domingo, Fevereiro 27, 2011

Enólogo vs Enólogo, um jogo bipolar?

Se calhar o assunto já foi repicado, na enolândia, mas ainda assim não vou coibir-me de retornar a falar dele.
Um produtor tem o seu enólogo, que é homem simples, jovem e dedicado, cheio de ideais, pouco burguês. O sonho é fazer um vinho diferente, com o tal carácter, que marque o povo. Começa, paulatinamente, a ter sucesso com o trabalho que desenvolve. Ganha.
Ao lado, outro produtor pede a esse mesmo enólogo que dê uma mãozinha, que ajude a relançar os seus vinhos. O enólogo aceita o desafio. É sinal de reconhecimento, a que ninguém fica imune. O tempo caminha, o enólogo começa a ampliar a sua influência por diversos locais e lugares, por mais recônditos que possam ser. Faz vinhos aqui, além, mais além, no outro lado, perto, longe.

O enólogo, outrora desconhecido, agora famoso, julga-se o melhor, quase divindade enológica. Conseguirá, ainda assim, avistar o que anda a fazer? Empenhar-se-á mais num lugar, com determinado produtor, que noutro sítio e com outro patrão? Não andará a jogar contra si mesmo, como se estivesse só, num jogo de xadrez, rodando o tabuleiro, à medida que vai mudando de jogador? Quer ganhar ou quer empatar? Estará a lutar contra si mesmo? Terá produtores preferidos? Terá terroirs amados? Ou, apenas, se resume, e bem, a ganhar dinheiro? Coisa mais estranha, quase doentia.

3 comentários:

Hugo Mendes disse...

Caro,
Como sempre, simples, directo, sem gorduras para mastigar! Parabéns!
Tenho a minha posição mais que publicada, picada e replicada, no entanto, não sou extremista e cada vez mais acho que é uma questão de equilíbrio e interpretação. Naturalmente haverá técnicos que conseguem fazer trabalho exímio em 10 produtores e outros que com 3 já patinam. Mesmo que ambos tenham igual capacidade técnica. No geral, na pele do produtor, apostaria numa exclusividade, enquanto enólogo, ambiciono como os outros, a rentabilização dos meus talentos.
É tudo uma questão de se saber avaliar e perceber os sinais de paragem! Penso eu!
Abraço!

Pingus Vinicus disse...

Hugo, a minha impressão ou dificuldade em compreender, situa-se no patamar do consumidor.
O texto em si é mais uma reflexão pessoal do que propriamente uma crítica.
De qualquer modo, terá o enólogo, no seu intimo, preferências por produtores e por regiões? Como gere internamente esses sentimentos?
"Fará os vinhos" com o mesmo empenho? Estará a competir contra si mesmo? Coisa esquisita...

Abraço

paulo disse...

Belissimo tema, assim como o blog.
Parabens desde já pela forma frontal como escreve (sem papas na lingua), faz falta escrever assim... Como enologo, de varios vinhos aqui provados, senti fundamentalmente a sua honestidade na sua prova. Mas acreditem que não sinto ter criado filhos e enteados, um enologo cria sempre um filho e não peçam para escolher de qual filho gosta mais.... É obvio que o sensato será sempre aproveitar o potencial unico de cada casta, de cada terroir, de cada produtor...Mas tirando sempre o maximo partido de cada vinho e nunca competindo entre eles...Cada vinho é um vinho. Mais uma vez parabens pelo seu trabalho.
Paulo Nunes