segunda-feira, dezembro 15, 2008

Quinta do Vale Meão (Douro) Colheita 2000


Antes de começar, avanço com uma declaração de interesses. Estou perante um vinho que, por uma razão ou por outra, nunca morri de amores. A colheita de 1999 marcou muito o meu olhar sobre ele. Depois, quando aparecia pela frente, em algumas provas cegas, teimava em não ser um dos eleitos e ficava, quase sempre, lá no fim da lista. Não gostava dele. Um rol de atributos que não agradavam. Parecia sina.
Desta vez, deu-me a volta e acabei por engolir em seco quando percebi que tinha eleito como um dos melhores vinhos da noite o Quinta do Vale Meão (colheita 2000). Não podia. Não podia ser! Erro de análise? Ou no passado teria sido mal compreendido? Adoro as minhas incongruências.

Terra no nariz, cheio de árvores e de arbustos por todo o lado. Era forte, muito intensa a carga vegetal. Estranho não é? Um vinho daqueles lados não devia cheirar tanto a isto, não acham? Pelo menos a região assim indicia. Continuamos no mesmo registo. A imagem adensa-se, completa-se, com cogumelos, com terra negra revolvida. Um vinho com boa dose de sobriedade. Continuemos, vasculhemos mais um pouco. Pedras, cantaria. Aqui sim, percebe-se. Era o granito e o xisto a falarem. Um pouco de menta, de balsâmicos cumpriam a função de refrescar, de alegrar. Um conjunto aromático que revelou nobreza e boa dose de complexidade.

Os sabores estavam cobertos de especiaria, de ervas aromáticas. Era curiosa, mais uma vez, a sensação de hortelã. Mastigava-se uma mistura temperada por tomilho, pelo alecrim, pelos oregãos, pela pimenta. No final explodiam (isso mesmo), na boca, flores de coentro (alguém já sentiu essa sensação?). Fino no trato, com a acidez a não deixar cair o vinho. Suportava-o bem.
Um vinho que evoluiu bem (muito bem mesmo). Estava calmo e não tinha tiques de sobre-maturação. Verdade seja dita, não consegui apanhar qualquer dose (exagerada) de fruta. Vou penitenciar-me. Nota Pessoal: 17
Post Scriptum: Penso muito nas minhas comparações. Quando as faço, acredito nelas, mesmo sabendo que corro riscos em tornar-me patético.
Post Post Scriptum: Touriga Nacional (35%), Tinta Roriz (30%)
Touriga Franca (15%), Tinta Amarela (10%), Tinta Barroca (5%) e Tinto Cão (5%).

5 comentários:

AJS disse...

Estou extremamente curioso por voltar a provar o 2000. É sinal que o Douro evolui de uma forma positiva. Já provei alguns vinhos de 2000 e 2001 que na altura não me agradaram muito e que hoje estão muito bons. Por acaso, ou não, o Meão 2006 não me agradou muito. Vou guardar a garrafa que me resta para beber daqui por uns anos. AJS

Pingus Vinicus disse...

É como disse, sempre torcia a orelha a muitos vinhos do Douro e o Vale Meão estava no "lote dos meus ódios de estimação". Desta vez, fiquei surpreendido pelo estilo que mostrou. Coisas do vinho.

Pedro Guimarães disse...

Tenho duas questões...

Ainda está na curva ascendente? Decantaste o vinho? Quanto tempo?

Em relação ao que o AJS disse, 8 anos é pouco tempo a nível de guarda, é no entanto bom saber que estes vinhos estão no bom caminho...e que esse caminho continue :)

Em relação a 2006 também concordo, acho a maioria dos vinhos "topo" do Douro fraquitos (com excepção do Poeira). Foi me dito por um dos produtores que é uma ano diferente e que merecia ser engarrafado...OK, mas os preços deveriam descer. Eu pessoalmente acho 2006 o ano francamente mais fraco do século...e olhem que eu gostei de muitos vinhos do "mal fadado" 2002.

Um abraço,

Pingus Vinicus disse...

Pedro, o vinho foi decantado (cerca de 15 minutos a 20 minutos antes de ser servido) e servido às cegas e pareceu-me que o vinho que estava naquela garrafa (temos que pensar sempre neste aspecto e não extrapolar em demasia) tinha "força" e tinha saúde para evoluir bem.
Sobre a colheita de 2006, apenas tenho o Pintas (também já provei o Poeira 2006).
De qualquer modo e olhando para a nossa recente história, parece-me que 8 anos/10 anos de guarda podem ser bons sinais no que respeita à evolução de alguns dos nossos vinhos.

João Filipe Clemente disse...

Cá tenho guardada uma garrafita de 2001, que pretendo abrir em algum momento de 2009 o que, pelo que descreves do 2000, deve ser um bom momento. O que tenho visto dos tintos topo de gama do Douro, é que crecem muito com uns seis a oito anos de garrafa ganhando uma elegância dificilmente encontrada em vinhos mais novos. O mesmo tem ocorrido com alguns grandes vinhos do Alentejo. Neste ano tomei um Chryseia 2001, que acabei de entronar como um dos meus Deuses do Olimpo 2008, absolutamente magnifíco! Tomei um Malhadinha 2003, na mesa também um Cortes de Cima 2005 / Quinta do Corujão Dão reserva 2001 e Esporão reserva 2004, e o vinho simplesmente aniquilou a concorrência. Tempo, meus amigos, acho que estes vinhos precisam de tempo para mostrar todo o seu enorme potencial! Lá diz o ditado que " o apressado come cru", nes pas?
Abraço forte desta terras brasilis.