terça-feira, Janeiro 25, 2011

90 Pontos Robert Parker

Sou daqueles tipos que pouco, ou nada, sabe sobre o homem, segundo dizem, que mais influência o mercado dos vinhos a nível planetário. Nunca tomei devida atenção ao que ele diz, ao que ele escreve e ao que escolhe. É, simplesmente, um sujeito desconhecido que habita do outro lado do mundo. Como consumidor não influencia as minhas escolhas. Nunca comprei um vinho, baseado no que Mr. Parker setencia. Na verdade, e na maior parte das vezes, não conheço e não sei quais são os vinhos que ele prova e aprova. Para ser franco, e tirando a minha, dou pouco valor a listas, venham elas de onde vierem. Será mais fácil seguir o juízo do vizinho do lado.

Mas como individuo inconsequente, abastado de falhas e incongruências, não resisti ao chamariz que um vinho ostentava. No gargalo da garrafa denunciava orgulhosamente, ao comum dos mortais, 90 pontos Robert Parker. Mas o exostimo da coisa, não era a classificação em si, mas o lugar onde estava. Um supermercado destinado ao povo, às massas que procuram adquirir, a baixo preço, produtos essenciais. O facto, em si, não deixa de ser interessante, porque um consumidor típico destes sítios (LIDL) não comprará, decerto, um vinho baseado na classificação dada por um qualquer estranho, que vive sabe-se lá onde. Estou a imaginar a potencial cena entre a Dona Lurdinhas e o seu esposo a olharem, fazendo contas, para as prateleiras: Ó Quim, tens aqui um vinho com 90 pontos do Robert Parker!! O esposo, deligente, pega nele, destinado a ser companhia para a vianda no seu dia-a-dia...

O vinho, esse, era espanhol e da Ribera Del Duero que revelou ser, apenas, um vinho correcto, bem feito, com frescura e agradável no trato. Basicamente um vinho que saberá bem em qualquer lado do mundo, em qualquer mesa, em qualquer casa.

9 comentários:

João de Carvalho disse...

É isso mesmo que um vinho de 90 pontos é...Basicamente um vinho que saberá bem em qualquer lado do mundo, em qualquer mesa, em qualquer casa.

Pingus Vinicus disse...

Ando, então, muito longe de perceber esse conceito. É um vinho "nim", nem "sim nem sopas". 90 pontos são 16 valores, certo?

j... disse...

certo ou errado, conforme convertas. segundo a lenda, a verdade absoluta nas conversões entre escalas subjectivas habita na biblioteca daquela escola onde se graduam os críticos de vinhos.

mas.. o que me levou a comentar não foi isso. é que, rm, pessoas não são caricaturas :)

Pingus Vinicus disse...

Claro que não. Mas às vezes comportamo-nos com tal :)

PS-É que eu sou saudavelmente um nabo nessa coisa de conversão de escalas em vinhos, logo eu que ensino números aos putos. Que mau professor de Matemática. ;)

AJS disse...

O vinho, como dizes, é fresco e agradavel, quer isto dizer que não é grande espingarda. Penso que se fosse classificado pela Revista dos Vinhos não iria além dos 15. Mas este pode ser um "caso de estudo". Será que não estamos a analisar o vinho em comparação com os tintos portugeses do douro, que têm outra estrutura? São mais concentrados? Taninos muito mais presentes?Se formos analisar a maioria dos vinhos de outras origens eles efectivamente são mais parecidos com este, principalmente os do Novo Mundo, seja lá o que isso é. Aqui está uma questão interessante para ser discutida.

Pingus Vinicus disse...

Boa malha AJS. Efectivamente, o vinho não é grande espingarda e não merece mais de 15, efectivamente. E devia ser um caso de estudo, tendo em conta, também, o local onde estava a ser vendido. Qual a vantagem em estar à venda num supermercado como o LIDL um vinho que ostenta os 90 pontos. Não creio que tenha sido mero acaso.
As questões que levantas sobre estilos são, e muito, questões que deviam ser discutidas.

AJS disse...

Os estilos são algo que me tem feito reflectir ultimamente. Quando bebo um vinho francês de grande nome, um "mito" fico a pensar que não percebo nada de vinhos. Ou então que muita gente "entendida" bebe mais pelo rotulo do que por gosto. Li há alguns dias o livro sobre a prova cega entre os vinhos franceses e os americanos. Está ali uma situação que ninguem poderia sequer imaginar, mas que aconteceu. O vinho deve antes de mais ser agradavel para se ter gosto em beber. Mas também deve ter alguma complexidade para dar gozo. De outra maneira é preferivel beber cerveja. Aquilo que ultimamente me interessa mais no vinho é a elegância, que é mais dificil de satisfazer, de dar gozo, do que aquelas entradas de leão que muitas das vezes dão em saidas de sendeiro. No meu caso ainda tenho o "meu gosto" aferido pelo impacto inicial da brutalidade da fruta e dos taninos. Mas quando deixo o vinho a repousar agrada-me muito mais aquele que parecia não dar nada e depois afinal....

Pingus Vinicus disse...

Não tenhas dúvida que o gozo deve ser a nossa matriz, é por aqui que nos devemos guiar, como consumidores (gosto de reforçar este aspecto para não haver equívocos).

Para ser franco, não estou preocupado quando vejo que aquilo que gosto não é que os outros gostam. Azar meu ou felicidade minha.

António, não é só contigo que se passa essa tal sensação de que não percebo nada de vinhos, porque não percebo mesmo, quando confrontado com alguns mitos. Deve ser do mau feitio, mas há muito que dobrei essa angústia. Viro as costas e sigo em frente.

Também eu já li algumas coisas sobre a tal prova cega que houve entre vinhos dos states e franceses. Parece que os tais franceses levaram uma sova boa.

Basicamente, um vinho tem que nos dar prazer, gozo, diversão, largar emoções.

Pedro Sousa P.T. disse...

Achei imensa piada à Dona Lurdinhas e ao Sr. Quim, nem mais nem menos do que o retrato de uma imensa fatia da nossa sociedade Portuguesa.
Se calhar a Dona Lurdinhas temperou o estufadinho do almoço com o vinho dr Mr. Parker, às escondidas do Sr. Quim. Este vai ficar chateado...;)

Abraço