terça-feira, Janeiro 15, 2008

Relativo ou Absoluto?

Ao fim de algum tempo no meio das garrafas, começamos a ter mais cuidado nas escolhas que fazemos. Ponderamos o que vamos comprar, quanto queremos gastar. Não enfiamos o barrete com tanta facilidade quando alguém diz que aquele é que é. O sobrolho descai um pouco e colocamos um pé a trás. Só um incauto é que comete o erro de acreditar piamente no que o critico diz ou afirma. Com a informação a saltar por todos os lados, com os produtores a sairem da quinta, da herdade ou de outro sítio qualquer, só não constrói a sua realidade enófila quem não quiser.
Penso, cada vez mais, que as notas atribuídas (pelos críticos) deviam estar, se possível, relacionadas com o preço que custa determinado vinho (não sei em que moldes). Julgo que seria mais esclarecedor para o consumidor e eliminaria alguma da entropia que existe neste momento. Dito de outra forma, e para não enredar, faz-me enorme confusão ver atribuída a mesma classificação a vinhos que apresentam preços finais substancialmente diferentes (lembram-se, por exemplo, da loucura que foi com o Montes Claros Reserva 2004 ou com o Vértice Grande Reserva 2003?). Parece-me que a bota não bate com a perdigota. Perante a discrepância de euros que muitos vinhos apresentam, o que deve fazer o consumidor? Deve acreditar que um vinho que custou cinco euros (estiquemos até aos dez) tem, de facto, a mesma qualidade, o mesmo potencial (envelhecimento, complexidade, ...) que o outro que custa quatro vezes mais e que só impõe mais respeito por causa da fama que o precede? Será que deve perceber que está perante vinhos com objectivos diferentes, e que as diversas classificações atribuídas são, em muitas situações, relativas e não absolutas (como nos querem fazer crer)?

Post Scriptum: A prova cega dá, muitas vezes, respostas esclarecedoras. Será por isso que muitos topos de gama não surgem em determinadas provas comparativas? E quanto vale meio ponto ou mesmo um ponto de diferença?

14 comentários:

Copo de 3 disse...

Penso que as notas atribuidas a um vinho não devem ter em causa o preço desse mesmo vinho, ou em última instancia essa influencia deve ser mínima, no meu caso ronda os 0,1% da nota final... um quase nada que me serve apenas para poder arredondar uma nota final.

O objectivo é apenas um, dar a opinião sobre determinado vinho, seja em prova cega ou aberta. O preço praticado pode ser analisado noutras vertentes, mas nunca naquelas que influenciam a análise do dito produto.

O que acontece em alguns casos é a falta de discernimento de quem prova vinho e então surgem notas disparatadas face a uma realidade facilmente comparável por quem está do lado de cá, ou seja, nós. Um Montes Claros Reserva 2004 nunca vai ser vinho para 18 valores tal como um Vértice Grande Reserva não o é, apesar do segundo ser bem melhor que o primeiro.

Finalizo dizendo que um vinho por ser barato não o impede de ter outro objectivos e outros campeonatos em vista, o preço não dita a qualidade, apenas dita o leque dos que podem ou não chegar a dita qualidade, mesmo que essa por vezes não seja tão alta como alguns fazem querer.

Pedro Sousa P.T. disse...

A meu ver, este problema do preço, vem sempre ao de cima, porque na maioria somos uma cambada de tesos:), é que se estivéssemos num País Europeu à séria, onde o ordenado mínimo fosse pelo menos de 1000€, estas atenções todas em relação aos preços, nunca se poriam . É claro que provavelmente o custo de vida também seria mais caro, e os vinhos também o eram, mas em proporção estariamos muito melhor. Até porque os vinhos que custam cerca de 10€, 12€, estariam na casa dos 15€, 16€. Ora o que seriam mais 5€, ou 6€ por garrafa a mais num orçamento familiar? Nada! Poderiamos esticar a corda muito mais, do que a esticamos na realidade. Abraços.

Myla disse...

oi, eu moro no Brasil e já te leio há algum tempo. momentos suficientes pra já admirar seu trabalho e te achar um cara impecável em suas reflexões, ponderações e impressões.

hoje não deu pra deixar d comentar pq esse assunto vai longe e muito me interessa.

uma vez entrei numa das melhores decanters q tem aqui na minha cidade e perguntei se tinham torrontes. o moço q me atendeu nem sabia q isso era tipo d uva. isso já tem uns três anos e confesso q a loja foi investindo em pessoal e vem melhorando desde então.

esse é apenas um exemplo. essa coisa do hábito d degustar um bom vinho ainda é prática nova, emergente em meio à classe média brasileira. mas ainda a apenas uma parte dela pq há muita gente com condições, digo com dinheiro no bolso, mas q desconhece prazeres como esse ou o d degustar uma boa cerveja artesanal.

estamos engatinhando mas a coisa anda melhor do q antes, qdo nosso mercado só tinha vinhos ruins ou os d rótulos caros. agora a oferta é imensa e temos consumido muito mais. no entanto, ainda é uma mínima, mínima mesmo, minoria q entende e quer entender do assunto.

qto aos padrões e notas e tal, qualquer um q goste e se interesse por vinhos, há d concordar com sua opinião. muitos não fazem sentido algum.

um abraço do Brasil e continue com esse excelente trabalho/prazer q nós gostamos muito d te ler. parabéns!!!!

boa é a vida mas, melhor é o vinho. - Pessoa

Gus disse...

Olá,
Por falta de tempo e por ter pouco mais de útil a acrescentar, subscrevo na integra o comentário do copo de 3.
Abraço

Anónimo disse...

Na minha opinião, a avaliação organoléptica dos vinhos não tem de ser condicionada pelo preço dos mesmos. Isto é, não deve ser uma variável que condiciona o registo avaliativo dos mesmos.
Por isso, a nota do crítico, não tem de estar relacionada com o preço do vinho.
Este deve dentro do possivel ser mencionado, apenas como referência de custo, para orientação do consumidor e julgamento em última análise da justiça do mesmo, depois de ser provado, naturalmente.
Aquilo que pode ser um bom preço para uns, pode ser mau para outros...

Discordo com o copo de 3 quando diz que determinados vinhos(referidos acima), nunca serão vinhos de 18 valores...porquê? se Alguém os classificar assim, em que é que a sua opinião é menos válida do que de qualquer outro...
As opiniões valem o que valem...
e nunca provei os vinhos referidos...

ass:Fisiopraxis

Anónimo disse...

Meu caro amigo:

Parabéns por estares no Top 100 dos Bloogs sobre vinhos.

O melhor Português!

Valente!

Ass:FISIOPRAXIS

Pedro Guimaraes disse...

Parabens Pingus.... e mais um confirmar da qualidade deste teu espaco.

Abracos
Pedro Guimaraes

Pedro Guimaraes disse...

Um pequeno reparo ao comentario do FISIOPRAXIS:

Na questao do preco, um bom preco, no caso presente do racio/qualidade, assenta no valor que o vinho tem face a qualidade que apresenta. Este qualidade e subjectiva so dentro do patamar em que um vinho se encontra....No caso do exemplo dado pelo Copo de Tres o vinho em causa nao corresponde aos padroes, em uso, de um vinho de 18 valores....o gosto de um vinho e subjectivo, ja a avaliacao do mesmo obedece a "regras", ainda mais quando esta avaliacao e publicada.

Abraco
Pedro Guimaraes

Anónimo disse...

Meu caro amigo pedro guimaraes:

permita-me discordar de certa forma da sua opinião.

Se é certo que as avaliações obedecem a algumas "regras" elas não deixam muitas vezes de ser sujectivas mesmo quando são publicadas. Aliás, essa é logo uma resalva que muitos críticos(os mais honestos) fazem nas suas publicações.

Por outro lado, como é que um vinho como o Vértice Grande Reserva obteve a pontuação de 18 valores na RV?
Pela forma como coloca as coisas nunca poderia atingir o patamar que atingiu nessa prova.

Cumps Fisiopraxis

Pratas disse...

Boas!

Excelente tema! Eu acho que seria um pouco difícil implementar essa classificação, e o consumidor não sei se teria algum beneficio.

A minha opinião é que qualquer classificação qualitativa não deve reflectir o factor preço. (Se isso acontece ou não, já é outra história...) A razão é que depois seria difícil comparar dois vinhos.

No meu caso, dois vinhos que eu considere muito parecidos (assumindo uma mesma classificação), se um custar Y e outro 3*Y irei de certeza para o Y, mas outra pessoa possivelmente irá para o mais caro, pois cada pessoa é diferente.

Por exemplo, um Vale Meão é vinho para estar classificado a 18-19, agora imaginemos que este vinho custava 4€ (era bom...). Será que a sua classificação seria mais baixa? Seria mais alta? Seria igual? Pensem nisto...

Pedro Guimaraes disse...

Eu por acaso estava-me referir ao Montes Claros reserva 2004.....

BoisFrais disse...

Caro Pingus;
Muitos parabéns pela incursão no TOP 100.

Já agora em relação ao P. S., penso que é bastante interesante e relevante da sua atitude como provador isento.

Os meus sinceros cumprimentos, e um bem haja pelas sua provas e dicas.

João Filipe Clemente disse...

Bem, chegando um pouco tarde para este verdadeiro "fórum" de opiniões, mas tenho um comentário a fazer sobre este tema que, aqui no Brasil é, talvez, ainda de maior relevância. O porquê desta relevância, é que um vinho que por ai custa cerca de Euros 3, aqui custa 12, 13 ou 15! É meu amigo, não é fácil "bancar" a vida de enófilo aqui deste lado do Atlântico!
Não, o preço não pode nunca, ser o único e preponderante fator de nota, mas também não pode ter peso tão insignificante na análise até porque acredito que um vinho (ou qualquer outro produto) tem que oferecer o justo retorno ao que se paga. Esse justo retorno, ou custo x beneficio, em qualquer faixa de preços, é que levo em conta em minha reflexão sobre vinhos ou o que optei por chamar de índice de satisfação. Se o vinho provado entrega mais do que o preço e reputação prometem, na minha análise ele deveria ser merecedor de um bônus!

Pingus Vinicus disse...

Caro João nunca é tarde para participar. Gostei particularmente no termo: "índice de satisfação". Muito curioso.