domingo, Julho 22, 2007

Uma Pausa para Férias!


Está na hora do descanso anual (é mais uma das tantas rotinas que temos). Recarregar as baterias ou substituí-las. Uma ida até à praia (aqui entre nós é coisa que abomino, mas as obrigações familiares assim o ditam). Depois uma passagem pelas minhas montanhas.

Voltarei lá mais para a frente. Entretanto matem o calor com bons brancos. Boas Férias para todos vós.


Post Scriptum:
Tomem conta da casa. Cada um de vocês tem a chave.


quarta-feira, Julho 18, 2007

Munda 2004, outro Dão diferente

Tal como as pessoas, os vinhos podem revelar duas caras. Aquela que revelam ao mundo pelo rótulo e a outra que se encontra dentro da garrafa. São vinhos que nos enganam, que baralham as cartas e destróiem muitas das nossas eno-concepções. Concepções que, em muitos casos, são alternativas, baseadas unicamente no senso comum, na experiência de vida.
Se não soubesse que estava numa prova (cega) de vinhos do Dão, diria que em determinado copo não estava, não podia ser um vinho daquela região. As sugestões aromáticas, que saiam em catadupa do copo, possuíam um registo longínquo do que esperamos destes vinhos beirões (começa a não ser caso raro). Cheiros, profusões doces, tal como este alfrocheiro, tinham uma postura provocante. Muito caramelo, bastante cacau em pó e canela proporcionavam sensações meio excêntricas (a lembrar os inúmeros beirões que foram até ao Brasil nos finais do século XIX, à procura de riqueza. No regresso construíram enormes palacetes). Licores embebiam o grão de café e a tosta. Vieram, ao de cima, as memórias daquelas velhas mercearias onde, no cimo do balcão de mármore, estavam aqueles enormes frascos de vidro com drops, caramelos e outras guloseimas. Do outro lado, do balcão, pequenas gavetas resguardavam o café em grão, as folhas de chá. As doses, a pedido, vinham embrulhadas em cartuchos de papel pardo.
Um leve aroma húmido era a única sensação que o vinho transmitia e que eventualmente poderia identificar o território natal. Cheirava bem, cheirava muito bem.
Na boca fino, subtil. Notava-se que este tinto teve muitos cuidados, muitos carinhos. Construído segundo uma linha bastante moderna, bastante urbana. Pessoalmente, falta-lhe um pouco mais de terra, de mineral para se tornar num enorme vinho. Mesmo assim gostei e não foi pouco.
Uma feliz incursão de Francisco Olazabal (Quinta Vale Meão) no Dão. Aguardarei pacientemente a continuação deste projecto. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum:
Mais outro que é diferente.

domingo, Julho 15, 2007

Quinta das Marias (Colheita 2003 e Alfrocheiro 2004)

Compartilho com vocês mais umas passagens sobre outros vinhos da Quinta das Marias. Dois tintos. O Colheita de 2003 e Alfrocheiro de 2004.
O primeiro é possuidor de um estilo, de um traço, característico de um vinho típico do Dão (pelo menos é o que acho). Manifestava muitos apontamentos de pinheiro, de caruma, sempre com uma envolvência balsâmica muito presente. A fruta é silvestre. Tudo por cima de uma extensa cama de fetos e restolho. Termina com grão de café, bem vivo e fresco. Numa intensidade média, equilibrada e aprumada. Na boca, o corpo possuía porte médio. A dupla taninos/acidez pediam um prato, algo para comer, para dialogar. Mastigavam-se sabores silvestres, balsâmicos. A baunilha e o tabaco encerravam a passagem pela boca. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum 1: Foi provada a garrafa 2126 de 6600.
O Alfrocheiro de 2004 muda completamente a história. Cheio de modernidade. Atreveria-me a dizer que nada tinha que o identificasse com o Dão, com Portugal. Voluptuoso, carnudo, cheio de pecado. O perfume que brotava de dentro do copo estava marcado por sugestões mentoladas, pela fruta bem preta (espero não me ter enganado na cor), pelo chocolate preto, tudo bem embrulhado por sugestões tostadas, onde se notavam algumas aparas de estilo mais exótico. Viciante, muito insinuante. Roçando, em certos momentos, a depravação. Na boca, todo ele parecia-me muito limado, quase sem arestas. O doce da casta, bem presente, marcava a permonce do vinho. Acima de tudo, um vinho muito guloso, que sabe bem, muito bem. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum 2:
Provei a garrafa 22 de 1480 exemplares que foram lançados para o mercado.


quarta-feira, Julho 11, 2007

Touriga Franca da Quinta do Cachão

Uma vez por outra, lá surgem vinhos que apresentam qualquer coisa de novo. Aqui , além, vão dando mais graça à paixão do enófilo. Animam esta louca e enorme caminhada. Procurar, provar vinhos diferentes. A sorte saiu a um Douro. Quinta do Cachão Touriga Franca 2004. A primeira expressão aromática que proferiu: iogurte de morango. Perdoem-me este abuso eno-linguístico. Mas tenho sempre necessidade de comparar com qualquer coisa. Posteriormente revelou uma leve ponta mineral. Talvez pedra lascada. Húmido. Havia algo que lembrava chão molhado. A sensação que transmitia era de um amanhecer, bastante orvalhado. Foi despertando para cheiros de flores, pequenas flores silvestres. Uma leve e curiosa nota de pó de talco marcava o final.
Foi pena a agressividade que revelou na boca. Acidez e taninos muito evidentes. Pujantes em demasia. Pareciam-me exaltados. Embatiam com vigor na língua, deixando marca. Era necessário coragem para perceber o que andava por ali. A precisar de tempo, de algumas lições. Aprender mais um pouco.
Como é que um vinho pode ter duas facetas tão diferentes, díspares. Comportamento quase bipolar (perdoem-me este abuso. Outro). Apostaria numa boa evolução. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Ao fim de algum a tempo a escrever, tem aumentado a necessidade de inventar, procurar outros termos, outras expressões que possam definir o que sinto. Basicamente a análise de um vinho é caracterizada pelos mesmas palavras, adjectivos, expressões. Para isto ter piada, há que colocar a imaginação a trabalhar.

segunda-feira, Julho 09, 2007

Tuga 2006 Reserva (br)

Com os raios solares cada vez mais intensos, o corpo pede líquidos mais refrescantes, pouco complexos, mais directos e que auxiliem a função de relaxar. A (minha) mente, nestes dias, não anda muito propensa para grandes dissertações. Depois é pública dificuldade que tenho para conviver com temperaturas altas. Decididamente sou um bicho do frio. Prefiro outras cores, outras nuances.
Uma proposta vinda da VDS. Tuga 2006, um branco da Beira Interior. Aromas de rosto tropical eram apresentados em calda, sendo complementados com impressões a tangerina e laranja. Uma rápida, meio tímida, nota mineral tentava proporcionar algum alivio. Brigava para enriquecer, na medida do possível, o conjunto. O registo exuberante, vistoso, meio doce, manteve-se sólido. Acabou por cansar, roçando em alguns momentos a monotonia.
Na boca pareceu-me, aparentemente, mais interessante. A presença de uma curiosa componente agridoce dava algum carácter ao vinho, estrutura, e um lado mais masculino. Não deixou de ser anacrónico. De qualquer modo, a insistência da calda de fruta, do doce, não o favoreceu. Pelo contrário. Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum: Um nome infeliz. Tuga!

sábado, Julho 07, 2007

Quinta das Marias Encruzado 2006 (sem barricas)

Antes de partir para fim de semana e deixar-vos em paz, partilho com vocês alguns apontamentos sobre mais um encruzado 100%. Estou ainda na Quinta das Marias, mantenho-me pelo Dão. Termino, assim, a primeira ronda.
O encruzado, agora, não teve qualquer contacto com as barricas. É a casta, apenas a casta. Nada mais, nada menos. O inox foi o único material que amparou a uva, que a resguardou.
Estilo muito vegetal, muito crítico. Entre este e o outro (com barricas) notavam-se semelhanças. O limão, a lima, estavam bem temperados pela hortelã, pela erva fresca. Sugestões a pedra molhada davam o tradicional toque mineral. Pareceu-me existir qualquer coisa que fazia lembrar a folha de figueira (poderá ter sido um abuso da minha parte. A imaginação a funcionar). O floral voltou a surgir, mais uma vez. Observava-se uma curiosa luta para manter fresco o vinho. Ainda bem.
Na boca, muito estaladiço, nervoso, enérgico. Os sabores limonados, juntamente com as sensações vegetais, dominavam desde a entrada até à saída. Por contraditório que possa parecer, percebia-se que tínhamos um branco com peso, com vigor, cheio de vida. Eram 14% de grau alcoólico. A acidez, tal como noutro (com barricas), mantinha-o em linha, segurava-o e bem. Rédeas curtas. Naturalmente agradeci. Nota Pessoal: 16

Post Sriptum: Provei, aliás bebi a garrafa 3420. Desta vez, temos um universo de 4300 botelhas.

sexta-feira, Julho 06, 2007

Quinta das Marias Encruzado 2006 (com barricas)

Um 100% encruzado que fermentou em barricas (francesas). Um branco de aspecto límpido, cristalino, muito brilhante. Notas de erva molhada, hortelã, urtigas e uma leve suspeita de mineral compuseram o primeiro acto: revelação. Ao longo dos restantes actos foi possível descortinar odores a fruta tropical, de cariz sensual e voluptuoso, que se envolveram com a lima, com o limão. Sempre num registo fresco, muito jovem. Não tardaria que nuances florais marcassem presença. Tília, flor de laranjeira e mimosa misturavam-se de tal maneira que proporcionavam uma sensação muito relaxante. E a madeira? Sorrateiramente foi aparecendo com o aquecimento do vinho. Baunilha, leve coco, alguns frutos secos ficaram com a responsabilidade do último acto: epílogo.
Na boca revelou ter arcaboiço. A acidez pareceu-me colocada de forma correcta, mantendo a frescura do vinho no registo pretendido e proporcionando, ao mesmo tempo, uma agradável irreverência. Crocante, untuoso, longo. Um branco do moderno Dão, com alma, que não renega, não esquece, a terra que lhe deu origem. Gostei francamente. Acompanhou um coelho grelhado nas brasas. Está ainda jovem e lá para o Outono acredito que revelará algo mais. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Foi provada a garrafa número 5. Foram lançadas 1200 para o mercado.

terça-feira, Julho 03, 2007

Martim D' Avillez Grande Escolha 2003

Existem vinhos, como todos nós sabemos, que proporcionam árduas tarefas sensoriais ao ponto de questionarmos as nossas reais capacidades. Os motivos podem ser os mais variados e ter diversas justificações. Má garrafa, mau dia para o provador. Depois a fatal subjectividade que a prova tem dá o remate final (é um acto humano cheio de incongruências. Ponto final). Existe um contínuo de variáveis quase intermináveis que interferirem na forma como vemos determinado vinho.

Martim D' Avillez Grande Escolha 2003, tinto das Terras do Sado, entra no meu lote de vinhos que mais dificuldade e perplexidade criou. Um comportamento algo impróprio, repleto de nós para desmanchar. Os atributos apresentados andavam muito longe do Grande Escolha. Aliás, é notória a banalização dos termos: Vinhas Velhas, Colheita Seleccionada, Grande Reserva, Garrafeira (haja imaginação). Perderam qualquer sentido, qualquer valor. No passado, praticamente só havia a distinção entre Reserva e Normal. Chegava e bastava (sem falar na diferença que se notava).
Voltemos ao vinho. Apresentou-se com sugestões animais algo violentas, onde odores de pêlo se embrulhavam com cheiros de estábulo. Com o tempo, foi evoluindo para um vegetal incomodativo (verdete) que marcou fortemente o vinho. A fruta era fugaz, surgia timidamente, nunca conseguindo mostrar-se decentemente. Era como se alguém ou algo a puxasse sistematicamente para trás.
Na boca, revelou uma agressividade, uma violência que não se entendia. Desproporcionada. A acidez estava marcante, arrepiante. Verdade seja dita, não é gritando, barafustando, gesticulando de forma rude, que convencemos os outros (apesar de ser ter instalado no nosso país, uma leve sensação de que a agressividade é justificável para mostrar que temos razão). Um vinho que pareceu-me pouco refinado, repleto de arestas por limar, com muitas coisas para acertar. Tipo: nó de gravata mal feito, colarinho por passar. Espero que tenham sido, apenas, sinais de juventude, de alguma irreverência sem sentido. Nota Pessoal: 12,5


Post Scriptum:
Lembrei-me muito deste post.

segunda-feira, Julho 02, 2007

Loureiro Colheita Seleccionada


Regressei recentemente à casta Loureiro. Um Loureiro da Adega Cooperativa de Ponte de Lima. 2005 é o ano de colheita. Colheita Seleccionada é o epíteto que possui.
Muitas notas limonadas, maça ácida, e rasgos minerais componham na essência o espectro aromático. Foi interessante sentir a evolução do vinho e bebê-lo quando a temperatura ia subindo. Na boca voltou a mostrar o seu lado limonado, a maçã ácida, tudo envolvido por um leve e agradável pico. Essencialmente um vinho fresco, despreocupado, que combinou com um salmão grelhado, acompanhado por um arroz de vegetais. Um branco que descontrai, que alivia, que refresca. Também por isso merece alguns aplausos. Correcto e honesto. Cumpriu com a função: refrescar. Nota Pessoal: 13,5


domingo, Julho 01, 2007

Dão em Lisboa


Queria deixar uma nota muito pessoal sobre o Dão Vinhos e Sabores que decorreu no dia 30 de Junho, em Lisboa. Não estava prevista a minha ida até este evento. Mas acabei por dar um saltinho até lá. Aproveitei para falar com alguns dos produtores presentes (alguns deles conhecidos de longa data). Foi um momento de pura descontracção, um pequeno intervalo nas minhas tarefas escolares (estou em fase de avaliação dos alunos).
Fiquei contente com o ar moderno do evento, com as pessoas bonitas que circulavam pelo recinto. Fiquei de boca aberta com o elevado número de mulheres que andavam por lá. Discutiam sem qualquer complexo o vinho. Sinal de que o Dão está a transformar-se numa região cosmopolita. Sinal de que o vinho não é só para homens.
A representação das Adegas Cooperativas foi digna de registo. É visível o esforço que fazem para se colocarem no caminho da modernidade.
Um evento que tentou ser, essencialmente, uma pequena amostra do melhor se está a fazer, lá por entre as montanhas. Lentamente a região reergue-se do meio das cinzas. O consumidor espera que assim continue. Alargam-se as opções disponíveis (que teimam em ser dominadas pelo Douro e Alentejo).
Olhando para os vinhos percebe-se que ainda existem duas escolas: a mais tradicionalista e aquela que aponta para estilos mais modernos, em alguns casos quase novo mundo (curioso).

Termino com um apelo: continuem a andar pelo país, a mostrarem o que se está a fazer. Não fiquem presos a tradições malignas que quase destruiram toda uma região. Olhem para o futuro. Ainda existe muito para fazer, para alterar.