terça-feira, março 24, 2009

Tributo (Ribatejo) 2004

Quem arrisca gastar euros em vinhos de regiões menos célebres? Quem costuma meter em cima da mesa garrafas com rótulos quase desconhecidos? Quem tem o atrevimento de dar aos outros coisas sem pedigree? É um risco elevado. Façam-no às cegas. As surpresas, acreditem, podem ser muitas. À vista desarmada sujeitamo-nos a ouvir coisas menos agradáveis. Nunca se esqueçam, isto está cheio de preconceitos.

Durante anos e anos, regiões como o Dão, a Bairrada, a Estremadura, o Ribatejo e Terras do Sado passaram as passas do Algarve. Juntas eram um enorme deserto. Pontificavam apenas uns quantos oásis, onde se podia matar a sede com prazer. O que vinha desses lugares era, na generalidade, de fraca qualidade e sem interesse.
Uma das minhas últimas confrontações enófilas aconteceu com vinhos ribatejanos. O Ribatejo é um território que marca, e muito, a zona onde vivo. As lezírias, os toiros, as enguias e o rio Tejo. Toda a etnografia de Alcochete está influenciada por isto.

Este enganou-me. Baralhou-me. De peito aberto, e preparado para ser seteado, jurei a pés juntos que vinha de outro lugar. Recordo a minha fuça quando vi o rótulo. Engoli em seco e pensei, mais uma vez, nas enormidades que costumo dizer.
Os aromas foram saindo com serenidade. O delírio começou, entretanto, quando surgiu a mina de lápis. Uma nesga de tinta ia marcando, também, presença. Desviadas para o lado, confronto-me com o soalho encerado, bem limpo e reluzente. Estava decididamente afectado pelo entusiasmo. Era um vinho com aptidão para escrita, para o desvairo. Ele tinha dado o mote. Eu fiquei com a função de inventar e procurar, se possível, comparações.
A terra húmida e bem encharcada proporcionou um ambiente fresco e agradável. Foi, no entanto, aquecendo com o fumo, com a especiaria. Prosseguiu com o cacau e com a baunilha. A partir daqui desliguei e fiquei-me pelo desfrute. O resto são cenas íntimas que ficam comigo.
O sabor era seco e durável. Busto harmónico. Mostrou ter muita habilidade para namorar com a comida. Juntos fizeram-me companhia.
Um Ribatejano pouco taurino e nada rude. A raça dele é outra, tem outra estirpe. Nota Pessoal: 17

Entretanto provem a colheita de 2007 que anda aí. O preço é muito decente. Vale a pena.

6 comentários:

prtbarata disse...

Rui,

Que belo vinho "me saiu" este Tributo...

Então a colheita de 2007 vai ser um vinhão! (penso eu de que...)

PAULO SOUSA disse...

E olé...

AJS disse...

Mesmo das regiões mais "badaladas", Douro e Alentejo, tenho bebido vinhos sem qualquer nome mas que me têm dado um gojo imenso. A grande quantidade de vinhos tem para os enofilos esta enorme vantagem. Cada vez temos a possibilidade de provar melhores vinhos, a preços cada vez mais razoaveis, desde que me esteja nas tintas para o seu "pedrige" AJS

Fisiopraxis disse...

Então "cenas intímas", de "namoro" com "busto" e muito "desfrute"........nós bem vimos...O que um tipo é capaz de fazer com uma garrafa e o seu conteúdo...

Joel e Raul Carvalho disse...

As provas cegas são os melhores métodos do engano. Aqui se mostra se as pessoas gostam realmente do vinho pelo que ele é verdadeiramente ou se gostam do vinho apenas pelo rótulo...

Abraços

http://do-nariz-a-boca.blogspot.com/

Miguel Pereira disse...

Já estive várias vezes com este vinho na mão e nunca o levei para casa.

Para a próxima não escapa.