domingo, Março 30, 2008

Jester Shiraz Vintage 2004

Parecia que tinha entrado num laboratório químico. Era pujante o odor a carvão, a alcatrão. Fortes. A sensação preta (a cor do rótulo também ajudou) manteve-se durante muito tempo. Talvez em demasia. Saltou muita azeitona preta. Parecia ter sido embebida em tinta da China. Era preciso muito peito e coragem para enfiar o nariz lá dentro. Mesmo com o copo ao longe sentiam-se os cheiros químicos. Que raios, só extracção? Dava a ideia que tudo tinha sido levado ao exagero.
Foram precisos largos minutos para que mais alguma coisa diferente surgisse no horizonte. Especiaria, chocolate preto bem amargo, umas quantas amoras, começaram a dar sinais. Sempre numa toada forte e longe de ser delicada. Terminou com tosta, com tabaco, com muito fumo.
Acreditem que estive (sempre) à espera que largasse algo mais suave, um pouco mais doce. Nada. Sempre preto, sempre potente, sempre extraído.
Os sabores, para não destoarem, eram pretos, queimados, químicos e amargos. Tive que o colocar de lado e escolher outro para acompanhar o resto do jantar. Não dava. Aquilo assustava qualquer um. Regressei a ele mais tarde. Apesar de mais manso, mais equilibrado, não largou o estilo.
Um tinto australiano (que vem selado com aquelas rolhas de rosca) que tinha comprado algum tempo. Custou-me sensivelmente 15€ num hipermercado.
Fala-se por todos os lados que os vinhos do Novo Mundo se podem beber sozinhos, sem necessitar de comida por perto. Tive azar com este. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: A nota atribuída, por mim, reflecte apenas o meu (quase) total desconhecimento sobre vinhos daquele lado do mundo. O que conheço é muito trivial e com poucos pontos de referência. De qualquer modo, estava à espera de um vinho diferente.

sábado, Março 29, 2008

Torremayor tempranillo 2005

Não conhecia (existe tanta coisa que não conheço). Verdade seja dita, o meu conhecimento sobre os vinhos de Espanha, bem como de outros países é meramente literário. Fico-me quase sempre pelo que leio, pelo que ouço. Os conhecidos, aqueles que são sonantes, são fáceis de enumerar (tal como cá são precisos muitos euros para tocar neles). O engraçado (para mim) é procurar outras pingas.
Este comprei-o em Badajoz. Escolhi-o sem qualquer razão aparente. Veio da Ribera del Guadiana. De Mérida, cidade por onde andou o nosso Viriato. Por lá fez guerra aos Romanos. Custou-me qualquer coisa como 4.50€.
Abriu com ginjas. A fruta madura surgiu envolvida pela madeira. Engraçada a sensação a gomas, a pastilha elástica.
Senti tabaco, uma ponta de chocolate, baunilha e canela. Pelo meio, umas quantas raspas de hortelã e flores. Ervas aromáticas (alecrim) apareceram por todos os lados. Fresco, muito jovial. Bem cheiroso. Com toda honestidade, não estava à espera desta alegria.
Boca com boa amplitude. Manteve a frescura dos aromas. O vegetal sentia-se e pressentia-se. Balsâmico. No final ficavam apontamentos a madeira. Saboroso, redondo. Um tinto que puxa pelo copo. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Provavelmente teremos vinhos parecidos, mas ao ter um rótulo escrito em castelhano acredito que o meu entusiasmo tenha aumentado. Ainda por cima foi barato.

terça-feira, Março 25, 2008

Quinta dos Termos

Vamos entreter-nos com mais umas palavras. Melhor ainda, vou escrever mais umas linhas sobre qualquer coisa.
Durante muito tempo Penamacor, Belmonte e arrabaldes eram conhecidos, por mim, por causa da estrada. Passava por essas bandas quando ia até à Barca D'Alva. Depois era o Douro e finalmente Freixo de Espada à Cinta (família paterna). Era um demorado caminho ao longo da raia, de uma terra antiga, entremeada entre montanhas (a Serra no horizonte) e Espanha (a velha e poderosa inimiga). O vinho, a vinha não se via. A fruta era outra. Cereja.

Dias atrás tomei um copo de um vinho que apenas conhecia de nome. Quinta dos Termos. Um Reserva de 2005 (da Beira Interior). Feito com Syrah e Touriga Nacional.
Especiaria temperava um vasto conjunto de bagas silvestres. Forte o cheiro a ginja. Notei pelo meio, muita caruma, bastante casca de árvore. Era valente a sensação a mato. As flores foram calmamente aparecendo, sem grandes pressas. Estatura rasteira. O soltar de um leve fumado deu-me a ideia que houve certo cuidado na sua educação. Curioso. Boa compleição aromática. Muito aprumo. Sem rodeios, diz-nos o que é. Sincero.
Os sabores eram francos, suaves. Matriz silvestre e fresca. Nada de abusos no que respeita a maturações. Nada de álcool excessivo. Tomem nota: 12,5% de graduação alcoólica. Um tinto que ganhou muito com a comida em redor. Pareceu-me tendencialmente gastronómico.
Pessoalmente, vale a pena investir no conhecimento de outros vinhos, de outras terras. É castrador, redutor, olhar ou pensar sempre no mesmo. Nota Pessoal: 14

sábado, Março 22, 2008

Talentvs 2004

Olhando para os meus registos pessoais, para as folhas que tenho por casa, digo-vos com toda a franqueza que não recordo a última vez que bebi um vinho da Quinta Seara d'Ordens. Razão? Nenhuma. Simplesmente não tem calhado. Escolhem-se sempre outros.
Este Talentvs desperta no copo com odores a terra preta, bem revolvida. Balsâmos e chocolate amargo demoraram pouco tempo a revelar-se. Fruta levou-me para o meio de amoras, das ameixas.
Cheiros de apara de lápis, de carvão, de borracha lembram uma sala de aulas no final do dia. Os cestos e as mesas estão salpicadas de resíduos. Deambulava a pedra, a lousa. Saiu um pouco de cravinho.
Acordam as flores. Isto de escolher uma flor é uma tarefa complicada. Lembro-me sempre das mesmas. São aquelas que estão presas na memória. Daqui não saem. Alfazema, hortênsias. É engraçado como a minha mulher (alentejana) diz que as últimas não largam cheiro. Caramba, não largam? Se existe imagem que lembro são os quintais lá de cima cheios delas, bem asseados, limpos e perfumados.
Regresso ao tinto. A madeira, em certas alturas, surgia com aquele tique meio tostado. Nada de grande monta, nada que fosse alterar a minha opinião sobre ele. Aliás, combinou (bem) a rusticidade com modernismo.
Na boca este vinho deu-me a ideia que conseguia aliar de forma congruente a secura, um pouco de gordura, com a desejável frescura. Em certos momentos, transmitiu-me a sensação que se podia mastigar. A fruta e o chocolate mostraram-se bem misturados. Um bloco com boa coesão.
Soube-me bem, bebeu-se bem. Falta-lhe um niquinho de qualquer coisa para se tornar em algo ainda mais sério (desculpem-me a arrogância). Apesar disto e de outras coisas, confrontei-me com um tinto do Douro saboroso que revelou (muita) sensatez e equilíbrio. Depois, e muito bem, optou por não esquecer a terra que o fez nascer. Nota Pessoal: 16
Post Scriptum: Não foi combinado, mas reparei que o meu comparsa Saca-a-Rolha andou de volta deste vinho.

Provavelmente não voltaremos a falar nas próximas horas. Desejo-vos um bom descanso.

quinta-feira, Março 20, 2008

Régia Colheita Reserva 2006

Olha-se e diz-se: "Vinho de Adega Cooperativa não interessa." Só se aceitam vinhos de produtores de alta categoria (não sei ao certo o que isto quer dizer). Depois um verdadeiro enófilo não pode provar vinhos de adega. Melhor, não pode cair na tentação de dizer que as adegas conseguem largar vinhos com qualidade. Este mundo é demasiado preconceituoso (já falámos várias vezes sobre o assunto). Tenho sempre uma imagem registada na cabeça: "um individuo a beber, pegando apenas com o indicador e polegar, esticando o mindinho". É fino.

Abriu ao mundo com uma curiosa e personalizada impressão pretolada que se manteve durante a prova. Este branco deu ideia que balanceava entre aromas a ananás, lima e manga (ou coisa parecida).
A madeira, que esteve bem presente, deu-lhe um carácter adulto, personalizado, mais sério. Através dela (da madeira) saltaram cá para fora cheiros e sabores a frutos secos (o vosso nariz escolherá a fruta). Uma engraçada sensação a feno, a palha, transportou-me para o meio da seara. Sugestão do rótulo.
Os sabores, apesar de tendencialmente secos (fiquei com esta impressão), sugeriam que estavam bem suportados pela acidez, não deixando cair este branco (de 2006) de Monsaraz (Carmim) para o lado da monotonia. Pareceu-me bem composto e preparado para acompanhar um belo peixe no forno. Gostei. Foram 5€ bem dados. Nota Pessoal: 14,5

segunda-feira, Março 17, 2008

Os Primos

Um Castelão (de 2001) produzido por Hero do Castanheiro no meio das areias do Poceirão. Um tinto que ronda os 4€. O rótulo dá-lhe um toque infantil, meio naife. Aparecem três putos alinhados. A fotografia agarra-nos.

Apresentava-se com muitos cheiros a encerado, com a barrica (bem) presente. Bastantes nuances fumadas faziam-me lembrar charuto, tabaco. Envolviam-se muito bem com o chocolate e com a fruta cristalizada. Uma ponta de especiaria (talvez canela) dava-lhe um ar mais exótico, mais universal. Conseguiu manter ao longo da prova (ao logo do jantar) um ar muito regila e cativante.

Os sabores revelavam uma consistência interessante. Redondos, macios, a roçar o doce. Impossível não gostar. O final largava pela boca sensações de tabaco, chocolate e fruta. Quase pecaminoso. Nota Pessoal: 14


Post Scriptum:
Não deixa de ser curioso um vinho de 2001 conseguir apresentar um interessante nível de vivacidade. Feito para agradar a gregos e a troianos e para ser bebido quase todos os dias.

sábado, Março 15, 2008

O PAPE do ano maldito

Nasceu em 2002. Num ano negro. Foi a primeira colheita que Álvaro Castro fez com uvas da Passarela e da Pellada. Lembro-me bem do prazer que tive ao tragá-lo pela primeira vez. Na altura, parecia-me completamente diferente do que habitualmente bebia. Comprei umas quantas garrafas que fui bebendo ao longo destes anos. Estou a verter, agora, a última. Ficam registados os momentos que tive com ele. Aqui assenta que nem uma luva a expressão: Não existe amor como o primeiro.
Pela derradeira vez, abriu ao mundo com muito café, em grão, moído. Passavam, pela frente, imagens das velhas máquinas de moer. O cheiro que largavam.
Pimentas, especiaria e uma farta mão cheia de ervas aromáticas puxavam pelo nariz. Obrigavam a fechar os olhos. Perceber, destrinçar uma coisa da outra. Volta à cabeça a mercearia com aqueles enormes frascos alinhados em cima do balcão. As doses pedidas, vendidas a granel, vinham envoltas em papel pardo. Os velhos na bancada do lado sorviam a jeropiga.
Coloco o copo de lado, penso um pouco mais no que está ali defronte. Inclino-me, largo um sorriso ligeiro. Saltam mais umas estampas. Fica a ideia que alguém passou por perto, vestido com camurcina, de cigarro na mão. Impressão minha. Alucinação, desvairo. O senhor Gilberto, velho mestre, não anda por aqui. Trilha outros caminhos.
Tempo de voltar ao vinho. Tempo para continuar a compreender, mais um pouco, o que salta lá de dentro.
Aromas e sabores da Natureza brotam. Mato denso. Árvores, muitas árvores perfilam-se bem alinhadas. Cascas por todo o lado. Fetos, ou coisa do género, oferecem sensações húmidas, frescas. As flores, que passam por entre as pedras, apresentam-se ao Sol. Tudo muito vivo, tudo com muita força. Longe da morte, distante do fim.
Olhei para os ponteiros. Que noite!

Dizia que não andava com cabeça para vinhos tintos. Rectifico. Não ando com cabeça para um tinto qualquer. Nota Pessoal: 18

sexta-feira, Março 14, 2008

Portas de Melgaço: Alvarinho com Trajadura


Um rasgo. Fala-se que determinados vinhos devem ser bebidos consoante as condições meteorológicas. Tintos e brancos com madeira no Outono e no Inverno. O resto passa para a época mais quente. Para contrariar esta premissa, tenho andado nestes últimos dias a beber brancos de cariz mais ligeiro. Não ando com muita cabeça para olhar para os tintos. Parto do princípio que tenho de pegar na caneta e arranjar um pedaço de folha. Provavelmente serão preconceitos.


Meloa embebida em lima e ananás em calda, com umas tiras de manga, tornam este vinho Verde de 2006 num instrumento de relaxamento. Laranja e tangerina bem orvalhadas davam-lhe um toque curioso, algo primaveril. Uma pequena sensação mineral encerrava a apresentação dos aromas.
Paladar com timbre exótico, bem amparado pela acidez. Bebe-se e cumpre (para mim) a sua função. Combinou com massas e umas lascas de salmão marinado em ervas (o que vocês quiserem). Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: Os pássaros já andam por todo o lado. No outro dia, a minha miúda trouxe-se para casa um ramo curioso. Papoilas, alfazema, malmequeres e azedas. Lembram-se das azedas?

quarta-feira, Março 12, 2008

Casal de Loivos

Estou farto de ser confrontado com contradições enófilas (do tipo: não acerto uma). São inúmeros os momentos em que as minhas afirmações são contrariadas, desmontadas. Faz parte do meu crescimento e da minha aprendizagem como consumidor. Aliás, seria curioso observar os nossos críticos darem a mão à palmatória. Provavelmente ganharíamos muito mais e olharíamos para eles como seres deste mundo e não de outro qualquer, detentores de capacidades quase extra-sensoriais, inatingíveis ao comum dos mortais.
Muito recentemente bebi um Douro que estava encalhado na minha garrafeira. Comprei-o na altura como se fosse a 2ª marca de Cristiano Van Zeller. Casa de Casal de Loivos (de 2003).
O tinto estava (bem) marcado pela barrica. As sugestões a madeira estiveram sempre presentes. Nunca abandonaram o local. A priori, tinha aqui um empecilho, algo que iria irritar tanto o nariz, como a boca. Incrivelmente nada disso se passou. Pura contradição. Quantas vezes falámos no excesso de madeira que os vinhos têm?
Baunilha, caramelo, coco, chocolate branco e aparas exóticas (pela ordem que entenderem) deambulavam pelo copo. Sabiam bem. Em certos momentos, roçavam a gulodice. Puxavam por mais um trago. Estranho.
Os sabores, que partilhavam o mesmo carácter dos aromas, conseguíram apresentar um equilíbrio muito interessante. Curioso dueto entre secura e frescura. Gole, atrás de gole, foi-se bebendo quase sem dar nota. Nota Pessoal: 15,5

É caso para dizer: E quando a madeira sabe bem?

segunda-feira, Março 10, 2008

Vinhas Altas Sousão Reserva 2006

Não é muito comum beber Verde Tinto. Contam-se pelos dedos, de uma das minhas mãos, os tragos que dei neste tipo de vinho. Sempre olhei para os verdes tintos como um regionalismo. Apenas consumidos com assiduidade dentro das fronteiras do Minho. Está longe dos meus hábitos. De qualquer modo, e ao saber que tinham escrito umas palavras sobre este 100% Sousão, não hesitei em comprar uma garrafita, numa das minhas passagens pelo Super aqui da rua. Não pensei duas vezes. Foi olhar para ele e trazê-lo para casa. Serviria para regar umas fatias de vitela assada nas brasas acompanhadas por um arroz de cebola e alho.
Tentei seguir o código de utilização para este tipo de vinhos. Beber fresco.
A cor coincidiu com o que já tinha visto. Autêntico sangue. As paredes do copo ficaram tingidas, completamente pintadas.
Os aromas que foram saindo revelaram uma curiosa simbiose entre o moderno e o rústico, o tradicional. Fruta, vegetal e canela (Resultado do estágio em carvalho? Ou influência da leitura do contra-rótulo?) iam saltando cá para fora. Uma curiosa nota a chocolate surgia momentaneamente.
Os sabores apesar de rugosos e ácidos conseguíram transmitir macieza e equilíbrio (que contradição). Muito longe do que já tinha bebido. Certamente irei abusar ao dizer que é um verde tinto do século XXI. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: Um vinho que merece ser conhecido. Com uma pureza e harmonia que não estava à espera. Nota-se, ou percebe-se que houve muito cuidado na sua concepção.

sábado, Março 08, 2008

Pellada

Não farei uma inócua apresentação. Iria repetir centos de palavras que conhecem. Todos sabem que ao falar do Dão moderno, temos que pensar em Álvaro Castro. Não há volta a dar.
Numa noite foi testada a saúde de algumas garrafas da Quinta da Pellada. Tintos das colheitas de 2000, 2001, 2002 e 2003. As opções colocadas em cima da mesa reflectiam, apenas, o que existia em garrafeira. Não houve mais nenhuma pretensão.
Como sempre partilho com vocês o meus registos pessoais. Tentei ser conciso e objectivo. Evitei desvios. Os comentários, esses, ficam para vocês.

Quinta da Pellada Baga 2000
Oficialmente diz-se que nunca foi comercializado. Depois acrescentou-se que existiam vários lotes e vários engarrafamentos, que eram diferentes. Pessoalmente não faço ideia se este era o melhor ou o pior. Não tem interesse para o caso. São argumentos usados para desculpar a perfomance de um vinho ou simplesmente para fazer pirraça ao amigo. A minha é especial, a tua não é.
Este o que deu? Fruto doce, revelando face sensual, algo provocatória. Morangos e algumas groselhas. Flores de pequeno porte, juntamente com uma mão cheia de ervas aromáticas marcaram terminantemente os cheiros. Uma pitada de especiaria, aqui e além, enriquecia o conjunto. Fresco, aristocrático. Era evidente que a baga tinha sido bem educada. Sabores balsâmicos e airosos. Corpo agradável, mas indiciar que o vinho guardado nesta garrafa não ganharia em continuar fechado. Nota Pessoal: 16
Quinta da Pellada Estágio Prolongado 2000
Todas as garrafas que bebi ao longo destes anos, mostraram, quase sempre, bom nível de complexidade. Lembro-me da paixão que despertaram.
Não querendo repetir-me nas ideias (o que provavelmente irá acontecer), fiquei com ideia que as bagas envolviam-se com mimosas. Vegetal fresco. Sensação a chocolate com leite, pouco carregado. Algumas sultanas acompanharam. Sempre num registo subtil.
Sabores finos, mas com músculo. Fresco desde a entrada à saída.
O vinho contido nesta garrafa pareceu dar indicações que teria capacidade para evoluir mais um pouco. Nota Pessoal: 16,5
Quinta da Pellada Touriga Nacional 2001
Os tourigas nacionais de Álvaro Castro sempre tiveram fama. Quando falamos nesta casta, surge na memória o 1996. Bebi-o duas ou três vezes.
Este 2001 apresentava delicadeza nos aromas, com bastas sugestões florais. Algumas folhas de chá e fruta silvestre fechavam o círculo aromático. Estava fino na boca. Demonstrava, no entanto, alguma fragilidade na estrutura. A garrafa provada sugeria que a fase decrescente da vida tinha começado algum tempo. Nota Pessoal: 15
Quinta da Pellada Touriga Nacional 2002
De um ano menor. Um ano que foi catalogado como horribilis. Apesar das contingências, este Touriga está mais vivo que o 2001. Muito citrino, com notas de tanja (nunca consegui libertar-me disto). Acredito que estarei a errar no descritor. Mas não descortinei outra comparação. De qualquer modo, foi muito curioso, pois sorrateiramente irrompia ao de cima. Flores, Rebuçado. Um tinto fresco. Mais uma garrafa que deu a ideia que tinha passado o seu ponto alto de consumo. Nota Pessoal: 15,5
Quinta da Pellada Tinta Roriz 2002
Outro que surge do ano malvado. Ao contrário da Touriga Nacional, julgo que a Tinta Roriz é usada em menor escala na concepção de vinhos estreme. Não surge sozinha com tanta assiduidade. De qualquer modo, Álvaro Castro arriscou e, pessoalmente, saiu-se muito bem. Boa complexidade. Interessante escala de aromas. A tosta mostrava-se bem envolvida pela fruta, pelas flores. Passa pelo meio a pedra, o lagar. Alfazema e casca de árvore concluem o bloco. Corpo cheio, sem perder a suavidade, o aveludado. Consegue manter a frescura. Belo vinho contra todas as expectativas. Nota Pessoal: 17
Quinta da Pellada 2003
Fruta preta (Sempre tive dificuldades em definir a cor. Quando digo que é preta, dizem que é vermelha. Quando arrisco dizer que é vermelha, contradizem-me). Uma leve sensação a compota, juntamente com chocolate e fumados, reproduzia um conjunto de imagens mais modernas. Aliás, creio (é mesmo uma crença) que os vinhos de Álvaro Castro estão, agora, muito longe do que já foram. Para bem ou para o mal? Pessoalmente para o mal. Caminham perigosamente para o centro, para aquele núcleo onde todos os vinhos são iguais. A qualidade? Essa continua inquestionável. Nota Pessoal: 16,5

Em jeito de remate e apesar de todas as diferenças, ou não, notei um fio condutor, um traço familiar entre eles. Frescura, floralidade e subtileza.

segunda-feira, Março 03, 2008

Quinta dos Roques Touriga Nacional 2005

Lançado conversa, quando se fala em Touriga Nacional surge à frente dos (meus) olhos, o Quinta dos Roques de 1996 (Só tardiamente é que consegui provar este vinho). Um ano em que as coisas pareciam querer mudar. Havia sensação que o Dão estava a sair (finalmente) das areias, da letargia em que esteve enfiado durante longos anos. Era o início de uma caminhada lenta, cheia de zigues zagues, com muitas falsas promessas.
Em 2005 o cenário apresenta-se (bem) mais alegre (mesmo que seja do desagrado dos velhos).
O cheiro largado diluia-se pelo ar que respirava. Notei boa simbiose entre a fruta e a tosta. A doçura dos aromas, longe de ser incomodativa, seduzia a minha alma. Sentia o espírito a ficar preso, envolto em correntes de pecado. Terrível sentimento de culpa. Incapaz de dizer não.
Saltava a imagem das compotas. Tomate e canela. Marmelada e chila. Tudo a pedir que o dedo roube uma quantia. Dispersam-se sensações de chocolate, de tabaco, de caramelo. Mantêm-me preso ao nariz. Gulodice, muita gula.
A ervas aromáticas vão aparecendo lentamente. Talvez carqueja, talvez tomilho, talvez alecrim. Talvez algo do género. Perdoem-me outra abusiva comparação. Recordo (mais) uma imagem da casa da minha mãe. Era complicado assomar para ver ou responder a quem passava pela rua. O peitoril da janela estava atulhado de pequenos vasos. Volta na volta, caía um recipiente. A reprimenda era feroz. Agora, estão vazios.
Na boca quase seda. Taninos e acidez mostraram-se (muito) cordatos, bastante educados. Na memória ficaram registados os melhores momentos.
Poderá ser contraditório. Provavelmente muito confuso, mas gostei deste vinho. É a incongruente essência do ser humano a ditar leis.
Apesar de revelar tiques (muito) modernos, mostrar uma face algo distante das tradicionais características de um Touriga Nacional do Dão (pelo menos, assim pareceu) conseguiu ter amabilidade de manter delicadeza de expressão e suavidade. Longe da força, do músculo. Nota Pessoal: 17

domingo, Março 02, 2008

Um anónimo no dia 26 de Fevereiro disse o seguinte sobre a minha pessoa: "um palerma que nada sabe de vinhos, mais um informático a falar de vinhos...". Concordo com a primeira premissa, discordo com a segunda. Não sou informático.

A internet permite-nos falar, descobrir um enorme manancial de informações interessantes (ou não). Tudo com um nível de liberdade que pensávamos ser impossível. É, se calhar, a última fronteira de liberdade que temos.
Por isso e não querendo transformar o Pingas no Copo num campo de batalha, com comentários menos oportunos (já bastam os que andam por aí), não permitirei e apagarei todos os comentários que eventualmente poderei considerar menos cordiais ou ofensivos (e que foram surgindo ultimamente). Ninguém é obrigado a frequentar sítios que não aprecia.

Ao construir esta casa, este canto, esta esquina, o objectivo principal é divertir, é rir e fazer rir os outros com o rol de asneiras, de amadorismo duro e puro que largo por aqui. Nada mais, nada menos. Não existe mais nenhuma pretensão. Nada está dentro da manga.
Venho para aqui para relaxar, descontrair, desabafar, partilhar e tentar libertar-me do ritmo alucinante e alucinado que temos na vida. Não pretendo maçar-me com entidades estranhas que abundam pela rede. É uma chatice, uma perca de tempo. Os problemas da vida são suficientes e bastam-me. E quando este brinquedo fartar irá, certamente, para a prateleira.

Post Scriptum: Pensava que estava a coberto de ataques pessoais. Pura ilusão.
De qualquer modo, continuarei a falar do que gosto e do que não gosto.