terça-feira, março 10, 2009

Existe vida para além do vinho

Ao mirar para o que já passou, noto que os meus prémios são os amigos. São troféus que, orgulhosamente, vou coleccionando desde que comecei a andar com o copo de vinho na mão. Com alguns deles cheguei a trocar palavras sanguinolentas.
Quase sempre as conversas em português de Portugal são frias, sem emoção, pintadas com um cinzento chato. Raramente os parlatórios surgem com ar alegre. Quando acontecem, estão imbuídos de um fedorento ecletismo. Habitualmente a coisa começa com uns quantos chamarizes, típico das feras, que servem meramente para ir caçando os incautos. Metidos na sala dos despojos observamos, impotentes mas felizes, ao desenrolar das conversações. A dada altura o discurso adensa-se e o desejado interesse perde-se. Finda a novidade verificamos que, na realidade, não passou de uma ilusão. Os objectivos eram outros. Os interesses iam além da paixão enófila e ultrapassavam a simples relação humana.
Somos um bando de gralhas que voam, em bando, ao sabor das rabanadas de vento. Quando ele desaparece ficamos desorientados sem saber para onde ir. Discutimos, picamos nas nossas e nas outras cabeças.
Fora das fronteiras reparo que todos discutem o vinho, aquilo que vem na garrafa, que verte para dentro do copo. Os colóquios são ligeiros, mais animados que os nossos. Usam linguagem acessível e ligeira e evitam quase sempre temas de densidade dúbia.
Com o desenrolar dos anos, percebo que a saudável ingenuidade está irremediavelmente perdida. Nada é como dantes. Assisto, quase diariamente, às movimentações dos presumíveis apaixonados. Sob a capa do amor ao vinho, deslocam-se vampirescamente por todos os cantos.
Aos meus amigos, venho publicamente dedicar dois copos de vinho, duas taças de tinto do Dão. O valor do líquido é proporcionalmente inferior à estima que tenho por eles. Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional 1996 e Quinta dos Carvalhais Reserva 1996. Não perdi tempo em análises, nem em descrições. Nada tenho para narrar. Pouco há para dizer, apenas que o prazer foi imenso, a alegria e a satisfação foram grandes. Os vinhos representaram, por motivos diversos, o auge da minha caminhada como enófilo. Ambos estavam finos e suaves. A partir daqui outros desideratos irão surgir.

Post Scriptum: Apenas para matar a curiosidade. As Notas Pessoais foram as seguintes: Touriga Nacional: 15/ Reserva: 15,5.

6 comentários:

paulo bento disse...

E eu brindo contigo! À aprendizagem, à partilha, ao vinho, aos AMIGOS!

Fisiopraxis disse...

Oh pá, dedicas 2 copos de vinho mas só nos deste a provar um :)

Bom, não seja por isso que deixo de juntar aqui tb o meu Tchim-Tchim.

Parece que estas 2 botelhas contam histórias de vários amigos...

Copo de 3 disse...

Abraço grande Rui, e vive la résistance ;)

Pedro Rafael Barata (Blog Os Vinhos) disse...

Rui, contamos contigo! :) Abraço.

Miguel Pereira disse...

Grande Rui:)

Abração

Pedro Sousa P.T. disse...

"vamos brindar com vinho verde que é do meu Portugal..." :)
Neste caso com o Quinta dos Carvalhais, curiosamente nunca provei. E já lá vão umas quantas marcas do Dão que tenho bebido.
À nossa!!! À tua!!! Á amizade, nem que seja virtual.

Grande abraço.