quarta-feira, setembro 30, 2009

António Carvalho

Recoloco outra vez a foto. Uma foto alegre.

Fixa o momento!

sexta-feira, setembro 25, 2009

Mais Brancos

Um quarteto de vinhos brancos. Uns serão, provavelmente, para o Verão, outros para épocas do ano mais duras. Por entre nomes e descrições (e ando com pouca paciência para elas) ficam um conjunto de palavras sobre cada um. Coisa curta. Em alguns casos a surpresa abateu-se sobre o copo. Noutros nem tanto.

Casal Figueira Vinhas Velhas (Regional Lisboa) Colheita 2008. Feito com Vital. As vinhas são velhas. Cor a cair para o torrado.
Aromas empanturrados
de fruta madura. Fruta evoluída, a tender para a cristalização. Cheiros de massapão (é assim que se escreve?).
O paladar estava ligeiramente melado, com sensações de passa. Salvou-se pela acidez, pela austeridade que conseguiu, ainda assim, mostrar.
O vinho que estava dentro da garrafa parecia dar os últimos passos da sua vida. Tinha mudado de aspecto. Estava diferente. Perdeu aquele lado mais fresco, tendencialmente mais mineral, mais crocante. Tornou-se mais sénior. Nota Pessoal: 14,5
Vale de D'Algares Selection (Regional Tejo) Branco 2008. Fruta espessa, densa, gorda. Revelou aromas fumados que cambiaram para cheiros mais enfartados. Notas de ananás, de palha, de frutos secos.
Sabor cheio, estruturado. Vagueiam vegetais e citrinos. A acidez conseguiu manter níveis de frescura aceitáveis. Um vinho moderno e com apetência para climas mais frios. Nota Pessoal: 15

Vinha Paz Branco (Dão) Colheita 2008. Nem fazia a mínima ideia que existia. Depois de aberto, fui assaltado por uma sensação de desilusão. Algo pesado, meio morno, parco de frescura. O gelo é, decidamente, um amigo. Não o larguem. Não querendo matá-lo à nascença, fica o beneficio da dúvida. Voltarei a provar. Nota Pessoal: 14
Quinta do Cerrado (Dão) Encruzado 2008. Diria que tem, quase, tudo o que aprecio. Fresco, estaladiço. Vegetal, seco. Abundante em fruta ácida. Maçã bem verde. Ananás embebido em limão e lima. Carregado de muitas sensações minerais. Uma leve evolução para favo de mel.
Deixou nas beiças uma forte impressão seca, estupidamente ácida. Estranha presença de frutos secos.
Fiquei com a ideia que teve, algures, contacto com a madeira. Nota Pessoal: 16 (que se lixe).

Post Scriptum: Casal Figueira Vinhas Velhas (Regional Lisboa) Colheita 2008 foi oferecido pelo Produtor. O Vale de D'Algares Selection (Regional Tejo) Branco 2008 foi enviado pelo Produtor.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Niepoort, Quinta de Nápoles

No meio de tantas idas ao Douro, esta foi minha primeira visita à Quinta de Nápoles. Obrigado pelo convite. O momento serviu para provar as colheitas de 2007 e 2008. Pelo meio fui ouvindo as palavras do enólogo Luís Seabra e de Dirk Niepoort. Perante a cadência das explicações, qualquer comentário, feito por mim, apenas iria colocar a nu as minhas eno-debilidades. Compreendi melhor o Charme 2006 e os posteriores 2007 e 2008 (em barrica). Dirk disse que era a elegância levada ao extremo. Pretende que seja assim, quer assim, gosta assim. Foi afirmativo.
Abri a boca, assumo, quando reparei que o engaço estava a regressar. O Robustus tem uma boa dose (60%). Quase contra-corrente.
O Vertente 2007 está, e ainda bem, transformado num vinho sério, com mais arestas.
A novidade acabou por ser o Navazos Niepoort branco 2008. Um vinho que não caiu no goto de João Paulo Martins. A expectativa era, para mim, grande. É diferente, completamente desavindo. Seco, muito seco. Gostei francamente. Metam-no ao lado de uns belos enchidos e verão que tudo bate certo. Feitos uns para os outros.
Antes de vir embora, caiu no copo um Garrafeira de 1977. Não tenho estrutura, nem aptidão para comentar. Outros que o façam.
E como merece ficar registado o dia, deixo-vos algumas fotos.


Antes e depois fui passeando pelos arredores. Era visível a azafama das vindimas. Tive, ainda, tempo para, algures entre São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa, surripiar, à beira da estrada, uma mão cheia de amêndoas. A filha mais velha estava de boca aberta. Nunca tinha visto uma amendoeira. A culpa é minha.

domingo, setembro 20, 2009

Bastardinho de Azeitão

Não deixa de ser um momento desconcertante quando degluto, enfio este vinho pela garganta abaixo. Ao saber que a vinha já não vive e que, em vez dela, existe cimento, alcatrão, aço e ferro assoma-se uma sensação algo singular. Não é todos os dias que temos à frente do focinho um vinho nascido numa vinha que foi riscada do mapa.
O esforço para reproduzir uma paisagem desaparecida é tremenda. Fazer apagar o que existe e substituir por um cenário mais bucólico, não é decididamente uma demanda fácil. Os pontos de referência estão completamente apagados, alterados. Provavelmente haveriam hortas, com certeza teríamos meia dúzia de animais domésticos, (não seriam certamente cães vadios), eventualmente conseguiríamos ouvir os grilos (mesmo com a velha fábrica da CUF no horizonte).
Apesar de conhecer o local (Lavradio) das presumíveis cepas (caminhei por aquelas bandas fartas vezes) a visão apresenta-se turva e algo distorcida.


O vinho, esse, dispensa longos enunciados. Não necessita e nem precisa que coloquemos no papel descritores, mais ou menos, inócuos. Existe para ser bebido e bem saboreado. Acaba por ser, muitas vezes, um instrumento de meditação sobre os actos do homem. Sendo um produto do passado, não deixa de ser, curiosamente, uma predição do futuro. Andam ser suprimidas, por esse mundo fora, muitas vinhas de bastardo.

No site da José Maria da Fonseca diz que este é um excelente exemplo, na Península de Setúbal, do resultado da produção de um vinho tinto licoroso, a partir de uvas tintas. A casta Bastardo era proveniente de vinhas plantadas a Sul do Tejo, entre a Caparica e o Lavradio, a última das quais foi arrancada em 1983 (contava com 13 anos e não conservo qualquer imagem das videiras).

segunda-feira, setembro 14, 2009

Colheitas iguais, Vinhos diferentes.

A estória tinha como trama central a Quinta da Leda. O enredo foi sendo preparado sem grandes cuidados. Serviria, apenas, para abrir a época das provas. Cada um traria o que tinha em casa. Simples. O resto do conto decorreu sem grandes momentos de suspense. Todos estavam certos daquilo que tinham à frente das beiças. Eu cheguei a jurar a pés juntos, com as mãos bem cerradas, gesticulando com veemência, que sabia o que estava dentro de cada copo. Não iria demorar tempo para ficarem despidas as pretensões a provador sabedor. O ridículo acercou-se de mim quando as garrafas começaram a surgir em cima da mesa. O rei ia nu!
Destapadas as garrafas verificámos que tínhamos colheitas repetidas de Quinta da Leda (2000 e 2001). O vinho enfiado em cada uma delas tinha tido um comportamento tão díspar, tão anacrónico que conseguiu enganar mente, nariz e boca. Chegou ser o Dia e a Noite. Os comentários, as notas pessoais faziam antecipar enormes diferenças no que respeita aos anos das colheitas. Embeiçados pelos enganos, acercou-se um gélido silêncio na mesa.
As causas tentaram ser descortinadas: local onde o vasilhame foi comprado, o tratamento que teve até chegar ao dia do julgamento final. Tudo era plausível para justificar as divergências.
Este imbróglio acabou por ser um exercício curioso. Permitiu compreender in loco, e mais uma vez, que o acto da prova é efectivamente uma actividade carregada de subjectividade. Duas garrafas da mesma colheita podem ter comportamentos completamente antagónicos. Posto isto, é altura de começarmos a introduzir nos nossos comentários expressões do tipo: o vinho que estava nesta garrafa, naquela garrafa.
A título de curiosidade deixo-vos aqui alguns traços sobre os meus erros.
Quinta da Leda 2000 (a). Mineral. Acreditei piamente nisto. A face parecia carregada de cores da terra. Pedra, lagar. Flor silvestre. Cedros. Do princípio ao fim vagueou longe da doçura. Vernizes, encerados. O sabor era balsâmico, fresco, bem mentolado. Nota Pessoal: 17
Quinta da Leda 2000 (b). Licoroso. Ginjas, bombons. Rebuçados. Folhas de chá, erva seca. Um curioso odor a terra quente. Na boca, mostrou-se estranhamente rico, amplo, viçoso e a contrariar o cheiro. Sim senhor. Nota Pessoal: 15,5
Quinta da Leda 2001
(a). Os cheiros criaram empatia repentina. Toques modernaços de chocolate de leite misturados com tabaco e caramelo. Mudou algumas vezes de aspecto, passando para um estado mais húmido e terroso. Sempre perfumado e com boa dose de complexidade.
O paladar era doce, mas estava amparado pela acidez. Bem composto, coeso e homogéneo (três palavras que dizem o mesmo). Pecou no excessivo uso de tiques novo mundo. Mas isso são coisas minhas. Nota Pessoal: 16
Quinta da Leda 2001 (b). Cheio de fruta cristalizada, um pouco pesado no aroma e no sabor. Quente, evoluído e com aparentes sinais de cansaço. Pareceu-me ser vinho sem capacidade para fazer abrir a boca de admiração. Conseguiu, ainda assim, manter algum equilíbrio durante a noite. Nota Pessoal: 14,5
Os outros: um brilhante e respeitado Quinta da Leda Touriga Nacional de 1997 que estava soberbo, cheio de nuances aromáticas. Fino e elegante. Mais não digo. Nota Pessoal: 17. E um recente 2007 elegante, cheio de juventude e irrequieto. Fruta (para alguns era preta), chocolate, novamente tabaco e fumo, e outras coisas parecidas, com um pouco de esteva e terra pelo meio. Frescura quanto baste. Nota Pessoal: 16,5

No final, enfiámos uns tragos de um vinho que nasceu numa vinha que já não existe.

terça-feira, setembro 08, 2009

Brinquedo caro, Vinho caro!

Quando era puto ao passar pelas montras, via uma mão cheia de brinquedos que julgava impossíveis de existir. Olhava, olhava, babava-me, com o nariz encostado ao vidro. Eu queria aquilo.
Outras vezes, em casa de presumíveis amigos, ficava maniatado quando espreitava ruborizado as pistas de comboios, as pistas de carros, as pequenas cidades montadas. Olhava, olhava. Não sabia brincar com aquilo.


Regressava a casa e contava o que tinha visto. As palavras saíam da boca cobertas de ficção. No meio das histórias, iam surgindo encapotados vários pedidos. Os sobrolhos dos meus pais indicavam a impossibilidade de aquisição. Regressava à cama, suspirando pelo que tinha visto. Uma loucura.
Transpostos muitos anos, reparo que os brinquedos cobiçados estão transformados em vinhos desejados. Detenho-me, durante largos minutos, a mirar as prateleiras repletas de garrafas luxuosamente rotuladas. Fazem-se contas à vida, contam-se os tostões. Porra, será que passados mais de 30 anos, confronto-me, novamente, com a impossibilidade.


Volto a entrar em casa de amigos, volto a encarar coisas conhecidas (como se fossem os brinquedos da montra ou de um catálogo luxuoso). Tinha, apenas, uma vaga ideia da sua existência. Também, agora, fico recluso, incapaz de provar e beber com a liberdade necessária. As mãos tremem, o suor corre pelas ventas, com medo de não gostar, de não saber interpretar o que está dentro do copo. Olho, acanhado, para o lado e reparo que os outros actuam de forma, estranhamente, natural, sem aparentes sinais de nervosismo. É obra.


No meio de toda aquela luxúria, senti que ninguém arriscava comentários assertivos. Qualquer palavra solta vinha camuflada de cautela e desculpas. Pairava na atmosfera uma forte incapacidade para questionar os vinhos. Seriam, de facto, inquestionáveis?

Para evitar esquecimentos, da minha parte, prendi os vinhos nas fotos. Para meter pirraça, ficam disponíveis aqui. Não deixam de ser brinquedos expostos numa montra.
Notas de prova? Nem um traço foi escrito pela minha manápula.

terça-feira, setembro 01, 2009

Companhia das Lezírias, a Austrália aqui tão perto!

O título poderá estar coberto de exageros (como quase tudo que escrevo). Estará provavelmente encharcado de ideias erróneas. De qualquer maneira, e independentemente disso, ao provar meia dúzia de vinhos da Companhia das Lezírias fiquei com a ideia que a Austrália tinha chegado até à minha porta. Vinhos gulosos, limpos, ideais para consumir descontraidamente, cheios de tiques internacionais (chocolate, fruta, especiaria, tabaco) vendidos a preços, aparentemente, cordatos. Não estou a contar com o Reserva. Esse parece-me deslocado do resto da trupe e não merece que se pague por ele entre 25€ a 30€.
Dessa meia dúzia destaco dois. Preço de loja: 10€.

Companhia das Lezírias (Regional Ribatejano) Cabernet Sauvignon 2005, comprado com olhar de desconfiado, com medo de ver saltar da garrafa uma horda de pimentos assados a pedirem por sardinhas. Felizmente, nada disso. Recorte moderno, muito apelativo e sem (aparentes) arestas. Aromas e sabores gulosos. Fruta, madeira, alguma especiaria. Bem misturados. Os taninos e acidez estavam na dose certa. Estruturavam o vinho.
Um tinto que vai escorrendo pela goela abaixo sem quase se dar por isso. Serviu e cumpriu plenamente. Fiquei, francamente, agradado com ele. Nota Pessoal: 15,5
Companhia das Lezíras (Regional Tejo) Touriga Nacional 2008. Violeta (ou outra coisa qualquer) a rodos. Muito perfumado no ataque inicial. Estilo jovem e para jovens. Espesso no copo. Gordo. Notava-se a fruta babada pelo chocolate, o caramelo, a baunilha. Se não tivesse visto o rótulo apostaria (e fortemente) que este vinho não era luso.
Para ser servido em momentos light e destinado a pessoas que apreciam exuberâncias desmedidas.
E eu, volta na volta, tenho dias que gosto destas coisas. Malditas contradições. Nota Pessoal: 15

Em jeito de remate, acrescento a esta dupla o Companhia das Lezírias Branco de 2008 (3.70€) que revelou arcaboiço para se tornar numa boa RQP. Parte do lote passa por cascos de carvalho.

Post Scriptum: Achei curioso a existência de um Espumante de Verdelho (7.50€).