quarta-feira, Agosto 26, 2009

Quinta da Espinhosa (Dão) Branco Colheita Seleccionada 2008

Uma vez tive o desplante de dizer isto sobre um homem: "É a minha pequena e simples homenagem ao enólogo Magalhães Coelho. Um senhor que fez muito pelo Dão, que andava preso do granel e das práticas erróneas que iam colocando esta região num abismo sem retorno.
Juntamente com outros senhores do Dão, (...), tentou inverter a situação apostando na criação de belos vinhos que pudessem dignificar uma região, que no passado foi o berço dos melhores tintos portugueses."

Naquela altura o motivo andou em redor de uma prosaica prova com uma dupla de vinhos (tintos) da Quinta da Espinhosa. Voltei a relembrar o homem, novamente, com um vinho do mesmo produtor. Um Homem (do Douro) que, silenciosamente, foi colocando muita pedra no seu lugar devido. Nós, os amantes do Dão, devemos curvar-nos perante a sua memória.

Posto isto, e ao fim de alguns anos, volto a colocar nas beiças um vinho da Quinta da Espinhosa. Continuo a ter dificuldades para entender os aparentes hiatos que alguns produtores costumam ter. De um momento para o outro, este quase desapareceu (mesmo na terra onde nasce). Em tempos ainda foi possível descortiná-lo nas prateleiras de algumas superfícies comerciais. É a velha história: "ai e tal, aqui no Dão ninguém nos liga." Metam os vinhos em frente dos consumidores. Acreditem que alguém lhes vai pegar. De outro modo, continuarão a ser eternos desconhecidos.
Depois de mais um rodeio, este branco (com Encruzado, Bical e Cercial) pareceu-me coberto de alguma austeridade. Pouco exuberante, pouco cordial. Pareceu-me tendencialmente vegetal. Cheiros de erva misturavam-se com odores a feno e a restolho. A suposta presença de maçã ácida, junta com pêra, consegue dar outros aromas ao vinho, tornando-o muito mais fresco e vibrante.
O sabor dele era seco, muito seco. Achei curioso este comportamento. Nada de frutas maduras e opulentas. Carregado de acidez e sensações vegetais.
Por pouco mais de 3€, este vinho merece ser metido no circuito comercial de forma séria. Estar enfiado num tasco regional não faz qualquer sentido. Com algumas afinações, com alguns ajustes, temos vinho para as massas. Mesmo assim, é um vinho interessante, com algumas facetas curiosas e que levaram a (minha) memória para coisas que são capazes de (já) não existir. Nota Pessoal: 14,5

domingo, Agosto 23, 2009

Em tempo de férias! (Brancos e mais qualquer coisa)

Estão a dar as últimas (as férias). Diria que entraram na fase terminal (que expressão tão marcada).
Por entre raios de sol, areia nos pés, sal na cara, uma vez e outra lá fui enfiando na goela qualquer coisa.

A primeira dose servida veio da Herdade do Sobroso (Alentejo). Sobro Rosé e Sobro Branco. Ambos da Colheita de 2008. Carregados na graduação alcoólica (se a memória não falha, os dois partilhavam a mesma percentagem: 14%). Peitudos e corpulentos. Olhando para a parelha, ainda assim, o Rosé pareceu-me mais interessante, mais masculino. Não desgostei.

A segunda dose veio do Dão. Casa de Santar Branco Colheita 2008. Fazia tempo que não bebericava este vinho. Mais dócil, mais suave. Percebia-se que tinha maior apetência para a época. Porreiro, pá!

A terceira, e última, veio do Douro. Crasto Branco Colheita 2008. O nível de sofisticação era outro. Bem trabalhado, fino e saboroso. O preço pareceu-me, no entanto, a roçar o despropositado. Paguei por ele 10€ (quase 11€).

Feita avaliação final, o Casa de Santar consegue ter melhor relação-preço-qualidade.

Agora venha o trabalho que, também, faz falta.

sexta-feira, Agosto 14, 2009

Quinta do Portal (Douro)

Mais uns quantos relatos de férias. Desta vez com uma trilogia de vinhos provenientes da Quinta do Portal.

Quinta do Portal Rosé Colheita 2008
Um rosado do Douro, com alguma estrutura, que demonstrou no copo um modus operandi aparentemente distante da moda. Pareceu-me longe dos excessos açucarados da maior parte dos rosés nacionais. A febre das graduações alcoólicas tem vindo abocanhar, a olhos vistos, este tipo de vinhos. Nos tempos que correm ter qualquer coisa com menos de 14% de graduação alcoólica é para aplaudir! Chiça!
Regressando ao vinho. Presentes as habituais notas de morango, que combinaram, ou não, com sugestões vegetais. Curiosas impressões a folha de tomate e a hortelã. Sempre num registo sadio, limpo e fresco.
Na boca apesar de surgir com uma boa dose de gulodice, pareceu-me sentir um saudável equilíbrio entre a frescura e o açúcar. Fiquei com a ideia que tinha apetência para a comida. Nota Pessoal: 14,5

Relato Quinta do Portal Branco Colheita 2008
Verde, seco, ácido. Esta combinação de adjectivos era capaz de ser suficiente para caracterizar, de grosso modo, este vinho branco. São, ao fim ao cabo, uma reunião de sensações, cheiros e aromas que aprecio. Não apresentou floreados desmedidos, não transportou carradas de fruta inócua e vulgar.
O sabor não destoou do aroma. Revelou acidez e secura. Um vinho branco com boa dose de sobriedade e com (boa) capacidade de refrescar a goela. Onde podemos encontrá-lo? Nota Pessoal: 15

Quinta do Portal Branco Colheita 2008
Aqui o estilo desvia-se, um pouco, do anterior. Notavam-se cheiros de fruta madura. Era evidente a tropicalidade do fruto. Acrescentava-se meia dúzia de sensações a flores brancas (ou outras). Pelo meio, uns quantos deslumbres vegetais que refrescavam e atenuavam a (eventual) doçura. Bem rematado por umas gotas citrinas.
O sabor era levemente untuoso, com a fruta a estalar pela boca. A acidez limpa a parte final e torna-o viçoso. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Vinhos enviados pelo Produtor.

quinta-feira, Agosto 13, 2009

Em tempo de férias! (Vinhas do Dão)

Ficam registados para memória futura, alguns cenários de vinha do Dão, na zona de Seia e Gouveia. São imagens que gosto de reter na memória quando regresso ao Sul. Ao deixá-las para trás acerca-se uma enorme angústia.


O cenário é, quase, sempre o mesmo. Uma miscelânea de oliveiras, pinheiros, eucaliptos, giestas, restolho, silvas, ribeiras e charcas. A Serra, essa, parece surgir por todos os lados.

Post Scriptum: E as fotos surgem cortadas?

segunda-feira, Agosto 03, 2009

Vinhos Étnicos (Gravato - Beira Interior - Palhete 2005)

No meio do enorme Oceano por onde deambulam várias barcaças, reparo que a maior parte delas carregam assuntos comuns, bocejantes (será que existe esta palavra?) e, quase, sem interesse. São raras as ocasiões em que aparece uma com algo diferente, com qualquer coisa que não entra nos cânones estabelecidos pela nossa crítica. Começo a pensar que eles, os críticos, são mesmo secantes, tal como a erva daninha. Limpa-se por cima, mas a raiz continua saudável Efectivamente não conseguem ser irreverentes. Não são capazes de sair do factual, do esperado, do frugal.
Faz tempo que reflicto, interiormente, sobre o lado étnico do vinho. Se olharmos para o nosso rectângulo reparamos que existe um boa dose de vinhos que assentam como uma luva nesta filosofia. O Vinho Verde tinto é um exemplo típico. Depois encontramos ou encontrávamos os Petroleiros da Vidigueira, os Brancos Leves da Estremadura. O próprio Bairrada Clássico, talvez o mais conhecido, é um vinho étnico. O Palhete é outra dimensão. Ainda hoje assisto à produção anual deste tipo de vinho feito com uma mistura de uvas tintas e brancas. É o vinho da família.
Este Palhete da Beira Interior surgiu no copo com uma forte componente vegetal. Era visível, a imagem do cachiço. As sensações percorreram, quase sempre, um registo ausente de doçura. E, pessoalmente, só tenho de agradecer. Ainda assim, sou confrontado com algumas nesgas de fruta de aspecto silvestre. Deram-lhe alegria.
Não querendo abusar, em demasia, de argumentos delirantes, diria que, por momentos, senti um leve fumado.
Sabores secos, muito secos, com a acidez a dar-lhe vida. Sentia-se a rusticidade, via-se que não existiam refinamentos supérfluos. Alguns toques de fruta fresca tentavam arredondar a sua forma de estar.
É, literalmente, um vinho que pede por comezainas regionais. Ao lado delas, e fresco, fará uma parelha dos diabos. Para quem possa ter dúvidas: é vinho! Nota Pessoal: 15

Pergunta de algibeira: Será que neste mundo global, formatado, e demasiado parecido entre si, existirá espaço para este tipo de vinho?

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.