quarta-feira, março 11, 2009

Opinião Parte I

Devem ter já percebido, para o bem ou para o mal, concordando ou discordando, que a minha escrita tem apenas como sustento argumentativo o meu discutível e bastante dúbio gosto pessoal, suportado em meia dúzia de ridículas crenças pessoais. Nada mais. Manterei este curso (se conseguir).

Os blogs são, meramente, espaços de pura opinião pessoal. Reflectem, somente, o que os autores pensam ou não. São pequenos excertos da sua vida. Pequenos recortes publicados na internet para serem escrutinados por quem queira. Basicamente entramos num universo (quase) doméstico, onde um tipo solitário defende as suas ideias, as suas convicções, das várias investidas que vai sofrendo (e elas são cada vez mais). O objectivo é não ficar com muitas mazelas. Mas é bom que assim continue. Sabemos, deste modo, o que um pensa, o que o outro acha. Transpor esta barreira é penetrar no famoso centro, onde todos pensam o mesmo, matando a pluralidade enófila.

Também no mundo dos vinhos, existe a fatal tendência para os consumidores agruparem-se em torno dos mesmos conceitos, dos mesmo vinhos. Todos procuram, por uma razão ou por outra, mostrar que andam na crista da onda. É uma necessidade humana (não fujo a ela). Basta uma ténue tentativa para sair do tal centrão, do que é politicamente correcto, para corrermos o indesejado risco de excomunhão enófila. Uma excomunhão que pode matar irremediavelmente a credibilidade de um individuo como pretenso enófilo (mais ou menos conhecedor). É quase pecado dizer, na praça pública, que não se concorda, que aquele não soube bem, que não vale, nem de longe nem de perto, o que pedem por ele. Silenciosamente vamos aguentando as regras que a moda vai ditando, incapazes de fazer qualquer coisa (não queremos ser postos de lado) para mudar o status quo estabelecido.

Espero, com ansiedade, que esta crise recoloque no lugar muitos pinos, que andam por aí espalhados, e que passemos a viver na realidade e não na irrealidade. Um deles é o preço que é pedido por muitos vinhos. Porque vinho sério tem que custar mais que 30€.

6 comentários:

Raul e Joel Carvalho disse...

Essa coisa de todos provarem os mesmo vinhos está a acontecer cada vez mais na sociedade.

Existem vinhos excelentes, que custam menos de 30€ e ninguém os quer comprar, pois não traz regalias (vaidade perante os outros, dizendo que provou um dos vinhos mais caros do mercado) a quem o prova, porque o vinho não é provado por muita gente ou não é conhecido.

Mas como disseste, isto acontece sem querer.
Temos de ter mais atenção na prateleira do supermercado.

Abraços

Fisiopraxis disse...

De facto na enófilia existe, como em tudo na vida, a tendência para o "centralismo", para a formatação à opinião generalizada, às modas, ao peso da publicidade, do markting e dos opinion makers.
Este contexto facilita o medo de opinar, de falhar e da exposição excessiva mas também contribui para o risco da atrofia da reflexão individual sobre as coisas do vinho e do "seu mundo".
Tentar contrariar esta atitude, já é ser capaz de fazer alguma coisa. Talvez não se mude o statuos quo mas que importa isto, se não mudamos nós próprios de postura?
Não podemos esperar que sejam os experts, os críticos, a fazer esse papel. Esses, mesmo que não queiram estão ainda mais expostos, medem todas as palavras, todas as posturas, todas as atitudes e comportamentos.Os "holofotes" estão sobre si e isso é fortemente condicionante.

Quanto ao preço de muitos vinhos e ao " consumismo social" que se faz dos mesmos, ou bem me engano ou penso que tens para aí muito "pano para mangas" para novas intervenções escritas...

Abraço

Miguel Pereira disse...

Rui, grande post.
Concordo inteiramente contigo.
Como dizem lá na terra "para trás mija a burra".

Abraço

Anónimo disse...

Todos nós somos uma marca em actuação no nosso mercado (sociedade). E,tal como uma marca comercial, temos pontos de paridade que nos tornam "in group" e pontos de diferença que nos tornam "out group". Como a touriga Nacional passou a ser uma unanimidade, logo surgiu a necessidade de se dizer, com ar enfadonho:" já estou enjoado de Touriga" "é a casta mais plantada nos contra-rótulos", bla bla. Sim porque eu não vou atrás dos carneiros que gostam de Touriga.... E a propósito de outras discussões, falta aos portuguese orgulho próprio. Todas as grands marcas-países do mundo não saíram de programas de construção de marca, mas sim de acções genuínas de seu povo. O carnaval do Brasil é hoje uma instituição porquê +e uma paixão genuína e cultivada dos brasileiros. O de Veneza, o mesmo. Já o de Torres Vedras é nada. Vejamos o fado. Ainda me lebro uma vez de assitir a umas sevilhanas e, no fim, ver espanhóes levantando-se das cadeiras e gritando de extasê. Pensei: " POrquê será que os portugueses, genéricamente, não conseguem atingir esse nível de emoção ouvindo um fado? Certamente fariam mais pela marca do seu país do que qualquer plano Porter ou acção governamental. Abraços, André

DonVoxx disse...

Não desarmes. Dia em que não leio a tua famosa proza tenho a sensação - como a mulher do Ferreo Rocher- que me falta algo. Só que como é claro não é um chocolate.

José A. Vaz disse...

também já tive muitos preconceitos em relação a muitos aspectos que foca (como o do preço, que é cada vez mais uma verdadeira idiotice, tendo em conta a facilidade com que actualmente se pedem várias dezenas de euros por qualquer vinho que aparece não se sabe de onde e com a mesma magia acaba por desaparecer) mas hoje em dia já não vou nessas cantigas. statu? bom proveito. melhor é o vinho do que o rótulo. shalom.