
Numa das últimas sessões do
Núcleo Duro (um grupo de amigos que prova desde 2002), foram largados vários comentários sobre o novo
Syrah da produtora
Ermelinda Freitas. Tinha, já na altura, corrido muita tinta sobre este vinho. Abreviando a conversa, este
varietal recebeu a mais alta condecoração, num desses enormes concursos internacionais que
todos conhecemos. A partir daqui a
estória tomou tamanha proporção que
abriu o apetite a muitos consumidores. Não sou excepção. Sabemos quanto uma medalha pode valer. Mas
a questão não era
a medalha em si mesma (Existem outros vinhos que levam ou levaram insígnias). O
busílis era o epípeto que este
syrah tinha levado:
O Melhor do Mundo.
Conversa feita, ficou decidido que o Melhor seria confrontado, em prova cega, com outros tintos da mesma casta. Os adversários podiam ser escolhidos livremente, sem qualquer restrição. Apareceram vinhos para todos os gostos e feitios.
Peter Lehmann Stonewell Barossa Shiraz 1999 (Austrália)
Sempre que posso e a
carteira deixa, compro uma
garrafinha deste
vinho australiano. É um
tinto que
deveríamos ter direito de beber muitas vezes. Este
1999 estava muito elegante e delicado. As sensações aromáticas mostraram-se cheias de especiaria,
repletas de odores a chá. Num registo longe de
intensidades desmedidas e
afastado da brutalidade. Ao longo da noite,
manteve-se no seu lugar, largando suavemente
outros cheiros.
As flores apareceram de tal maneira que
as paredes do copo ficaram perfumadas. A baunilha, o caramelo, apesar de marcarem presença no vinho, estão muito calmos.
Não ofuscaram, em demasia, os outros.
Na boca, desde a entrada até à saída, ele manteve-se gracioso, com a especiaria e o floral a imporem-se. Notava-se que vinha vestido de forma elegante e fina. Longe de morrer. Se puderem, provem. Nota Pessoal: 17
Montes Alpha Syrah 2004 (Chile)Desde q

ue caiu no copo, este
tinto chileno (uma estreia para mim) soltou, cá para fora, um conjunto de aromas que prendiam o
(meu) nariz logo no primeiro ataque. Notei que existia uma bela simbiose entre sensações a bosque,
com alguns cogumelos encostados às árvores, e carradas de fruto preto suculento e fresco. O
rodar dos ponteiros permitiu que o chocolate, o tabaco, o caramelo fossem quebrando as cordas, aumentando, deste modo, o prazer. De empatia quase instantânea.
Os sabores comungavam o
(mesmo) registo dos cheiros. Bem suportados pela acidez. Fino e com uma elegância que merece destaque. Na essência, um vinho
que, por ele só, dá prazer. Não necessita de comida, por perto, para brilhar.
Nota Pessoal: 16,5
Herdade do Esporão Syrah 2005 (Alentejo)A
subida do merc
úrio, aparentemente, prejudicou-o. Tornava-o, tendencialmente, um pouco pesado, com um nível de doçura relativamente alto. A fruta estava bem maturada. Rebuçados e gomas aprofundavam o tal
carácter doce.
Olhando para a fase inicial, pareceu-me sentir algum mineral e uma breve sugestão a flores e terra. Chegaram a
dar, durante algum tempo, a leve impressão que tinha defronte algo
(bem mais) atraente e com
maior nível de complexidade. Foi, no entanto,
suficiente para animar a prova. Tudo num registo
(muito) consensual e
apelativo para todos nós.
Os sabores, apesar de gordos, amplos e um pouco pesados,
estavam bem suportados pela acidez. Os tostados pressentiam-se
na fase em que ele abandonava a boca.
Um
syrah que, ao ser servido,
deve estar refrescado. Deste modo, temos vinho para
dois bons dedos de conversa.
Nota Pessoal: 15,5Ermelinda Freitas Syrah 2005 (Terras do Sado)Um tinto com muito chocolate, com uma enorme quantidade de caramelo

e baunilha. A caminhada aromática alonga-se com um forte cheiro a mentol, demasiado artificial. O
after-eight era muito ostensivo. Dava a ideia que
ele tinha sido
criado em laboratório.
Não era natural.
Ao continuar a cheirar, dei conta de um odor que
colocava-me no meio de um roseiral. Chegava a incomodar este perfume estonteante.
Na boca, a intensidade aromática não tinha correspondência no paladar. Os
únicos sabores que notei, no palato, foram as rosas
(ou outras flores) e o artificial
after-eight. Não tão consistente como o
Syrah do
Esporão.
É,
apenas, um vinho muito trabalhado, feito para agradar. O preço, esse, como sabem é completamente despropositado.
Nota Pessoal: 15 He
rdade do Meio Syrah 2004 (Alentejo)Aromas difusos, algo empoeirados. Assumo que tive dificuldade para perceber quem é quem. Aparentemente as imagens estavam distorcidas, pouco claras. De qualquer modo, tendia para o balsâmico. Cedro e pinheiro percorriam todo o espectro aromático.
A fruta apresentava-se pesada e passada, num estado revelador de (muito) pouca frescura. Na parte final, andava uma estranha impressão a camurça, a pêlo de animal. Um tinto que pareceu (muito) pouco syrah.
Na boca o comportamento tendia para o doce, roçando o enjoo. A causa estava, sem dúvida, naquela fruta passada. Sem vivacidade e algo chato.
Um vinho que, particularmente, não apreciei. Como sempre, justifico, este facto, com as minhas imperícias pessoais. Nota Pessoal: 14
Jester Shiraz Vintage 2004 (Austrália)
Por muito que digam o contrário
(e o já o disseram),
continua a ser um vinho que não gosto. Podia ser, até, o
melhor do mundo.
Voltou a revelar uma face muito química
(que ultrapassa o inadmissível), com muitos torrados. Quase queimado. Bastante intenso, extraído e com
poucos pontos que pudessem dar interesse.
Nesta prova,
surge com outro aroma e
sabor:
Metálico.
Abonou pouco em seu favor.
Apesar de tudo, um pouco melhor na boca. Mas nada que
o levasse para outros voos. Entre os oito provadores presentes, foi o mais consensual.
Ninguém gostou.
Nota Pessoal: 13,5
Uma coisa é certa, estes vinhos bebem-se sem precisar da comida por perto.