segunda-feira, março 16, 2009

Opinião Parte II (Ser enófilo sem dinheiro)

A vida de um amigo do vinho, sem dinheiro, em Portugal não é fácil. Está repleta de curvas e contra curvas, com muitos engodos pelo meio. É feita, quase sempre, toldada pelo medo de falar às claras (já falamos sobre o assunto).
É vedado ao pretenso enófilo a possibilidade de proferir palavras, publicamente e em voz alta, sobre vinhos comuns. Mesmo que beba e que sinta alegria fá-lo às escondidas, bem afastado do grupo. Evita, deste modo, uma remessa de complicações, como ser colocado de lado, ostracizado pela elite endinheirada e supostamente mais conhecedora (enche o topo da pirâmide do clube e tem funções de direcção).
Fico eriçado quando ouço e leio que o dinheiro trás conhecimento. Trás, essencialmente, arrogância e paternalismo bacoco. Esta afirmação não tem qualquer carácter politico, porque também ambiciono a malvada mas desejada riqueza. Maldita carne.
O nosso bom nome pode ficar enxovalhado se dissermos que gostamos de vinhos sem nome, sem glória, sem história. A pena fica agravada se a maquia gasta ficou aquém do desejável. Um descuido destes e vai tudo por água abaixo.
Fico agastado, por vezes encolerizado, quando verifico o desdém que existe, quando arriscamos falar de coisas baratas (nada é barato). Do outro lado, quase sempre, sai um olhar de reprovação, de quem acha o assunto pindérico.
Infelizes são aqueles que, não tendo dinheiro, ficam impossibilitados de verem aceites as suas inscrições no clube. É que o conhecimento literário não basta. Não é condição suficiente. É imprescindível ter a carteira gorda (não esquecer, também, a importância do pedigree) para poder ser visto. Só assim poderemos almejar ter um lugar ao lado deles. Enquanto isso não acontece, ficamos do lado dos bêbados à espera de oportunidade. A outra opção é sermos párias. Enófilos sem terra, sem clube e sem grupo.

Posfácio

Nos últimos dias, fartei-me de beber um vinho branco do povo. A dica veio por mensagem de telemóvel, no meio de uma noite.
Por 3€, este Terra D'Alter 2008 é um aglomerado de exuberância, de fruta roliça e fresca. Perto das gulodices típicas de final de tarde, consegue cumprir bem a sua função.
Enquanto não ficar farto dele, tenho aqui mais um companheiro para o petisco e para a esplanada. Nota Pessoal: 14

12 comentários:

Pedro Sousa P.T. disse...

Mais uma vez vou repetir uma frase muito conhecida, e até já a escrevi aqui neste blog:
"Não tenho a culpa de ter boca de rico,e carteira de pobre"
Isto também faz com que eu apure os meus sentidos empíricos de "caçador" de vinhos com a melhor relação qualidade preço.
É uma luta...

Abraço

Pingus Vinicus disse...

Pedro, boa resposta, mas será que seremos amigos do vinho de segunda linha?

Pedro Sousa P.T. disse...

Às vezes os amigos de 2ª linha, surpreendem-nos e são os primeiros a aparecer quando estamos em dificuldades. Por outro lado, e volta e meia levamos uma "chapada" dos amigos que consideramos de 1ª.
E acho que no vinho passasse mais ou menos o mesmo. Claro que os verdadeiros amigos ficam para sempre.

Vou outra vez por uma máxima:
"Mais vale poucos, mas bons"
o resto, são "amigos dos copos"...

Pratas disse...

Mais um a experimentar. Excelente texto.

rei dolce disse...

Catelo D´ALVA,reserva 2007, branco do Douro, facil acesso em grandes superficies por 3,75 euros.
ANDREZA, tinto do douro, tambem nas grandes superficies por 4 euros.

Anónimo disse...

Meu caro ao contrário de muitas outras coisas da vida nos vinhos não existem vinhos excepcionais baratos. Existem mts bons vinhos acessíveis, tal como regularmente são descobertos por vocês, agora vinhos que nos fazem sonhar infelizmente custam dinheiro. Claro k isto não dá o direito a ninguem de ser snob ou preconceituoso em relação aos vinhos k as outras pessoas podem comprar.
Cumps
JFReitas
Ps: pelo dia do pai bebi um vinhos dos tais k de certeza iria adorar Pellada 2003 da quinta c o mesmo nome

Pingus Vinicus disse...

Caro amigo JFReitas, é verdade o que diz. Mas chateia e muito o preciosismo que existe por aí.

Um abraço

PS- Neste dia do pai, rachei com o meu pai um Quinta da Vegia 2005. Por vergonha evito comentários sobre este produtor, porque simplesmente gosto muito.

Raul e Joel Carvalho disse...

"Fico eriçado quando ouço e leio que o dinheiro trás conhecimento. Trás, essencialmente, arrogância e paternalismo bacoco. Esta afirmação não tem qualquer carácter politico, porque também ambiciono a malvada mas desejada riqueza. Maldita carne."

Esta é a frase essencial... Cada vez mais pessoas tentam adquirir o poder e dinheiro para parecer melhor ou com mais sabedoria... Mas não pode ser assim!!

Bom texto, abraços

Valter Costa disse...

Eu sou um dos que anda sempre á caça dos vinhos que tem qualidade/preço. Levo de vez em quando umas "banhadas".

amigosdobalde disse...

Subscrevo totalmente!
E dá muito mais prazer descobrir, deixar que os nossos sentidos se supreendam.
Se um ou outro vinho forem uma desilusão, decerto haverão grandes e boas surpresas.
Pela minha parte continuarei a visitar os blogs dos enófilos sem dinheiro.É neles que se aprende e se descobre.
Saudações

Kroniketas disse...

Caro Pingus, bateste no ponto certo. Nas Krónikas Vinícolas já tivemos alguns comentários depreciativos acerca das nossas provas e acerca de alguns vinhos provados. Recentemente escrevi um post acerca de 3 vinhos que em conjunto custaram 70 euros e que achámos que não valiam tanto. Tu também leste e comentaste. Viste o que um dos nossos comparasas escreveu? Que tínhamos um complexo e que a excelência nos passava ao lado... Pois, o Ferrari e o Rolls Royce também passam...

Pingus Vinicus disse...

Caros KV a questão, para mim, é que existe espaço para falarmos dos vários tipos de vinho. As desilusões acontecem em todos os lados.

Acho limitado, e muito, ficarmos pelo supra-sumo como também é muito redutor andarmos "sempre por baixo". Tem que haver um equilibrio.

É verdade que as experiências estão dependentes da nossa bolsa e aí não há volta a dar. Mas o importante é descobrir coisas novas, procurar novos sabores, novas emoções.

Sou sincero, actualmente bebo muito vinho que não estava à espera, um dia, vir gostar.

Quando regresso ao passado, as coisas não correm bem! É como as relações, uma vez quebrado o elo, nada fica como dantes!

Um abraço