domingo, outubro 28, 2007

Outros sabores

As modas da gastronomia apontam, actualmente, para caminhos que parecem, em muitos casos, tratados de ciência (eu sou um apaixonado pela ciência). Fico com a ideia que é esquecido o essencial (acredito que seja um pouco redutora esta consideração).
Tal como nos vinhos, surgiram inúmeros indivíduos que se lançaram desenfreadamente à procura de acepipes que demonstrem, visualmente, que têm classe e que possam contribuir para fazer um brilharete, junto dos amigos. Muitas vezes, não acrescentam nada, do ponto de vista gustativo.
Depois é sugerida a obrigatoriedade (se houver capacidade financeira) de correr em direcção de um restaurante, mais ou menos badalado, em que as propostas oferecidas tenham por base o estranho conceito: Cozinha de Autor. Estou, ainda, para perceber o que isso quer dizer. Parece-me que, em última análise, toda a cozinha é de autor. A que vocês fazem, a que o Ti Manuel faz na tasca, ali da esquina.
O que me leva a preencher estas linhas é a necessidade de partilhar com vocês sabores quase esquecidos. Para muitos, ou melhor para alguns, serão sabores tacanhos, simplórios, de pouca complexidade, que representam um passado que deve ser esquecido bem depressa. Limpo com um pano cheio de lixívia.
Foi com emoção que vi uma mesa coberta de compotas, marmelada, frutos secos, maçã bravo de esmolfe. O perfume largado impregnava a sala. Entranhava-se no corpo, na roupa. Os olhos humidificaram, ficaram brilhantes. "Ainda existem!" Um pequeno retalho de um mundo que caminha, a passos bem largos, para a extinção. Pertença de homens e mulheres sem malícia, que respeitavam, que compreendiam as ordens da Natureza. Pão escuro e queijo já envelhecido compunham o resto. Copos de curta capacidade serviam para molhar a goela. Por entremeio, ouviram-se estórias. Tudo muito simples, com uma ingenuidade quase chocante. Caramba, o que esquecemos.

Post Scriptum: Peço desculpa, por ter faltado à palavra. Não regressei a falar de vinho.

Post Post Scriptum: Em termos genéricos, o crítico de vinhos João Paulo Martins disse que, qualquer dia, um simples tomate, verdadeiramente natural, será considerado um produto gourmet. As voltas que o mundo dá!

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