domingo, dezembro 20, 2009

Um lote

É uma molhada de vinhos que irão servir para encerrar o ano. Dificilmente virei até aqui martelar na tecla, antes de 2010. Assumidamente vou colocar, por alguns dias, semanas, talvez meses, a brincadeira de lado. Será, quem sabe, um período de nojo, um duro momento de reflexão íntima sobre a importância, para mim, do Pingas no Copo.
Por incompetência pessoal, não tenho arcaboiço para manter-me na crista da onda. Antes que caia definitivamente no fundo do mar (e ele está cheio de despojos), irei recostar-me na palmeira, a descansar, com a prancha ao meu lado e observarei cuidadosamente as habilidades dos outros. Quando tiver vontade de regressar, irão ver, ao longe, um ponto afastado do resto da molhada. Estarei a surfar no meio de correntes contrárias.

Herdade de São Miguel (Regional Alentejo) Colheita Seleccionada 2007. Boa componente vegetal, fresco e apontar a direcção para um consumo franco e contínuo. Nota Pessoal: 14,5
Herdade de São Miguel (Regional Alentejo) Reserva 2006. Um vinho bem trabalhado. Limado, sem aresta. Diria que estava bem polido. Madeira e fruta bem misturadas e a pedirem para ser engolidas. Nota Pessoal: 15

Bétula (Regional Duriense) Branco 2008.
Fruta delicada, suave. Aparentemente bem proporcionada. Tons amarelos, sensações doces, meigas. Flores, pólen. A madeira torna-o mais guloso, mais apelativo. Parece estar integrada. Frutos secos.
O sabor transmite uma sensação elegante, fina. A fruta surge, à primeira vista, envolvida pela madeira. Apetece beber com calma, muita calma. Mas não há bela, sem senão. Ao fim de algum tempo torna-se meio monótono. Nota Pessoal: 15

Fiuza Sauvignon Blanc (Regional Tejo) 2009.
Um vinho de 2009 que pouco é mais do que um belo refresco que levou 18 valores numa dessas revistas da especialidade. De grosso modo pareceu-me pertencer ao lote dos indiferenciados. Fruta, citrinos e uma quase inócua impressão a espargo. Podia ser um vinho de outra coisa qualquer. Nota Pessoal 13
Vale D'Algares Selection (Regional Tejo) Tinto 2008
Fruta muito madura com tiques da madeira nova à mistura. O paladar revelou-se alisado, limpo, carnudo. Pertence ao grupo dos modernaços e prontos a beber. É, efectivamente, um vinho que dispensa comida. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Vinhos enviados pelos Produtores.

domingo, dezembro 06, 2009

Quero algo diferente!

Entretanto muita gente ainda anda desiludida com os Blogs. Querem mais. Querem coisas diferentes. Estranho! Alguns deles, profissionais dos sete costados não conseguem dar lições à malta. Resumem-se a recitar que andam decepcionados com os blogueiros. Lembram aquele anúncio do bombom em que uma senhora bem vestida, mas old fashion, pede por algo diferente. Ambrósio, o motorista, já avisado abre uma gaveta e sai um chocolatinho Ferrero Rocher. Será isso?


Se, também, quiser algo diferente vá até aqui e continue a colaborar no peditório. Parece que começam a surgir desistências. Nós agradecemos e eles também.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Quinta das Marias (Dão) Parte I

Na primeira abordagem aos vinhos da Quinta das Marias noto que ficou no ar uma leve sensação de desilusão. Estava efectivamente à espera de mais, de muito mais. Estava à espera de algo desavindo, de qualquer coisa que desse mais pica. Atrevo-me a dizer que ficou nas beiças um leve sabor amargo. Queria mais. Queria sentir diferença, queria saborear frescura, acidez.


Quinta das Marias Rosé 2008. A cor ainda fez sorrir. Aquela luminosidade meio salmonada parecia querer dizer-me que era diferente. Não passou, apenas, de um embuste. O sabor e o aroma eram pesados e chatos. Um descuido na temperatura de serviço e é a morte do artista. Tive pena. Nota Pessoal: 12,5
Quinta das Marias Encruzado (Sem Barricas) 2008. Aromas e sabores secos. Estilo, tendencialmente vegetal. Folhagens. Sugestões a pedra molhada davam o tradicional toque mineral. A acidez tornava-o arisco, mais irrequieto. Mantinha-o em linha, segurava-o e bem.
Não sendo exuberante em aromas e sabores, gostei do seu comportamento. Conseguiu ser suficientemente austero e discreto. Nota Pessoal: 15,5
Quinta das Marias Encruzado (Com Barricas) 2008. Diferente do sem barricas. Forte, peitudo. Demasiado moderno. A fruta era espessa e gorda. Os cheiros fumados mudaram rapidamente para qualquer coisa mais enfartada. Ananás em calda, palha e muitos frutos secos. Roçou, por momentos, alguma monotonia, alguma linearidade.
Sabor cheio, estruturado. Vagueavam vegetais e citrinos. A acidez lá ia fazendo pela vida tentando manter níveis de frescura aceitáveis. Um vinho que podia ser de qualquer lado. Pessoalmente gostaria que fosse mais Dão. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

terça-feira, dezembro 01, 2009

O outro Dão!

São seguramente vinhos do Dão que estão longe das luzes da ribalta. Ser parte integral de uma região que não pertence, seguramente, ao lote dos favoritos (ainda joga em campeonatos secundários) e, mesmo assim, tentar vencer na vida por vias alternativas, acredito que não deve ser tarefa fácil. São vinhos pouco frequentados. São, de certeza, vinhos sombrios e, quiçá, ignorados. Esquadrinhei os meandros da minha memória e não consegui enxergar qualquer presença deles fora das exíguas fronteiras do Dão. Vivem apenas confinados aos circuitos regionais baseados, quem sabe, nas frágeis correntes de amigos.

Para um enófilo, acabam por ser pérolas de valor inestimável. Possibilitam-nos perceber, compreender, interpretar outras visões, outros olhares sobre o assunto. Depois percebemos que existe vida para além da cosmética e que algumas rugas podem dar mais carácter.

Não querendo perder tempo com mais considerações vagas e sem sentido, partilho com vocês o nome dos ditos:
O
Abrigo da Passarela Touriga Nacional 2007. A antiga Casa da Passarela mudou de dono. Vai ser obra dura e hercúlea recuperar uma casa com enorme história. Sóbrio e vegetal.
Tazem Reserva 2005
. Depois de um período de afastamento pessoal, regressei com força. Estão a surpreender, e muito, os vinhos produzidos na COOP de Tazem. Linha vegetal, com fruta silvestre, caruma e humidade.
Finalmente um medalhado. Quinta das Camélias Touriga Nacional 2007. Floral, mas distante de intensidades desmedidas. Limpo, alegre e saudavelmente ligeiro.

Em comum a secura, a brandura (tão esquecida) e, aqui e além, umas benéficas arestas.

sábado, novembro 28, 2009

Collares Viúva Gomes

Arrisco-me a dizer que gastei, quase, 10€ por causa de um rótulo. Era e é agradável à vista. Deita ares ao passado. Talvez anos 20 (do século XX). As cores são garridas e deslocadas da modernidade. Depois adorei ver escarrapachado Genuíno Branco. É forte. Estão visíveis, ainda, as condecorações. Transborda, por todos os cantos, a nostalgia. Dá ideia que alguém anda, ainda, a conjugar o pretérito.


O vinho branco era completamente anacrónico. Destoava com o tempo corrente. Os sabores e cheiros pareciam ter feito uma longa viagem, vindos de lugares remotos, de outras épocas. Seco, salgado, oxidado e uma singular, ou deslocada, percepção a madeira encerada. De resto, nada de exuberâncias. Parco em sensações, quase frugal. Caramba, que coisa estranha.
Será que estamos perante mais vinho que define um momento, uma cultura? Étnico?

Post Scriptum: O contra-rótulo refere que pertence à colheita de 2006 e foi engarrafado em 2007.

terça-feira, novembro 24, 2009

Quando se conhece a face!

O busílis que fez levantar os dedos para martelar nas teclas andava, há muito, a latejar na cabeça. Volta, na volta, ele insurgia-se de forma impetuosa (e, cada vez, com maior assiduidade). Tenho definitivamente a necessidade de exorcizá-la, expurgá-la de uma vez por todas. Partilhá-la publicamente.
Não querendo rodear o assunto, durante mais tempo, sinto ao longo dos anos (primeiro nos 5às8, depois no COV e agora no Pingas no Copo) que o factor pessoal (meu e de outros) está afincadamente agarrado à critica que faço (perdoem-me o abuso). É angustiante falar de vinhos, quando conhecemos a face de quem os faz. A dificuldade aumenta, de forma exponencial, quando ouvimos os desejos, as ambições de quem projectou determinado vinho.


Retorçou-me
imenso quando pedem uma prosaica opinião. Assoma-se uma enorme incapacidade para dizer o que sinto. Nem um simples e natural não aprecio consegue saltar da boca. Termino quase sempre com a conhecida expressão: É interessante. Do outro lado deslumbra-se um vincar do sobrolho. Fatalmente penso: Terei sido o único?
Depois, e por causa desse conhecimento, começo a evitar comentários públicos sobre determinados vinhos. O elo estabelecido com os donos deles é, em muitos casos, grande e profundo. Por impossibilidade ou incompetência, sou assaltado pela incapacidade de traçar uma linha que seja.
Reconheço que é, decididamente, mais fácil, bem menos penoso, escrever sobre qualquer coisa quando existe distância e desconhecimento. Não se ouvem palavras e não existem caras. Sendo mais frio e mais desapaixonado, é com muita certeza mais confortável.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Altas Quintas: Uma Enorme Obsessão!

Por entre os inúmeros projectos que o enólogo Paulo Laureano é responsável, directa ou indirectamente, apenas ligo aos mesmos: Herdade do Portocarro e Altas Quintas. Sempre que traço uma linha sobre vinhos vindos daqueles lados, digo-vos que existe perturbação e talvez, quem sabe, imparcialidade. Há, da minha parte, muita devoção. São efectivamente dois casos que marcam pela diferença, pela capacidade que demonstram em fugir à normalidade.
As palavras que vou largar serão exíguas. A ideia é mesmo deixar vincado aqui o prazer que tive com mais dois vinhos daquele lado, mais a norte, do Alentejo. As montanhas, no norte ou no sul, fazem milagres.


O Altas Quintas Branco Colheita de 2008 (com verdelho e arinto) é um vinho fino, com elegância. Vê-se que foi vestido com delicadeza. Não é, assumidamente, coisa bruta. A barrica está lá, apenas, para enriquecer, para adornar. Suave, bem comportado. Revela secura e frescura. A acidez marca, e bem, presença. Nota Pessoal: 16,5
O Obsessão Colheita 2004 (Alicante Bouschet e Trincadeira) está cheio de vigor. Está empachado de cheiros e sabores vegetais. A fruta, bem madura, nem abre pio. Comporta-se com decência e com decoro. Existem outros intervenientes (lembro-me da especiaria) que desempenham papéis com relevância. A madeira está lá, mas não marca, não chateia nariz e boca.
Um tinto que merece todas as atenções. Depois da minha ladainha, o que impressiona é o tempo de espera. Entre a data da colheita e a data da comercialização são 5 anos. Caso raro? Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Dona Berta (Douro) Rabigato Vinhas Velhas 2008


Tal homem, tal vinho. Sem favores e sem meios termos. A terra dá, a terra tira. O resto é para desfrutar. Tudo é vivido com intensidade, com paixão, com loucura. Como percebo esse olhar.
Os vinhos nascidos na Quinta do Carrenho revelam, e bem, a dureza, a genuinidade da natureza. Olhei para eles, sempre, de forma muito singular.


Antes de continuar, assumo, desde já, que gosto dos vinhos de Hernani Verdelho. Os brancos integram, e sem qualquer tipo de concessões, o lote dos meus favoritos. Feito o esclarecimento adequado, irei inventar sobre o que achar conveniente. Apetece-me, simplesmente, falar.

Austero, forte, vegetal em toda a largura. Pedregoso, rochoso. Um branco corpulento, com arestas por limar. Monobloco. Pediu, incessantemente, um copo amplo, largo. Ele precisava disso.
Estranhamente verde e maduro. A maçã e a pêra misturavam-se com a laranja, com a toranja, com a lima, o limão. Em simbiose. Cheiros sem artefactos, e sem arranjos desnecessários.

Na boca a acidez preenche o palato. O carácter seco e mineral imponha-se com força. Quase que gritava lá dentro. Sério, grave, meio rude. Que raio de vinho! Nota Pessoal: 17

Para alguns estará em construção. Para mim está no ponto.

quarta-feira, novembro 11, 2009

O Pingus GOSTOU mais destes! (Os eleitos de 2009)

Mais uma pequena selecção de vinhos (2009) que partilho com vocês. É, como sempre, uma mera lista constituída por vinhos que obtiveram classificação superior a 17. A publicação do menu serve, apenas, para memória futura do blog. Qualquer tentativa de extrapolação está, ou estará, fatalmente tolhida de sentido.
Quantos aos critérios, tal como nas selecções de 2006, 2007 e 2008 mantêm-se os mesmos (quase nenhuns).

Não são tidos, nem achados, mais uma vez, outros que eventualmente bebi e que vocês beberam. Não teria, qualquer, sentido mencionar vinhos que não foram falados (e classificados) no Pingas no Copo. Em alguns casos, se voltasse a beber, a minha opinião poderia ser, eventualmente, outra. Reflectem, meramente, os mais variados momentos de loucura e desvairo. Tal como nos outros anos, cada vinho tem um link para o respectivo texto.

Minho/Alvarinho

Soalheiro Alvarinho 2007 (Nota Pessoal: 17)

Douro/Porto

Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 (Nota Pessoal: 17,5)
Quinta da Leda Touriga Nacional 1997 (Nota Pessoal: 17)
Quinta da Leda Colheita 2000 (Nota Pessoal: 17)
Quinta Vale Meão Colheita 2000 (Nota Pessoal: 17)
Gouvyas Vinhas Velhas 2005 (Nota Pessoal: 17,5)
Poeira Colheita 2001 (Nota Pessoal: 18)
Segundo DADO (Nota Pessoal: 17)
Krohn Colheita 1968 (Nota Pessoal: 17)
Niepoort Secundum Vintage 2001 (Nota Pessoal: 17,5)
Niepoort Vintage 2007 (Nota Pessoal: 18)

Dão

Segundo DADO (Nota Pessoal: 17)
Quinta do Cerrado Touriga Nacional 2001 (Nota Pessoal: 17)
Vinha Othon Reserva 2006 (Nota Pessoal: 17,5)

Ribatejo

Tributo Colheita 2004 (Nota Pessoal: 17)

Madeira

Blandy's Madeira Bual 1977 (Nota Pessoal: 18)
Sercial FEM Muito Velho (Nota Pessoal: 17,5)

Estrangeiros

Peter Lehmann Stonewell Barossa Shiraz 1995 (Nota Pessoal: 17,5)

sexta-feira, novembro 06, 2009

Reminiscência - Topázio (Douro) Reserva branco 2007

Falar de determinados vinhos pode ser funesto para quem quer ser aceite ou respeitado no meio. O conceito é simples: mostrar, sempre, mais um troféu para meter pirraça ao outro. Vejam o que bebo (e tu não bebes). O assunto é recorrente e, por diversas vezes, tracei várias linhas, no Pingas no Copo, sobre o tema.
Desgraçadamente não existe tolerância para recordar coisas do passado. E quem se atreve afirmar publicamente que anda, ou andou, a perder tempo com isso, corre, eventualmente, um risco desnecessário. O resultado poderá ser a chacota e o menosprezo.
O vinho, em causa, foi comprado com (muita) desconfiança. O rótulo mudou, mas manteve alguns tiques nostálgicos: Vinho Branco Seco. Reminiscências do passado. Já agora, vão longe os tempos em que as Caves Velhas eram presença incessante nos meus copos. O Juta chegou a merecer honras de estado.

Este vinho branco conseguiu deitar para fora um leque de sensações que, assumidamente, não estava à espera. A surpresa acercou-se do copo.
Os cheiros saíram de forma ligeira e sem excessos. Fiquei pasmado. Sensações a polpa de fruta. O vegetal marcou, felizmente, presença assídua. Assomou-se, ainda, um singular aroma que fez pensar no pêssego, naquela casca que arrepia a gengiva. Feno fresco. Tudo aprazível e ameno.
Na boca ele transmitia uma percepção a fruto secos e a citrinos. Airoso e bem comportado.

Com meia dúzia de retoques, com um pouco mais tempero, tínhamos coisa (ainda) mais séria. Nota Pessoal: 15

Depois de tanto palavreado, resta dizer que custou menos de 5€.


sábado, outubro 31, 2009

Vinhos de outros mundos!

O título foi colocado propositadamente. A ideia era torná-lo num chamariz, numa estratégia de marketing barata.
Não sendo versado em estratégias comerciais, sei que meia dúzia de termos bombásticos trazem mais gente à loja. Sempre compram qualquer coisa.
Quem veio, até aqui, com a ideia de descobrir teorias, mais ou menos descabidas, sobre vida extra-terra irá sentir-se ludibriado. Rapidamente verificará que as letras expostas no écran nada dizem sobre acontecimentos alienígenas.
O letreiro, colocado lá no alto demonstra, apenas, o desconhecimento que existe sobre os vinhos Algarvios e Madeirenses. Relativamente aos primeiros a experiência resume-se à Quinta do Barranco Longo. Recordo com um leve sorriso, a celeuma que houve, na altura, por causa do baptismo que fiz. Chamei-lhes vinhos da praia. Na altura, o Pingas no Copo gatinhava de forma muito acanhada. Nos segundos a ausência de conhecimento é demasiado grande para gritar qualquer coisa.
Por tudo isto, não tive qualquer pudor em apelidar de outros mundos vinhos germinados em terras de aparência mais ou menos exótica.

O trago inicial veio recambiado do Algarve. Quinta do Francês 2007. Um vinho compacto, que revelou vivacidade suficiente para dar luta. Demonstrou algumas habilidades curiosas. Tendencialmente vegetal. Sensações a vagem, a árvore. Algum cacau amargo e café.
O sabor pareceu-me menos conseguido. Talvez resultado da sua juventude (quem sabe). Acidez e taninos ariscos, um pouco soltos. O corpo parecia não ter cabedal para acompanhar o ritmo. Merece, para já, descansar. Nota Pessoal: 14,5
O outro cujo (Primeira Paixão Verdelho 2008) navegou até ao meu copo vindo da Ilha de Alberto João. Um puro Verdelho. Um vinho fino e desafiador. Empanturrado de aromas e sabores vegetais. A escolha era diversa e quase sem limite. A fruta (presente) não tinha qualquer tique de protagonismo exacerbado. Acidez cortante. Seco, salgado. E mais não digo. Que se lixe. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Ambos os vinhos foram enviados pelos Produtores.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Considerações e Encruzilhadas Enófilas

Este texto ou este post (em linguagem internáutica) reflecte meramente o insípido momento que estou atravessar. Um vazio que cobre extensas áreas. Vai de lés a lés. Nasce no reinos dos profissionais e acaba nos quintais dos amadores. Uns e outros dormem profundamente como uma pedra. Ninguém se safa. Simplesmente, vagueia-se.
Com o brotar de um novo folhetim (Best Wine), no longínquo mês de Agosto, pensei que as hostes iriam animar significativamente. Sol de pouca dura. A principal jogadora da equipa da Best Wine, Maria João de Almeida, bateu com a porta. Saiu. A coisa foi ferida de morte. Já agora, e sobre revistas de vinhos e afins, João Paulo Martins deu a ideia, neste canto, que poderão existir Revistas de Vinhos a mais! Em jeito de provocação, pergunto: E críticos a mais?

Ao fim da caminhada, deparo-me numa complicada encruzilhada, num abastado momento de dúvidas e incertezas. Apesar do esforço para fugir dos cânones estabelecidos, reparo que estou a ficar preso das notas de prova. Fui literalmente apanhado pelo arrastão, pela febre do apontamento. Conseguirei dar a volta?

Os fóruns, esses, vão-se mantendo demasiado mornos. Um gigante em banho-maria que só acorda para meia dúzia de disputas sem sentido.

Percebo agora, e muito melhor, o fechar de portas do Vinho a Copo. Não há pernas que aguentem correr sempre atrás da novidade. Eles, tal como eu, encararam a faceta de wineblogger como um inócuo divertimento.

Posto isto, agradeço à Revista de Vinhos, o convite feito para pertencer ao júri (não gosto desta palavra) do Concurso "A Escolha da Imprensa". Os juízes estiveram aglomerados no último dia 21 de Outubro. Os resultados sairão por alturas do próximo Encontro com o Vinho/Encontro com os Sabores 2009.

segunda-feira, outubro 19, 2009

CEM REIS

Existem rótulos que ficam retidos na mona. Este, provavelmente, não será dos mais bonitos mas, por uma qualquer razão, gosto dele. Inclinações. Relembra o episódio Alves dos Reis. Figura que entrou para a nossa história como o maior burlão. Será que continua a merecer esse epíteto? Hum, julgo que não. Acredito que existem, actualmente, figuras com maior e refinada aptidão para a burla que o nosso velho Artur Virgílio Alves dos Reis. Parece-me que, agora, seria um menino do coro, comparado com o que assistimos todos os dias. Pergunto, até, se o ilustre Madoff obteve inspiração para as suas trapaças nos actos do nosso concidadão.

A única certeza é que Alves do Reis acabou na miséria e no total esquecimento. Os que proliferam por aí conseguem, não sei como, manter as suas fortunas, levando-nos a pensar que o crime deles compensou e bem. Estarão a dizer que vale a pena tentar(mos)?

O vinho, esse, pareceu-me um tinto (Syrah) da nossa época, modernaço, com aromas e sabores urbanos. Torrefacção, balsâmicos, especiaria e fruta de cor preta. Passível de ser bebido sem comida.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Tazem (Dão) Touriga Nacional Unoaked 2005 e outras coisas

Chegado ao fim da semana, reparo que andou muito mexerico pela rede. Por um motivo ou por outro, em cada malha da rede, existia sempre qualquer coisa. Foi bom. Sinais de vida.
Reparei, mais uma vez, no especial carinho que existe por quem arrisca em falar de vinhos (bem ou mal). De blogueiros a bandoleiros. De fuzil na mão, só tenho pena que a munição seja pouca e não dê para disparar com a cadência que desejava. Raios.
Posto isto, e sem perder tempo com comentários ocos sobre objectos ocos (Para seguir com atenção a estória saltem para este tópico. A título pessoal, continuo por saber quem são os ilustres bloguistas e a iluminada crítica britânica que é comparável à Escanção e à Néctar), quero maçar-vos com mais umas linhas sobre um simplório vinho nascido no Dão. Trata-se de um Touriga Nacional Unoaked 2005 produzido pela Cooperativa de Tazem.

O enólogo Pedro Nuno Pereira continua a arregaçar as mangas para que esta Cooperativa consiga dobrar o Cabo das Tormentas. Será dos poucos que, aparentemente, tenta manter vivo o velho carácter dos vinhos do Dão. Só tenho que agradecer. Estou umbilicalmente ligado a toda região.
Apesar do nome transmitir um certo ar de modernidade, o vinho encerrava dentro de si um conjunto de argumentos algo tradicionalistas. O cheiro estava coberto de pinheiro, de sensações vegetais, de musgo. Forte impressão húmida. Leve impressão química. Por meio, notou-se um suave toque a especiaria ou, eventualmente, odores a folhas secas. Rústico, quase rude. No fim de tudo, desabrocharam as flores (influência do rótulo).
O sabor era ácido, seco, vegetal, químico. Nada de modernices aparvalhadas e descaracterizadas. É o que é, nada mais. Quando caía pela garganta abaixo, deixava na boca vestígios secos e vegetais. Precisa de comida pujante. Nota Pessoal: 15

Será, provavelmente, mais um vinho étnico?

UpGrade: Sobre o tópico, já estou (um pouco) mais esclarecido.

domingo, outubro 11, 2009

Herdade do Esporão e os bloggers

A Herdade do Esporão chamou até si um conjunto de bloggers nacionais que costumam opinar sobre os assuntos do vinho na rede.

A ideia da coisa era apresentar em primeira mão o 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2007. Atrás deste vieram outros vinhos que ajudaram a alimentar as conversas, sempre desbragadas, soltas, descomprometidas e assumidamente ingénuas. Antes de enfiarmos nas goelas o dito, foram sendo testados e comentados outras presenças.

O primeiro a cair no copo foi o Verdelho de 2008. No ápice, somos assaltados por uma pergunta da audiência bloguista. Verdelho ou Gouveio? Um vinho branco com carácter vegetal, asseado e uma carga ácida capaz de refrescar a boca. O dia estava quente e ao longe viam-se as agruras do clima.

Com a boca limpa, passamos para o Reserva Tinto Colheita 2007. Há muito tempo que este tinto representa com dignidade o papel que um vinho de 15€ deve ter. Colheita após colheita surge bem feito, moderno, apelativo e acima de tudo consensual. São milhares e milhares de garrafas. Enquanto posso, vou guardado para memória futura da minha garrafeira um Reserva de cada ano.

Não estava destinado ser a principal personagem, muito menos a estrela do dia, mas tornou-se inevitavelmente no vinho mais comentado, mais falado, mais bebido. Tinha 9 anos de vida em cima e mostrou com enorme categoria um conjunto de argumentos que fez cair o meu queixo. Um vinho elegante, fino e complexo de aromas e sabores. Um Alicante Bouschet.
O 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2000 quase que relegou para segundo plano o chamariz do dia. Entre os dois 1º Prémio as atenções viraram-se para o mais velho e não houve volta a dar. As palmas foram efusivas e pediu-se Bis por diversas vezes.

O acto derradeiro, aquele que iria encerrar a apresentação, tinha que estar destinado ao 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2007. Aqui temos Touriga Nacional, Touriga Franca, Syrah e Alicante Bouschet.
Apesar da reconhecida qualidade, apesar de perceber que tinha ali um belo vinho, a minha alma enófila não se animou da mesma forma. A mente estava fatalmente noutro lugar e com outro.
A garrafa foi vestida com dois rótulos distintos da autoria da artista plástica Ana Jotta. São dois desenhos humorísticos, feitos a carvão, inspirados nos primeiros rótulos do Esporão. Cada desenho tem à sua responsabilidade três mil garrafas.

Antes de largar o poiso e após termos percorrido as instalações, ainda houve tempo para fazer as pazes com Herdade do Esporão Private Selection, Branco, Colheita 2008. Pareceu-me diferente, mais afastado daquela exagerada gordura. De qualquer modo, o apetite ficou aguçado para nova prova. A ver vamos.


domingo, outubro 04, 2009

Ouzado ou Ousado?

Os autores dizem que é um vinho Ouzado. Ousado por causa das castas (todas estrangeiras), ousado porque não teve (qualquer) contacto com a madeira. Pessoalmente, não teria a coragem suficiente para espetar num contra-rótulo uma afirmação tão taxativa. Sem pensar muito, e não sabendo se há ou não, sou capaz de acreditar que existem, por aí, outros atrevimentos. Já agora e sobre o tema dos contra-rótulos, Luís Ramos Lopes escreveu um editorial, na edição da Revista de Vinhos de Setembro, que retrata e bem a realidade. Um texto alegre, jovem e com humor (devia haver mais). De qualquer forma, o enredo construído de volta do Ouzado (Alentejo) 2005 está bem esgalhado e o aspecto (do rótulo) desperta atenção. Nada contra.


Um vinho fresco, vivo, com a fruta bem presente. Fruta fugiu (e ainda bem) da simplicidade, do imediatismo. Madura, mas não passada. Mostrou alguma austeridade, apresentando uma curiosa impressão química e mentolada.
O sabor comportava um nível de acidez profundo. Limpo e apetecível.
Um vinho que vale a pena ser bebido, com estrutura para suportar momentos mais sérios. Nota Pessoal: 15,5

Off Topic: No Fórum da Revista de Vinhos, alvitrou-se que os bloggers conhecem quase tudo (nem que seja literariamente) no que respeita a topos de gama da tugolândia. Havia admiração pelo facto. No entanto, foi o meu queixo que caiu ao reparar na facilidade com que debitavam nomes e nomes de vinhos estranhos, vindos de outras bandas. Falam deles como se fossem minis acompanhadas por tremoços.
Adorava, e muito, ser um blogger endinheirado. Enquanto não acontece tal fenómeno, vou-me contentando com o que leio e com o que ouço.

quinta-feira, outubro 01, 2009

CARM (Douro) Reserva Família Reboredo Madeira 2008

Longe vão os tempos em que corria desalmadamente atrás dos vinhos tintos. Durante largos períodos, os euros saltavam da mão, a um ritmo indecente, por causa de um tinto. Os brancos pareciam eclipsados. Eram coisas reles e sem interesse. Destinados às mulheres e aos miúdos (descobri hoje que tinha um dente de leite). Para gente fraca e sem carta de enófilo.
Ultrapassada a febre dos tintos, provavelmente resultado de um enorme empanturramento, vejo-me loucamente de volta de vinhos brancos. Compro vinhos brancos. Quero vinhos brancos com madeira, com inox, do Alentejo, do Dão, do Douro, de outro sítio qualquer. Acompanham carne branca, vermelha, peixe e o que vier para a mesa. Não interessa. Que seja branco. Pouco importa o pedigree. Conheço rafeiros bem giros. O propósito é, simplesmente, ficar satisfeito.


CARM Família Reboredo Madeira 2008
foi uma descoberta, resultado de mais um frenesim enófilo. Um vinho branco que conseguiu conjugar (algum) equilíbrio entre fruta e madeira. Manteve, durante o tempo necessário, um nível de suavidade e delicadeza interessante. Abriu fumado, desdobrou-se em várias sensações de fruta. Por entre meio, vislumbraram-se umas pequenas notas vegetais que fizeram mexer o vinho. Feno.
Os sabores perfilaram-se elegantes e afinados. Fruto maduro e fruto seco. A acidez pareceu-me com tamanho para ajudar o vinho a evoluir.
Custa cerca de 10€. Que acham? Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: Para quem estiver interessado, as castas são: Códega do Larinho, Rabigato e Viosinho e andou 8 meses em barricas de carvalho francês.

quarta-feira, setembro 30, 2009

António Carvalho

Recoloco outra vez a foto. Uma foto alegre.

Fixa o momento!

sexta-feira, setembro 25, 2009

Mais Brancos

Um quarteto de vinhos brancos. Uns serão, provavelmente, para o Verão, outros para épocas do ano mais duras. Por entre nomes e descrições (e ando com pouca paciência para elas) ficam um conjunto de palavras sobre cada um. Coisa curta. Em alguns casos a surpresa abateu-se sobre o copo. Noutros nem tanto.

Casal Figueira Vinhas Velhas (Regional Lisboa) Colheita 2008. Feito com Vital. As vinhas são velhas. Cor a cair para o torrado.
Aromas empanturrados
de fruta madura. Fruta evoluída, a tender para a cristalização. Cheiros de massapão (é assim que se escreve?).
O paladar estava ligeiramente melado, com sensações de passa. Salvou-se pela acidez, pela austeridade que conseguiu, ainda assim, mostrar.
O vinho que estava dentro da garrafa parecia dar os últimos passos da sua vida. Tinha mudado de aspecto. Estava diferente. Perdeu aquele lado mais fresco, tendencialmente mais mineral, mais crocante. Tornou-se mais sénior. Nota Pessoal: 14,5
Vale de D'Algares Selection (Regional Tejo) Branco 2008. Fruta espessa, densa, gorda. Revelou aromas fumados que cambiaram para cheiros mais enfartados. Notas de ananás, de palha, de frutos secos.
Sabor cheio, estruturado. Vagueiam vegetais e citrinos. A acidez conseguiu manter níveis de frescura aceitáveis. Um vinho moderno e com apetência para climas mais frios. Nota Pessoal: 15

Vinha Paz Branco (Dão) Colheita 2008. Nem fazia a mínima ideia que existia. Depois de aberto, fui assaltado por uma sensação de desilusão. Algo pesado, meio morno, parco de frescura. O gelo é, decidamente, um amigo. Não o larguem. Não querendo matá-lo à nascença, fica o beneficio da dúvida. Voltarei a provar. Nota Pessoal: 14
Quinta do Cerrado (Dão) Encruzado 2008. Diria que tem, quase, tudo o que aprecio. Fresco, estaladiço. Vegetal, seco. Abundante em fruta ácida. Maçã bem verde. Ananás embebido em limão e lima. Carregado de muitas sensações minerais. Uma leve evolução para favo de mel.
Deixou nas beiças uma forte impressão seca, estupidamente ácida. Estranha presença de frutos secos.
Fiquei com a ideia que teve, algures, contacto com a madeira. Nota Pessoal: 16 (que se lixe).

Post Scriptum: Casal Figueira Vinhas Velhas (Regional Lisboa) Colheita 2008 foi oferecido pelo Produtor. O Vale de D'Algares Selection (Regional Tejo) Branco 2008 foi enviado pelo Produtor.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Niepoort, Quinta de Nápoles

No meio de tantas idas ao Douro, esta foi minha primeira visita à Quinta de Nápoles. Obrigado pelo convite. O momento serviu para provar as colheitas de 2007 e 2008. Pelo meio fui ouvindo as palavras do enólogo Luís Seabra e de Dirk Niepoort. Perante a cadência das explicações, qualquer comentário, feito por mim, apenas iria colocar a nu as minhas eno-debilidades. Compreendi melhor o Charme 2006 e os posteriores 2007 e 2008 (em barrica). Dirk disse que era a elegância levada ao extremo. Pretende que seja assim, quer assim, gosta assim. Foi afirmativo.
Abri a boca, assumo, quando reparei que o engaço estava a regressar. O Robustus tem uma boa dose (60%). Quase contra-corrente.
O Vertente 2007 está, e ainda bem, transformado num vinho sério, com mais arestas.
A novidade acabou por ser o Navazos Niepoort branco 2008. Um vinho que não caiu no goto de João Paulo Martins. A expectativa era, para mim, grande. É diferente, completamente desavindo. Seco, muito seco. Gostei francamente. Metam-no ao lado de uns belos enchidos e verão que tudo bate certo. Feitos uns para os outros.
Antes de vir embora, caiu no copo um Garrafeira de 1977. Não tenho estrutura, nem aptidão para comentar. Outros que o façam.
E como merece ficar registado o dia, deixo-vos algumas fotos.


Antes e depois fui passeando pelos arredores. Era visível a azafama das vindimas. Tive, ainda, tempo para, algures entre São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa, surripiar, à beira da estrada, uma mão cheia de amêndoas. A filha mais velha estava de boca aberta. Nunca tinha visto uma amendoeira. A culpa é minha.

domingo, setembro 20, 2009

Bastardinho de Azeitão

Não deixa de ser um momento desconcertante quando degluto, enfio este vinho pela garganta abaixo. Ao saber que a vinha já não vive e que, em vez dela, existe cimento, alcatrão, aço e ferro assoma-se uma sensação algo singular. Não é todos os dias que temos à frente do focinho um vinho nascido numa vinha que foi riscada do mapa.
O esforço para reproduzir uma paisagem desaparecida é tremenda. Fazer apagar o que existe e substituir por um cenário mais bucólico, não é decididamente uma demanda fácil. Os pontos de referência estão completamente apagados, alterados. Provavelmente haveriam hortas, com certeza teríamos meia dúzia de animais domésticos, (não seriam certamente cães vadios), eventualmente conseguiríamos ouvir os grilos (mesmo com a velha fábrica da CUF no horizonte).
Apesar de conhecer o local (Lavradio) das presumíveis cepas (caminhei por aquelas bandas fartas vezes) a visão apresenta-se turva e algo distorcida.


O vinho, esse, dispensa longos enunciados. Não necessita e nem precisa que coloquemos no papel descritores, mais ou menos, inócuos. Existe para ser bebido e bem saboreado. Acaba por ser, muitas vezes, um instrumento de meditação sobre os actos do homem. Sendo um produto do passado, não deixa de ser, curiosamente, uma predição do futuro. Andam ser suprimidas, por esse mundo fora, muitas vinhas de bastardo.

No site da José Maria da Fonseca diz que este é um excelente exemplo, na Península de Setúbal, do resultado da produção de um vinho tinto licoroso, a partir de uvas tintas. A casta Bastardo era proveniente de vinhas plantadas a Sul do Tejo, entre a Caparica e o Lavradio, a última das quais foi arrancada em 1983 (contava com 13 anos e não conservo qualquer imagem das videiras).

segunda-feira, setembro 14, 2009

Colheitas iguais, Vinhos diferentes.

A estória tinha como trama central a Quinta da Leda. O enredo foi sendo preparado sem grandes cuidados. Serviria, apenas, para abrir a época das provas. Cada um traria o que tinha em casa. Simples. O resto do conto decorreu sem grandes momentos de suspense. Todos estavam certos daquilo que tinham à frente das beiças. Eu cheguei a jurar a pés juntos, com as mãos bem cerradas, gesticulando com veemência, que sabia o que estava dentro de cada copo. Não iria demorar tempo para ficarem despidas as pretensões a provador sabedor. O ridículo acercou-se de mim quando as garrafas começaram a surgir em cima da mesa. O rei ia nu!
Destapadas as garrafas verificámos que tínhamos colheitas repetidas de Quinta da Leda (2000 e 2001). O vinho enfiado em cada uma delas tinha tido um comportamento tão díspar, tão anacrónico que conseguiu enganar mente, nariz e boca. Chegou ser o Dia e a Noite. Os comentários, as notas pessoais faziam antecipar enormes diferenças no que respeita aos anos das colheitas. Embeiçados pelos enganos, acercou-se um gélido silêncio na mesa.
As causas tentaram ser descortinadas: local onde o vasilhame foi comprado, o tratamento que teve até chegar ao dia do julgamento final. Tudo era plausível para justificar as divergências.
Este imbróglio acabou por ser um exercício curioso. Permitiu compreender in loco, e mais uma vez, que o acto da prova é efectivamente uma actividade carregada de subjectividade. Duas garrafas da mesma colheita podem ter comportamentos completamente antagónicos. Posto isto, é altura de começarmos a introduzir nos nossos comentários expressões do tipo: o vinho que estava nesta garrafa, naquela garrafa.
A título de curiosidade deixo-vos aqui alguns traços sobre os meus erros.
Quinta da Leda 2000 (a). Mineral. Acreditei piamente nisto. A face parecia carregada de cores da terra. Pedra, lagar. Flor silvestre. Cedros. Do princípio ao fim vagueou longe da doçura. Vernizes, encerados. O sabor era balsâmico, fresco, bem mentolado. Nota Pessoal: 17
Quinta da Leda 2000 (b). Licoroso. Ginjas, bombons. Rebuçados. Folhas de chá, erva seca. Um curioso odor a terra quente. Na boca, mostrou-se estranhamente rico, amplo, viçoso e a contrariar o cheiro. Sim senhor. Nota Pessoal: 15,5
Quinta da Leda 2001
(a). Os cheiros criaram empatia repentina. Toques modernaços de chocolate de leite misturados com tabaco e caramelo. Mudou algumas vezes de aspecto, passando para um estado mais húmido e terroso. Sempre perfumado e com boa dose de complexidade.
O paladar era doce, mas estava amparado pela acidez. Bem composto, coeso e homogéneo (três palavras que dizem o mesmo). Pecou no excessivo uso de tiques novo mundo. Mas isso são coisas minhas. Nota Pessoal: 16
Quinta da Leda 2001 (b). Cheio de fruta cristalizada, um pouco pesado no aroma e no sabor. Quente, evoluído e com aparentes sinais de cansaço. Pareceu-me ser vinho sem capacidade para fazer abrir a boca de admiração. Conseguiu, ainda assim, manter algum equilíbrio durante a noite. Nota Pessoal: 14,5
Os outros: um brilhante e respeitado Quinta da Leda Touriga Nacional de 1997 que estava soberbo, cheio de nuances aromáticas. Fino e elegante. Mais não digo. Nota Pessoal: 17. E um recente 2007 elegante, cheio de juventude e irrequieto. Fruta (para alguns era preta), chocolate, novamente tabaco e fumo, e outras coisas parecidas, com um pouco de esteva e terra pelo meio. Frescura quanto baste. Nota Pessoal: 16,5

No final, enfiámos uns tragos de um vinho que nasceu numa vinha que já não existe.

terça-feira, setembro 08, 2009

Brinquedo caro, Vinho caro!

Quando era puto ao passar pelas montras, via uma mão cheia de brinquedos que julgava impossíveis de existir. Olhava, olhava, babava-me, com o nariz encostado ao vidro. Eu queria aquilo.
Outras vezes, em casa de presumíveis amigos, ficava maniatado quando espreitava ruborizado as pistas de comboios, as pistas de carros, as pequenas cidades montadas. Olhava, olhava. Não sabia brincar com aquilo.


Regressava a casa e contava o que tinha visto. As palavras saíam da boca cobertas de ficção. No meio das histórias, iam surgindo encapotados vários pedidos. Os sobrolhos dos meus pais indicavam a impossibilidade de aquisição. Regressava à cama, suspirando pelo que tinha visto. Uma loucura.
Transpostos muitos anos, reparo que os brinquedos cobiçados estão transformados em vinhos desejados. Detenho-me, durante largos minutos, a mirar as prateleiras repletas de garrafas luxuosamente rotuladas. Fazem-se contas à vida, contam-se os tostões. Porra, será que passados mais de 30 anos, confronto-me, novamente, com a impossibilidade.


Volto a entrar em casa de amigos, volto a encarar coisas conhecidas (como se fossem os brinquedos da montra ou de um catálogo luxuoso). Tinha, apenas, uma vaga ideia da sua existência. Também, agora, fico recluso, incapaz de provar e beber com a liberdade necessária. As mãos tremem, o suor corre pelas ventas, com medo de não gostar, de não saber interpretar o que está dentro do copo. Olho, acanhado, para o lado e reparo que os outros actuam de forma, estranhamente, natural, sem aparentes sinais de nervosismo. É obra.


No meio de toda aquela luxúria, senti que ninguém arriscava comentários assertivos. Qualquer palavra solta vinha camuflada de cautela e desculpas. Pairava na atmosfera uma forte incapacidade para questionar os vinhos. Seriam, de facto, inquestionáveis?

Para evitar esquecimentos, da minha parte, prendi os vinhos nas fotos. Para meter pirraça, ficam disponíveis aqui. Não deixam de ser brinquedos expostos numa montra.
Notas de prova? Nem um traço foi escrito pela minha manápula.

terça-feira, setembro 01, 2009

Companhia das Lezírias, a Austrália aqui tão perto!

O título poderá estar coberto de exageros (como quase tudo que escrevo). Estará provavelmente encharcado de ideias erróneas. De qualquer maneira, e independentemente disso, ao provar meia dúzia de vinhos da Companhia das Lezírias fiquei com a ideia que a Austrália tinha chegado até à minha porta. Vinhos gulosos, limpos, ideais para consumir descontraidamente, cheios de tiques internacionais (chocolate, fruta, especiaria, tabaco) vendidos a preços, aparentemente, cordatos. Não estou a contar com o Reserva. Esse parece-me deslocado do resto da trupe e não merece que se pague por ele entre 25€ a 30€.
Dessa meia dúzia destaco dois. Preço de loja: 10€.

Companhia das Lezírias (Regional Ribatejano) Cabernet Sauvignon 2005, comprado com olhar de desconfiado, com medo de ver saltar da garrafa uma horda de pimentos assados a pedirem por sardinhas. Felizmente, nada disso. Recorte moderno, muito apelativo e sem (aparentes) arestas. Aromas e sabores gulosos. Fruta, madeira, alguma especiaria. Bem misturados. Os taninos e acidez estavam na dose certa. Estruturavam o vinho.
Um tinto que vai escorrendo pela goela abaixo sem quase se dar por isso. Serviu e cumpriu plenamente. Fiquei, francamente, agradado com ele. Nota Pessoal: 15,5
Companhia das Lezíras (Regional Tejo) Touriga Nacional 2008. Violeta (ou outra coisa qualquer) a rodos. Muito perfumado no ataque inicial. Estilo jovem e para jovens. Espesso no copo. Gordo. Notava-se a fruta babada pelo chocolate, o caramelo, a baunilha. Se não tivesse visto o rótulo apostaria (e fortemente) que este vinho não era luso.
Para ser servido em momentos light e destinado a pessoas que apreciam exuberâncias desmedidas.
E eu, volta na volta, tenho dias que gosto destas coisas. Malditas contradições. Nota Pessoal: 15

Em jeito de remate, acrescento a esta dupla o Companhia das Lezírias Branco de 2008 (3.70€) que revelou arcaboiço para se tornar numa boa RQP. Parte do lote passa por cascos de carvalho.

Post Scriptum: Achei curioso a existência de um Espumante de Verdelho (7.50€).

quarta-feira, agosto 26, 2009

Quinta da Espinhosa (Dão) Branco Colheita Seleccionada 2008

Uma vez tive o desplante de dizer isto sobre um homem: "É a minha pequena e simples homenagem ao enólogo Magalhães Coelho. Um senhor que fez muito pelo Dão, que andava preso do granel e das práticas erróneas que iam colocando esta região num abismo sem retorno.
Juntamente com outros senhores do Dão, (...), tentou inverter a situação apostando na criação de belos vinhos que pudessem dignificar uma região, que no passado foi o berço dos melhores tintos portugueses."

Naquela altura o motivo andou em redor de uma prosaica prova com uma dupla de vinhos (tintos) da Quinta da Espinhosa. Voltei a relembrar o homem, novamente, com um vinho do mesmo produtor. Um Homem (do Douro) que, silenciosamente, foi colocando muita pedra no seu lugar devido. Nós, os amantes do Dão, devemos curvar-nos perante a sua memória.

Posto isto, e ao fim de alguns anos, volto a colocar nas beiças um vinho da Quinta da Espinhosa. Continuo a ter dificuldades para entender os aparentes hiatos que alguns produtores costumam ter. De um momento para o outro, este quase desapareceu (mesmo na terra onde nasce). Em tempos ainda foi possível descortiná-lo nas prateleiras de algumas superfícies comerciais. É a velha história: "ai e tal, aqui no Dão ninguém nos liga." Metam os vinhos em frente dos consumidores. Acreditem que alguém lhes vai pegar. De outro modo, continuarão a ser eternos desconhecidos.
Depois de mais um rodeio, este branco (com Encruzado, Bical e Cercial) pareceu-me coberto de alguma austeridade. Pouco exuberante, pouco cordial. Pareceu-me tendencialmente vegetal. Cheiros de erva misturavam-se com odores a feno e a restolho. A suposta presença de maçã ácida, junta com pêra, consegue dar outros aromas ao vinho, tornando-o muito mais fresco e vibrante.
O sabor dele era seco, muito seco. Achei curioso este comportamento. Nada de frutas maduras e opulentas. Carregado de acidez e sensações vegetais.
Por pouco mais de 3€, este vinho merece ser metido no circuito comercial de forma séria. Estar enfiado num tasco regional não faz qualquer sentido. Com algumas afinações, com alguns ajustes, temos vinho para as massas. Mesmo assim, é um vinho interessante, com algumas facetas curiosas e que levaram a (minha) memória para coisas que são capazes de (já) não existir. Nota Pessoal: 14,5