sexta-feira, Março 09, 2007

Até onde podemos ir?

Até onde podemos ir quando falamos sobre um vinho, partilhamos as nossas impressões? Até onde devemos ir? Será que temos que impor, a nós próprios, algo parecido a autocensura? Penso com alguma regularidade, e cada vez mais, se não estaremos a correr um risco, por vezes, demasiado alto quando dizemos que não gostamos de um vinho. Sinto que existe alguma confusão na análise dos conceitos gosto/não gosto (da responsabilidade dos consumidores - o meu universo) e qualidade/sem qualidade (da responsabilidade dos críticos - outro universo), principalmente de quem lê as nossas opiniões.
Penso neste problema, enquanto escrevo, faço as minhas contas e atribuo aquilo que acho que determinado vinho merece, ou não. As questões são as mesmas e já foram várias vezes escalpelizadas aqui. Mas agora acrescento mais uma: Deverei evitar qualquer comentário a partir do momento que não gosto de determinado vinho, para não correr riscos desnecessários? Seja ele um reputado Barca Velha ou um pindérico Esteva? Devem os consumidores omitir as suas próprias opiniões?
Que termos mais educados devemos (devo) usar para caracterizar um vinho repleto de aromas queimados, tosta forte, onde se sentiam odores de carne queimada, chamuscada. Na melhor das hipóteses, haveria um bolo esturrado com passas de uvas e amêndoas pretas. Odores a alcatrão, incomodavam, chateavam. Na boca, mostrava-se sobrematurado, queimado, sem chama, sem alma, sem sabores que marcassem positivamente, com a sensação de madeira queimada, ou coisa parecida, teimando em não desaparecer. Estava firme (infelizmente para mim).
Será mais uma encomenda para os condenados? Para lhes relembrar as faltas que cometeram nesta vida? Se assim for, o Inferno é mesmo terrível. Demasiado. Não gostei. Nota Pessoal: 11,5

Post Scriptum:
Herdade do Pombal Reserva 2003, um vinho alentejano.

11 comentários:

Anónimo disse...

Caro Rui,

Excelente post. Até que ponto o nosso gosto influencia a nossa nota de prova? Penalizo fortemente vinhos sobremaduros, monótonos, com pouca acidez. A maior parte dos vinhos que têm arrebatado as provas não são bons companheiros de mesa e ao fim de um copo tornam-se aborrecidos.

Abraço,

João Chêdas

Pingus Vinicus disse...

Caro João
Será que devemos dizer publicamente que não gostamos de determinado vinho, seja ele qual for o vinho? Haverá a tendencia para omitir aqueles que não gostamos, principalmente se os nomes meterem respeito?

Abração

Anónimo disse...

Caro Rui,
Neste momento estou ligado ao sector e como tal tento discernir bem as situações em que estou profissionalmente e aquelas em que estou como consumidor. O problema é quem gosta do que faz dificilmente consegue desligar-se da sua actividade profissional (eu gosto). Acho que o crítico de vinhos deve ter o mesmo problema acrescido de uma obrigação: ser imparcial. Acho que a vantagem de não seres profissional é poderes emitir opiniões com uma liberdade que às vezes não vislumbro no nosso mundo do vinho: seja por razões económicas ou por amizade. Na crítica de vinhos profissional acho que os vinhos devem ser provados em prova cega, com descritivos das características mas sem marcar a descrição da prova pelo seu gosto pessoal.

Abraço,

João Chêdas

Copo de 3 disse...

No dia em que se criticar alguma coisa sem se levar em conta o gosto pessoal, ou seja, a opinião da pessoa eu dou uma festa.
Isto já parece a história da carochinha, tudo muito bonito de dizer mas dá sempre na mesma, se fosse tudo tão utópico não deveriam ser as notas de prova iguais de provador para provador com a respectiva nota a corresponder no final ?

Como se explica que um vinho apareça com um 14,5 num lado e noutro já tenha um 18 ?
É uma questão de imparcialidade ? falta de profissionalismo ? ou gosto pessoal a funcionar ?

Agora se eu estou a vender vinhos obviamente que não devo dizer que o vinho x que tenho ali ao fundo é uma porcaria.

Uma coisa é ser imparcial outra coisa é ser sério, e ao provar um vinho mesmo que não se goste tem de se ter sempre a noção da qualidade do mesmo e levar isso muito em conta.
Em todo o mundo é conhecido e falado, nos vinhos feitos para agradar ao Sr Parker, alguns conhecidos como vinhos «Parkerizados», ou seja, o Sr Parker tem um estilo de vinho que deve pontuar melhor que outro, se isto não é aplicar o gosto pessoal na prova então é o que ?

Eu defendo que os críticos assumam de vez os seus gostos pessoais, era da maneira que o consumidor mais facilmente se identificava com este ou aquele, até ajudava na escolha de determinados vinhos, mas penso que isso já existe... temos é de saber abrir a pestana.
E também sou contra a prova cega, penso que é uma boa desculpa, se tiram medos, e se tenta cair em tentação... lá se ia a imparcialidade não é, se são profissionais sérios que provem os vinhos face to face e se tiver de levar uma nota baixa que leve... ou afinal não são imparciais ?

Anónimo disse...

Ou seja, o provador não se deve desligar do seu gosto pessoal mas não deve penalizar um vinho só porque não é o seu estilo de vinho. Prefiro a prova cega mesmo que não concordes. Acho que somos condicionados pelas nossas vivências e preferências o que não significa que não sejamos imparciais. Estes factores vão condicionar a prova.

Abraço,

João Chêdas

Copo de 3 disse...

Caro João o gosto pessoal é o que define um provador, digamos que define uma pessoa, o tipo de roupa, o corte de cabelo, a cor do carro, o tipo de filme e de música, até mesmo o perfume... quanto mais na avaliação de um vinho.

Defendo que ao provar um vinho e se por ventura o mesmo não for do agrado, pode ser um perfil diferente, temos de saber ver que o mesmo tem qualidade, concordo plenamente contigo.

No que toca a prova cega é outro assunto, eu costumo utilizar este tipo de prova, em provas temáticas em que quero encontrar um vinho como melhor, Touriga Nacional, Douro, Alentejo Reserva...
Mas no que toca a provar vinho, não tenho qualquer problema em ver o rótulo, até me pode ajudar no caso de o vinho ter um defeito e eu souber que nessa marca não é normal aparecer esse defeito, ou seja, pode ser da garrafa e não do vinho.
Recentemente provei um vinho que algo não estava correcto, estava desequilibrado e com um lácteo bastante presente, não me custou ligar para o produtor e dizer que a garrafa tinha defeito, era da garrafa pois na segunda prova o vinho estava em perfeitas condições.

Eu não provo rótulos, provo vinhos, e a seriedade mostra-se quando num frente a frente se tem coragem de dizer a verdade sobre o vinho em questão, sem influências e sem medos do nome que está colocado à nossa frente.

J. Gómez Pallarès disse...

En mi opinión, si uno compra el vino e informa, tiene el derecho pero también el deber (porque nos lee mucha gente que espera saber de los vinos a través de nosotros) de escribir lo que piensa, con educación pero sin esconder nada.
Si uno no compra y le regalan la botella o le pagan por hablar de ella, tiene que informar al lector de esa circunstancia y, después, intentar ser lo más objetivo, también.
Si durectamente, a uno le pagan por hacerlo, las condiciones del contrato con quien te paga tiene que ser claras para el lector.
En cualquier caso, es un tema bien interesante en el que, en mi opinión, los bloggers estamos en un mundo de bisagra: entre lo público y lo prrvado, entre lo libre y lo subvencionado, etc. Creo que hay que preservar el derecho a la libre opinión por encima de todo, que es algo que caracteriza al "wineblogging" en todo el mundo.
Saludos cordiales desde España, Pingus!
Joan

Pingus Vinicus disse...

Viva Joan é isso mesmo. Concordo com o que dizes. Acima de tudo deve funcionar a liberdade de expressão.
Saludos

Pedro Sousa P.T. disse...

Vós os blogers, quanto a mim têm toda a autonomia e liberdade para dizer e desdizer sobre qualquer vinho, hája rótulo ou não. Vóçes não têm compromisso com niguém, a não ser com vóçes mesmo. Quanto a nós leitores de blogs, temos a vantagem sobre os leitores de revistas da especialidade que lêem as críticas dos "consagrados especialistas na matéria", é que nós pdemos opinar, directamente e on line e eles não...

Kroniketas disse...

Ora, qual é o problema de se dizer que não se gosta? Seja do estilo ou não, se eu não gosto é isso que digo e pronto. É a minha opinião e só me vincula a mim mesmo, não quer dizer que o vinho é mau. Já pontuei de forma modesta alguns vinhos ou por não apreciar o estilo (caso de alguns Chardonnay portugueses) ou por achar que o vinho não tinha nada que o recomendasse. É a minha opinião e é tão válida como outra qualquer. Cabe depois a cada um fazer o contraponto com a sua própria opinião e o seu próprio gosto.
Aliás, os nossos gostos também evoluem, e daqui a 5 ou 10 anos podemos ter uma opinião acerca do mesmo vinho diferente da que temos agora.

Chapim disse...

Caros,
como mero consumidor, acho que a vossa opinião é sempre bem vinda seja ela positiva ou negativa. Acho que para quem lê e tenha o mínimo de consciência consegue perceber que se trata da vossa opinião pessoal com todo o valor que possui mas também com toda a sua subjectividade. E aí para mim está a grande vantagem. Consegue-se perceber os estilos de cada um, perceber os que se enquadram mais ou menos, etc.
Toda a gente deve ter consciência que aqui nos blogs e mesmo nos críticos as notas de prova devem ser lidas como referências não como verdades absolutas. Por isso acho que devem continuar a fazer o vosso importante trabalho e pontuar positivamente quem merece e negativamente que merece. Na vossa opinião é claro!

Boas provas!