sábado, Janeiro 29, 2011

José Maria da Fonseca

O tema vinho não se resume só, e ainda bem, à prova. Para além da análise, falível e perigosamente repetitiva, de aromas e sabores, pra lá do copo, existe uma realidade, em alguns momentos, muito mais interessante, que apela à intimidade e à reflexão. A insanidade da prova torna-nos menos atentos ao que gira em redor. A mente focaliza-se, apenas, no que irá/está a cair no copo. O resto não interessa, não tem qualquer relevância. A enófilia fica amputada, reduzida a um teste cheio de léxico preliminarmente programado, tal comida pré-feita.

São diversas as Casas de Vinho em Portugal (JMF é uma delas) que possuem relevante património edificado. Indo de Norte a Sul, conseguiríamos apontar, no mapa, uma mão cheia de pontos enófilos em que, para lá do vinho, podemos interpretar, compreender, perceber melhor a magnificência de cada um desses lugares. E tudo isso, sem agarrar numa única taça. Acredito que para os puristas dos ensaios sensoriais, vistorias deste estilo, estejam ausentes de qualquer interesse. Basicamente sem valor. É que o enfoque é outro. É mirar os arredores, é fixar pormenores. Depois de que vale, por vezes, falar daquilo que todos falam!?

sexta-feira, Janeiro 28, 2011

Longe da Novidade: Frei João (Bairrada) Branco Reserva 2009

Vou ser provocador, irei ser, com alguma certeza, achicalhador: Larguem, por momento, as novidades, a loucura, o desvairo e a sofreguidão pela moda, pela notícia. A procura incessante, em alguns casos, é inimiga da ponderação e tolda, quase sempre, a mente. Parem um pouco e tentem regressar ao passado. Se não tiverem paciência, esqueçam a missiva e sigam para outros lados.

O branco é sério. O vinho é altivo, quase arrogante, por vezes bastante duro. Pouco imediato. Pede atenção e não se compadece com abordagens infecundas. Vai-se percebendo e mesmo assim deixa dúvidas. A fruta, para os interessados, é verde e ácida. O vegetal é impositivo. A secura é grande. A mineralidade, esse dito que é usado leviamente, marca o vinho, torna-o mais terreno, mais genuíno. Por meio e entremeio, e sem grandes concessões, saiem umas pinceladas de tosta. É, literalmente, um achado.
Volto, mais uma vez, a repisar: Enófilos de outras eras, de outras vidas, juntai-vos, agora, em redor deste vinho branco. Ele merece.

Post Scriptum: Faz-me espécie, no entanto, é a rolha. Borracha? Plástico?

quinta-feira, Janeiro 27, 2011

A parcialidade levada ao extremo!

Este post, como tantos outros que vou largando sem qualquer destino na atmosfera, estará, com toda a certeza, carregado de subjectividade, coberto de total parcialidade, alambazado de sensações pessoais. Direi, sem receio e despojado de todo e qualquer tique pseudo-crítico, que gosto de soltar para a arena, um chorrilho de emoções, muito próprias da minha personalidade, sem qualquer fundamentação, sem qualquer nexo, sem qualquer preocupação. Peito rasgado.

Passados 11 anos é aberta a última garrafa. Num acto de desespero, em que o vício é levado ao extremo, verto para o copo torrentes de vinho completamente desgovernadas. Eu, sujeito passivo, deleito-me ao vê-las cairem na goela.
Que fino vinho! Que saboroso vinho! Sem evidências, sem adornos, despido de modernidades, de urbanismos mal programados. Tão inocente, tão generoso, tão suave, tão dócil, tão eloquente, tão macio, tão perfumado. Um jogo de emoções que quase não acaba.
Apraz-me dizer, arrebatado, que andamos infelizmente distraídos com outras coisas.

terça-feira, Janeiro 25, 2011

90 Pontos Robert Parker

Sou daqueles tipos que pouco, ou nada, sabe sobre o homem, segundo dizem, que mais influência o mercado dos vinhos a nível planetário. Nunca tomei devida atenção ao que ele diz, ao que ele escreve e ao que escolhe. É, simplesmente, um sujeito desconhecido que habita do outro lado do mundo. Como consumidor não influencia as minhas escolhas. Nunca comprei um vinho, baseado no que Mr. Parker setencia. Na verdade, e na maior parte das vezes, não conheço e não sei quais são os vinhos que ele prova e aprova. Para ser franco, e tirando a minha, dou pouco valor a listas, venham elas de onde vierem. Será mais fácil seguir o juízo do vizinho do lado.

Mas como individuo inconsequente, abastado de falhas e incongruências, não resisti ao chamariz que um vinho ostentava. No gargalo da garrafa denunciava orgulhosamente, ao comum dos mortais, 90 pontos Robert Parker. Mas o exostimo da coisa, não era a classificação em si, mas o lugar onde estava. Um supermercado destinado ao povo, às massas que procuram adquirir, a baixo preço, produtos essenciais. O facto, em si, não deixa de ser interessante, porque um consumidor típico destes sítios (LIDL) não comprará, decerto, um vinho baseado na classificação dada por um qualquer estranho, que vive sabe-se lá onde. Estou a imaginar a potencial cena entre a Dona Lurdinhas e o seu esposo a olharem, fazendo contas, para as prateleiras: Ó Quim, tens aqui um vinho com 90 pontos do Robert Parker!! O esposo, deligente, pega nele, destinado a ser companhia para a vianda no seu dia-a-dia...

O vinho, esse, era espanhol e da Ribera Del Duero que revelou ser, apenas, um vinho correcto, bem feito, com frescura e agradável no trato. Basicamente um vinho que saberá bem em qualquer lado do mundo, em qualquer mesa, em qualquer casa.

sexta-feira, Janeiro 21, 2011

O Vinho da Menina

A paixão pelo vinho, e o mundo que o rodeia, desperta nos homens os mais variados e díspares afectos. Cada um de nós tem uma história para contar, por causa do vinho. Por causa de uma mera garrafa recorda-se um momento, um qualquer laivo de vida passada. Outras vezes guarda-se uma botelha daquele ano muito especial que servirá para, mais tarde, oferendar. São fartos os motivos e as razões. Muitas delas, sem qualquer justificação plausível, objectiva ou racional. São sentimentos que vagueiam pelo íntimo de cada sujeito.

Num país como o nosso, em que o vinho desempenha importante função, eram muitas as famílias que engarrafavam o seu vinho, guardando-o, à medida que iam saindo do ventre os seus novos descendentes. Pelo Douro a prática seria, eventualmente, mais comum que no resto do país. Ainda recordo, naqueles serões entediantes para um puto, acesas discussões sobre o assunto. Havia sempre alguém que se queixava de não ter tido a sorte de receber um espólio que contemplasse umas quantas garrafas empaturradas com o cobiçado líquido.

Para os zeladores, presentear com algo com este grau de proximidade afectiva, acredito que seja acto de elevado reconhecimento. Para quem recebe, terá que ter a extraordinária habilidade de o compreender e respeitar.
Depois, falar de um vinho coberto de pessoalidade é, na maioria dos casos, tarefa complexa, demasiado custosa. Aqui, para o caso, trata-se de um vinho com 80 anos. Um vinho, de família, que celebra o nascimento de uma menina. Um Porto de respeitável idade, digno da menina. Elegante, domado, nobre e requintado.

Um vinho que engrandece todas as meninas que são nossas mães, nossas filhas, nossas mulheres, nossas irmãs...!

quarta-feira, Janeiro 19, 2011

Exercício Enófilo, O Epílogo

Encerrando a proposta, o jogo, a brincadeira, como queiram, lanço para o tabuleiro os nomes dos vinhos e as pontuações que granjearam. As notas de prova foram retiradas da Revista de Vinhos, sendo sacadas de três painéis de prova feitos com vinhos de regiões diferentes: Dão, Douro e Alentejo. Podem confirmar e verificar se a coisa bate certo, consultando as edições dos meses de Março de 2010, Novembro de 2010 e Dezembro de 2010.

O Vinho 1 que tinha a nota de prova: "Chocolate, fruta vermelha e preta, especiarias, minerais, tosta doce. Firme na boca, com garra, corpo robusto, taninos rugosos, boa acidez e final de muito bom comprimento", era referente a Herdade das Servas (Alentejo) Reserva 2006 e teve a classificação de 16,5 valores. PVP recomendado: 18€
O Vinho 2  que tinha a nota de prova: "Muito elegante, sofisticado, com fruta preta, minerais, tosta, tudo muito integrado. tenso e estruturado na boca, com taninos firmes, corpo sedoso, muito fresco e sedutor, final muito longo." era referente a Passadouro (Douro) Reserva 2008 e teve a classificação de 18 valores. PVP recomendado: 40€
O Vinho 3 que tinha a nota de prova "Destaca-se neste vinho a qualidade geral da fruta que apresenta, a enorme proporção entre as várias componentes, uma grande delicadeza da prova de boca que equilibra potência e subtilezas múltiplas. Um vinho para ir descobrindo e saborear lentamente." era referente a Munda (Dão) Touriga Nacional 2007 e teve a classificação de 17,5 valores. PVP recomendado: 20€
O Vinho 4 que tinha a nota de prova "Fruta preta, madeira evidente mas sem excessos, chocolate minerais, complexo. Encorpado e texturado, com boa frescura, final longo e morno." era referente a Quinta de Vila Maior (Douro) 2007 e teve a classificação de 16,5 valores. PVP recomendado: 29€
O Vinho 5 que tinha a nota de prova "Concentração muito forte de cor, com notas químicas no aroma austero, de fruto preto, madeira integrada. Tudo maduro e cheio. Bom volume de boca, fruta franca, taninos vivos, um tinto muito impositivo que precisa de tempo em garrafa." era referente a Pedra Cancela (Dão) Reserva 2008 e teve a classificação de 16 valores. PVP recomendado: 11,90€

Largando opinião pessoal, existe em quase todos os textos enorme, quase desmedida, concordância de termos e expressões (fruta preta, madeira, tosta, taninos...) o que indicia triste afunilamento nos estilos, nos sabores e nas sensações. Indo de Norte a Sul, podemos sentir o mesmo. Basta seguir a regra que, com menor ou maior dificuldade, temos um vinho dentro dos preceitos pretendidos. Poderia ter pegado noutros exemplos que a conclusão, julgo eu, não seria muito diferente. Para quem consultou as prova realizadas com vinhos do Douro e Alentejo, pela RV, repararam, só por acaso, na constante repetição das mesmas palavras,  dos mesmos adjectivos, das mesmas coisas? Tapando os rótulos, facilmente poderíamos trocar textos que não se notaria a jogada.
Efectivamente nota-se, sendo demasiado visível, que com os escritos despidos da classificação numérica  a similaridade de noções e conceitos ficam ainda mais acentuados. Eu não saberia o que escolher!  
A palavra é menorizada em relação ao número, completamente relegada para segundo plano. Um tique transversal a todos os que falam de vinhos, estejam do lado de cá ou do lado de lá. Solta-se para o ar meia dúzia de conjugações e temos uma nota de prova.  Escrevem-se umas balelas e coloca-se a classificação.   Se assim é, porque se escreve? Faça-se simplesmente um enunciar de números, que será certamente muito menos confuso. Deixemos a Matemática a funcionar livremente.
Recitar, por aí, que o dito tem taninos espigados, tosta doce ou fruta mais ou menos madura, comprimento médio, resssoa, na melhor das hipóteses, a inocuidade. Na pior, a pura banalidade ou a tédio. Com alguém disse, por aqui, com textos destes tanto pode acompanhar com 15 como 18. 
Olhando para o que dizem as palavras, e tentado, não ligar a factores subjectivos, dado que sou um ser influenciável, foi a nota de prova do Munda que prendeu o meu olhar. Segundo os ditos do autor, temos um vinho muito equilibrado, que aposta essencialmente na elegância. Querem mais?

Discutamos, então, mais um pouco!

sábado, Janeiro 15, 2011

Quinta do Corujão e a arte da simplicidade!

Como sabem, julgo eu, pretendo ou desejo, por entre os vinhos que vou bebendo, a singeleza, a empatia, a concordância entre mim e a bebida que vai surgindo defronte. Tenho apreço por estes vinhos, deste género, que foram idealizados, à priori, para simplesmente serem bebidos, relaxadamente e de forma desinibida. Torna-se, cada vez, mais custoso, mais árduo, conseguir que esta conjugação de factores, tão puros e de tão fácil interpretação, aconteça mais amiúde. Tal desiderato é, em muitos casos, considerado excêntrico e, na maior parte das vezes, despropositado. Quem pensa assim, é julgado com menoridade e desprimor.

Há que, por isso e por causa disso, registar um desses momentos, em que a ligeireza de conteúdo, a pureza quase descabida surge no horizonte de um homem. Vinho e comida, sem rococós, estão despidos de adornos exacerbados. A etnicidade, a identidade de um povo, é levada ao expoente máximo.
O vinho, de uma pequena casa que segue a escolástica mais clássica, infelizmente quase extinta, do Dão, relembrou-me que ainda existe povo nesta terra que trabalha segundo critérios aparentemente distantes das práticas mais modernistas. Depois, facto engraçado, é desejado e expedido para terras do Norte da Europa, onde segundo consta são cobiçadas coisas leves, frescas e sem excessos de maturações. Curioso, não?

Post Scriptum: Continuem a participar no Exercício. O vinho foi oferecido pelo Produtor.

terça-feira, Janeiro 11, 2011

Um pequeno exercício enófilo!

Proponho-vos um pequeno exercício de brincadeira que poderá ser também, se assim entender a comunidade, um curioso momento de reflexão (sobre a relação entre o que se escreve e a classificação que se atribui - relação biunívoca?).
Queria que olhassem para as seguintes notas de prova que coloquei em baixo. Retirei-as de uma das revistas do ramo que vivem penduradas nos diversos escaparates. Nenhuma delas, das notas de prova, sofreu qualquer alteração ao seu conteúdo, que pode ser comprovado posteriormente. Simplesmente retirei classificações e naturalmente as fotos dos vinhos.


1) "Chocolate, fruta vermelha e preta, especiarias, minerais, tosta doce. Firme na boca, com garra, corpo robusto, taninos rugosos, boa acidez e final de muito bom comprimento."
2) "Muito elegante, sofisticado, com fruta preta, minerais, tosta, tudo muito integrado. Tenso e estruturado na boca, com taninos firmes, corpo sedoso, muito fresco e sedutor, final muito lomgo."
3) "Destaca-se neste vinho a qualidade geral da fruta que apresenta, a enorme proporção entre as várias componentes, uma grande delicadeza da prova de boca que equilibra potência e subtilezas múltiplas. Um vinho para ir descobrindo e saborear lentamente."
4) "Fruta preta, madeira evidente mas sem excessos, chocolate minerais, complexo. Encorpado e texturado, com boa frescura, final longo e morno."
5) "Concentração muito forte de cor, com notas químicas no aroma austero, de fruto preto, madeira integrada. Tudo maduro e cheio. Bom volume de boca, fruta franca, taninos vivos, um tinto muito impositivo que precisa de tempo em garrafa."

Agora pergunto (façam um esforço para não irem à procura das citações), de forma solta e desorganizada:
Após lerem os textos ficam esclarecidos? Ou a esmola da classificação faz falta? Comprariam os vinhos, partindo de uma nota de prova despida de valores numéricos? Que classificação atribuíam a cada um deles? Quanto pagariam por cada um deles? Os textos conseguem demonstrar, sem margem para dúvidas, diferenças entre os diversos vinhos? Temos textos com conteúdo explícito ou nem por isso?  De que região ou regiões serão? Qual preferiam? 

sábado, Janeiro 08, 2011

Substituir o Paradigma

Dei comigo, como sabem, a questionar-me, nos últimos meses, sobre o papel que desempenho na blogosfera enófila. Sou assolado, mais uma vez, por diversas questões que deviam ser discutidas, sem qualquer pudor, por todos os eno-bloggers. A bem ou mal devíamos falar delas, descascarmo-nos, em público, até à infima partícula. Seria, na minha opinião, um sinal de maturidade, de crescimento, de reflexão extrema. Seria o ponto de partida para um desenvolvimento mais sério, mais estruturado e, quiçá, seríamos mais respeitados por outros intervenientes no meio. No final, as ilações podiam e deviam ser aproveitadas pelos vários projectos bloguistas que proliferam na rede nacional. Até agora nada, ou pouco, foi feito neste sentido. Vagueia no ar, uma sensação de medo, de vergonha em exibir as debilidades pessoais. 

Depois para defendermo-nos, atacamos os outros com pólvora seca e fugimos para dentro da toca. Fechamo-nos nos nossos territórios, enclausuramo-nos nas nossas crenças e achamos, todos, que somos ou seremos, um dia, um crítico a sério.  A nossa actividade bloguista, até ao momento, cifou-se no débito de notas de provas e classificações, muitas delas inócuas, muitas delas repetitivas, muitas delas sem valor acrescentado. Como tornear esta dependência? 
Alguma vez pensámos nas palavras que escrevemos? Alguma vez parámos para reflectir no que dizemos? Usamos, continuamente e sem controle, inúmeros termos que, no fundo, não sabemos o seu significado. O quer dizer, por exemplo, um vinho complexo? Ou elegante? Diz-se bem, ou mal, de um vinho seguindo que critérios? Não creio que estejam, esses critérios, fundamentados pelo conhecimento técnico, pela imparcialidade ou pela independência!
Vamos, se houver vontade e talento, substituir o paradigma ou iremos ficar satisfeitos com a vida que levamos

terça-feira, Janeiro 04, 2011

Quinta do Escudial (Dão) Vinhas Velhas 2007

Vinho, segundo consta, sem estágio em madeira. A ideia é reflectir a pureza da fruta e elevar a um patamar relevante o local de origem. Olhando para a zona, saltam à vista as imagens da fruta, da pedra, da terra, do vento, da neve, da caruma, do arbusto, da flor rasteira, da carqueja. Sem dúvida, um curioso leque de potenciais sensações olfactivas e gustativas, livres de cosméticos. Resta-nos, somente, meter a laborar as capacidades intrínsecas de cada enófilo e perceber, ou ver, se a ideia primaz foi cumprida ou não!

Franco no trato, descomplicado, sem maçar, sem atordoar-nos com sensações sobrecarregadas, cheias de adornos desnecessários. Alegre, fresco, nada pesado, saudavelmente livre e curiosamente perfumado. Olhando para a colheita anterior, dá ideia que sofreu afinações. Pareceu-me, grosso modo, bem conseguido, cumprindo os desideratos, e talhado para jogar com a comida.

domingo, Janeiro 02, 2011

Raro Dão

Raro é um nome de um vinho, mas poderá ser, no futuro, das palavras mais usadas durante o agoirento ano de 2011. Dinheiro Raro, Ideias Raras, Comportamentos Raros, Sonhos Raros. Logo Raro adequa-se, e bem, ao projecto de vida de um jovem casal que habita lá para o Dão. Estou a lembrar-me de outro, em Mouraz. Seriam, quem sabe, interessantes casos de estudo num mundo globalizante e comilão de diferenças. São jovens que caminham afastados da ribalta enófila, conhecidos apenas em cerceados núcleos de apreciadores, que a partir da terra vão dando existência a uma mão cheia de produtos minimalistas. Acreditam nas suas ideias. Coisa Rara.

Este ano, e durante a guerra que caiu sobre as margens do Mondego, bastas vinhas foram consumidas, apagadas, com enorme ferocidade, por uma orda cobarde de chamas sem face. Em pleno Agosto, o Aljão foi sendo devastado sem dó nem piedade. Parcelas enormes de videiras despareceram literalmente da vista. Ficaram, apenas, memórias.

Raro foi ver, passadas as hostilidades, a expressão saída da cara dos jovens. Revelava vontade de dobrar o tormento, limpando da lembrança aqueles dias negros. Para acalmar a raiva, nada mais que pegar num copo abastado com o melhor vinho da Casa deles.

Um Raro, da colheita de 2004. Um tinto da terra, um vinho que tenta exprimir a força de um povo, as convicções de quem tenta fazer bem, de forma desigual, independente e com recursos diminutos. Ainda há guerreiros lá para cima.

Post Scriptum: Vinho disponibilizado pelo Produtor.