segunda-feira, setembro 14, 2009

Colheitas iguais, Vinhos diferentes.

A estória tinha como trama central a Quinta da Leda. O enredo foi sendo preparado sem grandes cuidados. Serviria, apenas, para abrir a época das provas. Cada um traria o que tinha em casa. Simples. O resto do conto decorreu sem grandes momentos de suspense. Todos estavam certos daquilo que tinham à frente das beiças. Eu cheguei a jurar a pés juntos, com as mãos bem cerradas, gesticulando com veemência, que sabia o que estava dentro de cada copo. Não iria demorar tempo para ficarem despidas as pretensões a provador sabedor. O ridículo acercou-se de mim quando as garrafas começaram a surgir em cima da mesa. O rei ia nu!
Destapadas as garrafas verificámos que tínhamos colheitas repetidas de Quinta da Leda (2000 e 2001). O vinho enfiado em cada uma delas tinha tido um comportamento tão díspar, tão anacrónico que conseguiu enganar mente, nariz e boca. Chegou ser o Dia e a Noite. Os comentários, as notas pessoais faziam antecipar enormes diferenças no que respeita aos anos das colheitas. Embeiçados pelos enganos, acercou-se um gélido silêncio na mesa.
As causas tentaram ser descortinadas: local onde o vasilhame foi comprado, o tratamento que teve até chegar ao dia do julgamento final. Tudo era plausível para justificar as divergências.
Este imbróglio acabou por ser um exercício curioso. Permitiu compreender in loco, e mais uma vez, que o acto da prova é efectivamente uma actividade carregada de subjectividade. Duas garrafas da mesma colheita podem ter comportamentos completamente antagónicos. Posto isto, é altura de começarmos a introduzir nos nossos comentários expressões do tipo: o vinho que estava nesta garrafa, naquela garrafa.
A título de curiosidade deixo-vos aqui alguns traços sobre os meus erros.
Quinta da Leda 2000 (a). Mineral. Acreditei piamente nisto. A face parecia carregada de cores da terra. Pedra, lagar. Flor silvestre. Cedros. Do princípio ao fim vagueou longe da doçura. Vernizes, encerados. O sabor era balsâmico, fresco, bem mentolado. Nota Pessoal: 17
Quinta da Leda 2000 (b). Licoroso. Ginjas, bombons. Rebuçados. Folhas de chá, erva seca. Um curioso odor a terra quente. Na boca, mostrou-se estranhamente rico, amplo, viçoso e a contrariar o cheiro. Sim senhor. Nota Pessoal: 15,5
Quinta da Leda 2001
(a). Os cheiros criaram empatia repentina. Toques modernaços de chocolate de leite misturados com tabaco e caramelo. Mudou algumas vezes de aspecto, passando para um estado mais húmido e terroso. Sempre perfumado e com boa dose de complexidade.
O paladar era doce, mas estava amparado pela acidez. Bem composto, coeso e homogéneo (três palavras que dizem o mesmo). Pecou no excessivo uso de tiques novo mundo. Mas isso são coisas minhas. Nota Pessoal: 16
Quinta da Leda 2001 (b). Cheio de fruta cristalizada, um pouco pesado no aroma e no sabor. Quente, evoluído e com aparentes sinais de cansaço. Pareceu-me ser vinho sem capacidade para fazer abrir a boca de admiração. Conseguiu, ainda assim, manter algum equilíbrio durante a noite. Nota Pessoal: 14,5
Os outros: um brilhante e respeitado Quinta da Leda Touriga Nacional de 1997 que estava soberbo, cheio de nuances aromáticas. Fino e elegante. Mais não digo. Nota Pessoal: 17. E um recente 2007 elegante, cheio de juventude e irrequieto. Fruta (para alguns era preta), chocolate, novamente tabaco e fumo, e outras coisas parecidas, com um pouco de esteva e terra pelo meio. Frescura quanto baste. Nota Pessoal: 16,5

No final, enfiámos uns tragos de um vinho que nasceu numa vinha que já não existe.

2 comentários:

Chapim disse...

Grande Pingus,
as garrafas tiveram a mesma proveniência ou foram guardadas em locais diferentes?

As variações entre garrafas da mesma colheita eram muito comuns em alguns produtores (noutros proventura continuam).

Boas provas!

Pingus Vinicus disse...

Chapim, as garrafas estiveram guardadas em locais diferentes e compradas em locais diferentes.