domingo, Janeiro 11, 2009

Poeira (Douro) Colheita 2001

Era a última do lote. A secção onde estava encontra-se agora vazia, despojada de qualquer garrafa. Quem tiver mais, faça o favor de convidar-me. Aceitarei e beberei de bom grado.
Os primeiros aromas, que transpuseram as paredes do vidro, mostraram aspecto profundo, indiciando, logo à partida, sensações diferentes, consentâneas com o que se passava na rua. Frio e humidade. Muito minério, bastante molhado. Estava cheio de tinta permanente. Recordei com saudades a minha velha caneta Parker que fez companhia na escola primária. São cheiros que nunca desaparecerão.
Lousa, xisto e granito passaram a ser o denominador do vinho. Pedra escorrida. O ambiente continuava fresco. Encerados e vernizes conferiam-lhe, de tempos a tempos, um certo ar reluzente.
Durante largos minutos, não passou pelas ventas, qualquer impressão relacionada com fruta sobrematurada. Valha-nos isso. Foi evoluindo, foi modificando o seu comportamento. Muita coisa não sabia o que era.
A especiaria (influências de uma conversa paralela) deu sinais de vida. O aspecto, agora, era mais exótico, mais oriental. Misturam-se com uma boa carrada de folhas de chá. Umas secas, outras mais verdes. Na dose certa, sem tendência para o enfadonho.
Passaram pela frente, mais uma vez, odores desconhe
cidos. É irritante quando isso acontece. Desesperante quando não se consegue fazer qualquer comparação.
A fruta, que entretanto surgiu, tinha tez muito azul. Vinha molhada, borrifada pela água.
Os sabores estavam repletos de finura. O corpo não tinha gorduras supérfluas, indesejáveis. Cintura estreita. A roupa assentava que nem uma luva.
O mineral e o químico estavam bem evidentes. O fim era levemente marcado pelo cacau preto.
Evoluiu (durante 8 anos) de forma bastante digna. Não perdeu nada e é capaz de ter ganho muito. Acredito piamente que iria evoluir ainda mais. Para onde? Para muito longe. Não sei! Nota Pessoal: 18Post Scriptum: Um gajo quando gosta, gosta mesmo.

7 comentários:

AJS disse...

A ultima vez que bebi o 2001, já lá vão 3 ou 4 meses e também fiquei com a senssão que estava ali para durar.

j... disse...

«Desesperante quando não se consegue fazer qualquer comparação.»

Em vez de citar Schopenhauer, vou limitar-me a dizer... «interessante quando não...»

Não acha? :)

Fisiopraxis disse...

Hummm...cheira-me a noitada à lareira...mandas-te a mulher para a cama para ficar a curtir o nectar...

Malandro, só pares-te quando viste o fundo à garrafita :)

Pingus Vinicus disse...

J... de facto existe "qualquer coisa de sado-masoquismo" quando "não descobrimos o que é".

Não sei o que é, mas dá prazer, irrita mas dá prazer. É difícil mas dá prazer.

Pratas disse...

É bom ver um 18 por aqui. Bebi este Poeira há uns tempos no Kais e acredite que ainda não me saiu da memória... Grandioso...

Copo de 3 disse...

A grandiosidade finou, o vinho acabou e não deslumbrou.

É mais um Douro que abro e não chega aos 10 anos de vida com matéria suficientemente capaz de me encher as medidas.

Fruta doce, sinais de queda, de esquecimento, de senilidade, a sova que levou de um vinho mais barato e do mesmo ano foi tal que cada vez mais me afasto da compra de determinados vinhos em Portugal.
Deixo as carneiradas para outros artistas.

Pingus Vinicus disse...

Ok, aceito, mas tens de perceber que existe entre a tua prova e a minha muitos meses de diferença. Sei que na altura, o vinho estava estupendo e ainda que o bebi naquele momento. :)