terça-feira, setembro 06, 2011

Um Vinho vs Outro Vinho

Quando se abre a boca para tagarelar, dentro dos domínios da minha família, sobre vinho, as posições dos diversos bebedores extremam-se  de tal ordem que fica invabilizada qualquer ponte de contacto entre os arguentes ou a formação de uma terceira via conciliadora. São sempre momentos de paixão exacerbada.
Uns, geralmente os mais velhos, defendem com unhas e garras, com o dedo em riste, que vinho feito por eles é verdadeiro, o único. É líquido, puro, sem manipulações, sem acrescento de qualquer aditivo e sem maroscas. O conceito, portanto, é simples: transformação do bago da uva em vinho.

O engaço, esse, é fundamental na feitura. Depois é lagar, cuba de cimento, pipo decandente e bem avinhado e finalmente armazenado em garrafões religiosamente guardados nas zonas mais frescas da adega. Os outros são cousas alteradas, amaciadas por estranhas artes alquimistas e abastadas de artificialidades. Fazem, por conseguinte, mal à saúde.
Os mais novos, esses, replicam que tais procedimentos estão amputados de qualidade. É o grau que falta, a madures que não existe, o lagar nada higienizado, a cuba que devia estar revestida com epoxy ou a pipa nova que não há. E que pelo menos seja em Bag in Box.
As pelejas duram, com os adversários, a dada altura, a terem nos copos apenas, e apenas, o vinho concebido segundo os pressupostos que cada um acredita.

Envolvido por gestos e gritos, reparo que algumas das teses apoiadas e praticadas pelos anciões, estão, de grosso modo, a serem incorporadas novamente pela enologia moderna. Procura-se retornar ao mais puro, ao mais simples, ao natural, ao minimalista. Não teremos fatalmente esquecido, consequências da febre cortesã que atacou a todos, ensinamentos e práticas que, apesar de prosaicas, batiam certo com os ciclos e necessidades dos homens?

3 comentários:

airdiogo disse...

Se em algumas matérias estamos, e bem, a voltar ao ensinamentos antigos é porque se provou que estavam certos. Só porque temos mais tecnologia não implica rejeitar tudo o que não o tem. Na minha opinião deve-se sempre usar o melhor, seja a escolha pela tecnologia ou não.

Mas há alguns campos em que não se pode mesmo voltar atrás. A higienização das adegas já se provou ser fundamental. Mais do que por riscos à saúde pública (as fermentações destroem os "bichos maus" todos) está em risco o vinho e a sua qualidade. Esse tem sido o segredo tecnológico por detrás do aumento de longevidade (mantendo a qualidade elevada) de muitos dos vinhos hoje em dia. Coisa que acontecia a apenas alguns vinhos de elite antigamente.

Tecnologia? Sim.

Tradição? Sim.

Se se pode ter o melhor do dois mundos porque não aproveitar?

Rui Lourenço Pereira disse...

Rui,

Tenho provado muito desse vinho dito "caseirinho" e digo-te: É uma verdadeira zurrapa para não dizer outra coisa.

As supostas adegas não têm um mínimo de higiene, muitos deles misturam uvas brancas com tintas, na maioria verdes.

Fazem vinho por motivos ancestrais, pois qualidade ....

A maior parte do que provei é tipo "morangueiro" com acidez brutal e taninos horríveis.

Se quiseres posso arranjar-te bidões disso à pazada pois nem para a cozinha o uso.

Pingus Vinicus disse...

Rui Lourenço Pereira, o meu post, não ia tão longe, nem eu estava a advogar ou defender esses etnicismos que referes e como deves perceber algumas das minhas palavras são levadas ao extremo. Obrigado, portanto, pela oferta.

O que te posso dizer, olhando para a minha família e para o que ela faz, o vinho feito por ela cumpre com as regras básicas da feitura do vinho. Mas então, porque não gosto?

Depois, e queria ir mais além, porque existe o retorno a tantas práticas ancestrais e o aproximar da tecnologia aos procedimentos mais prosaicos do passado?