quinta-feira, junho 28, 2007

Quinta da Pigarça 2004 (Alentejo)

Do Alentejo, da grande província do Sul, bem no meio do calor tórrido e escaldante, nasce um vinho tinto que apresentou algumas curiosidades. Conciliou aromas quentes, típicos da planície, com fugazes sugestões matinais, meio orvalhadas, que pareciam querer aliviar a temperatura do vinho (o calor assim obriga). A fruta, apesar de se mostrar bem madura, pareceu-me estar num correcto ponto de equilíbrio. Suculenta e sumarenta.
Na boca mostrou um estilo macio, suave, redondo, a indicar-nos um consumo rápido e despreocupado.
Não me pareceu que seja para grandes guardas, mas merece que seja conhecido. De fácil empatia. Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum: Nasceu em Cuba pela mão de João Canena.

terça-feira, junho 26, 2007

Lokal Silex 2005

Filipa Pato tenta com os Lokal (Silex e Calcário) reproduzir, renascer os antigos garrafeiras, os antigos vinhos do Dão e da Bairrada. Vinhos que transmitem no copo o poder da terra, a rudeza do clima, da natureza.
O Silex (foi vinificado em casa da Enóloga) é na sua esssência um vinho do Dão. Criado maioritariamente com uvas da castas Touriga Nacional, retiradas de uma vinha situada na zona de Vila Nova de Tazem (concelho de Gouveia).
Um vinho contra corrente. Não mostra o perfil dos modernos vinhos do Dão. Não querendo ser um saudosista, diria que, agora, existe a obrigação, a necessidade de apagar um passado (com momentos felizes e infelizes), metê-lo debaixo do tapete, colocá-lo atrás da cortina. A nova geração de vinhos do Dão encaminham-nos para prazeres muito diferentes. Vão ao encontro de aromas e sabores mais consensuais, mais urbanos, mais fáceis. Tornam-se mais apetitosos, é certo, mas perdem a sua alma, o seu carisma, o seu encanto. O mercado, a pressão das vendas assim o determina. Entendo.
Este Lokal, pelo contrário, tenta recordar o que eram os velhos vinhos do Dão, onde o chocolate, a fruta madura, as compotas não eram tidas nem achadas para o assunto. Dominam as sugestões minerais, com fortes impressões a pedra lascada, a granito molhado. Marcam positivamente o vinho. Tudo envolvido por fartas inspirações silvestres e florais. A presença de uma rusticidade forte, marcante, muito saudável, transportam-nos automaticamente para uma época em que tudo corria de modo diferente. As estações do ano marcavam os ciclos de vida e de morte. A natureza dava, a natureza tirava. Bem diferente da velocidade louca, estonteante que levamos nesta vida plastificada do século XXI.
Está ainda fechado, continua pouco esclarecedor, enigmático. Para durar. Vai crescer, vai tornar-se mais elegante, mais acetinado, mais aveludado (palavras que também desapareceram do léxico enófilo). Coloquem-no ao pé de um prato robusto, de um borrego, de uma chanfana, de um assado de vitela bem puxado e ele brilhará.
Feito por uma senhora para homens de barba rija. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: É interessante a escolha do nome Silex para este tinto. Identifica a rocha usada na construção de armas, de pontas de setas.


segunda-feira, junho 25, 2007

Tributo 2005

A definição de Tributo, como sabemos, possui vários significados. Na moda, a mais actual, a que surge em grande parte dos meios de comunicação é relativa ao que pagamos ao Estado e que aumenta exponencialmente todos os anos. Inversamente proporcional ao que ganhamos. Dizem que é a bem do país. Percebo! É a nossa enorme contribuição para o sustento dos políticos, da gentalha que manda em nós e que determina apertar a barriga (que está vazia). Outro significado, muito mais digno, mais nobre, é quando fazemos uma homenagem a alguém ou a alguma coisa que nos marcou. É um acto de reconhecimento. Tentamos com isso evitar que esse alguém ou coisa caia no esquecimento.

O tinto ribatejano Tributo possui o último epíteto em honra do pai do autor. Fechado inicialmente, de tez escura. Apresentação tímida, pouco dialogante. Quase a roçar a antipatia. Foi despertando lentamente para uma mineralidade muito interessante e que marcou toda a prova. Bálsamos, canela, caixa de tabaco, folhas secas, sugestões a pinhal e a terra foram aparecendo numa cadência certa. A lição parecia estar estudada. Um lado floral, meio indefinido, enriquecia ainda mais o vinho.
Na boca, mostrou um corpo mastigável, repleto de fruta fresca bem envolvida pela madeira. Acidez e taninos vivaços, ariscos, acabaram por estragar, um pouco, a performance. Estavam aparentemente deslocados do resto conjunto. Necessita de corrigir estas falhas. O avançar da idade irá fazer-lhe bem. De qualquer maneira, fiquei com a ideia que temos aqui mais um vinho para a mesa, para ser bebido acompanhado.
Um estilo que aprecio muito e que gostei. Original e pouco evidente. Não é indicado para aqueles que gostam de facilidades. Nota pessoal: 16

Post Scriptum: O meu Tributo a todos os pais e mães.

domingo, junho 24, 2007

Loureiro

Assumidamente não sou um grande consumidor de vinhos verdes. É muito raro beber estes brancos. Um preconceito enófilo assumido várias vezes por mim (mais um). Uma vez por outra lá me atrevo comprar um alvarinho. O Deu-la-Deu é a (minha) escolha natural. De resto, poderei dizer que vivo num deserto (palavra que anda na moda).
Desta vez, arrisquei com um Loureiro. Um Solar das Bouças 2005 que acompanhou despreocupadamente umas enguias grelhadas nas brasas. Peixe característico em Alcochete. Petisco popular no passado, iguaria no presente. Um branco fresco, com sugestões de lima e calda de fruta a dominarem o espectro aromático. Na boca, com amplitude mediana que satisfazia o suficiente. O chamado vinho honesto que cumpriu seu papel. Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum:
Lembram-se do Muros Antigos Escolha do Anselmo Mendes? Um belo vinho que merece ser bebido até à última gota.


sexta-feira, junho 22, 2007

Regius 2005 (Alentejo)

Um vinho alentejano em que os couros, a camurça, o vegetal, nuances a casca de árvore envolviam-se timidamente com algum tabaco e baunilha. Sentia-se aquele toque quente, plano, característico da planície. Directo, correcto, limpo de aromas e de sabores, sem grandes complexidades ou desafios. Cumpriu a sua função.
Um vinho para acompanhar umas rodelas de linguiça, de morcela, envolvidas por uma grada fatia de pão de Almodôvar. Pão que mais aprecio. Ácido, amargo e que contrasta muito bem com a gordura do fumeiro. A minha mulher (alentejana) diz que é um pão complicado, que lhe falta alguma subtileza. Prefere o da Vidigueira. Terá razão.
Ainda no pão, desde pequeno que me habituei ao pão complicado, pobre, feito de centeio escuro, pouco afinado. Quando era trigo, preferia o de Poiares (uma aldeia de Freixo de Espada à Cinta). Enorme e de forma circular.
Quanto ao vinho, vale a pena provar pela curiosidade. Pouco mais. Serve essencialmente para aumentarmos o nosso portefólio de conhecimentos enófilos. Nota Pessoal: 13

Post Scriptum:
Monte do Limpo, Monsaraz.

quarta-feira, junho 20, 2007

Pequenas Quintas


Palavras, epítetos, como pequeno, pequena, nem sempre representam menos, pouco valor, insignificante, mesquinho. Por vezes, podem quer dizer; cautela, carinho. Quantas vezes chamamos aos nossos filhos: "pequeno, pequenote" como sinal de afecto?
Este vinho do Dão chamado Pequenas Quintas Reserva 2004 bem pode ser enquadrado nesta última definição. Temos, aqui, um vinho beirão que aparentemente beneficiou de bons cuidados na sua concepção, tanto na forma, como no conteúdo que apresenta.
Aromaticamente muito aprazível, cordato, perfumado. Cheiros a pedra, granito molhado, lousa, despontavam com firmeza marcando toda a prova. As flores sentiam-se, andavam por muito perto. Manchas florais que enriqueciam delicadamente um conjunto que tentou ser abrangente e elegante. Alfazema, hortênsia, cidreira, lavanda transmitiam uma aragem envolvente, cativante.
O toque de modernidade surge com o aparecimento de chocolate preto. Um rasgo de tabaco juntamente com a baunilha encerram um desfile de aromas, de sugestões interessantes que a memória se encarregava de guardar.
Na boca revela ter estrutura suficiente e equilíbrio. Acidez e taninos indicavam, ou melhor pediam um prato. Para beber acompanhado.
Aparentemente este vinho fará uma longa caminhada. Notava-se alguma segurança e solidez. A decadência, o declínio está ainda (muito) longe. Necessita, apenas, resguardar-se mais um pouco, alinhavar alguns pontos. É assinalável a classe que (já) demonstra e tem qualquer coisa dentro dele que é conhecida. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum
: As saudades da escrita, da partilha, eram muitas. Demasiadas. Aproveitei um momento de acalmia, de serenidade para regressar. Ela perguntou-me porque não continuava escrever. Regressar à normalidade ajuda a ultrapassar as adversidades. Os temores continuam por perto, mas estão mais domados (acho eu). O medo inicial, o desconhecido, tinha uma dimensão quase sobrenatural. A fragilidade do ser humano é enorme.Post Post Scriptum: As flores são lá da terra. Nascem por meio das pedras.