segunda-feira, Março 30, 2009

Porta dos Cavaleiros (Dão) Touriga Nacional Reserva 2007

E para que a rede social que gira à volta dos blogs não morra (já tivemos uma baixa), trago-vos mais um vinho que merece ser falado. Não é coisa de outro mundo (ou se calhar é).
O semblante aromático estava recheado de violetas e de cheiros a chocolate com leite, a chocolate branco. Caramelo e baunilha. Muito insinuante para um vinho que custou menos de seis euros. Não é um estrondo de complexidade, mas colocou no copo um conjunto de sensações agradáveis ao nariz e à boca. Redondo, bem delineado. Em momento algum apresentou-se agreste, confuso ou duro. Foi directo e sincero nos propósitos: Ser saboroso e afável.
Pitada de uma qualquer especiaria esforçava-se para dar-lhe um aspecto diferente.
A fruta era suave, com intensidade e doçura equilibrada. Amoras e morangos e outras coisas mais.
O paladar insistiu na sensação amanteigada, caramelizada e achocolatada. Mastigou-se uma curiosa gordura. Consegue, ainda assim, estar bem sustentado pela acidez.
É mais uma coqueluche de baixo preço e multifacetada.
Guloso. Tem o dom de ser bebido com muita facilidade. Esvazia-se uma garrafa (quase) sem notarmos.
Se o rótulo fosse outro, afirmaria que era de outro lugar (e não do Dão). Fiquei estupefacto com esta mudança.
Sem qualquer rasgo de presunção da minha parte, peço-vos que comprem e bebam. Tem tudo para ser um vinho de espectro alargado. Nota Pessoal: 15

Aqui entre nós, e falando baixinho, os louros da descoberta são de um velho amigo.

quinta-feira, Março 26, 2009

Frei João (Bairrada) Branco 2003

Tive que vir a correr para aqui. É um acontecimento que merece ficar registado. Momentos Kodak.
Gastei 2.50€ num vinho branco que andava aos caídos numa prateleira. O risco de ir pela pia abaixo estava bem calculado. Eram apenas 500 escudos (moeda antiga).
Verteu com uma cor algo carregada. O cheiro que esvoaçava, à frente das ventas, chegou a meter algum medo. Solto de aromas menos próprios começou a largar, por tudo quanto era sítio, sensações interessantes e, acima de tudo, muito vivas. Fruta de várias qualidades. Amarela, branca e verde. Escolham vocês. Os citrinos gotejavam e o vegetal grassava com intensidade. Deram-lhe vida, limpeza e frescura. Vou fazer os possíveis para diminuir o número de adjectivos usados.
Espreitando para o copo, vi no fundo um aglomerado de pedras molhadas. Sou assombrado pelo mineral. Estava razoavelmente intenso. Abusando da vossa paciência, e dando rédea solta à loucura, sonho com flores. Mimosa e malmequer. Umas lá no alto, outras rasteiras. Bonito. Por cada cheiradela, confronto-me com algo novo. Autêntica alienação.
O sabor era tendencialmente seco e citrino. Leves nuances petroladas cobriam o corpo, mascarando a sua fragilidade (não se pode ter tudo). Acidez presente.
O final, apesar de curtinho, deixa na boca um rasgo de frutos secos levemente melados. Nota Pessoal: 15

Era uma garrafa que andou aos trambolhões por tantos lugares. Um disparo de sniper. Quantas garrafas serão necessárias (abrir) para termos uma em condições?

terça-feira, Março 24, 2009

Tributo (Ribatejo) 2004

Quem arrisca gastar euros em vinhos de regiões menos célebres? Quem costuma meter em cima da mesa garrafas com rótulos quase desconhecidos? Quem tem o atrevimento de dar aos outros coisas sem pedigree? É um risco elevado. Façam-no às cegas. As surpresas, acreditem, podem ser muitas. À vista desarmada sujeitamo-nos a ouvir coisas menos agradáveis. Nunca se esqueçam, isto está cheio de preconceitos.

Durante anos e anos, regiões como o Dão, a Bairrada, a Estremadura, o Ribatejo e Terras do Sado passaram as passas do Algarve. Juntas eram um enorme deserto. Pontificavam apenas uns quantos oásis, onde se podia matar a sede com prazer. O que vinha desses lugares era, na generalidade, de fraca qualidade e sem interesse.
Uma das minhas últimas confrontações enófilas aconteceu com vinhos ribatejanos. O Ribatejo é um território que marca, e muito, a zona onde vivo. As lezírias, os toiros, as enguias e o rio Tejo. Toda a etnografia de Alcochete está influenciada por isto.

Este enganou-me. Baralhou-me. De peito aberto, e preparado para ser seteado, jurei a pés juntos que vinha de outro lugar. Recordo a minha fuça quando vi o rótulo. Engoli em seco e pensei, mais uma vez, nas enormidades que costumo dizer.
Os aromas foram saindo com serenidade. O delírio começou, entretanto, quando surgiu a mina de lápis. Uma nesga de tinta ia marcando, também, presença. Desviadas para o lado, confronto-me com o soalho encerado, bem limpo e reluzente. Estava decididamente afectado pelo entusiasmo. Era um vinho com aptidão para escrita, para o desvairo. Ele tinha dado o mote. Eu fiquei com a função de inventar e procurar, se possível, comparações.
A terra húmida e bem encharcada proporcionou um ambiente fresco e agradável. Foi, no entanto, aquecendo com o fumo, com a especiaria. Prosseguiu com o cacau e com a baunilha. A partir daqui desliguei e fiquei-me pelo desfrute. O resto são cenas íntimas que ficam comigo.
O sabor era seco e durável. Busto harmónico. Mostrou ter muita habilidade para namorar com a comida. Juntos fizeram-me companhia.
Um Ribatejano pouco taurino e nada rude. A raça dele é outra, tem outra estirpe. Nota Pessoal: 17

Entretanto provem a colheita de 2007 que anda aí. O preço é muito decente. Vale a pena.

domingo, Março 22, 2009

FOTOS

As máquinas apanharam o momento.

E pouco mais há para dizer.

sábado, Março 21, 2009

Opinião Parte III

Tenho reparado que, durante os últimos dias, a monotonia regressou novamente à rede. O marasmo atacou tudo e todos, sem excepção (não assobiem para o lado). Sem apelo nem agravo, reparo que ninguém ficou a salvo. Parece-me que, assim à queima roupa e por muitas voltas que possamos dar com o vinho, acabamos fatalmente por falar sempre da mesma coisa.
Com um olhar mais atento, percebe-se que a maioria dos temas já foram discutidos, abordados no passado. Mudaram-se os tempos verbais, as introduções e os autores, e num ápice passaram ser temas actuais. Nada de novo. Será que este imbróglio é meramente o resultado do reduzido número de consumidores interessados no assunto? Esse universo, povoado por gente disponível para a causa, encolhe se ultrapassarmos a meta do inteligível.

Tenho dúvidas que o afunilamento na discussão possa trazer, para junto de nós, potenciais amigos do vinho (Vou optar por este termo em detrimento de enófilo. É mais popular). O chamamento deve ser feito através de temas perceptíveis e terrenos. É necessário, é imprescindível, que se evitem assuntos de densidade e de discussão exótica que só a meia dúzia consegue decifrar (Ou não! Acredito que andem por aí muitos encobrimentos). Se queremos a carroça cheia de interessados, valerá a pena falar de coisas distantes ou de vinhos que o comum mortal não conhece? Continuo a divertir-me ao ver, sentado na bancada, o desfile das coqueluches? Que adianta falar de chateaux? Que adianta dizer que determinado vinho é do caraças? Isto afasta, não aproxima!
Os nossos críticos deveriam formar, deveriam dar pistas, ajudar-nos a crescer. Em alguns casos ficam apenas pela apresentação das suas enormes credenciais. Nós vamos abrindo os seus currículos, folheando as páginas. Falam de forma hermética e esquivam-se às perguntas directas e simplórias do povo. Olho para eles e noto que não perdem tempo algum com assuntos deste mundo. Andam por outros lados.

Terminada esta fútil trilogia de Opiniões, vou tentar regressar ao vinho que anda dentro da garrafa, haja imaginação, adjectivos e verbos.

segunda-feira, Março 16, 2009

Opinião Parte II (Ser enófilo sem dinheiro)

A vida de um amigo do vinho, sem dinheiro, em Portugal não é fácil. Está repleta de curvas e contra curvas, com muitos engodos pelo meio. É feita, quase sempre, toldada pelo medo de falar às claras (já falamos sobre o assunto).
É vedado ao pretenso enófilo a possibilidade de proferir palavras, publicamente e em voz alta, sobre vinhos comuns. Mesmo que beba e que sinta alegria fá-lo às escondidas, bem afastado do grupo. Evita, deste modo, uma remessa de complicações, como ser colocado de lado, ostracizado pela elite endinheirada e supostamente mais conhecedora (enche o topo da pirâmide do clube e tem funções de direcção).
Fico eriçado quando ouço e leio que o dinheiro trás conhecimento. Trás, essencialmente, arrogância e paternalismo bacoco. Esta afirmação não tem qualquer carácter politico, porque também ambiciono a malvada mas desejada riqueza. Maldita carne.
O nosso bom nome pode ficar enxovalhado se dissermos que gostamos de vinhos sem nome, sem glória, sem história. A pena fica agravada se a maquia gasta ficou aquém do desejável. Um descuido destes e vai tudo por água abaixo.
Fico agastado, por vezes encolerizado, quando verifico o desdém que existe, quando arriscamos falar de coisas baratas (nada é barato). Do outro lado, quase sempre, sai um olhar de reprovação, de quem acha o assunto pindérico.
Infelizes são aqueles que, não tendo dinheiro, ficam impossibilitados de verem aceites as suas inscrições no clube. É que o conhecimento literário não basta. Não é condição suficiente. É imprescindível ter a carteira gorda (não esquecer, também, a importância do pedigree) para poder ser visto. Só assim poderemos almejar ter um lugar ao lado deles. Enquanto isso não acontece, ficamos do lado dos bêbados à espera de oportunidade. A outra opção é sermos párias. Enófilos sem terra, sem clube e sem grupo.

Posfácio

Nos últimos dias, fartei-me de beber um vinho branco do povo. A dica veio por mensagem de telemóvel, no meio de uma noite.
Por 3€, este Terra D'Alter 2008 é um aglomerado de exuberância, de fruta roliça e fresca. Perto das gulodices típicas de final de tarde, consegue cumprir bem a sua função.
Enquanto não ficar farto dele, tenho aqui mais um companheiro para o petisco e para a esplanada. Nota Pessoal: 14

sábado, Março 14, 2009

Herdade do Meio Homenagem (Alentejo) Colheita 2004

Não olhem para as minhas palavras como uma saraivada sobre um morto. Não é essa a intenção.
Este produtor arrancou com pujança, prometendo mundos e fundos. Aparentemente os passos dados, e a dar, estavam calculados. De peito feito lança no mercado alguns produtos interessantes. O branco, por exemplo, merecia um olhar atento. Tomei conhecimento, depois, com o Garrafeira de 2003. Parecia-me um vinho com personalidade, com sentido. Indiciava merecer atenção.
Num ápice, e posso ser injusto, começaram a emergir, por todos os lados, vinhos e vinhos (situação comum a outros produtores). Podíamos dizer que tudo era feito ao jeito do freguês. Chegou a lembrar o jogo infantil: Quem é quem?
Os preços acompanhavam a velocidade dos lançamentos e tornaram-se estupidamente caros. Sem dó nem piedade, alguns vinhos rondavam os 30€ e 40€. Culpa dos distribuidores? Dos vendedores? Durante este período ganhei aversão.
Ultrapassada esta fase, dou comigo defronte de uma prateleira cheia de garrafas em promoção. Os topos de gama da casa estavam a ser oferecidos. Meti a mão no bolso, vi os trocos, e trouxe para casa algumas dessas garrafas.
Depois de provados e bebidos ficou cimentada a ideia que as distintas opções não valiam os centavos pedidos. As diferenças, entre eles, eram minimalistas, quase tudo sem fulgor e sem alma.
Este Homenagem saiu do copo preso pela madeira. O odor era intenso e directo. Sentiam-se os vernizes e as ceras. Uma maçada. Mais uma repetição. Adivinhavam-se momentos fastidiosos.
Foi preciso usar o pulso com firmeza para que largasse mais coisas. A madeira teimou em não sair da frente. Fumo, sugestões de cacau preto e grão de café estavam, agora, na mó de cima. Fui espairecer, sair dali. Ando farto de más compras. Maldita obsessão que não desaparece.
Tentei desesperadamente que ele acompanhasse, com dignidade, o almejado jantar de sexta-feira à noite. Emergiram, ainda, nuances vegetais, mas a mediania acercava-se fatalmente dele.
O sabor revelou sensações similares às do cheiro. Pesado, químico e amargo. Meia dúzia de notas queimadas algo despropositadas e mais nada. Aflitivamente trivial. Valeu, ainda assim, a acidez. O conteúdo da garrafa não baixou do terço.
Depois de uma semana de faina intensa acabar deste modo não augura nada de bom. Nota Pessoal: 13,5

Post Scriptum: Desejo arduamente que o Garrafeira de 2004 (que ainda está guardado) não alinhe pela mediocridade.

quarta-feira, Março 11, 2009

Opinião Parte I

Devem ter já percebido, para o bem ou para o mal, concordando ou discordando, que a minha escrita tem apenas como sustento argumentativo o meu discutível e bastante dúbio gosto pessoal, suportado em meia dúzia de ridículas crenças pessoais. Nada mais. Manterei este curso (se conseguir).

Os blogs são, meramente, espaços de pura opinião pessoal. Reflectem, somente, o que os autores pensam ou não. São pequenos excertos da sua vida. Pequenos recortes publicados na internet para serem escrutinados por quem queira. Basicamente entramos num universo (quase) doméstico, onde um tipo solitário defende as suas ideias, as suas convicções, das várias investidas que vai sofrendo (e elas são cada vez mais). O objectivo é não ficar com muitas mazelas. Mas é bom que assim continue. Sabemos, deste modo, o que um pensa, o que o outro acha. Transpor esta barreira é penetrar no famoso centro, onde todos pensam o mesmo, matando a pluralidade enófila.

Também no mundo dos vinhos, existe a fatal tendência para os consumidores agruparem-se em torno dos mesmos conceitos, dos mesmo vinhos. Todos procuram, por uma razão ou por outra, mostrar que andam na crista da onda. É uma necessidade humana (não fujo a ela). Basta uma ténue tentativa para sair do tal centrão, do que é politicamente correcto, para corrermos o indesejado risco de excomunhão enófila. Uma excomunhão que pode matar irremediavelmente a credibilidade de um individuo como pretenso enófilo (mais ou menos conhecedor). É quase pecado dizer, na praça pública, que não se concorda, que aquele não soube bem, que não vale, nem de longe nem de perto, o que pedem por ele. Silenciosamente vamos aguentando as regras que a moda vai ditando, incapazes de fazer qualquer coisa (não queremos ser postos de lado) para mudar o status quo estabelecido.

Espero, com ansiedade, que esta crise recoloque no lugar muitos pinos, que andam por aí espalhados, e que passemos a viver na realidade e não na irrealidade. Um deles é o preço que é pedido por muitos vinhos. Porque vinho sério tem que custar mais que 30€.

terça-feira, Março 10, 2009

Existe vida para além do vinho

Ao mirar para o que já passou, noto que os meus prémios são os amigos. São troféus que, orgulhosamente, vou coleccionando desde que comecei a andar com o copo de vinho na mão. Com alguns deles cheguei a trocar palavras sanguinolentas.
Quase sempre as conversas em português de Portugal são frias, sem emoção, pintadas com um cinzento chato. Raramente os parlatórios surgem com ar alegre. Quando acontecem, estão imbuídos de um fedorento ecletismo. Habitualmente a coisa começa com uns quantos chamarizes, típico das feras, que servem meramente para ir caçando os incautos. Metidos na sala dos despojos observamos, impotentes mas felizes, ao desenrolar das conversações. A dada altura o discurso adensa-se e o desejado interesse perde-se. Finda a novidade verificamos que, na realidade, não passou de uma ilusão. Os objectivos eram outros. Os interesses iam além da paixão enófila e ultrapassavam a simples relação humana.
Somos um bando de gralhas que voam, em bando, ao sabor das rabanadas de vento. Quando ele desaparece ficamos desorientados sem saber para onde ir. Discutimos, picamos nas nossas e nas outras cabeças.
Fora das fronteiras reparo que todos discutem o vinho, aquilo que vem na garrafa, que verte para dentro do copo. Os colóquios são ligeiros, mais animados que os nossos. Usam linguagem acessível e ligeira e evitam quase sempre temas de densidade dúbia.
Com o desenrolar dos anos, percebo que a saudável ingenuidade está irremediavelmente perdida. Nada é como dantes. Assisto, quase diariamente, às movimentações dos presumíveis apaixonados. Sob a capa do amor ao vinho, deslocam-se vampirescamente por todos os cantos.
Aos meus amigos, venho publicamente dedicar dois copos de vinho, duas taças de tinto do Dão. O valor do líquido é proporcionalmente inferior à estima que tenho por eles. Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional 1996 e Quinta dos Carvalhais Reserva 1996. Não perdi tempo em análises, nem em descrições. Nada tenho para narrar. Pouco há para dizer, apenas que o prazer foi imenso, a alegria e a satisfação foram grandes. Os vinhos representaram, por motivos diversos, o auge da minha caminhada como enófilo. Ambos estavam finos e suaves. A partir daqui outros desideratos irão surgir.

Post Scriptum: Apenas para matar a curiosidade. As Notas Pessoais foram as seguintes: Touriga Nacional: 15/ Reserva: 15,5.

domingo, Março 08, 2009

Gouvyas (Douro) Vinhas Velhas 2005

Estar dependente da imaginação, de um homem vulgar, para falar sobre qualquer e determinado assunto é angustiante. O prazer transforma-se, inesperadamente, em sofrimento. Os sinais de loucura surgem vindos de todos os lados. Os olhos giram em redor à procura de assunto.
Quando isto acontece, faz-se um passeio. Na volta um copo de vinho pode recolocar a tola a funcionar. É desmedido o prazer que existe quando a conversa se desenrola (apenas) entre mim e o vinho. O tempo pára e existe a possibilidade de desfiar a prosa. Em cada gole há sempre um abalo, uma comoção. Muitas vezes, perco o debate por falta de argumentos. As derrotas têm sido humilhantes.
O tinto surgiu a boiar no copo de forma calma. Via-se que não estava com disposição para comportar-se de forma extravagante. Percebia-se que não tinha paciência para botar discurso fácil e trivial. Vi que a disputa iria ser grande e, provavelmente, no final muita coisa ficaria por esclarecer. Tinha que arregaçar as mangas. Malditos vinhos que teimam em confundir o homem.
Saiu, lá de dentro, com cheiros frescos, quase frios. Irremediavelmente apareceram pela vista as imagens da pedra a escorrer, aquelas lajes abrigadas do sol que demoram a secar. Fiz uma pausa, reconsiderei a abordagem e deixei-o ao largo. Reparei que precisávamos de tempo.
Regressado do intervalo, notei que, também ele, estava mudado. As sensações estavam, agora, mais alegres. As cores começaram a diversificar-se. As notas florais enfiaram-se no nariz. A fruta vinha macia, bem limpa, e sem maturações estúpidas. O tempero da madeira não era exagerado. Tudo bem envolvido. Ainda houve tempo para pressentir uma ligeira especiaria. Bendita mão que fez este vinho.
Através do sabor demonstrou, mais uma vez, a sua coerência. Apostou na harmonia em prejuízo da agressividade ou da força. Conseguiu, e bem, conciliar leveza com concentração. Ao fim ao cabo, deu para ver que era um vinho esmerado. Nota Pessoal: 17,5

Post Scriptum:
Já percebi: As Notas Pessoais, provavelmente, estão inflacionadas (ou deflacionadas) em cinco décimas. Chamemos a esse fenómeno o factor Pingus.

quinta-feira, Março 05, 2009

A vez e a voz do povo!

Não liguem ao que escrevo, não liguem como escrevo. Sou um plebeu, um simplório que arriscou traçar umas linhas sobre um assunto que foi dominado, de forma imperial, por meia dúzia de nobres.

Imaginemos (façam um esforço) uma sala repleta de indivíduos aos gritos, gesticulando, apontado para todos os lados. Uns de um lado, outros do outro (perdoem-me as incorrecções ortográficas). Os nobres gordos e decadentes, levantam-se possessos, dos cadeirões, apregoando que o povo não tem cultura para falar do vinho (apenas a força de braços interessa). Que importância têm as palavras de quem foi alimentado pelas côdeas dos ricos? Dêem circo ao povo! Gritam estremunhados, meio atarantados. O sono tinha sido longo e pesado.

Longe vão os tempos em que eles (os nobres) dominavam o campo de batalha, o assunto, ditando as regras sobre o modo de lutar, sobre aquilo que se devia dizer. Agora, o povo (enófilo) quer intervir, deseja falar, dizer o que quer e o que gosta (ou não) de ver no copo.

Esqueceram-se, os nobres, que foram os arqueiros, nascidos no povo, e não a cavalaria pesada e arrogante, que ganharam as guerras modernas. O tiro rápido, fácil (meio cego) e cadenciado deitou por terra a petulância dos nobres. Não há volta a dar, mesmo que os decadentes arautos apregoem, a pedido dos nobres, as velhas tradições: Vinho bom para os abastados, vinho mau para os pedintes!

Nunca a obra (os Miseráveis) de Victor (quase que esquecia o c antes do t) Hugo teve tão presente na minha rudimentar tola.
Falem, gritem. Lá fora, há muito que o cidadão questiona (directa ou indirectamente) produtores, enólogos e críticos. Todos falam sem constrangimentos. Não tenham medo (dos nobres). Não se acanhem. Eles, tal como nós, são mortais.

segunda-feira, Março 02, 2009

Vinha Othon

Foi difícil, exageradamente difícil. Fazia tempo que as palavras não custavam a sair. Risquei inúmeras vezes, amachuquei várias folhas e nada. Tudo saía falso, inócuo e sem sentido. Os verbos e adjectivos soavam mal. A reprodução das sensações estavam completamente vazias de emoção. Caneta, papel e vinho estavam distantes. A cada gole que dava as imagens tendiam a turvar. Sinais de demência?
Após cada cheiradela, ao fim de cada trago, aumentava a angústia. Que era aquilo? O que tinha ali? Um tinto demasiado prudente que se acercava de forma discreta, quase religiosa. Os sentidos eram embalados por uma suavidade que entorpecia. Queria escrever, queria fazer comparações. Esforcei-me para apanhar flores (tinha visto o contra-rótulo), fiz diligências para encontrar qualquer coisa. A fruta estava estupidamente fresca. A madeira colocada no devido lugar. Sem ordem para exibições pretensamente modernas. A acidez e os taninos envolviam-se num alucinante jogo de sensações. Estava tudo colocado de forma proporcional.
Voltaram as indefinições, regressaram as debilidades do homem (as minhas). Ensarilhei-me nas redes da (minha) obscura memória. Vi, olhos nos olhos, a dificuldade para libertar-me do que li, do que ouvi. Estava irremediavelmente influenciado. Que fraco (sou). Maldita a hora que bebi com o rótulo à vista desarmada.
Virei-me para o lado. A garrafa ia a meio e os olhos de um gato espreitavam sorrateiramente para a cena. No dia seguinte, um célebre homem iria fazer anos. Nota Pessoal: 17,5