sexta-feira, março 30, 2007

Quinta do Cerrado Encruzado 2006

Vou descansar, um pouco, nos próximos dias. O ritmo tem sido bastante alucinante, não dando muito espaço para falar com os amigos, com a família, com a minha filha. É estúpido perceber que tenho perdido horas, dias da minha vida, a tentar educar os outros, a dar-lhes o melhor que tenho, que consigo, sem ouvir: obrigado. Mágoa, ressentimento? Claro.
Vou até lá a cima. Desde o final de 2006 que não sinto os ares, os cheiros da terra. A erva do quintal deve estar bem alta, a vinha precisa de ser tratada. As janelas da casa devem estar cobertas de teias. Preciso de as abrir, deixar entrar o ar da serra. Depois sinto falta da couvinha, da chouriça, do borreguinho assado no forno. Do pão negro. Prazeres carregados de simplicidade, que muito aprecio.
O único elo que vou tendo é o semanário que recebo aqui em baixo. Vou vendo, reparando nas dificuldades do meu povo, daquelas gentes que (ainda) vivem . Estão decididamente votadas ao abandono. Deve ser uma maçada, um bocejo para o governo da capital ter que tomar conta do interior, daquelas pessoas meio brutalhadas. Seria mais interessante governar apenas a pequena faixa junto ao oceano. Será que o governo da capital terá alguma previsão para a desertificação total do interior (de norte a sul)? Será que as modernas políticas de saúde têm como objectivo acelerar essa desertificação? Começo a pensar que sim.
Para despedir-me, proponho um brinde com um encruzado. Uma casta branca que muito aprecio, pela delicadeza, pela mineralidade, pela classe que possui. Bem trabalhada pode dar origem a brancos interessantes, capazes de evoluir com dignidade. Ofereço, para este brinde, um Quinta do Cerrado Encruzado 2006. Com muitas sugestões de erva verde, viçosa, salpicada pelo orvalho. Flores de mimosa, de tília, das maias marcam presença. Bastas sugestões de pedra molhada, lascada, fazem recordar a ribeira, a água a bater com força nas fragas. Leve impressão de casca de maçã verde. Evolui, discretamente, para notas amendoadas, meladas. Sempre num registo delicado, suave e com alguma complexidade. Na boca, mostrou corpo, frescura, elegância. Ficou a um passo de subir na classificação. Nota Pessoal: 15,5

Post Scriptum:
Entretanto, façam-me um favor. Tomem conta desta casa. Vão vigiando. Deixo-vos as chaves. Um abraço a todos e até já!

terça-feira, março 27, 2007

Novamente no Algarve (com Barranco Longo)

Não é a primeira vez que provo vinhos da Quinta do Barranco Longo. Na altura, lembro-me ter dito que estava perante vinho que veio da praia (o que me valeu por parte de um anónimo ofendido a menção de "papa rótulos"). É sabido que a região do Algarve não é propriamente conhecida pelo vinho. São outras as atracções que levam muitos portugueses até lá. Não o vinho.

Rui Virgínia "Descobriu que o Algarve é uma espécie de palavra mágica, e que aliada a um vinho de qualidade, pode levar o produto muito longe, lá fora. O produtor, Rui Virgínia, diz que se trata de ter uma filosofia de vinhos. Na Universidade de Évora diz ter sido colega dos melhores enólogos do país. E eles, sempre que vinham ao Algarve, perguntavam-lhe porque não produzia na região vinhos com qualidade. Acabou por aceitar o desafio.
Dos 60 hectares de exploração que disponíveis, 12 estão ocupados com vinha moderna. O projecto já
tem 8 anos. Os primeiros vinhos saíram em 2004 com data de 2003. Foram vendidas 9 mil garrafas de rosé e tintos.
A convite do ICEP, os vinhos do Barranco Longo estiveram presentes no Wine Show London, um dos maiores certames da capital britânica dedicados ao consumidor de vinhos. E foi aí mesmo que o estreante monocasta Touriga Nacional 2004 conseguiu ser seleccionado pelo conceituado crítico de vinhos britânico Oz Clarke, para integrar uma prova temática que se repetiu em dois dias de feira."
Aliás, foi esse Touriga Nacional que provei.
"Projectos não faltam. Rui Virgínia quer rentabilizar a sua exploração agrícola dotando-a de estruturas com qualidade para proporcionar visitas à vinha e prova de vinhos. A ideia é ter também no Barranco Longo um restaurante, sala de provas, um show room, loja com produtos artesanais, e as tais visitas guiadas, não só pela vinha como pelos citrinos.
Um homem que acredita no potencial algarvio enquanto produtor de vinhos de qualidade, apela aos produtores que adoptem novas imagens, que optem pela diferenciação do produto."
Informações e foto retiradas deste local.
Bom, a ver vamos. Parece que este projecto é (quase) uma ilha numa região, onde a pressão urbanística, o betão, o alcatrão, não param de aumentar. É brutal a coacção que o nosso litoral sofre (de norte a sul). Choca-me, entristece-me observar, reparar na elevada densidade de construções, no aumento quase exponencial de prédios, de urbanizações, centros comerciais. Todo o espaço é aproveitado ao milímetro para cimentar, tapar. O verde, a natureza é algo que não interessa, que não vale nada. Toca a destruir. O interior arde, adoece, envelhece e morre. O litoral betaniza-se (esta palavra existe?) e enche-se de migrantes à procura do sonho. Dizem que é a evolução, o progresso. Devo ser muito antiquado. Falemos sobre os vinhos, que merecem ser falados.

Um rosé 2006, interessante. Um rosado, com alguma estrutura, que consegue não cair em excessos doces, açucarados. Presentes as habituais notas de morango, hortelã, rebuçado. Curiosa impressão a folha de tomate. Num registo sadio. Boca gulosa, frutada, onde pareceu-me sentir um saudável equilíbrio entre a frescura e o açúcar. Nota Pessoal: 14

O Reserva 2004, um tinto muito floral, pleno de frescura, onde pontifica, por todo lado, a fruta viçosa, no ponto ideal para consumo. Bastas sugestões de grão de café, cacau em pó, rebuçados. Aliás, lembrei-me muito dos cheiros que saltavam daquelas pequenas confeitarias de rua, onde se moía o grão de café no momento, os rebuçados eram vendidos avulso, as folhas de chá escolhidas pelo cliente. Original, sem dúvida. Nunca caiu na monotonia. Na boca, comportamento muito elegante, equilibrado, onde os sabores se sentem, se podem desfrutar livremente. Um vinho algarvio que poderá envergonhar nomes bem mais famosos. Este tinto vai directamente para a minha garrafeira. Nota Pessoal: 16,5

Um produtor que merece ser conhecido e bem conhecido. Arrisquem.

segunda-feira, março 26, 2007

4º DADO

Fazer quatro lançamentos e ter sempre sucesso é preciso ter a mão quente. É o que dizem os jogadores.
Dispensa grandes apresentações. Feito a partir de uvas do Douro (Quinta do Carril) e do Dão (Quinta da Pellada). Uvas escolhidas (e bem) por Dirk Niepoort e Álvaro Castro. Homens que não se contentam com o que têm. Continuam a descobrir novas coisas, a inventar, nas suas quintas, novos vinhos, desenvolvendo novos conceitos (pensemos no Pelada (mulher nua), no Diálogo). O consumidor agradece, e muito, esta constante explosão de ideias. Foi durante uma explosão de ideias, ocorrida em 2000, que estes dois senhores criaram um vinho chamado Dado. Paulatinamente enfiou-se no lote das preferências dos enófilos (pelo menos nas minhas). O rótulo é brilhante, naíf, esplêndido de simplicidade. O vinho pelo contrário, não é simples, não é vulgar, não é mais um. É um vinho!
Não consegui encontrar muitas palavras para definir o perfil, o carácter deste autêntido casamento entre as regiões do Dão e do Douro. Aliás, parece-me estar perante uma união consistente, com conteúdo, com futuro. Entrelaçam-se de forma (quase) brilhante a força, a robustez, a pujança do Douro, com o floral, o mineral, o silvestre do Dão. Não se percebe quem é que manda. Devia ser assim em todos os casamentos. Autêntica partilha de tarefas.
Para beber, para meditar, para desfrutar. Se um dia o encontrarem e o puderem beber, não se ponham a procurar aromas, sabores, problemas ou defeitos. Bebam. Foi feito para isso. Nota Pessoal: 17,5

Post Scriptum: Dado 2004

quinta-feira, março 22, 2007

À procura do Filão (Montes Claros Reserva 2004)

É o que dá ser um eno-dependente. Ser incapaz de controlar os ímpetos da descoberta. É doentio, e meio alucinante, esta necessidade constante de vasculhar novos vinhos. Como dizem os nossos amigos brasileiros: "garimpar".
Algumas vezes este garimpar é provocado pelo que se lê, pelo que se ouve. Então dois eno-dependentes de último grau, juntaram-se no meio da noite, meio escondidos, para garimparem e tentar encontrar o verdadeiro filão: Montes Claros Reserva 2004. Havia indicações de que seria algo extraordinário. No entanto, as impressões ficaram um pouco abaixo das expectativas. O filão não era assim tão valioso. Havia aqui, além, umas pepitas mas não na quantidade certa para ficarem satisfeitos.
Essencialmente o filão descoberto apresentava uma tonalidade granada/escuro de concentração mediana. Libertava aromas de média intensidade, a revelarem fruta madura e compota. O vegetal e ligeiro floral alegravam a noite. À medida que garimpavam brisas de baunilha, cacau em pó e tabaco de enrolar iam aparecendo, de forma discreta, quase imperceptíveis, mas acolhedoras. Foi preciso parar, por momentos, para terem a certeza do que cheiravam. Lá do fundo o balsâmico brotava, mais uma vez, de forma discreta. Na boca, comportamento mediano, onde se sentia a fruta, o vegetal entrelaçado com o cacau e a baunilha, onde uma corrente balsâmica que os acompanhava a um final de persistencia mediana. Um conjunto que não revela grande complexidade, valendo mais pela harmonia, pela discrição e elegância. Para a quantidade (120 mil pepitas) está bem feito.

Qualidades do Filão: Castas Aragonez, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Tinta Caiada. Estágio: 12 meses em carvalho francês e americano - 14% Vol.

Post Scriptum: Texto da responsabilidade dos Blogs Pingas no Copo e Copo de 3. Na generalidade as impressões destes dois enobloguistas foram, são idênticas. O que os distancia são apenas questões de pormenor, de cariz pessoal, de explicação difícil. Sobre o vinho a sensação com que ficamos é que estamos perante um vinho que dá uma prova interessante. Dá prazer ser consumido enquanto jovem. Claramente uma aposta ganha pela Cooperativa de Borba. Um vinho que custa na adega 5,30€ e que revela ser uma bela relação preço/qualidade. Apesar de tudo, existe um mas. Falta-lhe mais amplitude, um bouquet mais estimulante e com maior evolução, que não fique estático passados 15 minutos. Que evolua um pouco mais no copo.
Estávamos à espera de mais. É um facto. As informações que corriam por todo lado indicavam que estaríamos provavelmente perante um autêntico achado. Mas a realidade, pelo menos para nós, não foi bem essa. Continuaremos a garimpar, à procura de outros filões, de mais pepitas.
Copo de 3: 16
Pingas no Copo: 15,5

quarta-feira, março 21, 2007

Serra, o Mar e o Vinho

As montanhas moldaram-me. As rochas disciplinaram-me. Os vales, os rios ensinaram-me a escolher o melhor caminho. Sempre tive um grande fascínio, encantamento por eles. Ficava esmagado com o que via, com o que sentia, com o que ouvia. Lições da natureza.

Lembro-me à distância, que havia lá para os lados da casa da família, uma pequena colina, uma pequena formação rochosa. Era usada pela minha trupe como se tratasse de um baluarte. No topo estava o lugar do Rei. Um rei que era escolhido por votação secreta. Pessoalmente nunca ocupei o lugar. Sem qualquer pesar. Teve sempre em boas mãos. Dessa colina a vista, o olhar era assombroso. Nós éramos pequenos. Ficávamos acima das nuvens. Um Reino de defendido pelos eleitos. Uns putos que julgavam ser um conjunto de aguerridos soldados que lutavam árduamente contra as investidas dos estranhos. Aqueles povos que vinham do mar. Gente estranha, hábitos diferentes, linguagem mais complexa.
Não imaginávamos que a maior parte desses guerreiros estaria, está agora, a viver junto ao mar. O tal exército, está espalhado pelos vários pontos do império. Agora recordamos solitariamente os grandes feitos do passado. O que a fantasia da criança permite.
Passados estes anos, percebi que a natureza criou um bom lugar para mim. Ofereceu-me, ali para os lados do Sado, entre a Serra e a planície, uma terra para me acolher. Um local onde os bafos do mar, as brisas marítimas se encaixam graciosamente com os aromas das rochas, do mato, da fruta silvestre. Tudo bem envolvido, perfumado. Nunca pensei que era possível colocar tudo isto numa garrafa de vinho. Um vinho que nasceu a partir de uma casta que veio lá das montanhas, dos vales. A Touriga Nacional. O mestre foi desta obra foi Domingos Soares Franco. O Ano 2003. Nota pessoal: 17

Post Scriptum: Colecção Privada Domingos Soares Franco Touriga Nacional 2003

terça-feira, março 20, 2007

10 anos

10 anos é muito tempo. Há 10 anos tinha começado a dar os meus primeiros passos como professor. Acreditava, na altura, que era capaz de mudar alguma coisa. Há 10 anos, parecia que este país estava a aproximar-se do resto da Europa. Há 10 anos ainda conseguia viajar pela Europa (era solteiro, as despesas eram muito poucas). Ao fim de 10 anos, sinto alguma desilusão, um baixar de braços. Não vejo luz ao fundo do túnel. Será o fim da inocência?

Os 10 anos foi o tema escolhido para mais uma prova cega. Em 1997, começaram a surgir nomes que mexeram um pouco com o mundo enófilo. Alguns deles conseguiram tornar-se em ícones, outros nem tanto. Foram momentos de viragem nas ofertas disponíveis para os consumidores. Tenho a ideia que em 1996 e 1997 colheram-se os primeiros frutos resultantes da mundança de muitas práticas na enologia. Sustentação para estas afirmações? Nenhumas. É apenas o meu senso comum a falar. Foi de volta desta temática que o grupo de amigos, chamado Núcleo Duro (Jorge Sousa, João Quintela, Paula Costa, Francisco Barão da Cunha, Oliveira Azavedo e moi), se voltou a reunir, mais uma vez, no restaurante A Commenda, no Centro Cultural de Belém. As escolhas estiveram dependentes do que existia nas garrafeiras pessoais. Era o que havia. De qualquer modo, acabou por ser uma prova muito interessante, em que se avaliou o estado de alguns vinhos. Uma pequena amostragem.

Uma nota à parte: A disposição pelo qual apresento os vinhos é relativa aos lugares em que cada um ficou. As notas e os comentários são da minha responsabilidade, naturalmente.

Quinta da Leda 1997 (Ferreirinha). Um exemplo de consistência. Um vinho muito consensual, que se pautou pelo equilíbrio, pelo prazer que deu. Afinado. Nota Pessoal: 15,5

Casa de Saima Garrafeira 1997 (Bairrada). Um belíssimo baga. Fresco, elegante, com um toque aristocrático e acima de tudo apelativo. Uma bofetada de luva branca dada aos detractores da baga. Vale a pena guardar vinhos deste calibre. Muito bem. Nota pessoal: 16

Calheiros Cruz Grande Escolha 1997 (Douro). Linha doce, com a presença de cacau, de chocolate com leite. Num registo muito suave, calmo. A presença de algumas flores e mineral, aliviavam o seu lado doce. Boa evolução e para beber já (digo eu). Nota pessoal: 15,5

Pêra Manca 1997 (Alentejo). Um clássico alentejano. Dispensa qualquer apresentação. Um troféu desejado. Compotas, marmelada. Alguma evolução para sugestões terrosas e balsâmicas. No entanto, meio morto, a caminhar para a eternidade, para o altar. Poderei não perceber muito da cousa, mas a minha relação com os Pêra Manca sempre foi complicada. Há quem diga que é por minha culpa. Que seja. Nota Pessoal: 15

Quinta do Monte D'Oiro 1997 (Estremadura). O primeiro vinho de José Bento dos Santos. Continua em bom nível. Pujante e com complexidade. Deu sinais que ainda está para durar. Com boas sugestões silvestres e florais. Guardem. Nota Pessoal: 16

Quinta da Ponte Pedrinha 1997 (Dão). Um polémico vinho. Foi literalmente odiado e amado. Ninguém lhe ficou indiferente. Aromas muito complicados no início. Fechadíssimo. Enquanto os outros estavam lá em cima, este Dão feito por João Portugal Ramos, mantinha-se sisudo, quase mal educado. Quando os outros tinham morrido, apareceu ele. Difícil, com muitas sugestões de cacau preto, amargo. Tostado. Muito fresco na boca. Indicou que é capaz de valer a pena guardá-lo. Pessoalmente, gostei dele. Nota Pessoal: 16,5

Terminámos mais uma vez com um Casa de Santa Eufémia 20 anos. Excelente Porto. Complexo, perfumado, profundo de aromas e longo nos sabores. Que devo dizer mais? Que deliciei-me.

Post Scriptum: Está já agendada a próxima prova cega: Vinhos do Douro, mas sem a presença de Pintas, Chryseia, Charme, Batuta, Quinta do Vale Meão, Barca Velha e companhia. Demos lugar a algumas estrelas emergentes.

sábado, março 17, 2007

Dão

Continuando a olhar para trás, vejo que foi com o Dão que dei os primeiros passos nos vinhos tintos. As influências da família materna foram mais fortes que as do lado do pai (Douro Superior. Só se falava de vinho fino). É interessante, para mim, constactar este facto. Provavelmente não seria a região mais indicada para um jovem. Os vinhos mostravam pouca fruta, acidez elevada. Eram clássicos na forma e no conteúdo. Depois era (ainda é) uma região difícil, nada consensual. Vai continuar a ser um pedaço de terra complicada para fazer vinho. Os especialistas dizem que a tecnologia pode alterar o estado da coisa. Mas se actualmente andamos a ficar fartos de tantos acertos, de tantas técnicas, não será um erro corrigir tudo? Não será que andamos a brincar demasiado com os elementos da natureza?

O Dão é, apesar de muitas alterações de estilo, a terra dos vinhos para mesa. Que sabem melhor à mesa. Pessoalmente, continuem assim. Os americanos, os ingleses que se lixem. É à mesa que bebo vinhos. As provas, quando as faço, deixam sempre um vazio, porque fico sem saber se determinado vinho ganharia ou perderia com a comida pela frente. Provar, andar com o líquido na boca, deitar fora e pensar apenas em aspectos técnicos não é decididamente para mim. Não fui feito para isso. Gosto de transmitir emoções.
Foi de volta de um copo com Quinta da Fata Reserva 2003, que estas reflexões iam surgindo. Um tinto que aparentemente saiu das mãos de quem aprendeu na antiga escola. Na escola em que não se valorizava a fruta madura, sobrematurada, o chocolate, as extracções levadas ao máximo, a brutalidade. Nessa escola, aprendiam-se outros comportamentos, outros estilos. A elegância, a complexidade, a educação.
Mineral. A fruta envolvia-se de forma subtil com os aromas de cedro e pinheiro. A presença de cheiros, sopros vegetais recordavam e bem os fetos, a giesta, a caruma espalhada pelo mato. Desafiante.
A boca mostrava estrutura, com os taninos e a acidez bem colocados. Alinhados. Mentolado, fresco, com a madeira presente, mas bem envolvida, sem entrar em protagonismos exagerados. Fiquei com a ideia que ainda tem uma longa vida pela frente. Um Dão que mostrou (a mim) ser capaz de dar prazer agora e ao mesmo tempo indicar, sugerir que vai evoluir bem. Por menos de 8€. Uma pedrada. Nota Pessoal: 16
Post Scriptum:
Pergunto-me se não estarei demasiado agarrado a este estilo de vinhos?

quinta-feira, março 15, 2007

Brancos, a Vingança?

Brancos, vinhos brancos. Provavelmente terá sido com o vinho branco que comecei a beber vinho. O branco, durante muitos anos, era o único vinho que bebia (e mal). O tinto transmitia-me a imagem da taberna, da tasca (até agora este conceito mudou. Agora existem aquelas que são finas), do homem rude, vadio, de pouca finura e cultura. Não gostava. Nem do cheiro. Agora, é à volta do tinto que mais falo. É com o tinto que mais viajo, que mais imagino. São os tintos que disputo, que me fazem gastar os (poucos) euros que tenho. A volta que a vida dá.
O branco, entretanto, tinha-se desgraçado. Perdera-se no meio da avalanche. Esquecido. Ninguém o procurava, ninguém o queria. Passou a ser considerado menor, sem valor. Teve quase a perder a menção, o título de vinho. No entanto, parece que a balança está a equilibrar os pratos. Sente-se, pelo menos eu sinto, que os brancos nacionais estão a ganhar (algum) terreno. Vão surgindo, aqui, além, um conjunto de vinhos de qualidade elevada. Alguns deles capazes de evoluir com muita dignidade, ganhando complexidade, enriquecendo ao longo dos anos. Ao escrever estas linhas, estou a lembrar-me do Castelo D'Alba Vinhas Velhas 2003, bebido muito recentemente. Ainda estava jovem (um vinho que custa 10€). Alguns são concebidos como se fossem vinhos tintos (esta afirmação é representativa do preconceito que ainda existe).

Herdade do Meio 2005, feito exlusivamente de antão vaz. A casta alentejana. Um pouco preso de movimentos. Muito tímido inicialmente. A madeira parecia querer tapar o resto dos seus compadres. Foi necessário abaná-lo, para que a madeira se convencesse que devia recolher, por momentos. A calda de ananás, pêssego soltaram-se das amarras e suavizaram o vinho. A tília, a cidreira iam libertando brisas doces. Um leve aniz, envolvia-se com os frutos secos que apareceram na recta final. Um conjunto que me pareceu consistente, com algum equilíbrio e com um bom nível de complexidade. Depois de uma experiência menos positiva com a colheita de 2004, reconciliei-me com este alentejano, que parece ter condições para evoluir bem. Aliás, merece ser guardado durante mais um pouco. Ainda está um pouco pesado (para mim). Nota Pessoal: 15,5


Indo mais para acima, até ao Douro (caramba, tenho andado muito nestas bandas). Um vinho que se está a colocar paulatinamente entre os melhores brancos. Pareceu-me diferente, um pouco mais elegante, menos agarrado à madeira. Mais complexo, mais fino. Atreveria-me a dizer que este Gouvyas Reserva 2004 está mais feminino que o 2003. Mineral, repleto de fruta fresca, onde impressões de casca de pêssego, pêra, erva mostravam-se de forma firme e assertiva. Toques amendoados, de timbre suave davam o remate. Tudo sem sobreposições, pausado, calmo e sem pressas. Numa actuação que dava tempo para pensar, respirar e saborear. Na boca, estalavam silenciosamente sabores minerais, vegetais, frutados. Despedia-se piscando o olho, delicadamente, espicaçando-nos. Nota Pessoal: 16,5
Epílogo


Dois exemplos de bons vinhos. Mostram e bem que é puramente preconceito considerar os brancos como filhos de um Deus menor.

quarta-feira, março 14, 2007

Herdade de Torais 2005

E a pensar que as surpresas não continuavam. O problema será quando elas deixarem de aparecer. Boas, é claro. Daquelas que valem a pena partilhar com os amigos. As outras, não interessam. São para esquecer o mais depressa possível.
Um vinho (Alentejo) com um perfil muito curioso, muito jovial, repleto de juventude. Abusando da Língua Portuguesa, diria mesmo que temos aqui um vinho para divertir, para alegrar, para libertar tensões. Verdade seja dita, os alentejanos sempre tiveram fama de serem bons contadores de estórias, principalmente de anedotas. Aquele ar pachorrento e aquele sotaque, bastante curioso, é meio caminho para que esbocemos um sorriso, uma gargalhada. Bom, falemos do vinho (tinto) em questão. Este Herdade de Tourais 2005 pareceu possuir uma linha aromática que combinava correctamente (para mim) a fruta, de cariz fresco, com sugestões de tabaco, a tosta e torrados. Apelativo, redondo, sem aromas difíceis, sem nunca se tornar num chato, ou repetitivo. A lavanda perfumava de forma muito suave o vinho, aumentando a sensação de juventude e frescura. Na boca, os sabores confirmavam a sua postura jovem, alegre e fresca. Fino, vivo, de médio porte. Um conjunto que, acima de tudo, me pareceu muito bem feito, muito correcto e bastante guloso. Como diria o outro: Esta pinga escorrega bem. Quando assim é, eu gosto. Nota Pessoal: 15,5

Post Scriptum: Um vinho criado a partir de um lote com Aragonês (36%), Syrah (22%) e Trincadeira (20%). Alicante Bouschet (18%) e Touriga Nacional (4%). O mestre desta mistura é o jovem enólogo Diogo Campilho.
A Herdade de Torais está localizada em pleno Alentejo, entre Montemor-o-Novo e Évora.

segunda-feira, março 12, 2007

Ainda há surpresas (Casa de Burmester)

Outro dia um colega dizia-me, em tom meio desiludido, que já não acreditava em surpresas. A sorte da vida iria desenrolar-se num contínuo sem interesse, sem grandes factos. Restava-lhe esperar. Estava tentado a acreditar nele. De facto, existe uma sensação latente de que tudo está descoberto, encontrado. Parece que, neste mundo, tudo se sabe.
Mas não é bem assim. Abri uma garrafa de um vinho do Douro, que provavelmente ninguém lhe daria grande importância. Falo, naturalmente, por mim. Fácil de encontrar, bem distribuído pelas grandes cadeias comerciais. Nascido numa casa com muita história no Douro, no entanto não pertence ao clube dos eleitos (estou a falar de vinhos de mesa). Anda por lá, é de lá, mas poucos lhe dão a devida atenção. Pois bem, foi a pensar nestes pressupostos que fiquei surpreendido ao verificar que o Casa de Burmester Reserva 2004 teve a capacidade de me agarrar ao copo, de me espantar positivamente. Apanhado completamente desprevenido. É o que dá comprar um vinho baseado em preconceitos. Seria apenas mais um entre tantos que andam por aí. Não estava à espera de muito. Apenas serviria para conhecer mais um produtor. Mostrou um estilo, um perfil distante dos altos níveis de álcool, da força que possuem muitos vinhos do Douro. A nota dominante era a elegância, a calma, a descontracção, o relaxamento. Um tinto ideal para descansar, para reflectir sobre a semana de trabalho. Pareceu-me ser um exemplo de que pode existir um saudável compromisso entre o clássico e o moderno.

Vegetal, levemente especiado, onde suaves toques de tabaco, de folhas secas e chá dominavam. Constantemente perfumado por baunilha e alfazema. Sempre sussurrando, assobiando baixinho. Não é bomba, não estoira. Fruta de boa qualidade, com a maturação correcta, mantendo-se sempre fresca e viçosa. Boca fina, vegetal, bem propocionada. Os sabores de cacau, baunilha e tabaco eram os últimos a abandonarem. Fresco, muito fresco. Por 10€ num hipermercado, não posso pedir mais. Não devo, pois é quase um achado. Mais uma pedrada no charco. Nota Pessoal: 16

domingo, março 11, 2007

Fernão Pires da Ermelinda Freitas

Este calor caracteristico do mês de Março parece dizer-nos que não estamos muito longe do Verão. Por essa razão, ou por outra, acompanhei uns choquinhos salteados com hortelã e poejo fresco com um Fernão Pires da Casa Ermelinda Freitas. Terras do Pó (br) 2006. Mostrou um conjunto de aromas explosivos, exuberantes, frescos, bem vivos.

Pertence ao tal grupo de vinhos feitos para agradar a gregos e a troianos, a ingleses e a franceses,... Ainda bem. Precisamos de tréguas, porque as hostes enófilas não aguentam constantemente o rebuliço, os embates, os confrontos. É quase impossível estar sempre a falar, discutir grandes assuntos, grandes vinhos (para mim assim é). Um pouco de descanso, algum esvaziamento da mente, permite-me recuperar forças, preparar a mente e (assim) voltar à luta. Este refrescante Fernão Pires revelou ter um perfil repleto de sugestões a fruta tropical, cereja branca, casca de pêssego, sempre num registo aprazível, muito agradável. Com a acidez a não permitir que se torne enjoativo. Aqui entre nós, costuma ser um fiel companheiro, nos meus finais de tarde, lá para o lado de Pegões, sempre de volta de uns petiscos, de umas tapas como dizem os nossos amigos espanhóis. Nota Pessoal: 14

sexta-feira, março 09, 2007

Até onde podemos ir?

Até onde podemos ir quando falamos sobre um vinho, partilhamos as nossas impressões? Até onde devemos ir? Será que temos que impor, a nós próprios, algo parecido a autocensura? Penso com alguma regularidade, e cada vez mais, se não estaremos a correr um risco, por vezes, demasiado alto quando dizemos que não gostamos de um vinho. Sinto que existe alguma confusão na análise dos conceitos gosto/não gosto (da responsabilidade dos consumidores - o meu universo) e qualidade/sem qualidade (da responsabilidade dos críticos - outro universo), principalmente de quem lê as nossas opiniões.
Penso neste problema, enquanto escrevo, faço as minhas contas e atribuo aquilo que acho que determinado vinho merece, ou não. As questões são as mesmas e já foram várias vezes escalpelizadas aqui. Mas agora acrescento mais uma: Deverei evitar qualquer comentário a partir do momento que não gosto de determinado vinho, para não correr riscos desnecessários? Seja ele um reputado Barca Velha ou um pindérico Esteva? Devem os consumidores omitir as suas próprias opiniões?
Que termos mais educados devemos (devo) usar para caracterizar um vinho repleto de aromas queimados, tosta forte, onde se sentiam odores de carne queimada, chamuscada. Na melhor das hipóteses, haveria um bolo esturrado com passas de uvas e amêndoas pretas. Odores a alcatrão, incomodavam, chateavam. Na boca, mostrava-se sobrematurado, queimado, sem chama, sem alma, sem sabores que marcassem positivamente, com a sensação de madeira queimada, ou coisa parecida, teimando em não desaparecer. Estava firme (infelizmente para mim).
Será mais uma encomenda para os condenados? Para lhes relembrar as faltas que cometeram nesta vida? Se assim for, o Inferno é mesmo terrível. Demasiado. Não gostei. Nota Pessoal: 11,5

Post Scriptum:
Herdade do Pombal Reserva 2003, um vinho alentejano.

quarta-feira, março 07, 2007

Perfil (2004) de Luis Soares Duarte

Perfil? O que é um Perfil? O Perfil pode ser o quê? Geralmente pensamos no perfil quando observamos um rosto de uma pessoa, visto de lado. Os egípcios representavam as figuras humanas, sempre de perfil. Outras vezes, usamos o termo perfil quando queremos caracterizar uma pessoa, falar do seu carácter, da sua maneira de agir. Os geólogos, os geografos usam o conceito de perfil quando se referem ao solo, estratificado em camadas. Nos vinhos também empregamos, bastas vezes, o termo perfil para designar um estilo. Pode ser elegante, fresco, madurão, chato, plano, robusto.
Pois bem, Perfil (Douro) também é o nome de mais um vinho criado pelo enólogo Luis Soares Duarte. Um vinho com características muito interessantes, um pouco contra moda, deslocadas do habitual (acho eu). Pareceu-me ter um perfil pouco consensual. Extremamente mineral, sugerindo fortes sugestões de pedra lascada, lousa, granito molhado. Para quem é lá de cima, tentem pensar nas ruas, nas quelhas de pedra, numa manhã húmida, fresca, fria. Sempre gostei destes aromas, meio indefinidos e muito pessoais. Sinto saudades quando abro a porta do quintal e vejo que não existe granito, nem xisto, nem lousa. Apenas cimento. É o código genético a falar. Fortes toques de mato, húmus, manta-morta, pinheiro e cedro. Sempre fresco, nunca subindo no termómetro. Quando isso acontece, fico desconfortável, cansado. Nunca gostei do calor (exagerado). A fruta estava salpicada pelo orvalho matinal (até os meus dedos estão refrescar, enquanto escrevo). Um vinho com um perfil extremamente curioso e muito interessante. Pareceu-me que ainda estava fechado, com muito para revelar. Valerá a pena guardá-lo mais um pouco (acho eu). Gostei. Nota Pessoal: 16

segunda-feira, março 05, 2007

Entre o Inferno e o Céu

Desde que me conheço como individuo que percebi que os homens tendem a viver uma vida emparelhada entre o Inferno e o Céu.
A (im)possibilidade da existência destas duas realidades díspares, tem ao longo dos séculos, dos milénios, alimentado diversas teorias sobre os possíveis destinos que nós podemos ter, após a morte.
Confrontaram-me, desde puto, com a ideia que o Inferno era o local do sofrimento, da angústia, do desespero, da loucura, da dor vacilante. Das enternas filas de homens agrilhoados, encaminhando-se para a caldeira que se vai alimentando da carne. O Céu, pelo contrário, seria o cenário edílico, azul, com enormes prados. Cheio de abundância, de água fresca, e onde a dor seria apenas uma ténue lembrança de uma longíqua vida terrena. O local de todos os dignos, dos merecedores, dos eleitos.
Anos a fio, fui educado segundo estes dogmas. Autênticas cordas, que não deixavam respirar, pensar em liberdade. Não podia acreditar que tinha que viver preso a estes mundos. Sempre com o medo de ser castigado, de não ser um dos escolhidos. Arrisquei sair dessa vida castrante e ir à procura da (minha) verdade, daquilo que acho, que penso ser certo. Demanda infrutífera. Aqueles que continuaram a viver segundo a dualidade, parecem-me mais felizes, e em paz. Parecem seguros do destino que irão ter.

E os vinhos? Poderão prolongar o sofrimento do enófilo, mesmo depois de ter abandonado, deixado esta realidade? E aqueles que irão para o Céu estarão destinados a beber os melhores néctares, a deliciarem-se com os melhores sucos? Questões que me passaram pela cabeça enquanto andava de volta de dois vinhos da Quinta do Javali (Douro). Ainda olhei para o lado para ver se estavam, por ali, anjos ou diabretes. Mas não. Tudo simples mortais, como eu. O Reserva 2004 bem podia fazer parte da carta de vinhos dos condenados. Negro, opaco, escuro. Com sugestões químicas, metálico, ferroso. Muito extraído, onde um incomodativo aroma a pêlo de animal não me deixava em paz (teria um sátiro metido o seu dedinho?). Nota Pessoal: 12. No oposto estava o Grande Escolha 2004, misterioso, cativante, envolvente e muito desafiante. Colocava-me à prova, para saber se era digno dele. Fresco, mineral, repleto de brisas verdejantes e viçosas. Muita bergamota. Denso. Nota Pessoal: 17
Post Scriptum:
Caramba, é o que se costuma dizer: "Bem com Deus e com o Diabo." Tá certo. Mas eu não consigo. Vou tentar viver sempre com vinhos destinados ao Céu. Parece que na Terra, pelos vistos, fazem-se encomendas com sortes bem diferentes.

sexta-feira, março 02, 2007

Diálogo segundo Niepoort

Dizem que para duas pessoas possam falar, é necessário que exista um Diálogo. De facto, é com o Diálogo que esclarecemos muitas dúvidas, ultrapassamos e resolvemos muitos problemas. É pelo Diálogo que ficamos a conhecer (melhor) determinadas pessoas. É dialogando que nos apaixonamos, que nos odiamos, que nos matamos (uns dizem que não).

Depois existem vários tipos de diálogos. Densos, confusos, eruditos, divertidos, vazios, ... Diálogos para todos os gostos. Dizem (os meus colegas de letras) que é necessário existir um emissor e um receptor para acontecer um diálogo. Acredito, que seja assim. Caso contrário seria um monólogo. Com os vinhos, não é muito diferente. Se forem casmurros, sisudos, fechados, intrasponíveis, dificilmente chegaremos a eles. Tornam-se vinhos incompreensíveis. Outros, pelo contrário. Dizem tudo, não têm rodeios, são acessíveis e vão directos ao assunto. No essencial, precisamos de todos. É o equilibrio.

Dirk Niepoort deve ter percebido isso (acho eu). Os vinhos que vai criando vão atingindo, cada vez, mais consumidores, mostrando vários estilos (possíveis). Se com o Batuta, o Charme e até com o Redoma os diálogos possuem densidade, complexidade, ponderação. Com o Vertente e agora com o Diálogo 2005, diz-nos que também possível falar com ele de forma mais ligeira, mais directa, mais acessível, sem nunca perder o tino, a consistência, a qualidade. Os assuntos, por aqui, andam em redor do chocolate, da fruta. Sempre com jovialidade e muita juventude. Um diálogo equilibrado, necessário para descontrair após um dia difícil, em que não queremos pensar muito, nem puxar pela cabeça. Nota Pessoal: 14

quinta-feira, março 01, 2007

JM Grande Escolha 2003

Existem vinhos que impressionam os sentidos. Provocam, em todos nós, as mais diversas reacções. Boas, más. Não interessam para o caso. Mas vale a pena reflectir um pouco no seguinte pressuposto (sou eu que estou fazê-lo em voz alta. Ou melhor é a caneta que está escrevendo): Será que os vinhos que andamos a beber, em muitos casos, têm, tiveram como objectivo máximo, principal, ganhar uma prova de curta duração? Obter uma excelente nota, mostar o que sabem fazer perante um conjunto de juízes e depois serem (bem) vendidos? Infelizmente, ou felizmente, o dinheiro faz falta (em muitos casos, muita).
Tenho sido confrontado com inúmeros, diversos vinhos que revelam o seu potencial, todo o seu esplendor, todo o seu carácter nuns rápidos 5/10/15 minutos, como se fossem atletas de velocidade. Estarei errado? Gostaria de colocar as coisas noutra forma: Meter estes vencedores de provas rápidas em desafios de maior duração, mais longas e que tivessem de mostrar, representar vários papéis. Seriam capazes? Será que todos nós, os consumidores, ficaríamos com a mesma impressão, daríamos as mesmas notas? Hum...

O JM Grande Escolha 2003, um vinho do Douro criado pelas mãos que construíram o Oboé e o Fagote, aparenta ser um óptimo exemplo do que acabei de dizer, lá em cima. Projectado para cumprir o tal objectivo. Ficar bem classificado numa prova, onde a velocidade é fundamental. Mostrar o que sabe fazer em poucos minutos. Impressionar, fazer abrir a boca. Perfil aromático repleto de argumentos, adjectivos exóticos, diferentes. Longe do que habitualmente cheiramos e sentimos. Diria que estava perante odores vindos do oriente. Era quase impossível desviar a cara, olhar para outro lado, retirar o nariz do copo. Não dava. Aquilo era exotérico, estranho. Pouco europeu. Metia medo. No meio de todo aquele aparato, tive um pequeno momento de pausa e pensei: "Ok, belo vinho. Muito diferente. Bem feito. Estou a gostar. Mas agora se o colocasse na mesa, ao lado do prato, será que seria um bom companheiro? Será que não correria o risco de me fartar dele, de me chatear, de me aborrecer, acabando por o deixar de lado?" Voltei ao vinho, a prova dos 5/10/15 minutos ainda não tinha terminado. Havia mais para descobrir. Aproveitar em quanto dava. No entanto, não me esqueci das minhas dúvidas. Nota Pessoal: 16,5


Post Scriptum: Depois de ter lastimado a ausência de ideias, parece que o génio da lamparina me concedeu mais um desejo. Assim de repente, voltei a escrever, ou melhor, voltei a falar com vocês. Bem ou mal? Não sei, não é esse o objectivo. A ideia é mesmo partilhar o que sinto, o que acho. Bem ou mal? Não sei...

A folha está em branco

Ler, ouvir música, ver uma obra de arte, beber um vinho pressupõe que os nossos sentidos estejam despertos, acordados. Não vale a pena, eu não consigo falar destes prazeres se não saltarem para dentro de mim as emoções correctas (boas ou más). É como proferir palavras não sentidas, que não são nossas. O discurso fica vazio, impessoal, meio forçado. Inócuo. Prefiro calar-me e ouvir o que os outros dizem. Admiro os críticos que conseguem falar de tudo, em qualquer altura, em qualquer momento. Vou olhar para dentro de mim, procurar alguma chama, um laivo de calor que anime a caneta. A folha ainda está em branco e o desespero é grande ao vê-la assim. É muito tempo, são muitos dias.