sexta-feira, Outubro 31, 2008

Quinta da Fonte do Ouro (Dão) Reserva 2005

Depois de um largo tempo sem beber um vinho desta Quinta, cai no copo um tinto Reserva de 2005.
É dito pelo enólogo que fazer vinhos tintos perto da barragem da Aguieira não é fácil, bem diferente, por exemplo, do planalto de Vila Nova de Tazem (Concelho de Gouveia). Acredito que sim. Cada vez que passo pela zona (Mortágua) nota-se que deve ser complicado trabalhar com aquela humidade, com os constantes nevoeiros.

Aromaticamente muito perfumado, pontificando muitas sensações a jardim, a campo. Os ares que circulam em volta do copo são frescos e mentolados. O nível de humidade ia aumentando com aquela impressão a pedra molhada, a quintal orvalhado. Ultrapassada esta fase vegetal, mais ligada à terra, começaram a sair cheiros de fruta silvestre, madura e bem lavada. A coisa continuou a aquecer com uma ponta de chocolate e de fumo. Apesar desta mudança de discurso, não abandonou a matriz inicial, não esqueceu a forma como se apresentou. Mantém o aspecto silvestre, mineral e fresco.
Os sabores mostraram uma postura fina e escorreita. Saboreou-se a hortelã, o mentol e a fruta. Voltou-se a sentir o perfume e a limpeza. Os taninos estão suaves e equilibrados. O final é levemente achocolatado, temperado por um pouco de pimenta (Só para dar um pequeno toque).
Um vinho que é para beber com atenção e concentração. Aposta na elegância.
Pela prova, não fiquei com a ideia que tinha estrutura para aguentar muitos anos. Dito de outra forma, fiquei com a ideia que dará mais prazer enquanto a juventude ditar as regras. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: Touriga Nacional (50%), Jaen, Trincadeira e Aragonês.

quarta-feira, Outubro 29, 2008

Casa dos Gaios (Dão) Reserva 2004

Terá sido, com grande probabilidade, a segunda vez que provei um vinho deste produtor (Pedro Paraíso). A primeira não contou, porque foi feita em ambiente de feira e de festa. Risquemos, então, a primeira e comecemos a contar a partir de agora.
Este Reserva de 2004 pertence necessariamente ao grupo de vinhos que foi surgindo nos últimos anos e que fez ressuscitar toda a região do Dão.
Os cheiros pareceram-me, tal como o resto, possuir aspecto tendencialmente vegetal e silvestre. Fiquei com a forte impressão que estava metido no meio de uma encosta cheia de mato por todo o lado. A profusão de aromas começava nas ervas aromáticas, ia passando pelos pinheiros e eucaliptos e terminava junto a um ramalhete de flores (Seriam violetas? Seriam rosas? Seriam hortênsias?). Limpo e com muitas sensações ventosas pelo meio.
A coisa
foi evoluindo lentamente e sem pressas. Uma nesga de hortelã e um pouco de lavanda continuavam a imprimir frescura ao vinho. A madeira deu sinais através de meia dúzia de grãos de cafés (por moer) e um leve rodopio de fumo que, volta na volta, saía do copo. Não querendo abusar, ainda fiquei com a impressão que havia um pouco de canela por perto.
Falta-me falar da fruta: Amoras e mirtilos.
Os sabores confirmaram a frescura, a vivacidade. Mostrou um conjunto de taninos vivos e capazes de serem mastigados. Paladar silvestre, com razoável amplitude. É um daqueles que pede comida para brilhar. Acho bem.
Resumindo, um tinto com boa dose de austeridade e de complexidade e que apresentou um leque de pormenores interessantes. Deu a entender que tinha estofo para evoluir com dignidade durante algum tempo e eu acreditei. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Um tinto com a mão do enólogo Anselmo Mendes. Ele misturou a Touriga Nacional com o Aragonês.

segunda-feira, Outubro 27, 2008

Vale de Pios (Douro) Tinto 2005

Um vinho que nasceu em redor de Barca D'Alva (o site é aqui). Mais um nome que não conhecia, mais um tinto que vem ao mundo no Douro. Continua a ser alucinante o número de rótulos que brotam quase todos os dias naquela região.
Aromas a azeitona preta combinavam, na fase inicial, com sensações a pedra, a laje. Levava-me inevitavelmente para os clássicos lagares de granito. Intenso, quase ostensivo. Notas químicas marcaram presença forte.
O rodar dos ponteiros obrigou-o a largar para fora do copo um conjunto de cheiros menos difíceis, um pouco mais compreensíveis. Perfilaram-se flores rasteiras, giestas, esteva e eucaplitos. Por esta altura, ficava a ideia que a menta, a hortelã, andava também por. Apesar de sacudido, continuava carregado de exuberância, de intensidade e de escuridão.
Terminado o tempo dado, pouco mais ofereceu, pouco mais disse. Cerrou fileiras e voltou para dentro do copo.
O paladar trilhou o mesmo caminho, a mesma forma de estar. Sensações pretas, escuras e sólidas. Sabores a chocolate amargo, refrescados por um pouco de menta. Corpo musculado, taninos espigadotes. O final, apesar de seco, esforçava-se por deixar umas quantas amoras na boca.
Está fechado, aparentemente rude (tal como a terra onde nasceu) e com algumas arestas a pedirem lima. Precisa de tempo para reflectir e fazer reflectir, mas como diz o outro: é um vinho com personalidade e bem português. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Ainda recordo a viagem a vapor que fazia desde Barca D´'Alva até ao Pocinho. Depois era seguir até ao Porto, chegava a Lisboa bem tarde, cansado, mas cheio de fotos na memória. Quando falava disto cá em baixo, parecia que tinha vindo de outro mundo.

quinta-feira, Outubro 23, 2008

3 Rios Escolha 2007

Pelo rótulo ficou a ideia que seria feito a partir de 3 castas que andarão por entre 3 rios (rio Minho, rio Lima e rio Douro).

É mais um vinho verde, produzido pela mão do enólogo Anselmo Mendes, com muitos aromas a flores amarelas (a imagem dos malmequeres e das flores das maias saltaram à vista) que foram combinando, por diversas vezes, com os cheiros de fruta. Fruta que ia desde a laranja, a tangerina, a lima e o limão. De vez em quando, deu a sensação que a maçã (aquela verde e ácida) marcava presença. Tudo bem envolvido pela frescura proporcionada pelas sensações minerais (bem evidentes).
Terminava com leve tempero a relva, a erva (bem verdinha).
Um conjunto aromático com muita vibração, perfume e intensidade.
Os sabores não destoaram da jovialidade e da alegria dos aromas. Voltaram a insistir, mais uma vez, na frescura. As sensações minerais, a laranja e a tangerina sentiram-se, novamente, na boca. Razoável na estatura (isto é, tinha presença) e crocante desde o momento que entrou até ao momento que saiu.

Sem mais palavras, é um vinho branco com boa dose de interesse e que merece uma prova (bem) atenta de todos nós. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Seria interessante descobrir as castas que integram o lote. Que poderá ser? Alvarinho, Loureiro e ... ?

terça-feira, Outubro 21, 2008

Caves de São João 2005

"Fundada em 1920 pelos irmãos José, Manuel e Albano Costa, as Caves São João são uma empresa familiar que, a princípio, se dedicava à comercialização de vinhos finos do Douro e licores.
Aquela que é hoje a empresa familiar vinícola mais antiga ainda em actividade no concelho de Anadia, passou, nos anos 30, com a interdição da elaboração dos vinhos do Porto fora de Vila Nova de Gaia, a comercializar vinhos de mesa da Bairrada. Nessa altura, inicia também a produção de espumantes naturais, pelo método “champanhês”, sendo de destacar, nesta fase, o importante papel do enólogo francês Gaston Mainousson." Informação retirada do site.

Durante bons anos, os vinhos vindos destas Caves tinham estatuto. Foi com eles que ensaiei os meus dotes de provador e apreciador. Costumavam ser vistos com muita frequência por casa. Abrir uma garrafa de Frei João Reserva (Bairrada) ou de Porta dos Cavaleiros Reserva (Dão) era um momento com alguma solenidade. Depois da colheita de 1985 começaram a perder interesse, acabando por cair, quase, no esquecimento do consumidor actual (situação comum, na altura, a quase todos os vinhos do Dão e Bairrada). De tempos a tempos, fazia curtas investidas para matar saudades. Os brancos eram, em muitas ocasiões, boas surpresas.
Depois de uma longa travessia, de um penoso caminho, este engarrafador mostra sinais de querer voltar para dentro do copo, de forma mais afoita, mais convincente, tentando forçar o consumidor a pegar novamente nas clássicas garrafas (com rótulo de cortiça) vindas das Caves de São João.

Porta dos Cavaleiros Dão Touriga Nacional Reserva 2005
Boa combinação entre cheiros e aromas provenientes da fruta, hortelã e baunilha. Uma apresentação fresca, revelando durante a prova bom nível de vivacidade e alegria. Percebia-se que haviam algumas flores pelo meio, bem como uma interessante porção de especiaria. Achei piada a uma pequena sensação a pimentos. Um conjunto aromático redondo e apelativo.
Os sabores insistiam naquele modo de estar redondo e acetinado, suportado por uma boa acidez. Sentiram-se sabores frutados, combinando agora com sugestões de tabaco e chocolate. Tudo limpo, sem arestas e pronto a beber já (e não guardar). Nota Pessoal: 15

Frei João Bairrada Reserva 2005
Comportamento um pouco diferente do seu companheiro do Dão. Aroma com mais vegetais (será do Cabernet Sauvignon que faz parte do lote?) e mais especiaria. Pimentas e cravinho. Viram-se, também, ervas aromáticas (qualquer coisa como tomilho e alecrim), bem como um farto ramo com flores secas. Folhas de chá insistiam no estilo. A fruta surgiu, ligeiramente, cristalizada e acompanhava com meia dúzia de rebuçados.
Na boca voltou a mostrar frescura (comum em ambos), apresentando uma razoável amplitude. O final revelou um pequeno toque balsâmico. Nota Pessoal: 15

Não querendo recorrer a afirmações absolutas, fiquei com a leve ideia que tornaram estes velhotes em algo (bem) moderno e fácil de beber.

domingo, Outubro 19, 2008

Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2005

Pelo que tenho lido, este vinho da Quinta do Crasto (na versão 2006) foi um dos escolhidos pelo crítico de vinhos João Paulo Martins. Aliás, fazendo uma pequena passagem pela crítica nacional, começo a reparar de ano para ano, que as novidades no que concerne aos escolhidos, aos melhores, começam a ser cada vez menos. Não é preciso muito tempo para percebermos que os nomes colocados em cima da mesa são quase sempre os mesmos. Um simples consumidor, que perca alguns minutos em ler as opiniões de meia dúzia de indivíduos, adivinha provavelmente mais de metade dos seleccionados.

Em 2005 a Vinha Maria Teresa proporcionou, mais uma vez, uma sessão de emoções, de prazeres, cheia de riqueza e delicadeza. Era impressionante a suavidade, o aspecto cremoso (quase manteiga) que foi revelando ao longo de toda a prova. Aqui, a abordagem é outra (bem diferente do Batuta 2001).
O sem
blante aromático estava recheado de cheiros a chocolate com leite, a chocolate branco. Caramelo e baunilha. Muito insinuante. Em certos momentos, levou-me a pensar que estava a ser encaminhado para o meio do pecado, da luxúria, tal era a dependência, o desejo em cheirar, cheirar.
Ainda insatisfeito, (o vinho) abre a mão e deixou cair para fora aromas balsâmicos misturados com toques de madeira exótica. Um pouco de especiaria (pimenta branca) dava-lhe um ar menos convencional.
A fruta? Era suave, com intensidade e doçura equilibrada. Alguma vinha cristalizada, levemente salpicada por açúcar em pó. Fico-me por aqui. Acreditem que era capaz de inventar mais (e olhem que a vontade é muita).
O paladar voltava a insistir na sensação amanteigada, caramelizada e chocolatada. Elegante, de porte fino, quase filigrana. Bem sustentado pela acidez. A desbunda de prazeres, a farra, terminava com sabores achocolatados, levemente temperados por balsâmicos e por mais um pouco de pimenta. Nota Pessoal: 18

Post Scriptum: Até o preço é extravagante.

quinta-feira, Outubro 16, 2008

Quinta da Pellada Touriga Nacional 1996


Não será, certamente, uma afirmação politicamente correcta, mas ando muito afastado dos vinhos de Álvaro Castro. Razões várias e mais algumas, mas todas elas terminam no mesmo sentimento: Morreu a paixão.
Durante anos e anos fui comprando as colheitas que iam saindo para o mercado. Tentava não deixar fugir um único vinho. Primeiro os Quinta de Saes (saudades da rusticidade que tinham), depois o Jaen 1997, os Quinta da Pellada Touriga Nacional (marcante o 1996), passei pelos Estágio Prolongado (EP) de 2000 (Quinta de Saes, Quinta da Pellada e Tinta Roriz). No mundo EP, nunca mais senti o que senti pelo Quinta de Saes EP 2000. Depois apareceu um Baga em 2000 (que vinho!) e outros tantos.
A partir de certa altura, alguns desaparecem, surgem outros e outros. Pelo meio, ficava a ideia que o estilo dos vinhos tinha mudado. Actualmente, a escolha (nos tintos) recai apenas nos Pape, para evitar confusões.

Numa rápida e incisiva passagem, aparece-me pela frente, novamente, o Quinta da Pellada Touriga Nacional 1996. Desde o primeiro gole, dado alguns anos atrás, que na memória estão registados os cheiros e sabores que este vinho deitou cá para fora.
No presente, a Touriga Nacional fechada na garrafa soltou, para dentro do nariz, aromas minerais intensos (ando a repetir muito), levando a crer que haviam ali pedras molhadas, húmidas. Aquela imagem do lagar, com traves velhas, rodeadas de teias. Percebia-se que o ambiente seria fresco, intenso. Avançando, e evitando outros desvios, os cheiros começaram a enriquecer com flores, com caruma, com fetos, com terra. Era a natureza quase ao vivo. A menta deu sinais. A cena foi aquecendo com um pouco de pele, de camurça, de couro. Parecia que queriam dar algum aconchego.
Na boca insistiu, novamente, na frescura. Pressentiam-se sabores florais, minerais e terrosos. Era mais uma vez a natureza a dar sinal.
O corpo mostrava boa estatura para um tinto de 12 anos. Ao mesmo tempo pareceu-me ouvir dizer que era capaz de aguentar mais uns anos (será que as colheitas que andam por aí terão a mesma capacidade?).
O final deu a ideia que era mentolado e levemente guarnecido por fruta cristalizada. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Como poderão ver, pelo rótulo, o vinho saiu da catacumba.
Já agora, como perspectivam a evolução dos novos vinhos de Álvaro Castro? Para beber jovens ou nem por isso?


terça-feira, Outubro 14, 2008

Niepoort Batuta 2001

Existem garrafas que encerram lá dentro um conjunto de sensações que, por muitas voltas que possamos dar à nossa cabeça, as palavras que escolhemos tornam-se quase sempre simplórias, vagas. Acabamos por cair em lugares comuns.

Passados 7 anos após o ano da colheita, este Batuta 2001 apresentou-se ao mundo com vigor, com uma força rara. Um tinto que precisou de muito tempo para acordar, para começar a falar. Parecia não querer sair da clausura.
Quebrada a timidez inicial, aquele momento de indecisão, leva-nos numa viagem cheia de cheiros e de sabores.
Um vinho que espicaçou a imaginação, que provocou e desafiou os sentidos.
Começou a rodopiar, lentamente, com aquele cheiro a esteva, a giesta. Entranhamos-nos na terra, enfiamos-nos pelas pedras adentro, descansamos no lagar. Durante muito tempo, a lousa, o granito, o xisto marcaram acerrimamente o vinho. A fruta que surgiu de soslaio era silvestre. Imaginavam-se as plantas carregadas. Eram bagas, eram amoras, eram groselhas. Tudo fresco e suculento.
Por esta altura, os aromas minerais, terrosos, juntamente com a fruta, criavam um bloco denso e estruturado. Sempre a provocar, recorrendo a um constante jogo que parecia nunca acabar.
O paladar era forte, larguíssimo. Por cada gole dado, vinha outro e mais outro. Dava a ideia que ficava algo para trás. A frescura andava por todo o lado. Os taninos, que estavam bem presentes, puxavam pelos dentes. Umas vezes másculo, outras vezes feminino. Umas vezes bruto, outras vezes fino. Bipolar.
Está ainda a crescer, com muito para dizer. Está longe do fim. Um vinho grande, que não deixa ninguém indiferente (falo de mim).
Acompanhou perfeitamente um musculado arroz de coelho (esteve a marinar em Vintage). Nota Pessoal: 18

Post Scriptum: Será que estes vinhos morrerão um dia?

quarta-feira, Outubro 08, 2008

TRES PICOS Borsao Garnacha 2003


Continuemos com vinhos da tal noite. Será escusado dizer que não conhecia. Proveniente de uma região que é uma incógnita (para mim). Tirando esse grande pormenor e ultrapassada esta breve introdução (coisa rara), digo-vos que foi uma grata experiência. Por vezes, dos sítios mais desconhecidos surgem as melhores surpresas.

Os cheiros, que iam subindo para dentro do nariz, mostraram capacidade de empatia. Abriu, junto ao rio, com fruta banhada por um pouco de mel e de marmelada. Em seguida serve-nos meia dúzia de bombons de caramelo. Bandeja, atrás de bandeja, vinham acepipes de aspecto guloso, mas oferecidos na dose certa. Leite com chocolate deu a ideia de querer terminar esta fase (mais) luxuriante, mais imediata. Começaram, então, a irromper sensações enceradas, a especiaria e a madeiras exóticas (salta à vista a imagem de um bazar). Um pouco de camurça e um leve fumado dão um toque aconchegado.

O paladar tinha (muitas) sensações a fruta recheada por licor. Fresca e com capacidade para encher. Ao servir-se de uma bela frescura, conseguiu manter-se longe da doçura. Largava a boca, deixando sabores achocolatados, levemente perfumados por um pouco de flores. Nota Pessoal: 16

Um tinto que parecia ter sido construído com a simples ideia de agradar e satisfazer muita gente. Daqueles que apetece beber e saborear. Capaz, mesmo assim, de apresentar uma interessante escala de aromas e sabores, conseguindo evitar situações chatas, monótonas.

Post Scriptum: Percorrendo as minhas memórias, não consigo encontrar um momento em que tenha caído pela minha goela um tinto feito unicamente com Garnacha. Campo de Borja é a Denominação de Origem. A Bodega está aqui.

domingo, Outubro 05, 2008

Opus One 2000


Provar e beber um vinho às cegas tem proporcionado muitas surpresas. São momentos em que nos confrontamos, apenas, com o que está dentro do copo. Nada mais. Não existe pressão do rótulo, nem do dinheiro. Instantes em que não fazemos a mínima ideia do que temos à frente. É o vinho e somos nós. A partir daqui, cabe-nos a função de decifrar, entender (ou não) o que vai boiando. No final, e é esta parte que interessa, dizermos se gostamos ou não. Em muitos casos dou comigo a afirmar que gosto de coisas que não esperava. O contrário acontece na mesma proporção.

Não é a primeira vez que sou confrontado com situações curiosas e embaraçosas, como preferir um vinho barato, em detrimento de um vinho mais caro, mais luxuoso, mais famoso e provavelmente mais complexo. Será, provavelmente, resultado de imperícias pessoais que teimam em não desaparecer.

Pois bem, naquela curiosa noite onde se bebeu um pouco de tudo (desde a Roménia a Marrocos), apareceu um tinto que é ícone. Opus One 2000. Um tinto californiano que é resultado de uma joint venture entre Robert Mondavi e Baron Philippe de Rothschild.
Um dos momentos mais hilariantes, da minha vida de enófilo, aconteceu quando reparei que a Nota Pessoal que tinha atribuído não ultrapassava os 14,5. Os aromas e sabores passaram, rapidamente, para segundo plano. Por mais ou menos descritores que pudesse
enumerar aqui, por mais palavras que escrevesse, o que estava dentro daquele copo não tinha qualquer correspondência com a fama, com o nome do vinho.
Se tivesse bebido com o rótulo à vista, teria tido a mesma coragem? Acredito que não. Existem nomes que, por uma razão ou por outra, influenciam muito.


quarta-feira, Outubro 01, 2008

Casa de Canhotos Alvarinho 2007

Continuando no mundo dos alvarinhos, dou comigo a entrar pelas portas da Casa de Canhotos (Melgaço). Saltando introduções mais ou menos estéreis enfiemo-nos, rapidamente, no copo e falemos do que está lá dentro.

Na primeira abordagem, pareceu-me que o vinho tinha uma componente mineral forte, chegando a revelar, em certos momentos, curiosa austeridade. Era perceptível (para mim) aquele cheiro a pedra molhada, a calhau.
Rodopiando o copo
, surgiram aromas vegetais de boa intensidade, saltando à vista imagens da erva verde e de espargos. O cenário começava a ficar preenchido.
A fruta, que estava aproximar-se, deitou cá para fora uma mão cheia de sugestões. Imaginemos, para perceber melhor, uma malga com maçãs (verdes), ananás, tangerinas e mangas, salpicada com gotas de limão e lima. Um raminho de hortelã e flores embelezava a coisa. Um conjunto de odores apelativos, fazendo com que a vontade de cheirar (um pouco mais) não morresse.
No boca, os sabores (escorreitos) mantiveram frescura e interesse, com o mineral, o vegetal e a fruta a sentirem-se. Curiosa nota de untuosidade (que senti). O final, para não destoar, era gostoso.

Um vinho branco bem feito, com muita coisa no lugar e que consegue oferecer uma boa porção de aromas e sabores, sem entrar pelo exagero adentro. Sempre que pôde mostrou leveza. Vale a pena conhecer e beber. Nota Pessoal: 16