmente. No preparatório, as aulas de música eram, para mim, um autêntico suplício, um terror. Nem uns ferrinhos conseguia tocar decentemente. Ao contrário dos meus colegas, eu chumbei nesta disciplina. Uma mancha no meu percurso escolar, que eu nunca esqueci. Eram momentos de riso por parte dos meus pares. Odiava.
Agora este Oboé 2003 (Douro) podia ter dado outra música. Ter tocado um bonito solo, uma bela melodia, capaz de inspirar. Mas não. Teve um prestação muito triste, sem qualquer vivacidade, sem qualquer jovialidade. Aromas a passa, doce. Madurão. Pesadão. Chato...
Na boca, sem graça, sem piada e sem fogo. Um pobre espectáculo musical, ou melhor, um espectáculo enófilo que me desiludiu.
Decididamente não tenho grande tendência para a música.
Nota Pessoal: 12
Post Scriptum:
Distinguiu-se dos outros pares pelo curto tempo de atenção a que teve direito.

segunda-feira, Novembro 13, 2006

Quinta da Gaivosa 2003? Não Pode!?

Falar de vinhos, que ostentam nomes de respeito, com peso na opinião pública e na critica é um desafio árduo e complicado. O nível de exigência que se coloca é alto. E poucos conseguem atingir esse patamar. É como se estivessemos perante uma Liga dos Campeões. Por esta razão, nem todos os que provam e bebem vinho são críticos (e ainda bem). A maior parte de nós pertence à enorme falange dos tais que lançam umas bocas para impressionar os amigos ou aqueles que ainda não largaram o Monte Velho, o Esteva ou o Grão Vasco (naturalmente, enquadro-me neste grupo).
Várias vezes, confronto-me com a minha real incapacidade em descrever, comentar ou falar sobre muitos ícones. Se sabem bem, se deram prazer, se são saborosos, a coisa até acaba por correr bem. Umas palavras simples mais a respectiva nota dão o toque final e safo-me. O barbicacho acontece quando a história não tem o final que desejaríamos.
Olhemos para o vinho em questão. Foi provado em prova cega (não sei se é importante). Estava no meio de um lote alargado de vinhos. Todos eles com manias e tiques diferentes. Brutos, enjoativos, leves, ácidos, incaracterísticos, complicados, chatos, maníacos. Enorme conjunto de variáveis, que confundem. Momentos em que as capacidades de análise são levadas ao máximo. Assumo, sem qualquer problema, que me escapam pormenores. Talvez demasiados. Muitos defeitos ou virtudes não são detectados por mim e provavelmente nunca o serão.
E no palco da prova, o Quinta da Gaivosa 2003 (Domingos Alves de Sousa) teve o privilégio de me baralhar, de questionar as essas capacidades, pois não lhe detectei qualquer característica que o diferenciasse, dos seus companheiros de prova. Exibiu, em demasia, um estilo muito igual a tantos outros. Sem deslumbrar, sem dizer nada em concreto, sem falar comigo de forma explicita. Com aromas a fruta madura, por momentos até madurona. Algo doce. Na boca, pareceu-me ter uma acidez alta, um pouco desarticulada do conjunto. Com um corpo mediano. Durante a prova, só me ocorreram palavras e adjectivos que geralmente uso para caracterizar vinhos com nomes mais modestos. O fatalismo de ser mais fácil prender um pobre do que um rico. Até nos vinhos!
Quando mostraram o rótulo. Corei de vergonha. Será que não percebi o vinho? Nota Pessoal: 15
Post Scriptum:
Embaraço total.

quinta-feira, Novembro 09, 2006

O Pingus GOSTOU mais destes!

São as pingas mais bem classificadas ao longo da curta existência deste Blog (oito meses). Foram aquelas que mais gostei. São as que gostaria de ter em minha casa, nas quantidades certas. Infelizmente algumas delas já não moram na minha garrafeira. Felizmente, muitas delas foram bebidas na companhia de bons amigos.
O objectivo é simplesmente agrupa-las num simples post. Servirá como um guia para os amigos: "Deixa lá ver o que ele gosta mais!"
A selecção não tem qualquer critério ou norma. Existem vinhos recentes e vinhos com alguma idade. Uns provados sozinhos, outros em provas cegas, outros ainda à balda. Cada um deles tem um link para o respectivo texto, permitindo que possam fazer uma leitura e criticar se acharem conveniente (e existe muito para criticar).
Alguns factos curiosos. Não entrou nenhum vinho do Dão. Como todos sabem é a minha região (a par do Douro). Niepoort (Douro), CampoLargo (Bairrada) e José Bento dos Santos (Estremadura) foram os arquitectos do maior número de vinhos. Do Alentejo veio um dos meus vinhos preferidos.
Douro
Bairrada
Calda Bordaleza 2004 (18)
Diga? 2004 (17,5)
Estremadura
Alentejo
Setúbal
Estrangeiros
Uma lista reduzida e simples.

terça-feira, Novembro 07, 2006

Syrah da Herdade da Maroteira

Herdade da Maroteira Syrah 2005. Um tinto que nasceu na Aldeia da Serra, Redondo. Já agora, um pequeno desvio. Não foi por estas bandas que aconteceu um grande incêndio, que destruiu grande parte da paisagem envolvente, neste último Verão?
Falemos da pinga. Mais uma descoberta alentejana (para mim). Surpresas destas, eu gosto. Não sou grande amante dos vinhos da grande planície (os meus amigos sabem disso. São manias, que facilmente são contrariadas, como já foram, por diversas vezes).
Andei por essa internet fora à procura de informações sobre este produtor, mas nada encontrei. Pode ser que o master dos vinhos alentejanos passe por aqui e diga, partilhe com a malta o que sabe sobre esta Herdade. Eu, pelo menos, ficava grato.
O vinho esse, apresentou-se com aromas iniciais a azeitona preta esmagada (não vale a pena perguntar qual é diferença entre esta e as outras. Tinha que optar por uma cor. Escolhi a preta). Lembrei-me muitas vezes dos odores do lagar, da adega, do cachiço. Aprecio muito. Dão-lhe personalidade, carácter. Os experts dizem que são vinhos com um lado rústico. Para mim, ainda bem. Nada de modernices, bem longe dos vinhos urbanos, metro, que estão na moda e fazem um enorme sucesso.
Depois de ter libertado aquele tal lado mais rural, manifestaram-se aromas pretos, muito pretos, de aparência fresca, sem excessos. A fruta tinha alguma subtileza. Cacau amargo, com tabaco, peles e couros. Apimentado.
Uma boca sedosa, envolvente, onde a azeitona, o caramelo, a baunilha, o cacau imperam. Tudo suportado por uma correcta acidez. Um final de boca médio, com qualidade e que me deixou boas recordações.
Gostava de ter algumas botelhinhas deste alentejano do Redondo. Quem souber onde elas andam, digam-me, falem comigo. Gostava de provar em minha casa, com toda a calma do mundo.
Nota Pessoal: 16,5


Post Scriptum: Ando a gostar dos vinhos alentejanos. Estarei a mudar ou serão os vinhos alentejanos que estão abandonar aquele estilo pesadão, meio madurão?
A fotografia é de umas das entradas da Vila do Redondo.

domingo, Novembro 05, 2006

Eu estive Lá (no EVS)

Já fui e voltei do Encontro com o Vinho e Sabores. Só obtive autorização para o Sábado (dia 4 de Novembro). A minha a patroa (cá de casa) só permitiu, dispensou um dia de liberdade vínica. Foi bem aproveitada. Aliás, este ano foi dedicado para passear pelos stands, observar e conversar com amigos. Os vinhos que provei foram muito menos que no passado. Não perguntei pelo que havia debaixo da mesa. A idade parece provocar uma diminuição na minha capacidade para andar a vasculhar os segredos do mundo dos vinhos. Eles acabam sempre por se revelar ao mundo. Há que ter calma e paciência.
O companheiro de jornada foi o Pedro Brandão o gestor do COV (um dos elementos da minha quadrilha).
Gostei de rever o João Roseira, que anda desaparecido das lides bloguistas à muito tempo. Foi interessante ouvir alguns comentários sobre o rumo que os vinhos estão a tomar (em especial os do Douro e da Bago de Touriga). Um abraço para ti.
O Paulo Pacheco foi um bom companheiro durante uns largos períodos da minha estada no EVS. Bem disposto, bom camarada. Só um verdadeiro apaixonado por estas coisas é que se desloca dos Açores até à capital, para participar num evento destes. Mas como ele afirmou: "São só duas horas de viagem!" Tem razão. Conheci a malta do Krónikas Vinícolas. Outra bela quadrilha.
O patrão do Vinho da Casa andava por lá, discreto. Será que estava intimidado com a Capital? Um abraço para ti, caro Paulo Silva. O master do Copo de 3, velho conhecido meu, de outras guerras, de outras vidas, não faltou. Adoro observar um alentejano a provar vinhos do Douro, do Dão. Ainda deu para trocar umas impressões com o Luis Antunes e cumprimentar o João Geirinhas, ambos da Revista de Vinhos.
Cumprimentos para todos os amigos que fui encontrando (não, não me esqueci de ti: Ó Dionísio, fazia tempo que não te via).
Bom, falando de vinhos, deixo-vos aqui uma lista muito pessoal, que vale aquilo que vale. É mais um guia, para futuras compras cá para casa. Tirando algumas excepções, todos foram provados pela primeira vez. Venha agora o dinheiro, que espaço tenho muito.
Pingas Brancas

Secret Stone 2005 (um sauvignon blanc da Nova Zelândia)
Filipa Pato IceWine 2005 (a brincadeira da Filipa)
Quinta das Bageiras Garrafeira 2004 (desde 2002 que o bebo. Um branco à antiga, mas não antiquado)
Quinta de Baixo Reserva 2005

Quintas das Maias Encruzado/Malvasia Fina 2005 (mais um branco da Terra)
Dona Berta Rabigato 2005 (nunca tinha provado este vinho. Um bom companheiro para a mesa. Curioso)
Maritávora 2004 e 2005 (um vinho nascido na minha terra paterna. Na propriedade que era da família do Poeta Guerra Junqueiro)
Gouvyas Reserva 2004 (pareceu-me mais equilibrado que a colheita anterior, mas tem mais estágio em madeira que o reserva 2003)
Madrigal 2005 (belo branco. Diferente. Gostava de poder beber, muitas vezes, um vinho assim)

Pingas Tintas
Herdade de Portocarro (continuo a gostar e muito)
Anima L4 (uma delideza de vinho. Não deitei fora. Adorava ter umas quantas botelhas deste vinho em minha casa. É pena o preço que pedem)
Barons de Rothschild Pauillac Reserve Spéciale 1998 eBarons de Rothschild Legend R 2000 (pelo preço que disseram, torna-os bastante apetecíveis. Vou ver se os vejo por aí)
Marquês de Borba Reserva 2003 (preço, como dizem, está upa, upa)
Quinta Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2003
Quinta da Ponte Pedrinha Reserva 2001 e Quinta dos Roques Garrafeira 2003 (provem, que vale a pena. Escola do Dão)
Quinta do Noval 2004 (muito bom, interessante. Vai ser proibitivo. O nome ajuda) e Cedro do Noval 2004 (para quem não conseguir comprar o topo, este é uma bela opção)

Generosos/Moscatéis/Madeiras/Portos e afins
MR Blue Montain 2005 Moscatel
Kracher's (boa relação preço qualidade)
Tokaji Wine, Ats Cuvée 2003 (acho que é assim que se escreve. Nunca tinha bebido um tokaji. Por essa razão, fiquei apaixonado. Também não deitei fora)
Col. Privada Domingos Soares Franco 2000
Alambre 20 anos (não falha. Adoro este moscatel)
Taylor's Vintage 2003 e 2004, Ramos Pinto Vintage 2003, Quinta do Vesúvio Vintage 2004, Dows Vintage 2004, Graham's Malvedos Vintage 1998 (nem me atrevo a exprimir qualquer comentário. Nada. Se nos vinhos de mesa, ainda consigo dizer disparates, no que respeita a Vintages a minha ignorância é tanta, que me calo)
Verdelho 1977 e Bual 1971 da Madeira Wines Company (idem. Preferi ouvir o responsável)

19h.00m, fui embora. A patroa estava no carro à espera.

Post Scriptum: Conheci ainda uns amigos que me tinham interpelado aqui, por causa do Diga?. Um abraço para eles.

quinta-feira, Novembro 02, 2006

O Touriga da Ermelinda

Um Touriga Nacional, nascido em 2003 na casa de uma produtora, de uma senhora que mora em pleno território das Terras do Sado. Com as suas vinhas bem plantadas em quentes areias.
"A Família Freitas produz vinhos em Fernando Pó, uma zona privilegiada da região de Palmela, há cinco gerações. A quase totalidade das uvas colhidas em Fernando Pó são vinificadas pela Dra. Leonor Freitas e pela sua família. O seu bisavô era proprietário de mais de 600 ha de vinha. A Casa Ermelinda Freitas propriedade da Dra. Leonor Freitas possui 102 ha de vinha dos quais 94 ha da casta Castelão, mais conhecida na zona por Periquita, e 8 ha da casta Fernão Pires (branco). Dada a localização privilegiada da sua exploração, nela são produzidos alguns dos melhores vinhos da região.Em 1997 a Dra. Leonor Freitas decidiu iniciar o engarrafamento de parte da sua produção. (...) Os vinhos, anteriormente vendidos a granel a várias empresas exportadoras de renome, são actualmente engarrafados pela Casa Ermelinda Freitas.
O primeiro vinho a ser comercializado foi o Dom Freitas 1998 em homenagem ao avô da proprietária actual. Foram produzidas 38.000 garrafas. (...)" Informações retiradas do site."
"Seis anos apenas depois de ter começado a vender vinhos engarrafados, a Casa Ermelinda Freitas - de Fernão Pó, Palmela - apresentou (...) um naipe de respeito o branco de 2005 (...), os tintos de 2003, entre os quais o topo de gama Leo d'Honor, e o primeiro moscatel da casa. É uma aposta na qualificação dos vinhos de uma casa que, por curiosidade, quase sempre teve mulheres no seu comando. Ermelinda Freitas, representante da terceira geração e hoje uma respeitável septuagenária, foi quem a orientou até aos anos 90 na actividade de produção e venda de vinho a granel. Só a partir de 1997 a sua filha Leonor, que desde então lidera a empresa, começou a engarrafar parte da sua produção com marca própria, a qual chegou ao mercado em 1999. Hoje, a empresa produz cerca de 1,7 milhões de litros de vinho por ano, boa parte escoado através de um milhão de garrafas das suas dez marcas. A liderança feminina, essa, parece estar assegurada na quinta geração Joana, filha e neta das antecessoras, gosta do mundo dos vinhos, estuda gestão e já iniciou um pequeno negócio de compotas, cujos produtos, em breve, poderão ser adquiridos (...). (...) O trabalho do enólogo Jaime Quendera, uma pedra fulcral na carreira da empresa. Em geral, os seus vinhos têm-se destacado pela positiva dentro do segmento de preço em que concorrem. E, pelas provas, tudo leva a crer que assim continuem. (...) No Touriga Nacional 2003, o primeiro varietal de Jaime Quendera fora da casta Castelão, encontramos um tinto robusto, concentrado, mas a que não falta frescura e que tem já os taninos bem incorporados acompanhou lindamente uma empada de galinha e farinheira (o almoço de apresentação esteve a cargo do chefe Vítor Sobral e da sua equipa) e deverá evoluir bem nos próximos quatro/cinco anos. Os tintos da casta Castelão são, contudo, aqueles em que a casa mais aposta. Desde logo no Quinta da Mimosa 2003, que tem origem em vinhas com 47 anos. Fez a maceração durante um mês e meio e, depois, estagiou em barricas de carvalho francês e americano é um vinho muito concentrado e com bons taninos, aroma a fruta madura, um toque de baunilha e final prolongado. Quanto ao Leo d'Honor Grande Escolha 2003, o topo de gama, é um vinho de alto gabarito e um bom exemplo do máximo que o Castelão pode dar. Fruto de uma cuidada separação de uvas de um vinha com 53 anos, estagiou um ano em madeira francesa. Só agora está a chegar ao ponto de ser bebível apresenta uma grande estrutura, óptimos taninos, aromas ainda fechados e um belo futuro à sua frente. Resta o Moscatel Superior 2000, o primeiro da casa. Depois de cinco anos em barrica tem muito mel, cortado por uma sugestão de casca de laranja e óptima acidez. Está um conjunto com mais frescura do que é habitual na região, o que torna talvez mais apto a ser bebido como aperitivo."
Retirado daqui .

Posto isto, acabei por retirar da arca, o que considero um típico exemplo de um vinho pujante, explosivo, nervoso, com tiques de alguma rispidez. Com extracção, com muita coisa levada ao máximo. Para quem gosta de automóveis, faz lembrar um Subaru Impreza WRC, onde os arranques e as travagens são brutais, repletas de forças G's. Ou se quiserem, ou preferirem, uma banda de Heavy Metal. Apresentação que assusta. Só aguenta quem pode, quem tem arcaboiço ou aprecia o género.
Fruta preta por todo lado, envolvida por terra e perfumada por uma boa dose de baunilha. O mentol, os balsâmicos tentavam refrescar, lutando para baixar a temperatura e refrear os ânimos. Cedro e verniz compunham o ramalhete. Acabei por não conseguir libertar-me das memórias de outro vinho da Dona Ermelinda: O Quinta da Mimosa 2003. Também este me assustou.
Na boca a performance deste varietal foi consentânea com os aromas. Não fugiu, nem um pouco, ao exagero. Provavelmente fruto da juventude, de alguma imaturidade. Vou observar com cuidado o que acontecerá com as outras garrafas que tenho em casa, pois esta deixou-me algum amargo de boca, uma certa desilusão que pretendo esquecer.
Nota Pessoal: 15,5
Post Scriptum:
É um vinho cheio de nervo, exuberante e potente como relata e bem o meu amigo Nuno do Saca a Rolha. Estou de acordo com ele, mas o nível de valorização que ele lhe atribui, não é o mesmo para mim.