sábado, julho 30, 2011

Simplesmente, um desabafo

A falta de dinheiro na carteira, como sabem, irá provocar ajustes, grandes, no consumo de vinho. Inevitavelmente teremos, já estou a gastar menos, muito menos. O problema, lá está, é que habituados a vinhos de determinado calibre, irá custar beber coisas que não estavamos, já, acostumados.
Nos últimos dias, nos últimos meses, muito raramente tenho despendido mais que cinco euros por uma garrafa de vinho, quando em tempos idos, facilmente, subia ao patamar dos quinze, vinte, trinta euros (e às vezes mais). Agora, e sempre que levo, debaixo do braço, uma garrafa para parelhar com a comida aqui de casa, vejo-me confrontado com a incapacidade de continuar para além dos dois copitos (não por causa da saúde, nem para felicidade da comunidade familiar), mas porque os ditos sabem literalmente ao mesmo.

Estão bem feitos, como diz o Pingamor aqui, mas incapazes de apresentar alguma caraterística especial. Brancos, tintos e rosés, mostram ser, apenas, exemplos do bom domínio da técnica enológica que existe. O corpo, esse âmago de sensações, fica literalmente cansado.  E não creio que seja problema só nosso, perdoem-me os arautos que enchem o peito ao pregar as virtudes do que vêm lá de fora é que é bom!
Em resultado do estado da cousa, pressinto um virar de agulha para a cerveja. Consequências da  conjuntura?

Posfácio: A história é velha, os que podem continuarão a poder, os outros nem por isso.

quarta-feira, julho 27, 2011

Quinta das Marias, brancos de 2009

Segundo parece, e pelo número de incêndios a lavrar, o tempo de canícula instalou-se definitivamente no continente. Esquecendo mais um fado nacional, a destruição da floresta, há a necessidade de molhar as goelas, refrescar a alma e o corpo, esquecendo o desejo de ver a luz a percorrer o túnel.
Sei que não são novidades, no momento, sei que não traçarei cousa nova, mas e passados valentes meses abriram-se os Encruzados, da colheita de 2009, da Quinta das Marias, nas versões sem barrica e com barrica.

Sou um adepto confesso da variante sem barrica, é mais irriquieta, de qualquer modo e independentemente de gostos e opções, esta parelha surge adulta, com nervo e tensa. Vinhos que atravessam, nesta fase, um bom período de crescimento, eventualmente beneficiando do estágio que tiveram na garrafa. Despoletaram um chorrilho de cheiros e sabores cativantes e cativadores. Basicamente para beber, com calma ou não, para desfrutar com sofreguidão ou não, simplesmente para curtir sem preocupações de descritores mais ou menos disparatados. Resumindo, bebam-se que eles merecem!

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

quinta-feira, julho 21, 2011

Casa da Passarela Vinhas Velhas 2008

Estou com enormes saudades. Está difícil controlar as emoções. Andei para trás e para a frente, num corrupio sem sentido, sem saber para onde ir. A ansiedade é grande, desesperante, quase dilacerante. Tenho saudades do Dão!

Abri uma botelha, botei no copo o vinho, e embrenhei-me em pensamentos, em sonhos, em mundos alternativos. Gota a gota foram caindo pelo corpo pedaços de memórias, de coisas que souberam bem. Lágrimas, alegria e saudosismo. Olhei para trás, desliguei a luz e cerrei os olhos.

segunda-feira, julho 18, 2011

Replicação vs Amplificação

No outro dia, e por causa das repentinas visitas provenientes do blog Garficopo, dei conta da incapacidade que temos em usar o trabalho, já feito, dos nossos companheiros em benefício de todos. Explico melhor. Por que carga de água, se repetem palavras sobre determinado vinho, principalmente para quem adora notas de prova, se alguém já fez o trabalho? Nada disso, multiplicam-se textos sobre o mesmo vinho, maçadores, que apenas diferem na assinatura. A minha palavra é mais importante que a tua. É que existe sempre um adjectivo diferente, uma virgula a mais, só para constar.

Na maior parte dos casos, bastaria um link, um toque aqui, um toque acolá, chegava e amplificava a rede, aumentava a discussão e trazia movimento às baiucas. São muito poucos os que agem desta maneira.
Adegga, é, sem dúvida, outro bom exemplo de plataforma que disponibiliza informação vinda de várias bandas. 
Recordo a facilidade que havia, no passado, em trocar informação. Ainda se desejavam, ou não, felicidades no tablóide de cada um. Agora ficamos entretidos com os nossos umbigos, que são grandes.

quinta-feira, julho 14, 2011

Graham's Vintage 2007

Não há tempo, nem dinheiro para esperar. Há que bebê-lo agora, e sem demoras. Desta vez, não contou a regra de que o vinho velho é sublime. É-o de facto, e acredito no que ouço, mas gosto, também, de um vintage bem novo e retinto, bruto e duro, com a pele bem esticada e servido fresco. É chorrilho de emoções. Um deboche total.  Puro desregro!

Este Graham's está punjente, está cheio. Merece também, e sem margem para dúvidas, vinte valores.
E pronto, foi devorado, num ápice, antes que o FMI o levasse também.

domingo, julho 10, 2011

Independent Winegrowers Association 2011

Mais um ano passou e mais uma vez aconteceu a, já tradicional, apresentação dos vinhos do grupo Independent Winegrowers Association no Ritz.
É, com toda a certeza pessoal, um dos momentos mais esperados. Com o desenrolar da vida, o encontro com este grupo de produtores, agora reduzido com a saída da Quinta de Covela, é, na verdade, um reencontro entre amigos, que se juntam temporada após temporada. A conversa é talhada por sentimentos de cumplicidade, sem rodeios, sem cuidado no que se diz e como se diz. São poucas as ocasiões em que consumidores e produtores baixam as defesas desta forma.

Os vinhos, objectos principais, continuam a reflectir os projectos de cada um dos produtores, sem desvios, e identificadores do que cada um quer e pretende. É bem!

Brancos de SanJoanne. Frescos e minerais, citrinos e austeros. Estão consistentes e nota-se que a máquina vai afinando de colheita para colheita. Destaque para o Superior. Um vinho branco sénior.

Os tintos da Quinta da Vegia reflectem o carácter mais borgonhês do Dão. Falar deles, para mim, não é fácil. Frescos, limpos, cheios de nuances que os vinhos desta região possuem. O Reserva da Colheita de 2007 deu indicações que irá, já é, ser um tinto nobre, cheio e complexo. Fica, ainda, o registo para o Rosé. Frutado, é certo, mas verdejante e viçoso.

Domingos Alves de Sousa, para além dos tintos que apresentou, o Quinta da Gaivosa está senhorial, o destaque vai para os brancos. Parecem-me que estão mais conseguidos, mais personalizados, chamam atenção. Evidentemente que o Reserva Pessoal, da Colheita de 2004, demarcou-se dos demais. Não é um vinho fácil, não será, não o é, do agrado de todos, mas é um raio de vinho. O Porto Branco, 10 anos, foi outro que não passou despercebido.

Luis Pato divulgou os seus espumantes, os Duet, em que a Baga combina com outra casta. Para todos os gostos e feitios. Uns de mais fácil acesso, outros nem tanto. A Bairrada bem vincada em toda a linha. Peguem neles assim que os virem. As diferenças são curiosas.

Quinta do Ameal, a escola do Loureiro. Vinhos brancos delicados, desenhados com muito cuidado, repletos de subtilezas. Como sempre, ficou-se admirado com a capacidade de envelhecimento que revelam. O Colheita de 2001 era um mundo de cheiros finos, de odores, de emoções indescritíveis. Para sonhar.

Na Quinta dos Roques é-se confrontado com a elevada qualidade que os vinhos de entrada, dos Roques e das Maias, possuíam. É, por vezes, uma tontaria, desligarmo-nos deste tipo de vinhos, não lhes dando a devida importância. Depois, os estandartes da casa: Encruzado e Touriga Nacional. O primeiro muito novo, ainda em construção. Tinha sido sacado da barrica há pouco tempo. O segundo continua na senda dos seus antecessores, não defraudando expectativas. De qualquer modo, foi o Garrafeira da Colheita de 2008 que mereceu a maior ovação. Sai para o ano.

Findo o périplo, aconchegou-se o corpo, que a alma estava já meio quente. Aqui estão os acepipes comidos. Não há necessidade, portanto, de repetir palavras. Termino, apenas, com uma salva de palmas, de agradecimento, para o IWA, com um copo de Quinta da Vegia Reserva 2005.

segunda-feira, julho 04, 2011

De outros tempos: Cartuxa 1988

Em tempo de ócio, que tudo e todos procuram o ligeiro, perder tempo com vinhos bancos de vetusta idade, pode parecer passatempo sem graça. Algo démodé. Puro sofrimento enófilo.
Deglutir vinhos com esta idade, em prova cega,  afastados do habitué, carregados de estímulos pouco imediatos, nada dados à velocidade em que se vive, por agora, pode sugerir próposito disparatado. O modo como se lê a peça tem que ser diferente, pausada, sem haver necessidade de qualquer comparação amputada de contexto. Há que, portanto, apreciar a obra, simplesmente pelo que ela foi, e ainda é.

Todo o aspirante a enófilo, que se preze, e que deseje secretamente subir ao reino dos eno-sabedores por forma a juntar-se ao eno-senado, os poucos lugares para cônsules e procônsules distutam-se arduamente, tem que forçosamente gastar algum do seu tempo na interpretação da nossa história.

Este Cartuxa é do tempo, da época, em que a nossa indústria de vinhos andava, ainda, meio atarantada. Agora, e passados mais ou menos 23 anos, temos um vinho, de cor cobreada, que larga passado na boca. Temos um vinho branco seco, frágil, é claro, mas abastado de muitas subtilezas.
Por certo, a prova deste vinho não será cousa que seja, agora, agradável a muitos, mas é, com toda a certeza, uma experiência que merece ser vivida.