sábado, fevereiro 28, 2009

O Dão e os Vinhos Velhos: A nova moda!

Vou, durante alguns minutos (espero que sejam breves), entrar na moda, falar, ou não, não sei ao certo, de coisas que são sinónimo de actualidade (mesmo que sejam, porventura, temas do passado).
Nos últimos dias, envolvi-me, assisti a conversas em que o vinho velho, e do Dão, era tema central. Reparei que a nossa agulha anda a querer mudar de sítio. Passámos, de repente, a dizer ou afirmar (mesmo sem grande conhecimento) que os vinhos velhos do Dão são, de uma forma genérica, um enorme tesouro (que andou escondido). Um aglomerado de pedras preciosas que ninguém, ou quase ninguém, sabia que existia. Em uníssono, as nossas bocas abriram-se de admiração, de enorme entusiasmo. Tinha sido descoberto um motivo de atracção (os outros: dizer mal da touriga nacional, exigir a reabilitação de outras castas, pedir menos graduação alcoólica, vinhos elegantes...). Assim, podemos alimentar a fornalha com mais uma carrada de lenha. Quando esta acabar, outras eventualmente aparecerão. Acredito piamente que este novel tema acabará, fatalmente, por morrer. Tudo se resume a meras tendências conjunturais. Terminado o interesse, resta-nos limpar as ruas dos papelinhos que usámos. Nada mais! Posto isto, a vida regressará à vulgar normalidade.
Mas antes de voltar ao habitual, deixem-me contribuir, só um pouco. São apenas dois vinhos. Brancos (do Dão) e oriundos dos finais dos anos oitenta.
Porta de Cavaleiros 1987 saiu da garrafa, mostrando vida. Vinha limpo, sem cheiros impróprios. Inicialmente envernizado. Depois, e sem aviso prévio, muda para um inesperado aroma frutado, com o alperce, o pêssego, o damasco, a laranja a surgirem (de forma impositiva) na frente das ventas. Os olhos arregalaram-se com tamanha intensidade. Conseguiu, sem esforço aparente, manter-se assim durante a noite.
Com o Casa da Ínsua 1988 (engarrafado pela José Maria da Fonseca) a relação, entre mim e ele, foi diferente. Este vinha mais gordo, mais glicéreo. Frutos secos, pão torrado. Depois, e durante um tempo que não fui capaz de contar, fui sentindo uma leve impressão doce que orientava os meus sentidos para o leite creme. Caramba! Senti-me perturbado com aquele cheiro. Virei a cabeça procurando por aquilo. Nada. Voltei a encostar-me na cadeira e continuei.

Olhando para trás, abrindo que está guardado cá dentro, relembro os extintos anos. Foram loucos, vividos com intensidade. As namoradas, o futebol, as discussões estéreis. Um sem número de peripécias que recordo com um sorriso.

Post Scriptum: Cada botelha custou 2€. Foram dois tiros de sorte. Enorme sorte.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Casa Santos Lima (Estremadura) Sauvignon Blanc 2008

Custou 2.80€. É caso para dizer: com preços destes o enófilo empobrecido não irá ter medo da crise. Pode ser que este período, em que iremos andar com o dinheiro contado, seja usado para reajustar o mercado dos vinhos. Pode ser que depois disto, possamos ter na prateleira vinhos com preços bem mais justos. Esperemos.
Um vinho branco da Estremadura cheio de frescura. Os cheiros percorreram uma interessante escala de sensações. Eram evidentes as nuances herbáceas (relva, erva). Pêra verde e pêra amarela surgiam, no copo, misturadas com fruta de carácter mais tropical. Manga, ananás e lima. Uma curiosa, diria antes apetecível, nota a hortelã regada deu-lhe um ar mais matinal.
O sabor trazia, agarrado a si, uma boa dose de limonada. Pareceu-me bem misturada com o resto da fruta (que escuso, outra vez, de mencionar). Fiquei com a ideia que havia lá meia dúzia de rebuçados. Sentiam-se, mais uma vez, as típicas notas vegetais.
Um vinho limpo e directo. Roçou perigosamente o tecnológico (era dispensável). O vigor juvenil, que apresentou, deu indicações que estava destinado para ser bebido, e bem, sem grandes preocupações.
Não há muito mais para dizer. Apenas que soube bem e que ele cumpriu o seu papel. Nota Pessoal: 14

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Wine - Essência do Vinho: Realidade ou Ficção?

Não recordo a última vez que comprei a Blue Wine (Agora é Wine - A Essência do Vinho). Já lá vão mais de 24 meses que trouxe o último exemplar para casa. O que ia sabendo era feito à socapa, desfolhando clandestinamente as páginas (nas prateleiras das tabacarias). Deste modo meio pirata, tipicamente português, ia vendo o que a malta do Porto dizia.
Era, e ainda é uma revista, que pouco diz. Pessoalmente nunca consegui olhar para ela como um produto destinado ao consumidor que pretende aprender, saber mais um pouco. Falha redondamente. Para quem se inicia nas lides, perde a vontade com o que lê.
É demasiada perfeita, com cores e formas que vão para além da imaginação. Diria de outra forma, vão para além da vida ruim que levamos neste inóspito mundo. A sua beleza gráfica incomoda e acredito que possa ter propensão para a inveja.
As reportagens, quase sempre, derivam de lugares longinquos, de realidades completamente alternativas e quiçá abstractas. Em alguns casos roçam a realidade científica. Propõe coisas para meia dúzia de pessoas. Um pouco de eclectismo, se calhar, não ficava nada mal. Não sei. Evitava-se muito ciúme.
A Wine safa-se com os artigos de Rui Falcão, que continuam a despertar interesse. Textos com alma, apaixonantes, inteligíveis para um tipo normal. São capazes de alimentar o bichinho do enófilo mais imaturo.
Os vinhos, assunto onde invisto mais, surgem admiravelmente alinhados com notas superiores a 16. Não descortinei qualquer vinho com nota inferior (não são chamadas para aqui as notas de prova de Rui Falcão sobre os Espumantes da Murganheira). Onde estão aquelas notas minimalistas que, às vezes, animavam os comentários do povo? Desapareceram? O chorrilho de vinhos com 17 valores e 17,5 valores é impressionante (muito comparável ao mundo bloguista). Para quem anda na vida desatento, fica com a ideia que temos os melhores vinhos do mundo. Um pouco de deflação, aqui, não ficava mal.

Para os Brutti, Sporchi e Cattivi (grande filme), a Wine continua a ser um produto vistoso, cheio de cores, onde tudo reluz, cintila em demasia. Fica a ideia que, através de todo esse espectáculo, falta muita coisa.

Post Scriptum: A edição comprada foi a número 32, Fevereiro de 2009.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Revista de Vinhos II: Cópia ou Original?

Ela mudou o suficiente ou conserva-se inalterável, fazendo aqui e além apenas uns meros retoques de beleza?
Conseguem perceber ou descortinar nas palavras dela se houve alterações de procedimento, na maneira de estar?
Acham que as cores dela são menos cinzentas?
Fazendo uma comparação grosseira, estará ela a viver, agora, a sua Primavera Marcelista, dando mais uns suspiros, ditando num acto de desespero as derradeiras leis, com o intuito de salvar a ordem estabelecida?
Não terá, antes, andado perdida, pelo meio do amarelo, com o vento a bater nas ventas, impossibilitada de olhar para frente de frente. Estaria confusa com as imagens que iam surgindo, em redor? Impossível! Ela acredita piamente na certeza do seu desmedido conhecimento, no enorme domínio do assunto.
Ultrapassado o temporal, provavelmente terá visto à sua frente, sempre à sua frente, que outros já lá estavam, baloiçando na rede. Assolada por um eno-imperialismo fora de moda, e em vez de perguntar, tentou desviar para o lado com a sua anca larga tudo e todos. Aproveitou e sacudiu o pó que trazia, num acto de enorme sobrançaria. O espaço é dela. Há muito que o queria. Tinha sido a primeira a pensar na rede. Os outros, que andavam chateados com tanto marasmo, ficaram admirados.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Revista de Vinhos: Cópia ou Original?

Fórum (e site) da Revista de Vinhos uma aposta ganha? A ver vamos! A Revista de Vinhos, após muito tempo na bancada (como os velhos dos Marretas), dormitando durante largos períodos, percebeu a força que a rede possui nos dias que correm. Pareceu-me um acordar tardio. Ao fim de uns valentes anos com sites, fóruns, blogs, e mais o resto, mantidos por diversos amadores, chegaram eles, os profissionais, para ensinar como se faz, como se navega na rede e repreender quando necessário.
A Revista de Vinhos, apresenta-se, agora, disposta e cheia de vontade para colocar a pontuação no local correcto. Estaremos atentos para aprender, ler com atenção os ensinamentos que vão saindo, agora, em versão digital. Os outros (que somos nós) continuaremos, naturalmente, de portas abertas para quem quiser. Sempre prontos para levar pancada.

Para quem não tem dinheiro, irá, naturalmente, socorrer-se das cópias. Será que perdemos a oportunidade de registar a patente da coisa? Estou confuso!

"Para quem alimentou a esperança que a explosão da blogosfera representava também aqui uma lufada de ar fresco, já não digo na critica mas no comentário sobre assuntos de vinhos e comidas e permitia a entrada com direito de opinião de muita gente que se julgava sem voz – o consumidor, pois claro! - está oficialmente desenganado. Pois aos bloguistas, embriagados pela atenção que a novidade despertou, insuflou-se-lhes de ar o arfante peito e … zás: transformaram-se em críticos também! Estão lá os tiques todos: o discurso pomposo e oco, a linguagem cifrada a fingir de especializada, as descrições de prova enfadonhas e penosas e até as notas, numéricas, quase sempre de 0 a 20, aparecem a pontuar os vinhos mais badalados da praça. Para a imitação ser (quase) perfeita, chega-se ao ponto de sugerir aos produtores que enviem amostras para a caixa postal sob pena de verem os seus vinhos ignorados. E para acentuar o autismo, os poucos blogs colectivos onde se poderia trocar meia dúzia de experiências, cedo cederam lugar a espaços individuais onde cada um fala sozinho com a convicção inabalável que discursa para o mundo! Mas fica a questão ainda sem resposta: se continuamos a poder consultar os originais porque razão haveremos de preocupar-nos com as cópias e imitações?
" Opinião de João Geirinhas no novíssimo site da Revista de Vinhos.

Rematando, será aconselhável a todos, que andam por aqui e por além, que verifiquem os produtos que compram (as etiquetas geralmente trazem informações importantes). Poderão estar a comprar gato por lebre. Mesmo que saiba bem o gato, ele não é lebre. Lebre é produto genuíno e mais caro.

domingo, fevereiro 15, 2009

Casa Ferreirinha (Douro) Reserva Especial 1997

Existem vinhos que engatam os nossos sentidos logo na primeira abordagem. Mesmo que não queiramos, prendem-nos assertivamente. Rodeiam-nos, encantam-nos. Sem dar conta, estamos encalhados, naufragados no meio de rochas aguçadas. Nunca, na vida, estamos preparados para tudo.
Os aromas, deste Reserva Especial, vagueavam por entre tostados de intensidade suave e muitas impressões a chocolate com leite pouco carregado. As coisas andavam, por ali, de forma meiga. Iam embalando a alma sem que desse por isso. A mão, o nariz e a boca caminham de encontro a mais um gole, a mais um trago. Lentamente o tinto foi desaparecendo do copo e fatalmente da garrafa.
A fruta, que eventualmente provei, tinha aspecto de ter sido recentemente regada. Lavada, bem brilhante e reluzente. Enxaguada pela água matinal. Era um acelerador de perfumes. Lavanda e outras flores de cores e odores indiferenciados espalhavam-se pelo ar. Delicado, com elevada sensualidade. Sem recurso ao exagero, ao excesso de curvas, ao deleite carnal que tanto seduzem à primeira vista. É como se, ao canto, alguém, por uma razão ou por outra, estivesse a chamar atenção. Encontramos nela algo que ninguém vê.
O sabor vinha envolto numa mistura de fruta e madeira. Apresentou-se untuoso, com gordura. Tudo bem envolvido, sem abusos de ninguém. A acidez dava-lhe frescura, jovialidade, alegria. Fui bebendo sem perceber que o fim estava a chegar. Nota Pessoal: 17,5

Olho para o ano
de 1997 com saudade e alegria. É, provavelmente, um dos poucos que gostaria de voltar a viver (não contam aqueles em que as minhas filhas nasceram). Acho que não mudaria nada.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Marquês de Borba (Alentejo) Reserva 1997 vs Marquês de Borba (Alentejo) Reserva 1999

Meti-me mais uma vez no meio da nobreza. Voltei a trocar argumentos, palavras, ideias com ela. Há que colocar tudo na mesa e clarificar assuntos pedentes.
Desta vez, o debate aconteceu com o Marquês de Borba, na sua versão Reserva, colheitas 1997 e 1999. Saltemos as palavras dos arautos, dispensemos os toques das cornetas e passemos ao vinho que estava encerrado nas duas garrafas.
Marquês de Borba Reserva 1997. Ano do primeiro Reserva. Foi vinho que durante muito tempo desesperei por não beber. Dizia-se mundos e fundos.

Em 2009, apresentou-se muito calmo, meio melancólico. A sua atitude denunciou uma forma de estar, no copo, longe da altivez que o seu estatuto social poderia induzir. Cheiros suaves. O primeiro odor que entrou pelo nariz a dentro tinha aspecto muito parecido ao pó talco. Intensificava a graça, a meiguice. Pedindo sempre atenção, o vinho foi cedendo aromas. Sem pressas. Figos e outros frutos secos. Folhas secas, indiferenciadas, e folhas de chá misturavam-se formando uma compilação de várias sensações. Mudou de conversa e passámos a falar de sobre outras coisas. Caramelo, chocolate com leite. Um pouco de tostado e especiaria deram ao vinho um lado mais moderno, mais trabalhado.
O sabor que deixava na boca era fino, quase gracioso. Tinha, ainda, acidez. Dava-lhe vida. Curiosa presença de citrinos e de licores. Um pouco de químico e outras coisas, que não sabia o que eram, encerraram o desfilar das sensações.
Apesar do prazer que tive, fiquei com a impressão que o que estava dentro desta garrafa não iria evoluir muito mais. Ainda bem que foi aberta e vertida no copo. Nota Pessoal: 16,5

Avancemos dois anos. Reserva de 1999. Notaram-se algumas mudanças na forma de estar. Consegue, e ainda bem, mater a graciosidade, a leveza. Pareceu-me, genéricamente, mais fresco, mais húmido. Os aromas passeavam entre terra remexida, preta na cor, e cascalho. Revelou, a dado momento, uma original faceta vegetal. Fetos, ou coisa que o valha. Casca de árvore e flores secas. Pensem naqueles saquinhos que se metem aos cantos para irem perfumando a roupa ou a casa. Sugestões de madeira envernizada. O velho armário que está lá no fundo e que guarda aqueles rebuçados da avó. Baunilha.
O paladar é muito semelhante ao outro. Manteve a finura. Voltou a apresentar a bendita frescura. Essencialmente balsâmico e com discretos apontamentos minerais. O final deixava na boca uma sensação de harmonia. Um vinho para se beber com calma, muita calma. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Dois belos vinhos, bem evoluídos.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Casa de Saima (Bairrada) Garrafeira 1997 vs Quinta da Dôna (Bairrada) Colheita 1997

Já lá vão 12 anos. Um tempo imenso. São muitos dias de histórias, de linhas para escrever. Nesse ano de 1997 a paixão desenfreada pelo vinho era ainda imberbe, sem barba. Estavam a ser dados os primeiros passitos. Eram hesitantes, confusos e cheios de concepções alternativas. Verdade seja dita, e olhando para trás, vejo que as coisas não mudaram assim tanto.
Nessa época, o líquido que entrava pelas beiças vinha quase, sempre, do Dão, da Bairrada. Do Douro, apenas sorvia o vinho fino feito na família. As vistas vaguevam por estes lados.
Voltar a beber uma parelha de vinhos oriundos da Bairrada, com estes anos, encerram um conjunto de emoções, de recordações, de cheiros e sabores que tendem a ser esquecidos.
O Quinta da Dôna libertou-se da garrafa com aromas de flores. Malmequeres, laranjeira. Um pouco de alfazema deu-lhe, por momentos, um toque mais doce, mais insinuante. Soltou-se ainda mais um pouco. Foi largando sensações a folhas de chá. Escolham vocês a qualidade. A fruta era tendencialmente cristalizada. A vontade de cheirar nunca esmoreceu.
O paladar foi o calcanhar de Aquiles. Tinha frescura, é certo, mas carecia de mais sabor, de mais intensidade. A coisa parecia um pouco inócua, um pouco vaga. Conseguiu, ainda assim, conversar um pouco com um pedacito de vitela, mal passado. Foi pena assistir a tal desequilíbrio. Um vinho para acompanhar comida pouco condimentada. Valeu pelo cheiro. Nota Pessoal: 15
O Casa de Saima Garrafeira pareceu-me mais vivo, com mais músculo. Os cheiros, na largada inicial, revelaram-se cobertos de nuances animais. Nada que incomodasse por demais. Pêlo, camurças, cabedal. Desembaraçado destes odores, o vinho libertou, no ar, sensações vegetais. Cedros, pinheiros, mato e folhas secas. Uma imagem bem Outonal.
Tinta da china, bem como um pouco de grafite, carvão, mina de lápis foram capazes de criar ou recriar, não sei, um ambiente escuro, meio enigmático.
Os sabores, aqui, revelaram maior força. Foram mais veementes. Encerados, químicos e minerais. Madeira já envelhecida. Muito fresco. A acidez estava talhada para acompanhar o bacalhau e depois com o tal pedacito de vitela mal passado. Demorou, ainda, algum tempo até morrer no copo. Um vinho destinado à comida. Nota Pessoal: 16

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador (Dão) Branco 2007

A compra do vinho desenrolou-se com paixão, com muita expectativa. Andava com vontade de fazê-lo escorrer pelas goelas. O tempo foi passando e a oportunidade ia desaparecendo. O calendário, ultimamente, não tem dado hipóteses ao malfadado espírito enófilo. Durantes estes dias, o relógio foi gasto em outras actividades, em outras tarefas. Esgotaram as forças e quase que eliminaram o desejo de puxar pela rolha.
Ultrassados todos os percalços, todos os estorvos, lá peguei na garrafa (pesada) e libertei-a da rolha.

O vinho, branco, brilhava no copo. A cor indiciava bons momentos. A comida destinada para companhia pedia por algo com classe, com categoria social.
Os aromas, que saíram do copo, apresentaram-se muito acanhados. Estranho. Um nome tão pomposo, cheio de nobreza. Parecia-me que iria ficar com a beiça fechada e que pouco ou nada, de interessante, iria dizer. Dei-lhe um pouco mais de tempo. Acredito que não seja fácil trocar argumentos entre um nobre e um plebeu. As vivências são certamente muito díspares e antagónicas. Deitei para trás as diferenças sociais. Ele tinha que provar que era um vinho magestoso (tal como o nome e a garrafa). Foi largando fruta, ligeira, perfumada com mimosa e flor de anis. Sempre num registo(muito) discreto. Chegou a pedir silêncio para se ouvir melhor. Cheiros de madeira acercaram-se do nariz e encerraram com a conversa. Ao fim ao cabo, tudo terminou em meia dúzia de minutos.
O paladar surgiu assolado por uma irritante discrição. Não era necessário tanta finura, tanta suavidade. Um pouco mais de sensações teria sido desejável. Um pouco de laranja, de limão e ananás. A madeira andava por lá, meio solta, um pouco deslocada. Quase que boiava perdida naquele vazio de emoções. O fim era modesto.
Custou-me, tanto, sentir tão pouco. Tinha tido ali à frente um vinho desejado, de uma região desejada. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum: O Cabriz Encruzado, provavelmente plebeu, é muito mais interessante.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Segundo DADO (Dão&Douro)

Agora tem outro nome. Parece, segundo o que consta, é DODA. Na nova versão, o Douro surge em primeiro lugar e o Dão em segundo. Acredito que, pelo simples facto de ter mudar de nome, não tenha mudado de estilo. Pessoalmente, não faço ideia como é que esse DODA está. Perdi interesse no vinho. Não passo incólume às torrentes de novidades e, como criança, coloco de lado o que já não é novo. Peço constantemente brinquedos modernos, coisas que possam continuar a alimentar o frenesim enófilo.
Este segundo DADO saiu da garrafa com abundantes cheiros a tosta. Ficou, no ar, a impressão que a madeira dominava um pouco. Após uma longa série de rodopios com o copo, os aromas começaram a mudar a sua forma de estar. Surgiu o fruto. Maduro, suculento, escorreito. Ficavam registadas sensações de bagas a esvaírem-se. Fios de suco com tonalidades que vagueavam por entre o vermelho e o azul. Mina de lápis. Odor de apara. Lousa e xisto. Profundo, quase sem fim. Olhei para dentro do copo e a visão era de infinito.
Parei um pouco, comi umas garfadas. Irromperam, lá de dentro, aromas de alfazema, de hortênsias e de rosas. Ancoram, na memória, passagens de tempos longínquos. Não querendo parecer fingido, suspeitei que tinha acabado de provar um pouco de doce de tomate, saído do panelão (ainda a fervilhar).
O paladar era cheio. Tinha compleição considerável. A associação entre os taninos e a acidez conferiam à boca uma leve secura. Por entremeio ia sentindo um pouco de verniz e cera. Feito para estar na mesa, ao lado da comida. Desenhado para ser bebido com muita calma.
É um tinto sério, cheio de método e ideias. Está para durar, com o fim colocado a boa distância. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Alguém já provou o DODA?

domingo, fevereiro 01, 2009

Conde de Palma (Regional Alentejo) 2006

Fazia tempo, muito tempo, que não comprava um vinho proveniente da promoção da Revista de Vinhos. Por uma razão, ou outra, não despertaram interesse os vinhos que iam sendo oferecidos. Desta vez larguei os 5.95€ para saber o que era esse Conde de Palma (nascido na Herdade Monte da Cal). Aliás, começa a ser um pouco fastidioso a quantidade de nobres que vão aparecendo nos vinhos pertencentes ao universo da Dão Sul. Para um amante da história, acaba por ser interessante. Adiante.
Temos aqui, segundo os meus sentidos, um bom exemplo de um vinho destinado, feito para a agradar a muitos, muitos consumidores. Será quase impossível dizer que não está bem feito, que não está bem trabalhado. Diria, ainda, que não apresentou qualquer tipo de aresta, de rusticidade, de pontas por limar. Redondo, suave e muito cremoso.
Um tipo não precisa de grandes preparações. Basta abrir e derramá-lo para dentro do copo. Os cheiros disponibilizaram logo ali um conjunto de sensações bem conseguidas, de fácil narrativa. Usa argumentos compreensíveis. Franco na conversa. A fruta parecia ser, tendencialmente, de cor preta. Estava bem embrulhada pelos fumados. Pontuais sensações balsâmicas tentavam dar-lhe frescura e complexidade. Leite com chocolate e caramelo começaram a marcar a sua forma de estar. Com uma sensualidade curiosa. Quase que parecia creme.
Os sabores apelavam à pouca reflexão. Eram lineares na forma de estar. Saborosos, quase curvilíneos. Aquela sensação a creme de natas voltava a surgir com alguma intensidade. Merece que se diga que deu vontade de beber.
Mais um caso de receita aplicada e resultado feliz
. Nota Pessoal: 15