quinta-feira, Maio 01, 2008

Ermelinda Freitas Syrah (2005) e outros

Numa das últimas sessões do Núcleo Duro (um grupo de amigos que prova desde 2002), foram largados vários comentários sobre o novo Syrah da produtora Ermelinda Freitas. Tinha, já na altura, corrido muita tinta sobre este vinho. Abreviando a conversa, este varietal recebeu a mais alta condecoração, num desses enormes concursos internacionais que todos conhecemos. A partir daqui a estória tomou tamanha proporção que abriu o apetite a muitos consumidores. Não sou excepção. Sabemos quanto uma medalha pode valer. Mas a questão não era a medalha em si mesma (Existem outros vinhos que levam ou levaram insígnias). O busílis era o epípeto que este syrah tinha levado: O Melhor do Mundo.
Conversa feita, ficou decidido que o Melhor seria confrontado, em prova cega, com outros tintos da mesma casta. Os adversários podiam ser escolhidos livremente, sem qualquer restrição. Apareceram vinhos para todos os gostos e feitios.

Peter Lehmann Stonewell Barossa Shiraz 1999 (Austrália)
Sempre que posso e a carteira deixa, compro uma garrafinha deste vinho australiano. É um tinto que deveríamos ter direito de beber muitas vezes. Este 1999 estava muito elegante e delicado. As sensações aromáticas mostraram-se cheias de especiaria, repletas de odores a chá. Num registo longe de intensidades desmedidas e afastado da brutalidade. Ao longo da noite, manteve-se no seu lugar, largando suavemente outros cheiros. As flores apareceram de tal maneira que as paredes do copo ficaram perfumadas. A baunilha, o caramelo, apesar de marcarem presença no vinho, estão muito calmos. Não ofuscaram, em demasia, os outros.
Na boca, desde a entrada até à saída, ele manteve-se gracioso, com a especiaria e o floral a imporem-se. Notava-se que vinha vestido de forma elegante e fina. Longe de morrer. Se puderem, provem. Nota Pessoal: 17

Montes Alpha Syrah 2004 (Chile)
Desde que caiu no copo, este tinto chileno (uma estreia para mim) soltou, cá para fora, um conjunto de aromas que prendiam o (meu) nariz logo no primeiro ataque. Notei que existia uma bela simbiose entre sensações a bosque, com alguns cogumelos encostados às árvores, e carradas de fruto preto suculento e fresco. O rodar dos ponteiros permitiu que o chocolate, o tabaco, o caramelo fossem quebrando as cordas, aumentando, deste modo, o prazer. De empatia quase instantânea.
Os sabores comungavam o (mesmo) registo dos cheiros. Bem suportados pela acidez. Fino e com uma elegância que merece destaque. Na essência, um vinho que, por ele só, dá prazer. Não necessita de comida, por perto, para brilhar. Nota Pessoal: 16,5

Herdade do Esporão Syrah 2005
(Alentejo)

A subida do mercúrio, aparentemente, prejudicou-o. Tornava-o, tendencialmente, um pouco pesado, com um nível de doçura relativamente alto. A fruta estava bem maturada. Rebuçados e gomas aprofundavam o tal carácter doce.
Olhando para a fase inicial, pareceu-me sentir algum mineral e uma breve sugestão a flores e terra. Chegaram a dar, durante algum tempo, a leve impressão que tinha defronte algo (bem mais) atraente e com maior nível de complexidade. Foi, no entanto, suficiente para animar a prova. Tudo num registo (muito) consensual e apelativo para todos nós.
Os sabores, apesar de gordos, amplos e um pouco pesados, estavam bem suportados pela acidez. Os tostados pressentiam-se na fase em que ele abandonava a boca.
Um syrah que, ao ser servido, deve estar refrescado. Deste modo, temos vinho para dois bons dedos de conversa. Nota Pessoal: 15,5

Ermelinda Freitas Syrah 2005 (Terras do Sado)
Um tinto com muito chocolate, com uma enorme quantidade de caramelo e baunilha. A caminhada aromática alonga-se com um forte cheiro a mentol, demasiado artificial. O after-eight era muito ostensivo. Dava a ideia que ele tinha sido criado em laboratório. Não era natural.
Ao continuar a cheirar, dei conta de um odor que colocava-me no meio de um roseiral. Chegava a incomodar este perfume estonteante.
Na boca, a intensidade aromática não tinha correspondência no paladar. Os únicos sabores que notei, no palato, foram as rosas (ou outras flores) e o artificial after-eight. Não tão consistente como o Syrah do Esporão.
É, apenas, um vinho muito trabalhado, feito para agradar. O preço, esse, como sabem é completamente despropositado. Nota Pessoal: 15

Herdade do Meio Syrah 2004 (Alentejo)
Aromas difusos, algo empoeirados. Assumo que tive dificuldade para perceber quem é quem. Aparentemente as imagens estavam distorcidas, pouco claras. De qualquer modo, tendia para o balsâmico. Cedro e pinheiro percorriam todo o espectro aromático.
A fruta apresentava-se pesada e passada, num estado revelador de (muito) pouca frescura. Na parte final, andava uma estranha impressão a camurça, a pêlo de animal. Um tinto que pareceu (muito) pouco syrah.
Na boca o comportamento tendia para o doce, roçando o enjoo. A causa estava, sem dúvida, naquela fruta passada. Sem vivacidade e algo chato.
Um vinho que, particularmente, não apreciei. Como sempre, justifico, este facto, com as minhas imperícias pessoais. Nota Pessoal: 14

Jester Shiraz Vintage 2004
(Austrália)

Por muito que digam o contrário (e o já o disseram), continua a ser um vinho que não gosto. Podia ser, até, o melhor do mundo.
Voltou a revelar uma face muito química (que ultrapassa o inadmissível), com muitos torrados. Quase queimado. Bastante intenso, extraído e com poucos pontos que pudessem dar interesse.
Nesta prova, surge com outro aroma e sabor: Metálico. Abonou pouco em seu favor.
Apesar de tudo, um pouco melhor na boca. Mas nada que o levasse para outros voos. Entre os oito provadores presentes, foi o mais consensual. Ninguém gostou. Nota Pessoal: 13,5


Uma coisa é certa, estes vinhos bebem-se sem precisar da comida por perto.

4 comentários:

Pratas disse...

Tenho uma Montes Alpha aqui em casa, parece que é um Syrah bem acima da média!

A questão é: Devo beber em breve ou ainda beneficiará em garrafa?

Pingus Vinicus disse...

Pratas, é para beber. Irás ver o quanto é guloso.

Abraço

João Filipe Clemente disse...

Meus amigos, tive a oportunidade de tomar um Montes Alpha Syrah 2005,estava um espetáculo. Tomei-o todo sem comida, somente sorvendo todos os seus sabores, aromas e profunda elegância. Na minha opinião, um belissimo de um vinho por um preço bem acessível, pelo menos por estas bandas. Pratas, estou com o Pingus, toma-o e vais ver, ou melhor, sentir como é sedutor este vinho.

Anónimo disse...

Boas tardes amigos, alguém me poderá dizer onde posso encontrar este famoso syrah 2005 da casa ermelinda? E já agora , procuro um website onde possa encontrar vinhos portugueses de qualidade , já ando à procura à algum tempo mas sem sucesso, grato desde já por qualquer ajuda, atentamente Rui