sábado, Março 17, 2007

Dão

Continuando a olhar para trás, vejo que foi com o Dão que dei os primeiros passos nos vinhos tintos. As influências da família materna foram mais fortes que as do lado do pai (Douro Superior. Só se falava de vinho fino). É interessante, para mim, constactar este facto. Provavelmente não seria a região mais indicada para um jovem. Os vinhos mostravam pouca fruta, acidez elevada. Eram clássicos na forma e no conteúdo. Depois era (ainda é) uma região difícil, nada consensual. Vai continuar a ser um pedaço de terra complicada para fazer vinho. Os especialistas dizem que a tecnologia pode alterar o estado da coisa. Mas se actualmente andamos a ficar fartos de tantos acertos, de tantas técnicas, não será um erro corrigir tudo? Não será que andamos a brincar demasiado com os elementos da natureza?

O Dão é, apesar de muitas alterações de estilo, a terra dos vinhos para mesa. Que sabem melhor à mesa. Pessoalmente, continuem assim. Os americanos, os ingleses que se lixem. É à mesa que bebo vinhos. As provas, quando as faço, deixam sempre um vazio, porque fico sem saber se determinado vinho ganharia ou perderia com a comida pela frente. Provar, andar com o líquido na boca, deitar fora e pensar apenas em aspectos técnicos não é decididamente para mim. Não fui feito para isso. Gosto de transmitir emoções.
Foi de volta de um copo com Quinta da Fata Reserva 2003, que estas reflexões iam surgindo. Um tinto que aparentemente saiu das mãos de quem aprendeu na antiga escola. Na escola em que não se valorizava a fruta madura, sobrematurada, o chocolate, as extracções levadas ao máximo, a brutalidade. Nessa escola, aprendiam-se outros comportamentos, outros estilos. A elegância, a complexidade, a educação.
Mineral. A fruta envolvia-se de forma subtil com os aromas de cedro e pinheiro. A presença de cheiros, sopros vegetais recordavam e bem os fetos, a giesta, a caruma espalhada pelo mato. Desafiante.
A boca mostrava estrutura, com os taninos e a acidez bem colocados. Alinhados. Mentolado, fresco, com a madeira presente, mas bem envolvida, sem entrar em protagonismos exagerados. Fiquei com a ideia que ainda tem uma longa vida pela frente. Um Dão que mostrou (a mim) ser capaz de dar prazer agora e ao mesmo tempo indicar, sugerir que vai evoluir bem. Por menos de 8€. Uma pedrada. Nota Pessoal: 16
Post Scriptum:
Pergunto-me se não estarei demasiado agarrado a este estilo de vinhos?

3 comentários:

Pedro Guimaraes disse...

Caro Pingus....

Este é da minha escola certamente. Um belo tinto a um belo preco. A quem o adquiriu, aconselho vivamente a guarda por um par de anos...recompensa garantida pelo produtor.

Abracos
Pedro Guimaraes

p.s.- tal qual este espaco que melhora com o tempo!!!!!

SobreVino disse...

Pingus,

Enhorabuena por tu blog, que acabo de descubrir.

Lamentablemente no escribo portugués, aunque nuestros idiomas son suficientemente cercanos para poder entender más o menos tus artículos. Recientemente he probado mi primer Dao y lo he encontrado como un buen vino de mesa para acompañar a la comida.

¡Intentaré seguir descubriendo nuevos vinos de la región!

Abracos,

Sobre Vino

Pingus Vinicus disse...

Caro sobrevino, também não escrevo em castelhano. Mas como dizes e bem as nossas línguas maternas permitem que possamos trocar opiniões.

Bem vindo ao Pingas no Copo