quinta-feira, Setembro 27, 2007

Quem não tem cão, caça com gato!

Não existe melhor expressão para caracterizar a falta de qualquer coisa como: Quem não tem cão, caça com gato! Nos vinhos, é de uma aplicabilidade tremenda.
Com a falta de dinheiro, as (minhas) opções têm caído sistematicamente em vinhos que pedem, cada vez, menos euros. De dia, para dia, vejo-me em redor de rótulos que nunca esperaria voltar a ver. (qualquer dia, paro de vasculhar! Não quero regressar ao Porta da Ravessa, ao Monte Velho).

Meandro do
Vale Meão (2005) define na perfeição a típica expressão. Não serão muitos os consumidores com arcaboiço financeiro para comprar o topo de gama Quinta de Vale Meão. Terão que se contentar com o Meandro (como aqueles que compram, a crédito, um acanhado classe A). Já agora, já-se deram conta do significado da palavra Meandro? Enredo, intriga, desvio. Sintomático...
Um tinto que mostrou-se (mais) fresco que na colheita de 2004. No entanto, continuamos perante um vinho de carácter robusto, enérgico, másculo. Fruta madura, muita fruta, envolta por sugestões vegetais bastante incisivas. O Douro, como terra de extremos, estava bem presente. Foi abrindo lentamente, muito timidamente, para pequenas sensações minerais que permitiam, de vez em quando, aliviar a pressão causada pelo que saia do copo. Terminou, fatalmente, com sugestões de chocolate e baunilha (ando farto de repetir sempre mesmas palavras).
Os sabores eram largos, pujantes. As sensações andavam entre a fruta, o tabaco, o cacau e o chocolate. Os taninos, conjugados com a acidez, proporcionavam uma sensação de secura um pouco acima do desejável. Que dizer mais? Um tinto consistente e coerente. Nota Pessoal: 15

Post Sciptum: Um gato que custa 9€. Nos tempos que correm, é capaz de não ser um gato qualquer (sem qualquer desprimor para este animal).

domingo, Setembro 23, 2007

Quinta das Marias (Epílogo)

Fazia tempo que estes vinhos se encontravam aqui por casa. Estavam para ali à espera que os provasse, que os bebesse. Adiava sistematicamente o dia. Tinha na memória as pequenas e fugazes notas, feitas durante o evento Dão&Sabores. Tinha ficado com uma vaga ideia, na altura, que estava perante uma dupla com semblante moderno, estilizado, concentrado e com classe. Era necessário, no entanto, olhar para eles de forma mais séria, com mais calma, sem pressão e longe dos rebuliços típicos dos eventos vínicos.
Escolhi uma noite calma. A família encontrava-se recolhida. Estava a preparar-se para o dia seguinte. Acossado pelo vício, debrucei-me sobre o copo. Tentei aplicar os obscuros e complicados conhecimentos da arte da prova.

Cuvée TT 2005 é um reserva elaborado com Tinta Roriz - maioritária - & Touriga Nacional. Revelou-se ao mundo com uma tez escura.
Os aromas, que expeliam do copo, mostraram-se estruturados, com um nível de complexidade (muito) interessante. Os frutos, que surgiam frescos e vivos (escorreram muito bem pela goela), pareciam estar espalhados pelo campo. Os odores provenientes da madeira (americana e francesa) portaram-se de forma digna. Uma curiosa sensação a coco dizia-me que estava perante um vinho do mundo, sem terra, sem dono.
Na boca, fiquei surpreendido pelo equilíbrio, pela igualdade das forças, pela untuosidade do paladar. Atreveria-me alegar que havia algo de sensual, de insinuante. Senti sabores tostados, onde o tabaco, o caramelo e a baunilha marcavam presença. O final era fino e gracioso. Um vinho que acompanha em qualquer parte do mundo. Nota Pessoal: 17

Com o Touriga Nacional de 2005 (também Reserva) tive, por breves momentos, a sensação que me encontrava num Solar, com inúmeras divisões para percorrer. Escuro nas cores. Profundo nos odores.
Flores e cedro misturavam-se com o pinheiro, com o resto das árvores. A mineralidade, bem vincada, foi-se mostrando. Notava-se que existia qualquer coisa que lembrava o carvão (passou-me a imagem dos fornos de Canas de Senhorim. Cenário espectacular para um puto. As labaredas eram enormes.) A fruta, que surgia, apresentava uma linha silvestre, húmida e fresca. Com a evolução acabou por emergir um leve rasgo de compota, salpicado por nesga de açúcar em pó. Tosta suave. Caramelo envolvia-se com a baunilha e o tabaco enrolava-se com o chocolate.
Os sabores eram suculentos. Demoraravam, apenas, o tempo necessário. Nem mais, nem menos. Sadios, silvestres e minerais. Suportados por um nível de acidez milimetricamente colocado. Iam-se embora deixando pequenas lembranças especiadas.
Em súmula, um conjunto de aromas e sabores capazes de oferecer múltiplos prazeres, múltiplas sensações. Nota Pessoal: 17,5

Termino assim a minha viagem pela Quinta das Marias. Na generalidade, fiquei com uma excelente impressão deste produtor. Dois encruzados de bom nível e um alfrocheiro muito modernaço e voluptuoso. As pérolas são, sem dúvida, estes dois reservas. Merecem as luzes da ribalta.

Post Scriptum: Apesar de ter feito um enorme esforço para controlar-me na descrição dos vinhos, devem obrigatoriamente descontar os meus exageros.

quarta-feira, Setembro 19, 2007

As duas faces de Kopke

Tal como as pessoas os vinhos têm, por vezes, duas caras, duas faces diferentes, tão antagónicas que acabam por prejudicar a análise e o modo como olhamos para eles. Quem é quem?

A abordagem, o modo como tentei travar conhecimento, foi dificultada pela indefinição de aromas, de cheiros, que este tinto (de 2005) do Douro apresentou inicialmente (sinto uma imensa pressão quando confrontado com pouco tempo para avaliar um vinho). Com o natural tempo de espera, lá decidiu revelar uma curiosa sensação rural. Havia qualquer coisa que lembrava aquelas adegas antigas, frias e húmidas, em que os tectos eram sustentados por longas traves de madeira, cobertas por redes de teia. Sentia-se o passado, os gestos e os barulhos de outro tempo. O cunho do Douro estava bem vincado. A sensação de flores silvestres, de fetos, de restolho, de terra, completavam o modus operandi aromático. O berço estava identificado. Acabei por ficar satisfeito.
Os sabores, esses, é que pareceram-me mais débeis, menos interessantes, com uma durabilidade aquém do desejado. Eram vagos, frouxos, atacados por uma vivacidade ténue. Em certos momentos, roçaram a monotonia e a decepção. Uma enorme desilusão.
Presenciei como um vinho pode ter duas caras, duas personalidades. Dr. Jeckyll e Mr. Hyde. Quem é quem? Nota Pessoal: 13,5

sábado, Setembro 15, 2007

Soberana

Isto de vir a público para falar sobre vinho, torna-se em, muitos momentos, uma obrigação. Ter que escrever qualquer coisa, sobre qualquer vinho. É encher o saco, é manter a fogueira acesa. O mais estúpido e revelador de falta de inteligência, é que sou amador, não ganho dinheiro e não vivo disto. Um belo exemplo de auto-flagelação. Neste caso, pura auto-flagelação enófila.
Acabei por forçar um texto sobre um vinho das Terras do Sado (apesar de ter nascido no Alentejo). As palavras que irão ler são, naturalmente, forçadas, com pouca emoção, agravadas pela pouca afinidade que tive com o vinho.
Um tinto de 2004, extraído, escuro, muito ao género da moda. Atreveria-me a dizer que um anglo-saxónico era capaz de gostar (muito) dele. A componente química (a velha sugestão a tinta da china esteve presente) tornou-se no bilhete de identidade do vinho. Depois uma curiosa e forte sensação a cera fez-me lembrar aquelas manhãs (de sábado) que a minha mãe escolhia para dar lustro ao pavimento da casa. O cheiro era forte. Impregnava a casa. Fazia-me saltar da cama. Seria de propósito? O chocolate surgia na versão negra, amarga, robusta, quase no estado puro (nunca vi cacau no estado puro). Mesmo não gostando muito de doces, diria que um pouco de açúcar ajudaria, eventualmente, a arredondar os aromas. O tabaco, juntamente com algo parecido a caramelo, dava a entender que mais nada viria atrás.
Os sabores eram, tal como os aromas, pesadotes, irrequietos e amargos, com a tal componente química a marcar presença. A acidez, relativamente alta, acabou por ser um bom ajudante de campo. Refrescava. Um final amargo, deixando inspirações a tabaco e chocolate preto. Pareceu-me pouco gastronómico, um pouco cansativo, mas não passa despercebido. Um estilo. Nota Pessoal: 14,5

Post Scriptum: Coitados dos provadores profissionais que vivem do vinho. Ter que provar mesmo sem vontade.

segunda-feira, Setembro 10, 2007

Dão Hi-tech

Quem diria, quem imaginava que uma das regiões mais paradas (a par da Bairrada), que mais tempo demorou a acordar, optasse por enveredar, também, pelo plano tecnológico. As mudanças que têm surgido nos últimos anos alargam-se, agora, aos rótulos, aos nomes adoptados por produtores e enólogos. Os exemplos que vos trago são dignos do léxico usado nas mensagens entre telemóveis (não ficaria admirado que um dia surgissem rótulos com palavras e termos sms). Cores e expressões muito ao género século XXI. Um autêntico volte face (bastante inesperado) no que respeita a vinhos do Dão. A caminhar para uma era espacial? Satirizando, imagino um cenário meio contraditório. No meio das montanhas, uma pequena casa de pedra com ligação por satélite, ovelhas em redor monitorizadas por GPS. O pastor observa os vários pontos (as ovelhas) num monitor.
Only (tn) 2004 (Anselmo Mendes). Um tinto de cariz leve, fácil e aprazível. Os aromas mostraram-se frescos, onde sugestões de terra húmida se envolviam com flores e bagas. Impressões de cedro surgiam de forma, mais ou menos, vincada.
Na boca pareceu-me possuir alguma finura e suavidade. Fiquei com a ideia que o destino dele é ser bebido com descontracção. Não será muito indicado para grandes reflexões enófilas (digo eu). Para desfrutar. Nota Pessoal: 14
T.Nac 2005 (Quinta da Falorca). Um touriga nacional que teve direito, apenas, a um mês de estágio em barricas. Aroma exuberante, viçoso. Cheio de fruta, com (fartas) insinuações de lavanda e alfazema, mato e flores. Ao terminar o Verão e a encaminhar-me para o Outono, parecia que tinha recuado no tempo e estava na Primavera. A sensação de beleza vegetal criou-me alguma confusão temporal.
Sabores frutados e silvestres bem vincados. Uma sensação de frescura muito presente e quase enibriante. O corpo tem estrutura suficiente. Está jovem, viçoso. Pareceu-me que o melhor será bebê-lo neste estado. Um varietal urbano, moderno e bem esgalhado. Nota Pessoal: 15,5

Post Scriptum:
Já começa a ser estonteante o número de marcas que surgem a partir do Dão. Quem diria?

quinta-feira, Setembro 06, 2007

Casa Burmester Reserva 2005

Depois de ter partilhado com vocês o Reserva de 2004, e ter dito o quanto tinha apreciado, tinha todo sentido voltar a fazê-lo, agora, com o Reserva de 2005. Notaram-se (aliás, eu notei) mudanças no estilo, no comportamento. Se no Reserva de 2004 pareceu-me encontrar um vinho mais clássico, o Reserva 2005 deu a entender que está mais modernaço, quase transformado num vinho do século XXI. Apesar das alterações (mais ou menos visíveis), conseguiu manter, de uma forma geral, a elegância, a classe que me surpreendeu no passado. Um exemplo que podemos caminhar para a modernidade sem perder (totalmente) a identidade. Não é muito comum. Existe um tendência quase fatal para esquecer o história, catalogando-a, em muitos casos, de triste, desprezível. Pessoalmente, faz-me muita impressão olhar para aqueles que desejam, ambicionam esquecer o passado, apagá-lo rapidamente.
Este tinto continua a não querer abandonar a sua história. Mantêm-se longe da força, do exagero. Continua a calcar um caminho diferente. Induz a pensar, a imaginar, a exagerar.
Os aromas, que iam saindo, revelavam uma finura muito interessante, que me prendeu ao copo. Tentei desfrutar ao máximo, com sofreguidão, o que lá de dentro saía. Fresco, muito fresco. Bem composto, apetecível. A torrente aromática era constituída por um alargado leque de cheiros. A primeira vaga era constituída pelo cedro, por sugestões de lagar, húmus, pela fruta madura (fresca, bem viçosa, suculenta). Largando constantemente uma agradável sensação de limpeza, de leveza, de alegria. Despedia-se com cacau amargo, tabaco e um pouco de mentol. Decididamente, parecia ter um bom nível de complexidade.
Os sabores não destoaram, nem um pouco. Untuosos, gulosos, frescos. A tradicional dupla taninos/acidez estava bem coberta pela dimensão do corpo. Apresentava, para mim, estrutura suficiente. O final não sendo de grandes estrondos, revelou ter habilidade suficiente para deixar boas memórias, boas recordações.
Como gratidão pelo prazer que tive, irei decididamente comprar este vinho. Por 10€ (um pouco mais) será uma tontice, da minha parte, deixá-lo escapar. É um Reserva do Douro que deve ser preservado. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Se este Reserva continuar a evoluir desta forma, de ano para ano, acredito piamente que poderá tornar-se num caso sério do que deve ser uma excelente relação qualidade preço.

terça-feira, Setembro 04, 2007

Barranco Longo syrah

Vocês sabem quando escrevo sobre um vinho, tento encontrar um tema paralelo que enquadre a minha nota de prova (não gosto de qualificar os meus textos com o epíteto: Nota de Prova. Evito, se possível, escrever uma típica e uniformizada nota de prova. Depois, porque não sei escrever notas de prova).
Defendo que um vinho deve ter, se possível, uma ligação com um tema, com algo que faça sentido e que não seja provado, bebido, descontextualizado. É muito importante (para mim).
Desta vez, com o syrah de 2005 da Quinta do Barranco Longo, as coisas não correram como desejaria. Não consegui gerar, inventar qualquer assunto para vos entreter (bem ou mal). Este varietal pareceu-me algo difícil, com cheiros (um pouco) estranhos, complicados, pouco convidativos. Apresentou-se muito metálico, quase fazendo-me recordar o ferro, o aço (pensem naquelas vigas, naqueles rolos que saem das metalurgias). Foi preciso espreme-lo, e muito, para que este vinho algarvio dissesse algo mais consistente, mais complexo, com mais interesse. Sugestões a carvão, apara de lápis, soltaram-se de dentro do copo de forma intensa. Esperei por mais, mas pouco mais ele disse.
Na boca, pareceu-me um pouco plano, com pouca vida. Muito parado. Demasiado morno, chato e cansativo. Um vinho que limitou a minha imaginação e não despertou grandes paixões. Um tinto que adormece. Caramba, tão longe destes e deste. Como se costuma dizer: Do dia para a noite! Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum:
É curioso observar que a Quinta do Barranco Longo apresenta um alargado lote de vinhos. Mais curioso é verificar que estou a falar de alguém que assenta praça no Algarve. Interessante.