sábado, Novembro 28, 2009

Collares Viúva Gomes

Arrisco-me a dizer que gastei, quase, 10€ por causa de um rótulo. Era e é agradável à vista. Deita ares ao passado. Talvez anos 20 (do século XX). As cores são garridas e deslocadas da modernidade. Depois adorei ver escarrapachado Genuíno Branco. É forte. Estão visíveis, ainda, as condecorações. Transborda, por todos os cantos, a nostalgia. Dá ideia que alguém anda, ainda, a conjugar o pretérito.


O vinho branco era completamente anacrónico. Destoava com o tempo corrente. Os sabores e cheiros pareciam ter feito uma longa viagem, vindos de lugares remotos, de outras épocas. Seco, salgado, oxidado e uma singular, ou deslocada, percepção a madeira encerada. De resto, nada de exuberâncias. Parco em sensações, quase frugal. Caramba, que coisa estranha.
Será que estamos perante mais vinho que define um momento, uma cultura? Étnico?

Post Scriptum: O contra-rótulo refere que pertence à colheita de 2006 e foi engarrafado em 2007.

terça-feira, Novembro 24, 2009

Quando se conhece a face!

O busílis que fez levantar os dedos para martelar nas teclas andava, há muito, a latejar na cabeça. Volta, na volta, ele insurgia-se de forma impetuosa (e, cada vez, com maior assiduidade). Tenho definitivamente a necessidade de exorcizá-la, expurgá-la de uma vez por todas. Partilhá-la publicamente.
Não querendo rodear o assunto, durante mais tempo, sinto ao longo dos anos (primeiro nos 5às8, depois no COV e agora no Pingas no Copo) que o factor pessoal (meu e de outros) está afincadamente agarrado à critica que faço (perdoem-me o abuso). É angustiante falar de vinhos, quando conhecemos a face de quem os faz. A dificuldade aumenta, de forma exponencial, quando ouvimos os desejos, as ambições de quem projectou determinado vinho.


Retorçou-me
imenso quando pedem uma prosaica opinião. Assoma-se uma enorme incapacidade para dizer o que sinto. Nem um simples e natural não aprecio consegue saltar da boca. Termino quase sempre com a conhecida expressão: É interessante. Do outro lado deslumbra-se um vincar do sobrolho. Fatalmente penso: Terei sido o único?
Depois, e por causa desse conhecimento, começo a evitar comentários públicos sobre determinados vinhos. O elo estabelecido com os donos deles é, em muitos casos, grande e profundo. Por impossibilidade ou incompetência, sou assaltado pela incapacidade de traçar uma linha que seja.
Reconheço que é, decididamente, mais fácil, bem menos penoso, escrever sobre qualquer coisa quando existe distância e desconhecimento. Não se ouvem palavras e não existem caras. Sendo mais frio e mais desapaixonado, é com muita certeza mais confortável.

quarta-feira, Novembro 18, 2009

Altas Quintas: Uma Enorme Obsessão!

Por entre os inúmeros projectos que o enólogo Paulo Laureano é responsável, directa ou indirectamente, apenas ligo aos mesmos: Herdade do Portocarro e Altas Quintas. Sempre que traço uma linha sobre vinhos vindos daqueles lados, digo-vos que existe perturbação e talvez, quem sabe, imparcialidade. Há, da minha parte, muita devoção. São efectivamente dois casos que marcam pela diferença, pela capacidade que demonstram em fugir à normalidade.
As palavras que vou largar serão exíguas. A ideia é mesmo deixar vincado aqui o prazer que tive com mais dois vinhos daquele lado, mais a norte, do Alentejo. As montanhas, no norte ou no sul, fazem milagres.


O Altas Quintas Branco Colheita de 2008 (com verdelho e arinto) é um vinho fino, com elegância. Vê-se que foi vestido com delicadeza. Não é, assumidamente, coisa bruta. A barrica está lá, apenas, para enriquecer, para adornar. Suave, bem comportado. Revela secura e frescura. A acidez marca, e bem, presença. Nota Pessoal: 16,5
O Obsessão Colheita 2004 (Alicante Bouschet e Trincadeira) está cheio de vigor. Está empachado de cheiros e sabores vegetais. A fruta, bem madura, nem abre pio. Comporta-se com decência e com decoro. Existem outros intervenientes (lembro-me da especiaria) que desempenham papéis com relevância. A madeira está lá, mas não marca, não chateia nariz e boca.
Um tinto que merece todas as atenções. Depois da minha ladainha, o que impressiona é o tempo de espera. Entre a data da colheita e a data da comercialização são 5 anos. Caso raro? Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

quinta-feira, Novembro 12, 2009

Dona Berta (Douro) Rabigato Vinhas Velhas 2008


Tal homem, tal vinho. Sem favores e sem meios termos. A terra dá, a terra tira. O resto é para desfrutar. Tudo é vivido com intensidade, com paixão, com loucura. Como percebo esse olhar.
Os vinhos nascidos na Quinta do Carrenho revelam, e bem, a dureza, a genuinidade da natureza. Olhei para eles, sempre, de forma muito singular.


Antes de continuar, assumo, desde já, que gosto dos vinhos de Hernani Verdelho. Os brancos integram, e sem qualquer tipo de concessões, o lote dos meus favoritos. Feito o esclarecimento adequado, irei inventar sobre o que achar conveniente. Apetece-me, simplesmente, falar.

Austero, forte, vegetal em toda a largura. Pedregoso, rochoso. Um branco corpulento, com arestas por limar. Monobloco. Pediu, incessantemente, um copo amplo, largo. Ele precisava disso.
Estranhamente verde e maduro. A maçã e a pêra misturavam-se com a laranja, com a toranja, com a lima, o limão. Em simbiose. Cheiros sem artefactos, e sem arranjos desnecessários.

Na boca a acidez preenche o palato. O carácter seco e mineral imponha-se com força. Quase que gritava lá dentro. Sério, grave, meio rude. Que raio de vinho! Nota Pessoal: 17

Para alguns estará em construção. Para mim está no ponto.

quarta-feira, Novembro 11, 2009

O Pingus GOSTOU mais destes! (Os eleitos de 2009)

Mais uma pequena selecção de vinhos (2009) que partilho com vocês. É, como sempre, uma mera lista constituída por vinhos que obtiveram classificação superior a 17. A publicação do menu serve, apenas, para memória futura do blog. Qualquer tentativa de extrapolação está, ou estará, fatalmente tolhida de sentido.
Quantos aos critérios, tal como nas selecções de 2006, 2007 e 2008 mantêm-se os mesmos (quase nenhuns).

Não são tidos, nem achados, mais uma vez, outros que eventualmente bebi e que vocês beberam. Não teria, qualquer, sentido mencionar vinhos que não foram falados (e classificados) no Pingas no Copo. Em alguns casos, se voltasse a beber, a minha opinião poderia ser, eventualmente, outra. Reflectem, meramente, os mais variados momentos de loucura e desvairo. Tal como nos outros anos, cada vinho tem um link para o respectivo texto.

Minho/Alvarinho

Soalheiro Alvarinho 2007 (Nota Pessoal: 17)

Douro/Porto

Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 (Nota Pessoal: 17,5)
Quinta da Leda Touriga Nacional 1997 (Nota Pessoal: 17)
Quinta da Leda Colheita 2000 (Nota Pessoal: 17)
Quinta Vale Meão Colheita 2000 (Nota Pessoal: 17)
Gouvyas Vinhas Velhas 2005 (Nota Pessoal: 17,5)
Poeira Colheita 2001 (Nota Pessoal: 18)
Segundo DADO (Nota Pessoal: 17)
Krohn Colheita 1968 (Nota Pessoal: 17)
Niepoort Secundum Vintage 2001 (Nota Pessoal: 17,5)
Niepoort Vintage 2007 (Nota Pessoal: 18)

Dão

Segundo DADO (Nota Pessoal: 17)
Quinta do Cerrado Touriga Nacional 2001 (Nota Pessoal: 17)
Vinha Othon Reserva 2006 (Nota Pessoal: 17,5)

Ribatejo

Tributo Colheita 2004 (Nota Pessoal: 17)

Madeira

Blandy's Madeira Bual 1977 (Nota Pessoal: 18)
Sercial FEM Muito Velho (Nota Pessoal: 17,5)

Estrangeiros

Peter Lehmann Stonewell Barossa Shiraz 1995 (Nota Pessoal: 17,5)

sexta-feira, Novembro 06, 2009

Reminiscência - Topázio (Douro) Reserva branco 2007

Falar de determinados vinhos pode ser funesto para quem quer ser aceite ou respeitado no meio. O conceito é simples: mostrar, sempre, mais um troféu para meter pirraça ao outro. Vejam o que bebo (e tu não bebes). O assunto é recorrente e, por diversas vezes, tracei várias linhas, no Pingas no Copo, sobre o tema.
Desgraçadamente não existe tolerância para recordar coisas do passado. E quem se atreve afirmar publicamente que anda, ou andou, a perder tempo com isso, corre, eventualmente, um risco desnecessário. O resultado poderá ser a chacota e o menosprezo.
O vinho, em causa, foi comprado com (muita) desconfiança. O rótulo mudou, mas manteve alguns tiques nostálgicos: Vinho Branco Seco. Reminiscências do passado. Já agora, vão longe os tempos em que as Caves Velhas eram presença incessante nos meus copos. O Juta chegou a merecer honras de estado.

Este vinho branco conseguiu deitar para fora um leque de sensações que, assumidamente, não estava à espera. A surpresa acercou-se do copo.
Os cheiros saíram de forma ligeira e sem excessos. Fiquei pasmado. Sensações a polpa de fruta. O vegetal marcou, felizmente, presença assídua. Assomou-se, ainda, um singular aroma que fez pensar no pêssego, naquela casca que arrepia a gengiva. Feno fresco. Tudo aprazível e ameno.
Na boca ele transmitia uma percepção a fruto secos e a citrinos. Airoso e bem comportado.

Com meia dúzia de retoques, com um pouco mais tempero, tínhamos coisa (ainda) mais séria. Nota Pessoal: 15

Depois de tanto palavreado, resta dizer que custou menos de 5€.