sexta-feira, dezembro 31, 2010

Abrunhal, o Espumante Tinto da Serra!

P'ra fechar o ano, pra deixar este ano de 2010, p'ra começar o novel ano de 2011, brindo com vocês com um espumante tinto do Dão, da sub-região da Serra da Estrela. Diria que é, de grosso modo, um produto regional, focalizado para o consumo das gentes locais. Um espumante com comportamento rural, de aparência campestre, próprio para ser bebido no campo, com comida de tacho e panela. Comida grossa, sem requintes urbanos e pós-modernistas que malfadamente proliferam na urbe maior. Ao fim ao cabo, são prazeres que procuro incessantemente, com o intuito de interpretar as raízes.

O vinho, em causa, fora desta envolvência, estou defronte à lareira com as montanhas nas costas, perde carácter, personalidade. Fica descontextualizado. É para ser bebido aqui e não noutro lugar. Será, assim, melhor interpretado, melhor compreendido. Um puro exemplo de etnicismo enófilo.

Post Scriptum: Este produtor foi, em tempos, sócio da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazem e alguns anos atrás tomou a opção de seguir um caminho autónomo, com a ajuda do enólogo bairradino Rui Moura Alves

terça-feira, dezembro 28, 2010

Des-Construção, Re-Alinhamento

Ultrapassados meses após as últimas alterações, efectuadas no Pingas no Copo, surge novamente no meu horizonte vontade de proceder a novos alinhamentos. São sinais, espero, de amadurecimento, de crescimento. É, também, o fim da inocência, é a chegada da idade adulta.
Por cada dia que passa, por cada mês que avança, as dúvidas evoluem, crescem, aumentam alucinadamente. Não consigo ter, agora, certezas de quase nada.
Reflecti, nos últimos dias, sobre o papel da blogosfera e a importância que este prosaico espaço desempenha na eno-rede. Contas feitas e encerrados inúmeros dossiers, chego à saudável conclusão que tudo se resume a uma questão de ego e egocentrismo. E ambos são inversamente proporcionais à dimensão do Pingas no Copo
Basicamente o Pingas no Copo tem sido uma montra de vaidade pessoal, de estimulação enófila, usado para alimentar a soberba voraz de um homem que se senta por detrás da tela.
Irei, entretanto, abandonar as classificações. A sua importância, neste momento, é nula, reduzida. O seu valor, para mim, é desprezível. Tentarei, assim, reforçar o jogo de palavras, das simbologias usadas, das comparações, do meu gosto pessoal. Pretendo, ainda mais, intensificar a vertente individual, tentando escapar à enganosa sensação profissionalizante que caiu sobre este lado da barricada.
É necessário amadurecer e ponderar sobre o que andamos a fazer neste mundo digital, cheio de malhas sociais. O que interessa saber se um vinho vale X, X+0,5 ou X+1? Defende-se, recitando, que as classificações servem como bússola íntima. Porque não ficam, então, na intimidade?
A confusão é gigante, dada a quantidade de notas e classificações circundadas pelas mesmas vedações. É muita gente a jogar de igual maneira, usando estratégias equivalentes, a lançar a bola para o mesmo lado. O centro do terreno enófilo está, portanto, muito lotado. Há que procurar novas porções de terra desocupadas.
Espero, durante o próximo ano, continuar a viver esta paixão de forma mais livre, dizendo o que penso, o que acho e o que desejo neste fortim! Quero fazê-lo de forma ligeira, com menos fantasmas, mas inflamada, tentando ainda cortar com velhas teorias da conspiração.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Quinta das Marias (Dão) Rosé 2009, porque não um Rosado de Inverno?

Não será certamente prática usual ou tradicional pegarmos em vinhos rosés em épocas chuvosas, com o frio a bater nas ventas e na porta ou, se em Portugal, a entrar por todas as frestas e fisgas que pontificam pelas nossas casas. O tempo exige algo com mais substância, com mais corpo, bem mais completo que um simples rosado.
Pois bem, um rosé estruturado, com grau elevado e bebido à temperatura ambiente, estamos no Inverno, ou levemente refrescado poderá tornar-se numa curiosa aventura enófila.

Um rosado bem carregado na cor, com a componente vegetal pujante, de trato meio rústico, levemente camponês pode propocionar alguns duetos eno-gastronómicos dignos de ficarem registados na memória. E já que estamos na época natalícia, porque não experimentar com bacalhau cozido? O carácter seco deste tipo de rosados irá entrelaçar-se bem com a gordura do bicho. Aventurem-se que existem rosés para além do Verão.

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

domingo, dezembro 19, 2010

J.P. Roxo

Vale pela curiosidade. É um licoroso. Tentei perceber a sua idade, mas não tive qualquer pista. Assim, resta-me solicitar à rede ajuda na tarefa. Pelos dados, fáceis de encontrar no rótulo, será, eventualmente, um Moscatel Roxo ainda do tempo da existência da J.P. Vinhos S.A. - Pinhal Novo.

Interessante, ainda, é observarmos que não refere a menção Moscatel de Setúbal, ficando-se apenas pelo atributo Vinho Licoroso. Razões?

quarta-feira, dezembro 15, 2010

RAYA

Vem da Beira Baixa, Cebolais de Cima, de uma região com fraca tradição vitivinícola, o que torna este pequeno projecto, fundado no ano de 2002, numa peleja desafiante, tal é a ordem de contrariedades, com a falta de reconhecimento da região, por parte do consumidor, a tomar a dianteira.
Escolheram-se as uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz que foram fincadas, seguindo os preceitos da agricultura biológica, numa única parcela de vinha (1,5 ha) assente em solos de encosta, xistosos e com exposição a Sul.

O vinho, com um nome a orientar-nos para regiões junto à fronteira portucalense-castelhana, mostra carácter franco, descomplicado e aprazível. É limpo e, se me permitem o abuso, cristalino. A fruta apresenta-se sem máscaras e sem artefactos. Oferece-nos, simplesmente a natureza. Madeira bem enfiada, sem sobreposições. É um vinho de vida, para a vida e para ser vivido. Tudo apresentado de forma tão simples e verdadeira.
Ao fim ao cabo são estes pequenos achados que vão animando, por momentos, esta enfadada enofilia. São o resultado da abnegação de uma mão cheia de ideólogos que vão criando vinhos em lugares mais ou menos obscuros, longe da vista de todos nós. Ainda bem que o sonho comanda a vida. Ainda bem!

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Simplesmente, deixaram esta vida!

Dois Portos.  Um Late Bottled Vintage e um Vintage. Ambos com respeitável idade. Se no primeiro o factor idade podia influenciar negativamente, no segundo não era provável, de todo, que fosse factor decisivo. Havia, justificadamente, esperanças.

Ficou a ideia, no entanto, que ambas as garrafas resguardavam vinhos que há muito tempo deixaram esta vida. Naturalmente o desapontamento foi maior no segundo, com as expectativas completamente defraldadas. Restavam apenas vagas lembranças do que podiam ter sido no passado. Simplesmente, estrelas caducas, dignas do cinema mudo.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Cossart Gordon Madeira Bual 1969

Estou rendido, absolutamente siderado. Por cada trago, a dependência aumenta de forma exponencial. Sem qualquer dúvida, da minha parte, diria que os vinhos da Madeira matam homens, passam por eles, de forma altiva e afirmativa. São um puro exemplo de engenharia enológica, de manhas, de técnicas, usos e costumes aparentemente descabidos.

Os vinhos, esses estranhos, sofrem tormentos, verdadeiras amarguras enquanto são delineados e pensados na adega. Nenhum outro vinho, dito de forma ligeira e simplória,  passará pelo mesmo sofrimento. Ficam, deste modo, preparados para a vida, para aguentar a inclemência do tempo. Surgem-nos, passados anos, como a pele esticada, brilhante, viçosa, sem qualquer ruga e sem qualquer sinal de decadência. Procurar cheiros e sabores é tarefa inútil e despropositada. Sem qualquer sentido. Resta-nos, apenas, assumir a nossa inveja mortal!

quinta-feira, dezembro 02, 2010

O Pingus gostou mais destes! (Os eleitos de 2010)

Mais uma pequena selecção de vinhos que partilho com vocês. É, como tem sido sempre, uma mera e vulgar lista constituída por vinhos que obtiveram classificação superior a 17. A publicação deste cardápio serve, apenas, para memória futura do blog e para, também, alimentar o meu insaciável Ego. Qualquer tentativa de extrapolação está, ou estará, fatalmente tolhida de sentido. Existem outros assuntos bem mais interessantes em que vale a pena perder alguns minutos. Não aqui! 
 
Quantos aos critérios, tal como nas selecções passadas mantêm-se os mesmos: quase nenhuns. Não são tidos, nem achados, mais uma vez, outros vinhos que eventualmente bebi ou que vocês beberam. Não teria, mais uma vez, qualquer sentido mencionar nomes que não foram falados e/ou não foram classificados no Pingas no Copo. A tendência em classificar vinhos tenderá, no futuro, a ser desvalorizada. 
Sobre os vinhos em causa, como costumo dizer, em alguns casos se os voltasse a beber a minha opinião poderia ser, eventualmente, outra. Reflectem, meramente, o momento. Nada mais. Tal como nos outros anos, cada vinho tem um link para o respectivo texto.

Douro
Redoma Reserva Branco 2005
Abandonado 2004
Quinta do Noval Labrador Syrah 2007
Dona Berta Vinha Centenária Reserva 2008
Dona Berta Vinhas Velhas Rabigato 2008

Dão

Alentejo

Estrangeiros

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Myrtus, o esquecido

Num acto de contrição pública, assumo que ando constantemente desalinhado do grupo e dos grupos. Maldito hábito, desde tenra idade, em preferir, talvez por questões de romantismo ou heroísmo sem sentido, o lado mais fraco, ou aqueles que andam esquecidos. Eventualmente, esta propensão terá uma interpretação bem mais prosaica, bem mais simples do quero fazer querer ao mundo.
Com os vinhos passa-se o mesmo. Escolho amiúde aqueles que não caiem no goto dos restantes. Inaptidão? Alienação? Senso pessoal deslocado da realidade? Será tudo.

Myrtus será, com toda a probabilidade, mais um vinho que andará, incompreensívelmente, abandonado pelos cantos deste mundo. Os olhares estão, inexplicavelmente, virados para o Clássico. Sem o merecer. São dois vinhos com estilos díspares, é certo, antagónicos, com pouco em comum. O primeiro, o Myrtus, é vinho mais austero, menos exuberante, menos imediato. Fala menos, desafia mais. Um branco com maioridade, orientado para um consumo lento e nada frenético. O segundo, o Clássico, rege-se por outras cantilenas. Com lingotes de doce. Será da madeira exacerbada? Opulento, gordo. Incomodativo, por vezes.
Venha, portanto, o Myrtus que ficarei satisfeito e o mundo continuará a rodar como sempre. Em volta do Sol.

Post Scriptum: Vinhos disponibilizados pelo Produtor.

terça-feira, novembro 30, 2010

Malvasia de Colares, segundo Casca Wines

Será ou já o é, com toda a (in)certeza pessoal, um dos vinhos brancos mais desavindos, desusados que provei neste ano de 2010. Provém do Universo Casca Wines, um produtor jovem, com gente jovem, que faz vinho com uvas de quase todo o lado. Diria que são ariscos, mexidos e frenéticos.
A produção, deste Malvasia, apesar de exígua, quase holográfica, consegue proporcionar-nos alguns momentos de saudável convívio. Momentos em que o timbre da conversa passa ao lado da normalidade habitual. Não será certamente amado por todos. Creio, até, que terá mais gente a desapreciá-lo do que apreciá-lo. Mas para mim, e para os meus botões, é irrelevante. O meu estado de espírito enófilo alinha junto daqueles, provavelmente poucos, que encontram muitas qualidades neste Malvasia de Colares.

É um vinho que pede por copo amplo, é um branco que pede tempo, necessita de ambiente selecto, distante de frugalidades pós-modernas. Bem evoluído, com o álcool baixíssimo: são 11,5% de graduação alcoólica. ProvocatórioVeste rótulo simples, arrumadinho, limpo e arejado. Sem, e ainda bem, adornos desnecessários. Tem, no entanto, um senão: o preço a que é vendido. Os 30€ pedidos por este protótipo afastam inevitavelmente potenciais interessados. Infelizmente nada, ou quase nada, é perfeito nesta esfera terrestre.
O que interessa, para o caso, é constactar que temos aqui qualquer coisa que foge a todos os preceitos modernos, em que a barrica usada não é nova, e em que finura e equilíbrio definem bem o modo de ser deste Colares. 

Post Scriptum: Vinho disponibilizado pelo Produtor.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Desilusões

E quando pensamos que temos um vinho que, durante anos esteve a enriquecer na garrafa, a refinar, a evoluir com dignidade, esperando calmamente pelo fatídico momento em que irá ser extinto?
E quando reparamos que todo aquele trato, toda aquela espera resultou em nada, dando meramente originem a um líquido amorfo, sem cheiros, sem sabores, sem histórias para contar? 

A ira acerca-se de forma violenta e bruta. Ficamos irascíveis, possessos por ver que o vinho que estava dentro daquela garrafa não mereceu nenhum dos carinhos dados ao longo da sua vida. Estupidez a nossa.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Deboche Enófilo

Existem dias, horas, minutos de pura devassidão enófila. São momentos em que as badaladas provas cegas não deviam contar, nem interessar. Deviam ser afastadas para bem longe da vista. Deviamos beber os vinhos e comer os rótulos. Ambos sabem bem, demasiado bem. Quando assim é, a estroinice é imensamente grande, quase opressiva e irrecusável para andarmos alucinadamente à procura de quem é quem. Uma perca de tempo. Quem consegue virar a cara, simulando que não quer beber às claras? Corremos o risco, no fim, de divagarmos, inutilmente, sobre a razão do estado de saude dos vinhos.

Existem, de facto, vinhos que não devem ser bebidos às escuras. Perde-se metade, se não totalidade do prazer. São ícones. Tapar-lhes a cara é o mesmo que compará-los a algo de trivial, ausente de culto e desejo carnal. Somos homens, caçadores de troféus. Gostamos de mostrar ao povo os despojos de uma longa lide. No fim, e apesar do cansaço ser imensamente grande, sobra uma enorme satisfação. Provas cegas, sim claro, mas com a dose certa e com sentido.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Caves de São João (Beiras) Reserva 2007, a confirmação do Renascimento?

Nota-se algum tempo a vontade e o querer de voltar a nascer, de regressar ao mundo dos vivos. Percebe-se, pelo que vamos lendo nos escaparates ou pelos comentários de quem os visita, que as Caves de São João mostram desejo em tornar a serem faladas pelo povo. Perceberam, as Caves, que viver  dos lucros e glórias do passado acabaria por acentuar o esquecimento e a sua decadência. Nada volta a ser como era.

Num relance observo que estão, também, a mudar os rótulos. Não perderam o classicismo. São sóbrios, quicá, longe da urbanidade. Sem tiques de pós-modernismos sem sentido e sem lógica. Gostei francamente.
O vinho, uma combinação de Baga da Bairrada com Touriga Nacional do Dão, tenta recriar no presente, perspectivando o futuro, quiçá, os Reservas que tanto enófilo recorda com nostalgia.

É um tinto fresco, cheio de  humidade, com fartas sugestões de terra molhada, com muito mato. Com cheiros de flores, com a fruta suculenta coberta por um pouco de fumo. Um toque de pedra dá-lhe rusticidade. Tosta muito suave, baunilha discreta. Depois é curtir e não pensar nos imbróglios da vida mudanda.
Paladar seco, certo e sincero. Nada de esmagamentos ou impressionismos. Feito para acompanhar, estar ao nosso lado, sem protagonismos. Que saudades disto.
Enófilos de outras eras, se andais cansados da moda, juntai-vos em redor deste tinto. É, efectivamente, um clássico renascido. Nota Pessoal: 16,5

domingo, novembro 21, 2010

Quanto custa um vinho?

Eventualmente este post servirá para pouco, no entanto seria útil que alguém passasse por aqui, mesmo de relance, e partilhasse o seu ponto de vista, lançasse hipóteses, esclarecesse, se conseguir, a plebe.
Num acto normalíssímo de consultar, pela manhã, a correspondência electrónica, deparo-me com o preço, alto, de um vinho, que apesar de reconhecer-lhe elevada qualidade, pareceu-me algo despropositado.
Perante tal confrontação sou assaltado por uma enxurrada de dúvidas e nenhumas respostas. Faltam-me dados palpáveis, que permitissem concretizar e limpar, de uma vez por todas, algumas das crenças falaciosas que vão ganhando raízes no meu paradigma enófilo.

Como se constrói o preço de um vinho? Que é preciso para que determinado vinho custe X, Y ou Z? Seguindo uma abordagem perfeitamente ligeira, e sem qualquer sustento argumentativo, diria que um produtor, um distribuidor, uma loja terão que pensar em meia dúzia de factores, como a história do vinho, o número de colheitas, o rótulo, a garrafa, a rolha, o estágio, ... , os outros competidores, internos ou externos. Um sem número de variáveis que não consigo quantificar. Quanto custa, por exemplo, uma vinha? Quanto custa a manutenção dessa mesma vinha? A mão de obra? As ideias quanto custam? O Ego quanto custa? O nome da região demarcada entra neste jogo? Será por isso que o Douro e o Alentejo sofrem cronicamente do síndrome do preço alto? Será por isto que em outras regiões, menos badaladas, comecem a expelirem, timidamente é certo, vinhos a preços elevados?

Não quero crer que propor, simplesmente, um vinho a valor elevado seja uma estratégia importante para conseguir crédito, fama, respeito perante os seus pares e sucesso comercial. É, mesmo, necessário para um produtor ou outro sujeito qualquer ter no seu portefólio um produto caro? Não quero crer que exista gente a viver, ainda, segundo aquela lógica arcaica: eu tenho o melhor vinho do mundo.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Vinhos do Dão

Será, de certeza, o post mais promocional alguma vez escarrapachado neste Blog. Na verdade, o caminho feito pelo Pingas no Copo, resume-se à promoção de vinhos bem ou mal amados.
São seis vinhos do Dão. São seis vinhos do Dão que custam ao consumidor menos de catorze euros. São vinhos que andam longe das tribunas, caminham afastados das escolhas mais imediatas e que, apesar desse distanciamento, revelam ser capazes de proporcionar prazer, a baixo custo, oferecendo alguma diferenciação, algum carácter, alguma identidade.

Quinta de Nespereira Vineaticu 2007, Quinta do Escudial VV 2006, Quinta da Ponde Pedrinha VV 2007

Pedra Cancela Touriga Nacional 2008, Vinha de Reis Wine Note Touriga Nacional 2008
São outro olhar, outras maneiras de ver o vinho do Dão. Uns são vegetais, outros mais rústicos, outros mais clássicos, outros são simbióticos. Uns com madeira, outros sem. Ajudam-nos a compreender melhor o trabalho árduo que alguns jovens enólogos vão realizando, isoladamente, em algumas pequenas aldeias irredutíveis lusitanas, no meio de um vasto Império Romano acossado pela globalização. Foram provados, desculpem bebidos, e farão parte da minha garrafeira.

sábado, novembro 13, 2010

Coitado do Consumidor!

Consumidor, esse ser indiferenciado e influenciado pelos críticos, que pouco ou nada pensa e que, sistematicamente, é manipulado por esse bicharrão chamado Sistema. Escondem tudo ao consumidor, fazem-lhe trapaças. Enganam-no.
Coitado do consumidor que não pensa convenientemente. Malditos aqueles que insistem em não divulgar a verdade, em não revelar a realidade. Mas quem quer?
Preverso este mundo, empaturrado de homens de negro encarregues de, à mínima suspeita, impor o silêncio aos que corajosamente arriscam gritar contra os dogmas do Sistema.

O consumidor, esse papalvo, olha para os dois lados da barricada e pressagia que se trata de uma contenda, simplesmente, entre dois Sistemas. Nesse duelo, por vezes combinado, a regra é simples: Um quer fingir substituir o outro, mantendo o consumidor bem longe do poder. Pelo meio, terra de ninguém.
Revoluções? Há muito que o consumidor deixou de acreditar. Crê, antes, na individualidade.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Bétula Regional Duriense Colheita 2009

Segunda edição deste vinho branco regional duriense (Viognier & Sauvignon Blanc). Segunda tentativa para mostar o que vale. A primeira, a título muito pessoal, ficou aquém do desejado. Algo incerto, indeterminado. Depois, ainda, pareceu-me algo curto na frescura, na vivacidade.

Com a colheita de 2009 deu mostras, ou vontade, de quer fazer mais. O vinho, agora, tem mais tensão, mais força, está mais irrequieto. Revela mais frescura, com carácter vegetal mais vincado, felizmente mais seco, com a madeira mais entrosada. Em conclusão, bem mais conseguido. Dá vontade de dizer: continuem!

Nota de encerramento: Qual vantagem conceber vinhos com castas não portuguesas, numa região como o Douro? É simples a minha dúvida, sem nada escondido.

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Vinha de Reis (Dão)

Produtor discreto. Vinhos quase desconhecidos. Quando foram testados, pela primeira vez, revelaram carácter, força e intenção de fazer qualquer coisa de interessante. Depois, e assim interessa para mim, são do Dão. À minima oportunidade, e sempre que posso, são caçadas as garrafas do Dão que, eventualmente, possam despertar alguma curiosidade.

Reservas de 2006 e 2008. Nota-se o fio condutor. Tintos com tensão, nervo, com força. Com lagar, com pedra, com ardósia, químicos. Azeitona preta, café em grão, tosta, chocolate. Cedros. Frescos, suculentos, mastigáveis e secos. Bem trabalhados.
Reflectem uma abordagem simbiótica entre o tradicional e o moderno. Eventualmente indefinidos, a vaguearem na orla de dois mundos distintos, quiçá de propósito. Talvez percam, um pouco, por causa desta incerteza.
Antes de fechar a edição, por hoje, falta mencionar outro factor relevante: custam menos de 10 euros. Notas Pessoais: 16

segunda-feira, novembro 08, 2010

As Colunas, um mundo cheio de vinho

Diria que é um espaço talhado para um enófilo compulsivo ao meu género. Mesmo que não seja para comer, o local merece uma visita. As paredes estão repletas de vinhos, alguns deles desconhecidos, antigos e esquecidos, e destilados. Todos os recantos, cantos e sítios, mais ou menos escusos, estão cheios de garrafas. A vontade de pegar em qualquer uma delas é perigosamente enorme.


Não bastando os expositores estarem abarrotados, e para atiçar ainda mais a inveja do visitante, surgem pilhas de caixas com os vinhos mais desejados do momento. Caramba, uma autêntica loja de brinquedos. Maldita magreza de carteira.

domingo, novembro 07, 2010

Francisco Machado Albuquerque Bual 64

Irei usar palavras comuns, eventualmente carregadas de futilidade, incapazes de definir na plenitude mais um distinto vinho da Madeira. O vinho, esse, não permitiu ao vulgar humano, que sou, qualquer veleidade. A sua opulência, o seu perfume, o seu espírito encarregaram-se de colocar nuas, e à vista de todos, as debelidades deste homem. Faço figura triste quando pedem, a este plebeu, que articule qualquer coisa que possa caracterizar este tipo de artefactos.

Erro, enorme erro! Cousas destas não são feitas para serem desmontadas, para serem decifradas por gente rude e grossa. Seria idiotice, pura, colocar-me no púlpito e largar para a audiência um chorrilho de adjectivos vagos e sem nexo. Serviriam, apenas, para ridicularizar, ainda mais, o orador e desprestigiar os homens que fizeram o líquido. Nota Pessoal: 18,5

sexta-feira, novembro 05, 2010

Terras de São Miguel, um Dão recôndito!

Adoro vasculhar nos meandros mais ocultos, ignorados, da enofília. É puro prazer, pessoal, enfiar-me no meio de lugares estranhos, longe de tudo e de todos, perseguindo os mais estranhos e desusados vinhos. Pura mania. Verdadeiramente o meu enfoque anda longe, por diversos motivos, dos notáveis, daqueles que ficam bem em festas, em revistas. Aproveitando a deixa, já notaram que os nossos eno-folhetos comportam-se, por vezes, como publicações cor de rosa, apresentando as casas, as vidas, os desejos, as virtudes e defeitos de gente famosa? A diferença cifra-se, acho, no copo que está na mão, na vinha que aparece lá atrás, na pose mais ou menos combinada. As meninas, essas, vão surgindo nas páginas da PUB.

Posto isto e só para constar aqui no meu pasquim fica a apresentação de mais um vinho do Dão, um Dão recôndito, estranho, completamente desconhecido. Nascido em Fornos de Algodres. Trato felizmente ligeiro, limpo e acídulo, talhado para a bucha vespertina. É coisa, ao fim ao cabo, que não entra nos cânones estabelecidos. Nota Pessoal: 14

segunda-feira, novembro 01, 2010

O Outono no Dão

Acabado de retornar. Foi, infelizmente, uma curta passagem pelo Dão. Fui ver mortos e vivos. O pouco tempo disponível para o vinho cifrou-se num périplo em redor de Gouveia e Seia. Nada foi provado, pouco foi bebido. Mais para a frente, se apetecer, falarei alguma coisa sobre isto. E sobre o assunto, direi que esta região, com o cair da crise em cima do povo, tem ou terá enomes potencialidades, podendo oferecer ao consumidor vinhos de carácter a preços bastante decentes. Arrisquem agora!

Para relembrar, mais tarde, fui fixando na máquina o Outono nas vinhas do Dão. Paisagens pitorescas.

domingo, outubro 24, 2010

Revista de Vinhos fez um Lifting!

Peguei à pouco tempo na nova Revista de Vinhos. Agora vem com outra imagem. Vestiram-lhe novas peças de roupa, calçaram-lhe novos sapatos, mudaram-lhe o penteado e, em alguns pontos do corpo, esticaram-lhe a pele. A idade não perdoa.

Sou franco, gostava mais da coerência que antigamente demonstrava. Era mais sóbria, era mais madura. Agora dá a ideia que é uma velha senhora, que apesar de respeitável, vestiu uma amálgama de peças de vestuário que, aparentemente, não parecem combinar muito bem entre elas.
Não gosto de ver os rótulos encavalitados uns em cima dos outros, na secção das Novidades. Depois, e demasiado irritante, é por cada página de texto produzido pela revista, existe uma página com anúncios. Torna-se cansativo, o esforço é maior, ter que dobrar sempre mais uma página para continuar a ler. A necessidade de guito faz estas coisas. Bem sei!

No passado fui acusado, e muito bem, de usar em excesso fontes nos meus textos. Parece que a Revista de Vinhos que não se cansa de bradar aos céus o seu profissionalismo e que, em tempos, um dos seus maiores responsáveis chegou a bater nos WineBloggers Portugueses por causa da inoperância que demonstravam, acabou por cair em exageros gráficos cometidos por alguns de nós. Não conseguiu aprender com os comentários que iam surgindo do outro lado do mundo. Sim, o mundo não acaba lá na RV.
Agora colocaram em papel os best sellers das diversas participações do Fórum da RV. Não percebi a ideia, desculpem-me, e não vejo qual é a vantagem. Parece-me haver sobreposições de funções. Ou se é digital ou se é papel.

Criaram uma nova rubrica, um espaço como queiram, em que dão hipótese ao leitor anónimo de ser, por breves momentos, um Crítico. Para confundir, ainda mais, esta nova secção está colada ao Correio do Leitor, ficando a ideia que nem eles, os da RV, sabem muito bem o que pretendem com este novo espaço, porque já no Correio de Leitor apareciam textos em o enfoque eram experiências de enófilos. Ao escreverem para lá, pensem muito bem o papel que querem interpretar: se o de leitor ou de crítico.

Luis Lopes, no seu novo Edito, diz que a RV não é uma revista de fotografia, pode não ser, mas arrisca-se a ser, simplesmente, uma revista de publicidade.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Quinta da Murta Touriga Nacional 2005, um mundo Obscuro!

Ou provar, primeiro com enorme desconfiança, e depois ao beber, com larga satisfação, fiquei com a leve impressão que estava a trilhar caminhos estranhos, demasiado obscuros e afastados da urbanidade. 
O rótulo, só por si, assustava. Sabendo que a aparência não é tudo, podia ter havido maior cuidado na forma como vestiram a garrafa. Eles, o vinho e a garrafa, não mereciam. Mas, voltemos à narrativa.
O processo que levou à interpretação deste vinho parecia tratar-se de uma extraordinária jornada num mundo que, julgo, não existe: Sem imaginação! 

À medida que avançava na tarefa, as comoções vividas mais pareciam ser um conjunto desorganizado de alucinações, de momentos deslocados, sem nexo e sem termo de comparação. Nada fazia sentido. Nem eu e nem o vinho. A busca de uma lógica, para tudo aquilo, acabou por revelar-se infrutífera. Apesar do medo rodar por perto, a solução era seguir em frente, sem olhar para trás, sem olhar para os lados.
Findo todo aquele rolo de venturas e desventuras, ultrapassados obstáculos complicados, passadas todas ilusões e sugestões vividas, fica simplesmente a sensação de ter vivido, por momentos, uma mão cheia de lances anormais, singulares e, porque não, estupendos. Que raio de coisa!

Post Scriptum: Vinho disponibilizado pelo Produtor.

sábado, outubro 16, 2010

Herdade do Portocarro, a terra de Anima!

Esta crónica vai estar coberta de sentimentos tendenciosos, assumidamente pessoais e que pretende, acima de tudo, mostrar o meu contentamento por ter cumprido mais uma tarefa enófila de extrema importância.

Recordo, ainda, com alegria desmesurada a primeira vez que provei o Anima. Lembro que a diferença de estilo, de comportamento, distanciava-o de outros vinhos. Não tinha nada haver, não tinha comparação. Aquilo era algo completamente estranho e de difícil interpretação. Cheiros e sabores estavam, já na altura, deslocados da prática. Tinha, portanto, que ir até à terra onde nascia este singular vinho, feito com uma casta -  sangiovese - que salvo lapsos de memória, não pontificava em Portugal.

O lugar, Herdade do Portocarro, está perdido algures na fronteira entre o distrito de Setúbal e Évora, paredes meias com a Ribeira do Sado, ladeada por um dos lados pelo verde dos arrozais. A vista é reconfortante, o vento, esse, mesmo num dia de calor não cessa.

Feita a recepção pelo ideólogo da Herdade, José Mota Capitão, fui convidado a fazer uma viagem intimista por aquelas terras. As vinhas serpenteavam os arbustos, as árvores, acompanhando a delimitação da cerca. Em cada paragem, roubava-se um bago. Por cada dentada dada, havia sempre uma explicação, um pormenor que merecia ser contado: ou era a doçura, ou era a graínha, ou era a película. Pelo meio, olhava-se para as parras, comparavam-se as semelhanças ou a falta delas, outras vezes pegava-se na terra mirando as diferenças. Noutros momentos, bastava-me ouvir o vento, sentir os cheiros daquele lugar escondido. No regresso foi feita a habitual, mas não desprezível, visita à adega. Simples, de espaço modesto, prática, com o necessário.

A epopeia terminou com um copo, com um valente trago do novo Anima da colheita de 2007, a olhar para a pacholice do gado.

À medida que a distância aumentava, reconheci a coragem de um homem que pouco se importa se os seus vinhos são Terras do Sado ou outra coisa qualquer, não ligando ao facto de um dos seus vinhos, mais emblemáticos, pertença à categoria menos valorativa, sendo um simples vinho de mesa.