quarta-feira, Agosto 24, 2011

Quinta do Gonçalvinho

Dei continuidade ao circuito do Dão Serrano, aquele que habita paredes meias com o enorme muro montanhoso. Foram muitos os locais, os diversos pousos, por onde passei. Em todos eles, tentei interpretar despido de preconceitos as dificuldades de cada um dos produtores, dos enólogos e das diversas gentes que trabalhavam pelos diversos pedaços.

Puros cenários da vida portuguesa, com as angustias, as desilusões e os sonhos. Nada era virtual ou imaginário. O aperto marcava as expressões de todos. Depois de provas e muitas visitas, continuo acreditar que existe no Dão, em outras regiões também, vinho merecedor de ser conhecido, valorizado e vendido, seja ele mais clássico ou moderno.

Recoloquemos o discurso. Local: Paranhos da Beira, concelho de Seia. Passagem conhecida. Perderam-se as vezes, os milhares de quilómetros feitos, por mim, em redor daquelas bandas. A Quinta do Gonçalvinho é, no entanto, descoberta recente. O francês domina, ou o portugês com sotaque, e a simplicidade de Casimir e Cristelle preenchem as vistas amplas do sítio. Tal como em outras paragens, do Dão, a mata, delapidada pela chama, cerceia a vinha.

Caminhou-se junto às linhas, aos corrimões. Olhou-se para os cachos, experimentou-se a uva, verificou-se a madures. As vindimas estão perto e há que acautelar os acontecimentos.
Enquanto as palavras se trocavam, não muito longe, uma língua de fogo, perigosamente teimosa, era combatida. Cenário de guerra...

O calor, forte, apertava e os corpos alagados em suor pediam por algo que os refrescasse. Engoliram-se uns fortes tragos de Rosé da Colheita de 2010, resultado da união entre a Touriga Nacional e o Aragonês. Cumpre, bem, a função. Pareceu-me um vinho sadio, fresco, em que o carácter vegetal e a sobriedade pareciam marcar o compasso.

Virou-se o bico e surgiram pela frente os tintos, da colheita de 2010 e ainda em estado de amostra. Tinta Roriz, Blend, Touriga Nacional. Em todos eles, a limpeza é marcante, a suavidade e a acidez viva são parte integrante. As breves passagens pela barrica dão-lhes um feliz toque simbiótico, que os tornará apetecíveis tanto a progressistas, e neourbanos, como aos mais tradicionalistas.

Encerrou-se com um gole de ?. Não, não é engano, é mesmo ?.  Com boa tensão, com estrutura e arcaboiço para ser um vinho tinto de ambições maiores. As expectativas de produtor e enólogo são elevadas. Objectivo é fazer do ? o porta-estandarte da casa, o topo, o melhor. E são capazes de ter razão.

2 comentários:

Antonio Narciso disse...

Meu amigo, apos mais uma volta à vinha com muito calor, cá estamos novamente a molhar a garganta com o Rosé e a ler ao mesmo tempo este texto cheio de vida e arcaboiço, como os bons vinhos o Dão...
Agora vamos controlar o ..?.. nas barricas....

Pingus Vinicus disse...

Pelo Natal vou aí buscar uma garrafita de ..?.. para regar o bacalhau e o polvo.
Abraço