quarta-feira, Janeiro 02, 2008

1980

Olhamos para o passado e escolhemos um sketch específico. Aquele que marcou mais.

Os anos 80 estão na moda. Para aqueles em que o relógio biológico anda pelos 30 e 40 anos, foi a década onde tudo aconteceu. A música, as roupas, o VHS, as discotecas, os convívios na escola secundária, aos sábados à tarde, os ténis Sanjo. Um rol de lembranças que surgem por todo lado. Está na moda.
Vinhos dessa altura é que não estão na moda. Quem tem paciência para vasculhar garrafas com o carimbo dessa década? Quem se entretêm a perceber o que eles dizem?
Em jeito de provocação peguei num esquecido Frei João Reserva de 1980 (para o almoço do primeiro dia do ano).
Muita dificuldade para descrever, para interpretar os aromas. Eram registos diferentes. Difíceis de decifrar. A chave do código não estava ali à mão de semear. Passo a passo, tentei que a sequência fosse revelada. A cada pergunta, uma resposta. Muitas delas erradas. Novas tentativas, novos falhanços. Incrível a forma como esqueci as minhas primeiras lições. Tentei recordar os primeiros apontamentos que fiz sobre o vinho. Tinha sido na companhia dos tintos de 70 e de 80 (do Dão e da Bairrada) que comecei a beber vinho. Durante muito tempo, foram os meus únicos pontos de referência. Era por essas bandas que andava. Depois numa louca tentativa para modernizar-me, apanhei o comboio dos outros (bem mais rápido que o meu). Interessava, apenas, provar as novidades. Desliguei-me do passado. É, agora, uma efémera lembrança.
Urze e carqueja pareciam quer sair lá de dentro. Depois, cerrando os olhos, julguei sentir qualquer coisa parecida a cogumelos. Estariam debaixo de cedros. Terra? Passo à frente, passo a trás, andei em redor do copo para enxergar outras sensações. Muitas delas não tinham paralelismos. Depois como um amigo diz: "Esqueces que os vinhos são para beber, para serem desfrutados."
Os sabores, infelizmente, estavam débeis. Revelavam uma fragilidade meio desoladora. Foi tratado de forma respeitosa. Não puxei mais por ele.

Não atribuo Nota Pessoal, por assumida incompetência pessoal e reverência. Fica o registo de um momento que não esquecerei.

10 comentários:

Anónimo disse...

Caro Pingus ainda tenho uma Frei João reserva de 80 na minha pobre garrafeira. também tenho da década de 80 CRF e uma ou duas da mesma década do douro. Devo dizer que a melhor que bebi foi a CRF, bairrada também. sabor menos terroso e menos tijolo do que o Frei João. Mas gosto de vez em quando provar estes vinhos. São mais dificeis do que os actuais, mas têm uma caracteristica muito curiosa, numa hora alteram-se muito. para melhor na maioria das vezes.Qualquer dia vou publicar no meu blogue uma prova destes vinhos. Necessito de mudar a garrafeira e vou fazer limpeza. Um abraço e boas provas. AJS

Pingus Vinicus disse...

AJS, é um facto o que dizes. Vinhos difíceis, principalmente porque encerram neles aromas e sabores que caíram em desuso.
Como será daqui a 28 anos? Quantos vinhos nos farão pensar na vida de forma diferente?
Um caloroso abraço


PS-Blogue? Posso saber o nome?

Pedro Guimaraes disse...

Caros

Eu devo dizer que gosto bastante dos nossos vinhos velhos, desde que estejam em condicoes. E ha muitos que o estao. Ja neste segundo milenio tive grandes prazeres (e nao surpresas) com vinhos nacionais do passado - Mouchao, CR&F, Solar das Francesas, Colares, Rotulo de Cortica (ACB), Rosado Fernandes Tinto Velho(este formidavel) e os tao esquecidos vinhos do Bucaco (alguns deles obras primas capazes de rivalizar com qualquer vinho do mundo). Posso mesmo dizer que fico triste com alguns testemunhos que ouco e leio em relacao a estes vinhos. Um amigo, dono de garrafeira, disse-me em jeito de conforto "...nao te chateias, nem tentes "converter" os outros...da-te por satisfeito de poderes tu apreciar estes vinhos e, hoje em dia, a precos muito favoraveis" - a febre do que velho e bom foi substituda pela febre do que e velho nao presta, em ambos os casos so vejo a febre, altissima, do `bora la generalizar :)
Para finalizar eu gostava de lancar aqui uma questao: os vinhos de Colares. Um patrimonio vinicola unico, caprichoso mas capaz de nectares unicos, porque nao investir nele? No que ele realmente e? Em vez de o tentar adaptar aos caprichos deste mercado...todas as grandes (em qualidade) regios do mundo adaptaram o mercado a elas (talvez com a ilusao de que foi o oposto). O tamanho, o volume de Colares e a sua originalidade assim o permitiam. Relembro a posicao (e as palavras em defesa de um patrimonio unico) do Eng. Luis Pato quando a "sua" bairrada decidiu tornar-se mais uma regiao do mundo vinicola.

Abracos
Pedro Guimaraes

p.s.- desculpem-me a falta de acentos. A razao e a mesma de sempre.....

Anónimo disse...

Caro Pingus o blogue ainda não se pode dizer que o é na realidade. É apenas uma tentativa de me actualizar com estas coisas da net. Como sabes para mim não é facil, ainda sou de outro tempo, mas o fascinio é grande. Vamos ver no que vai dar. Estou seguro que terá "coisas" sobre "beberes" e "comeres". Chama-se (é assim que se diz?) "montesdoiro.bloguespot.com
Um abraço AJS

Chapim disse...

Caros,
para mim puto que sou (nascido em 81 já depois deste frei joão) - ninguém nasce em 81... o problema é mais arranjar vinhos destes para provar. Confesso que tenho um fascínio enorme por estes vinhos antigos. Provei faz pouco tempo um Santar de 55 memorável e um Tinto Velho de 40 inacreditável. Mas gostava de arranjar uns Porta de Cavaleiros, uns Frei João e todas essas marcas míticas dos 80`s.

Alguém tem uma dica para bons sítios a procurar? Lá por casa não há nada. Boas provas!!!

Anónimo disse...

Sugestão de Ano Novo: Comprar uma garrafa do novo Porta dos Cavaleiros Tinto Reserva 2005 e prová-lo ao lado de uma boa reserva do mesmo vinho dos anos 80...

Pedro Guimaraes disse...

Caro Chapim

Em Lisboa, conheco a Garrafeira de Campo de Ourique (pedindo ao propriatario, ele arranja de tudo e a bons precos), o restaurante Nova Aurora (Campo de Ourique) tinha uma garrafeira notavel para "velharias" e a precos muito convidativos - a titulo de exemplo (nao devia:) ) ACB Rotulo de Cortica 1967 10euros, um vinho magnifico.
Depois temos as chamadas garrafeiras "para turista" (nomeadamente na Av. Roma e no centro de Lisboa) mas os precos sao ridiculos....no entanto a escolha e muito boa.

Abracos
Pedro Guimaraes

Chapim disse...

Caro Pedro muito obrigado pela dica. E percebo que custe dar dicas deste calibre.

No caso das garrafeiras para turista, além dos preços exagerados não sei até que ponto as condições de guarda são boas. Já vi tanta coisa boa a torrar nas montras e nos expositores.
Mas se calhar esta coisa dos vinhos velhos é um pouco isso também: uma aventura...

Pingus Vinicus disse...

O que acho mais ridículo é considerar-se velho um vinho que ronda os 5/6 anos de idade. Reparo, e vocês reparam, que todos pedem um vinho ainda a "cheirar a berço". E vamos atrás desta loucura.

Mas olhando friamente, não é assim tão mau. É sinal de que o consumidor tem ao seu dispor um número quase infinito de propostas.
No entanto gostaria que daqui a 28 anos estivéssemos a falar de alguns vinhos da "nova geração".

Pedro Sousa P.T. disse...

O amigo Pedro Guimarães laçou, e muito bem, a questão do vinho de Colares. Pois eu lanço outro: O vinho de Carcavelos. Segundo os entendidos na matéria, era uma verdadeira pérola, entre os vinhos da altura. As vinhas de onde saíam esse vinhos, está hoje um império de betão, existindo ainda um pequeno oásis ali para os lados de Caparide.
Pelo menos o betão ainda não chegou a Colares...
Abraço.