segunda-feira, Maio 28, 2007

Uma Pausa. Até um dia!


A vida vai pregando partidas, muitas delas de gosto duvidoso. Existe sempre uma esquina, uma colina, um obstáculo que demora a transpor. Por vezes, torna-se impossível ultrapassá-lo. Neste momento, alguém próximo está defronte de uma barreira que terá de ultrapassar.

Irei ajudar, por agora, na transposição desse obstáculo. As minhas forças estão orientadas para essa árdua tarefa. O vinho, esse, passará para segundo plano. Recolherá às catacumbas. Voltarei quando conseguir derrotar as contrariedades desta demanda. A absurda e estúpida vida que temos.

Até um dia!

sexta-feira, Maio 25, 2007

Pink Elephant Rosé 2006

Dois conhecidos winemakers juntaram-se e criaram um vinho para o Verão, para os dias quentes. O português José Neiva e o australiano David Baverstock foram os autores deste Elefante Cor de Rosa. Um Rosé 2006 proveniente da Estremadura.

Aromaticamente leve e suave que consegue combinar razoavelmente a fruta vermelha com sugestões de hortelã, menta. A presença de um laivo a erva verde proporcionava um ambiente fresco, viçoso. Permitia algum equilíbrio, evitando que caísse em zonas doces e monótonas.
Na boca vegetal, frutado, fresco. Terminando com uma pequena pitada a rebuçado bola de neve.
Um rosado baptizado com um nome internacional, enroscado com srew cap e que consegue mostrar algum interesse na forma e no conteúdo. Vale pela curiosidade. Nota Pessoal 12,5


Post Scriptum: Raramente consigo falar muito sobre um vinho rosado. Tirando duas excepções (Quinta do Barranco Longo e Altas Quintas Crescendo) a tendência para ser parco em palavras é muito grande. Não permitem grandes dissertações. Se calhar a ideia é mesmo essa. Vinhos para pensar muito pouco e em assuntos pouco complexos.

segunda-feira, Maio 21, 2007

Dão (parte III) Quinta da Fata Reserva 2004

Tive, nestes últimos dois dias, sem saber muito bem o que beber. Olho para a minha garrafeira e reparo num conjunto de garrafas que, agora, pouco significado tem. Muitas delas foram compradas por causa das modas, porque determinado crítico disse que era do melhor que se fazia em Portugal. Porque ouvia dizer que era bom. Para entrar no clube dos respeitáveis era necessário, quase imperativo, comprá-los. A factura que paguei foi alta. Tenho, agora, muitos vinhos que pouco dizem. Bocejo de arrependimento ao olhar para eles. Penso nas elevadas quantias que dei.
Passei a ter apenas o que gosto (ou penso que gosto). Não estou para correr atrás de vinhos famosos apenas porque o são. Quero ter prazer, mesmo que digam que é absurdo isso acontecer com determinadas escolhas pessoais (estou a recordar-me do italiano do LIDL). Descobri nestes anos, de prospecção enófila, que a subjectividade da prova é de tal ordem que é uma tolice da nossa parte dar muita atenção ao que se diz, ao que se ouve, ao que se lê. Cada um sente o que deve sentir. Nada mais, nada menos. Nenhuma opinião deve ser menosprezada. É essencial partilhar os gostos e opiniões, por muito absurdos e absurdas que possam parecer. É deste modo que aprendemos, que crescemos.
Depois de um curioso e apaixonante Quinta da Fata Reserva 2003, teria todo o sentido partilhar com vocês o Reserva 2004. Nota-se o fio condutor. A matriz é muito semelhante. Aromas, odores de mato, do pinheiro, do cedro dominam. A caruma está bem vincada. Envolve fetos, cascas das árvores, folhas secas. É impossível não reparar nela. Um manto longo e espesso. As ervas aromáticas, de porte baixo, prolongavam e aprofundavam a matriz silvestre do vinho. O chocolate preto, bem amargo, aparecia discretamente. Cingia-se ao essencial. Sugestões a tabaco, caixa de charutos, transmitiam uma sensação de luxo e requinte. A canela dava-lhe um toque mais especiado, mais oriental. Lembrou que da Beira muitos abalaram para outras terras, bem mais distantes. Longe da montanha, da pedra.
Na boca, balsâmico, silvestre, longo, mastigável. Os taninos e a acidez estavam um pouco ariscos, meio irrequietos, com vontade de dizer muito, fazer muito. Todos os jovens são assim. Quem não gosta de ver e ouvir um jovem com sonhos? Os ponteiros do relógio encarregar-se-ão de os amaciar, educá-los.
Tem um longo caminho pela frente e, pessoalmente, aposto muito nele. Nota Pessoal: 16,5

sábado, Maio 19, 2007

Quinta do Além Tanha VV 2003 (Douro)

Ser confrontado esporadicamente com vinhos diferentes, que andam meio despercebidos, é acontecimento raro (apesar de todos os esforços). São para mim, vinhos que tentam acrescentar algo de novo. Ensinam, cativam. Prendem-nos ao copo. Tentam fugir da normalidade, da massificação, da uniformização que vai imperando, dominando, espalhando-se como uma praga. Tal como uma orda de cavaleiros bárbaros avançando pelos reinos do Ocidente que vão caindo uns atrás dos outros, incapazes de resistir ao impacto de tal força. Aqui, além, ainda vão surgindo núcleos de resistência. Tentam segurar a independência, a diferença. O enófilo (ando a usar este termo repetidamente. Mas o que é um enófilo, já agora?) bem tenta procurar nesses cantos conhecimentos que o façam crescer, aprender mais e olhar para o vinho de maneira diferente.
Por aqui, nesta Quinta Além Tanha, os aromas que brotam, que saltam do copo exibem a natureza, o que ela dá, o que ela oferece. A rudeza, a sobriedade. O Douro está bem marcado. Nota-se qualquer coisa de genuíno. Os perfumes não são criados em laboratório. É campo, é rio, é rocha, é terra. É mato, rodeado por giesta, por esteva. As flores de aspecto tacanho, pequenas, tal como o povo luso, são de uma beleza assinalável. Marcam pela sua pureza, pela simplicidade. Aparecem e desaparecem respeitando o tempo, as ordens lá de cima. Os urbanos, supostamente mais modernos, não apreciam.
Os sabores são difíceis. São pesados, por vezes agrestes, mas dignos, limpos e puros. É a natureza a mostrar-se, sem intervenção da máquina. Ao homem cabe-lhe a tarefa de ir vigiando o desenrolar dos acontecimentos. Prazeres que não devem ser desfrutados todos os dias. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum:
Para quem gosta de viver na natureza, longe dos luxos, das mordomias da cidade. Não é indicado para quem se julga fino.

quarta-feira, Maio 16, 2007

A Primavera em Casal Figueira

A Primavera simboliza o renascimento, o crescer, o ressurgimento de uma nova vida. Em redor sentimos o brotar das plantas, os primeiros passos dos animais. As crias dão sinais de vida. A liberdade anda por perto. As amarras do Inverno estão mais laças, mais fáceis de soltar. Os putos começam a surgir na rua. Vestem roupas de tez mais clara. Brincam até mais tarde. Riem mais alto. Os enredos amorosos tornam-se mais quentes. Eles e elas trocam olhares provocantes. Actos de acasalamento mais ou menos exuberantes. Os mais velhos sentem vontade de viver, de lutar, enxotar a tristeza, a solidão. Com os seus olhos enrugados olham para o futuro. Mais uns dias. Existe, ainda, muito para fazer.
Pressente-se a delicadeza das flores. O perfume que libertam invade os cantos, os recantos. Mesmo nas cidades, nas grandes e cinzentas urbes betanizadas, os reduzidos canteiros lutam ferozmente, com a ajuda da Primavera, contra os fumos, os ruídos. Nos campos, compõem uma manta colorida, retalhada. O verde domina.
A fruta, imberbe, está fresca, orvalhada. Está, ainda, discreta. Por perto, a água cristalina salta, esgueira-se por entre as fragas. Corre veloz, desesperadamente, até ao mar. Fresca, vibrante. Salpica a pele, invade o corpo proporcionando sensações de limpeza, de vigor. Fonte da juventude eterna. Os frutos secos estão humedecidos. Tem apenas a função de perfumar. Só mais para a frente é que se podem saborear.

Sente-se equilíbrio. Os pólos, os extremos estão alinhados. A natureza, neste momento, está calma, em paz. O Verão, que vem lá mais para a frente, é mais voluptuoso.

Em Casal Figueira, em 2005 a Primavera foi brilhante. Cumpriu-se a Tradição. Um vinho que reflecte quase na perfeição o cenário onde nasceu. Nota-se que é um produto da natureza, sem artimanhas, sem artefactos. Sem nada na manga. Nota Pessoal: 16,5

segunda-feira, Maio 14, 2007

Quinta do Valdoeiro PN11 Cabernet Sauvignon


Ora aqui está a prova de um Cabernet Sauvignon Português. 2001 é o ano da colheita.
Sempre olhei com desconfiança para os Cabernet portugueses. Não consigo encará-los sem franzir o meu sobrolho, sem esquecer o preconceito que nutro por eles (assumidamente). Os bons cabernet's além fronteirasos conheço de nome. As versões lusitanas não me satisfizeram até ao momento. Do ponto de vista enófilo, não acrescentaram muito à minha aprendizagem. Possuem marcadamente o mesmo fio condutor. São vegetais. Um vegetal verde, algo chato, arreliador. Tenho amigos que afirmam que sou exageradamente tendencioso, que descrimino. Não creio. Acredito (deixem-me pensar que sei disto) que não existirão grandes ganhos para o consumidor português com a existência de vinhos elaborados exclusivamente com esta casta francesa (estou a referir-me, naturalmente, a vinhos nacionais).
Este Quinta do Valdoeiro PN11 repetiu o que mais receava: a presença de um lado vegetal intenso, verde (estou a referir-me a cheiros maus). Mesmo após largo tempo de abertura, a marca desse aroma incomodativo mantinha e manteve fortemente o seu cunho (Odeio quando alguém insiste, mesmo quando não é desejado). Apenas desaparecia, momentaneamente, com o rodopiar do copo. Nesse espaço de tempo a fruta madura, compota, uma pitada de canela surgiam à superfície para respirar. Parado o movimento giratório do copo, o tal verde voltava a insurgir-se, não dando oportunidade a ninguém. Com outra rodopiadela libertou um toque a madeira envernizada e menta. O vegetal voltava sempre emergir. Insistente.
Na boca, com pouca alma, outra vez vegetal (nunca repeti tantas vezes a mesma palavra, como agora). Taninos finos, quase despercebidos, tímidos. Prolongamento muito mediano e um final de pouca memória. Valeu pelos momentos de liberdade que esporadicamente oferecia (não eram maus de todo). Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum: Este vinho, foi em tempos, bem classificado pela Revista de Vinhos. Foi esta marca que me levou a comprá-lo. As opções, também, não são muitas. No entanto, apontaria como o mais interessante Cabernet Sauvignon português o Quinta/Palácio da Bacalhôa.


sexta-feira, Maio 11, 2007

Fraga Alta (Douro)

Depois de um diferente e curioso Quinta dos Romanos, Lucinda Todo Bom lança uma gama baptizada Fraga Alta. Um Tinto de 2003 e um Branco de 2005. Vinhos que se situam em patamares de qualidade e interesse muito inferiores.

O tinto fez-me colocar os pés no chão. Regressar à Terra, olhar para as dificuldades da vida. Dos espinhos que existem, das barreiras. Existe uma velha e conhecida expressão muito acertada: "A vida não são apenas rosas." Juntamente com o RHEA, vai engrossar o grupo daqueles vinhos estéreis, infelizes.
Um comportamento de difícil análise. Completamente mal vestido. Sem qualquer aprumo, mal amanhado. Teimava em apostar nas sugestões ferrosas, na ferrugem, no aço, nos couros. Carne ensanguentada. Um cheiro complicado. Na boca, muito aguado, sem qualquer presença de sabores. Entrava, passava e despedia-se sem sabermos. Indiferente. Nada mais. Nota Pessoal: 11

Salvou-se o branco. Aromaticamente parecia ter vontade de apresentar fruta branca, calda de ananás. Um leve toque resinoso e anisado davam-lhe algum interesse. Tudo sem grandes intensidades e complexidades. Na boca (apenas) fresco, plano, meio liso. Parcos sabores. Sem grandes estórias para contar. Um pouco melhor que o seu irmão tinto. À tangente. Nota Pessoal: 12

Ainda vão existindo vinhos, aqui e além, que conseguem ter a particularidade de pouco ou nada dizerem. Não provocam a tal revolução de aromas, de emoções, de sensações. São vazios no conteúdo e na forma. É esta discrepância que encontro nos vinhos portugueses que irrita particularmente (o Douro não é excepção).
O Céu e o Inferno convivem livremente. Misturam-se de forma provocatória. Confundem o consumidor, o mortal. Presumo que fará parte das festividades de anjos e demónios observar o sofrimento enófilo. Pelo meio, entre estes dois mundos, prolifera um vasto leque de vinhos indefinidos, pobres, sem qualquer interesse. Quase que me atreveria a dizer: sem meio termo.


terça-feira, Maio 08, 2007

RHEA, segundo Rui Cunha


Depois de duas interessantes passagens pelos vinhos do enólogo Rui Cunha, nunca me passaria pela minha cabeça que um nome tão épico fosse sinal de jornada de infelicidade enófila.

RHEA 2005 (Douro), um tinto que teve a amabilidade de ser muito parco (demasiado) em ofertas. Perdoem-me, eventuais exageros da minha parte, mas o que mostrou (a mim) apenas trazia à memória aromas e sabores bastante complicados, estranhos, muito pouco atractivos. Queimado, sugestões a borracha. Carvão. Em certos momentos, surgia um hálito a madeira queimada, torrada, preta. Para quem se habitou a viver no meio dos incêndios, lembrar-se-á do cheiro que transmite uma floresta calcinada, no dia seguinte. Um cheiro forte, pesado, triste, sem alegria. Aromas que queremos esquecer, desejando que a floresta volte a renascer. Na boca, passagem rápida, célere, sem memória. A evolução que foi tendo não chegou para me fazer esquecer o passado. Nota Pessoal: 11
RHEA 2006 (Douro)
, um vinho branco com mais interesse que o tinto. Fruta tropical, onde o ananás, a toranja, a lima iam marcando presença. A erva verde, os espargos davam-lhe vivacidade, frescura e alegria. Notava-se vagamente alguma mineralidade. Na boca tentava apresentar-se crocante, mineral, mas sem conseguir deixar marca. Provocava uma sensação vazia, meio inócua. É pena, pois prometia mais. Igual a tantos. Nota Pessoal: 13

Pensando nas estrelas, vejo que as minhas viagens não têm sido muito felizes. Canopus, atribulada. RHEA fiquei pelo caminho. O espaço, o cosmos não é para mim. Decidamente não são vinhos para inventar para grandes estórias.

Algumas notas sobre a palavra RHEA. É a segunda maior lua de Saturno. Totalmente gelada. É também o nome da mãe dos deuses, filha de Úrano e de Gaia. Vasculhem pela internet que encontram muitas informações.

Como já disse, é um nome interessante, com carga mitológica forte. Algo exagerado para baptizar vinhos sem alma. Acredito, apesar de tudo, que possam evoluir positivamente. Sem querer tornar-me chato, repetitivo, transporto para mim as falhas que possam ter existido na análise aos RHEA. Nem todos entendem os deuses e os seus desígnios.

domingo, Maio 06, 2007

Novo Branco Dona Ermelinda 2006

Tive recentemente numa apresentação nas instalações da Produtora Ermelinda Freitas (Terras do Sado). Uma excelente ocasião para desfrutar da imensa paisagem arenosa de Fernando Pó e da vinha que está defronte desta casa sadina. Um cenário relaxante.
Uma oportunidade única para provar toda a gama de vinhos desta produtora. (alguns deles já abordados neste blog). O novo Moscatel abriu a sessão (apresenta uma excelente relação preço-qualidade). Desde que saiu para o mercado que me tornei num fã deste licoroso. O Touriga Nacional, o Alicante Bouschet, o Syrah, Quinta da Mimosa, Terras do Pó Reserva, todos de 2004, com mais ou menos variações de comportamento, apresentavam um traço comum. Quentes, raçudos, modernos, com cores profundas. A minha preferência caiu para o Alicante Bouschet. Do outro lado, um Quinta da Mimosa muito bruto, extremamente jovem. Continuo a não ter bom entendimento com este tinto. Típico vinho de prova, que impressiona, mas de difícil combinação gastronómica. O topo de gama Leo D'Honor 2003 encerrou a minha viagem pelos vinhos. Um belo tinto castelão (uma casta que assumidamente não nutro grande paixão), que ombreia com os melhores vinhos deste país. Pareceu-me mais afinado, menos exagerado que nas versões 2001 e 1999. Olhando para o meu passado enófilo, diria que esta última colheita está muito mais sensual, exótica, com mais classe e que me agradou bastante.
Bom, mas a novidade que gostaria de partilhar com vocês é o novo vinho branco (foi primeira apresentação ao público). Arinto, Fernão Pires e Chardonnay compõem o lote. Com um estágio em barrica a rondar os 2 meses. Este Dona Ermelinda br 2006 (com o mesmo nome do tn já existente) é o resultado de uma feliz combinação entre três castas muito diferentes entre si. Actuou de forma organizada e disciplinada. Fruta, lima, vegetal fresco envolviam-se de forma correcta com a madeira, que nunca se sobrepôs em demasia. O interesse deste vinho, o modo como ele se apresenta proporciona ao provador a oportunidade de tentar descobrir no copo as diferenças das castas. A frescura oferecida pelo arinto e fernão pires seguravam o vinho, equilibrando-o, evitando que ficasse pesado (do outro lado estava o chardonnay e a madeira). Boca com alguma untuosidade, crocante. Um final marcado pela amêndoa. Pessoalmente, gostei dele e combinou bem com uma cataplana de cherne servida ao almoço. Assim que ele aparecer nas prateleiras, provem-no. Depois digam qualquer coisa. Nota Pessoal [15-15,5]


Post Sriptum:
O espumante que esperava provar, ainda não está pronto. Aguardemos.

sexta-feira, Maio 04, 2007

Fiuza Premium 2004

O Ribatejo é uma região que tem tanto de apaixonante como de incaracterístico. Consegue conciliar aspectos culturais, sociais, identificativos de outras regiões do país. A norte apresenta-se beirão, mais verde, mais húmido. A sul mostra um ar quente, mais sereno, influências do vizinho Alentejo. Uma região criada, separada a partir de outra província; Estremadura (também esta culturalmente muito incaracterística).
Pessoalmente, e apesar de não viver no Ribatejo, (vivo numa vila que está colada a esta província e que partilha inteiramente os mesmos usos), observo com alguma admiração o que é viver, com fervor, uma das mais fortes tradições dos Ribatejanos. A paixão pela festa brava, pelo campino, pelo touro. Vou tentando, de modo bastante analítico, compreender, mas dizem que é algo que não se explica, não se aprende. Vive-se. Acredito.

Sobre os vinhos, e depois de um passado agarrado ao vinho a granel, têm surgido no
s últimos anos um conjunto de produtores que, ano a pós ano, colocam à nossa disponibilidade um leque (muito) interessante de produtos. Todos eles caracterizados por boas relações preço-qualidade. A título pessoal, aprecio mais os brancos ribatejanos. No entanto, partilho com vocês um tinto.

"A família Mascarenhas
Fiuza
é herdeira de uma tradição secular na Viticultura e na produção de vinhos. Já possuidor de vinhas situadas no Ribatejo, na região demarcada de Santarém, e plantadas com castas exclusivamente portuguesas, nomeadamente Touriga Nacional, Aragonês, Vital, Castelão e Fernão Pires entre outras, Joaquim Mascarenhas Fiuza adquire a Quinta da Granja onde decide plantar castas de origem francesa, sendo elas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc. Neste conjunto de vinhas são produzidos vinhos de monocastas francesas e vinhos com castas portuguesas.
Detentora de quatro quintas, todas situadas na zona geográfica do Ribatejo, possui uma área de produção de 120 hectares de vinha, distribuídos pelas zonas de Almeirim, Alcanhões, Romeira e Azambuja. Estas quintas são dotadas de excelentes infra-estruturas desde os tempos em que os grandes ranchos se deslocavam e ali permaneciam durante as campanhas."
Fiuza Premium 2004
, um vinho ribatejano bem composto, de vestimenta justa ao corpo. Com estilo marialva e alguma fidalgia.
Cheiros frescos, onde as flores combinavam com as ginjas, a hortelã, o café, o chocolate. Num registo ameno, conciliador, tal como a imagem de uma lezíria. Boa amplitude, espaçoso. Sem apertos.
Na boca, manteve a linha fresca, onde acidez (assertiva) marcava o timbre, o compasso do vinho (pareceu-me indicar alguma capacidade para evoluir). Bom prolongamento, finalizando a demonstração com sabores a grão de café e chocolate em pó.
Um vinho ribatejano muito correcto, bem aprumado e saboroso. Moderno, com um bom nível de complexidade. Um vinho para agradar, sem descurar outros voos (bem mais altos). Nota Pessoal: 15,5

quinta-feira, Maio 03, 2007

Prova à Quinta (Quinta de Foz de Arouce)

E como tal aqui vai a minha participação na Prova à Quinta.

Escolhi um vinho elaborado com a casta cerceal. Um Quinta de Foz de Arouce (br) 2005. Faz algum tempo que ando interessado nos vinhos desta casa beirã e não é a primeira vez que abordo o branco do Conde de Arouce (no arranque deste blog publiquei uma nota de prova sobre o 2003). Este 2005 apresentou-se inicialmente com notas petroladas, lembrando combustível, que foram evoluindo posteriormente para mineral, sugerindo lasca, lousa (tentem imaginar a água a bater nas rochas). A caminhada aromática alongou-se pela erva verde orvalhada, casca de maçã, lima e ananás. O estágio em madeira foi aparecendo de forma suave, sem nunca incomodar a prova. Amêndoas e nozes, envolvidas por um fio de mel, apenas enriqueceram o conjunto (e bem) e nunca se puseram em bicos de pés.
Na boca sempre fresco, mineral, frutado, limonado. A madeira bem posicionada (mais uma vez). Um vinho com carácter, com personalidade e que recordou, diversas vezes, os tais brancos da Bairrada e do Dão que fizeram história. Uma opção muito interessante. Consegue conciliar tradição e modernidade. Aposto que é capaz de aguentar mais uns tempinhos, com saúde. Nota Pessoal: 16

Avancem com as vossas propostas.