quarta-feira, Agosto 31, 2011

Quinta dos Cozinheiros, Remake

Após a investida feita neste momento, retornei aos vinhos da Quinta dos Cozinheiros, na versão Poeirinho Colheita de 2003 e Lagar Colheita de 2004.
Numa época em que se grita desesperadamente, por todas as ruelas, por vinhos menos maduros e menos prontos, faz-me impressão, enorme, que não se procure vinhos destes, adultos, que nos levam a recordar passagens de vida que julgamos, tristemente, já esquecidas.

São vinhos pouco eclécticos, é certo, complicados por vezes, mas profundamente pessoais e sem concessões. Dão azo a que se conte estórias em redor deles. Bebê-los, faz-nos cerrar os olhos, lembrando gente que foi para outros lados. E entretanto chove lá fora...

segunda-feira, Agosto 29, 2011

Coisa difícil de resolver

Em conversa com certo companheiro de súcia, enólogo de profissão, debatia-se o que deseja, eventualmente, o consumidor, o que acha o produtor sobre as pretensões desse  consumidor, o que a viticultura e/ou a enologia tenta fazer para satisfazer essa malta toda. E as respostas não eram fáceis, pelo contrário, já que o emaranhado de variáveis era deveras enorme. 
Não se sabe quem são os consumidores, apenas se tem a leve ideia que, por agora, meia dúzia de almas quer vinhos com menos grau e bem mais elegantes (na verdade não fazendo a ideia do que isso quer dizer).  A tal meia dúzia, apesar de ocupar os canais de comunicação, não é suficiente para alimentar um mercado diferenciado. 

O produtor, seja ele qual for, quer vender, não é coisa criticável, pelo contrário, fosse eu um deles tentaria ter vinhos que atacassem o maior números de interessados. Algo contra? Ter contas para pagar, e não conseguir, é puro filme de terror. Com as facturas em dia, adega vazia e guito em carteira,  talvez houvesse possibilidade de criar um produto diferente, arisco, provocador para as tais alminhas. Alimentava-se, assim, o ego de muita gente.
A viticultura e/ou a enologia andam na corda bamba, para lá e para cá, a ver se conseguem satisfazer tudo e todos. Não é objectivo muito acessível.
E já que se gasta tanto dinheiro, advogo a ideia de contratar para defesa de Portugal a opinião que mais influencie o consumo de vinhos em todo o mundo. Bastava que fosse pago para dizer bem de tudo e de todos. Ora...

quarta-feira, Agosto 24, 2011

Quinta do Gonçalvinho

Dei continuidade ao circuito do Dão Serrano, aquele que habita paredes meias com o enorme muro montanhoso. Foram muitos os locais, os diversos pousos, por onde passei. Em todos eles, tentei interpretar despido de preconceitos as dificuldades de cada um dos produtores, dos enólogos e das diversas gentes que trabalhavam pelos diversos pedaços.

Puros cenários da vida portuguesa, com as angustias, as desilusões e os sonhos. Nada era virtual ou imaginário. O aperto marcava as expressões de todos. Depois de provas e muitas visitas, continuo acreditar que existe no Dão, em outras regiões também, vinho merecedor de ser conhecido, valorizado e vendido, seja ele mais clássico ou moderno.

Recoloquemos o discurso. Local: Paranhos da Beira, concelho de Seia. Passagem conhecida. Perderam-se as vezes, os milhares de quilómetros feitos, por mim, em redor daquelas bandas. A Quinta do Gonçalvinho é, no entanto, descoberta recente. O francês domina, ou o portugês com sotaque, e a simplicidade de Casimir e Cristelle preenchem as vistas amplas do sítio. Tal como em outras paragens, do Dão, a mata, delapidada pela chama, cerceia a vinha.

Caminhou-se junto às linhas, aos corrimões. Olhou-se para os cachos, experimentou-se a uva, verificou-se a madures. As vindimas estão perto e há que acautelar os acontecimentos.
Enquanto as palavras se trocavam, não muito longe, uma língua de fogo, perigosamente teimosa, era combatida. Cenário de guerra...

O calor, forte, apertava e os corpos alagados em suor pediam por algo que os refrescasse. Engoliram-se uns fortes tragos de Rosé da Colheita de 2010, resultado da união entre a Touriga Nacional e o Aragonês. Cumpre, bem, a função. Pareceu-me um vinho sadio, fresco, em que o carácter vegetal e a sobriedade pareciam marcar o compasso.

Virou-se o bico e surgiram pela frente os tintos, da colheita de 2010 e ainda em estado de amostra. Tinta Roriz, Blend, Touriga Nacional. Em todos eles, a limpeza é marcante, a suavidade e a acidez viva são parte integrante. As breves passagens pela barrica dão-lhes um feliz toque simbiótico, que os tornará apetecíveis tanto a progressistas, e neourbanos, como aos mais tradicionalistas.

Encerrou-se com um gole de ?. Não, não é engano, é mesmo ?.  Com boa tensão, com estrutura e arcaboiço para ser um vinho tinto de ambições maiores. As expectativas de produtor e enólogo são elevadas. Objectivo é fazer do ? o porta-estandarte da casa, o topo, o melhor. E são capazes de ter razão.

domingo, Agosto 21, 2011

A inocuidade de "Entre Baco e São Mateus"

Decididamente não percebi o que aconteceu na Feira de São Mateus, em Viseu, no passado dia 19 de Agosto, como continuo a não alcançar a política de promoção dos vinhos do Dão, talvez resultado de défice de análise pessoal.
Por cada ano que passa, sente-se maior desorientação, tempo perigosamente perdido, com resultados quase nulos e uma preocupante tendência para imitar vinhos feitos em outros lados. A descaracterização chegou e o preço a pagar, no futuro, vai ser elevado. É que serão sempre cópias e nunca originais.
Continuo, também, a não entender a proliferação de guerras civis, quase intestinas, entre os diversos actores e interessados. Estaremos a precisar, novamente, de um Viriato, alguém que consiga unir as diversas tribos, em prol de um ideal comum? Como no passado, o verdadeiro inimigo não morava fora, passeava-se e passeia-se por dentro das fronteiras da região. A história parece repetir-se.

Cada um dos players acha-se o maior no seu domínio, na sua quintarola. Existe uma incapacidade, deveras aflitiva, para partilhar ideias, para despir camisolas, tendências e pensar que o sucesso que cada um possa atingir, no momento imediato, não passa de mera ilusão.
O evento "Entre Baco e São Mateus" destinado a promover os vinhos do Dão, junto do consumidor anónimo, pareceu-me simplesmente um encontro entre amigos e amigos dos amigos. Num local distante de tudo, longe, para lá das redes, a denotar vergonha e timidez, estiveram uma boa bateria de produtores e enólogos que apresentavam o melhor que se faz pela zona. 

Quais foram, efectivamente, os ganhos do acontecimento? Não teria sido, quiçá, bem mais proveitoso que tal coisa decorresse no núcleo central da Feira, à vista de todos, perto do olhar do mais humilde cidadão? Ou foram, ainda, reminiscências comportamentais de uma burguesia beirã  que continua a demonstrar dificuldades em lidar com o povo?

sexta-feira, Agosto 19, 2011

Rosé 2010

Nada como um rosé, barato, para largar vagas refrescantes pelo corpo acima. A elevada secura, combinada com o marcado cariz vegetal, e a fruta doce manietada, fazem dele um bom companheiro. Se lhe juntarmos motivos campestres, sem refinamento, pouco dados a salamaleques, enriquecidos com um pedaço de pão, umas rodelas de chouriça, gradas, aparelhadas por umas azeitonas e temos o cenário montado. Resume-se, tudo, a um jogo de partilha de sensações inocentes e descomplicadas.

Este, Rosé da Colheita de 2010, pareceu-me indicado para a hercúlea função atribuída. Pedem por ele dois euros. Barato demais? Sem pedigree? Que seja, não fico chateado.

quarta-feira, Agosto 17, 2011

Quinta da Espinhosa, Remake

Como sabem, quem segue o Pingas no Copo desde que, no malfadado dia, foi inventado, raramente controlei o verbo e quase sempre, perdoem-me as vezes que não o fiz, denunciei o que penso e como penso, o que gosto e o que não gosto. Por estas e por outras, aprecio o estilo anglo-saxónico em que o jogo parece ser mais claro e fulgente. Aflige-me andar pela faixa cinzenta tão apreciada em PT, onde se encostam uns nos outros. O preço pago é alto.
Mantendo, até ver, o mesmo registo editorial, divulgo, mais uma vez, propostas que podem sugerir interesse a quem pretenda descobrir, perceber, aculturar-se. Basicamente para quem tem gosto em conhecer outras realidades, outros mundos do mundo do vinho. 

O que largo aqui provém da Quinta da Espinhosa, domínio localizado à vista da Serra da Estrela e incrustado em pleno território do concelho de Gouveia. Não é, no entanto, a primeira vez que falo aqui dos vinhos desta Quinta, parte integrante do meu imaginário pessoal.
São três tintos (Reserva 2007, Reserva 2009 e Selecção Premium 2009) e um branco (Colheita Seleccionada 2010) disponibilizados ao interessado a preços situados no intervalo [3€ - 6€], mais coisa menos coisa. Os seus ADN indiciam a terra e as influências que ela dita. Calmos, ligeiros, frescos, campestres  e saudavelmente descomplexados, coisa que é estranhamente, nos dias que correm, incompreendida. Eu, no entanto, simpatizo e aconselho.

quinta-feira, Agosto 11, 2011

Quinta dos Cozinheiros Maria Gomes 2009

Não vou alongar-me em considerações, venho apenas a terreiro, e no meio da arena da i-enofilia onde todos julgam ser Spartacus, dar alvíssaras a um vinho branco. Nada de mais, portanto!
Caramba, após tantos vinhos bebidos, não em prova cega, acabei de colher um que encheu as minhas medidas.
Limpo, crocante, seco, salgado, seixoso, com fruta verde e ácida. Temperado por ervas e flores secas. Um branco que não esmoreceu, que não quebrou, que conseguiu puxar pelo nariz e pela boca. Deu luta.

Franzi o sobrolho, apenas,  quando vi a treta da rolha. Pareceu-me deslocada e despropositada. Que coisa estranha, um aglomerado!? Num vinho, destes, a dar ideia de ser e poder evoluir bem? Costuma-se dizer: não bate a bota com a perdigota. Ainda assim é para comprar, desfrutar, curtir e beber, não em prova cega.
Para os interessados, o objecto em causa está acessível a menos de 10€.

segunda-feira, Agosto 08, 2011

O que virá depois?

Não há dúvida que somos, todos, bichos carregados de manias, com tiques mais ou menos nervosos. Com uma velocidade quase anómala, sem qualquer justificação plausível e sem fundamentação, deixamos de gostar do que gostávamos, para, agora, passarmos a gostar de coisas que não sabemos, muito bem, o que são e como são. Apenas gostamos. Muito ao estilo das crianças e ou de jovens em período de puberdade.
Em tempos idos, não muito, idolatravam-se os vinhos alentejanos. Eram o novo mundo dentro do velho mundo. Era a modernidade, o fim dos defeitos, o começo de uma nova época, o arranque da dinastia dos vinhos desenhados com preceito, sem falhas, redondos, sem aresta. 

Surge, entretanto, o Douro, com os seus vinhos de mesa opulentos, musculados, firmes e escuros. Agora sim, estávamos a par dos maiores do mundo. Não havia que ter medo, com o Mourinho nas adegas e o Cristiano Ronaldo engarrafado, podíamos jogar na liga dos grandes.

Pelo meio, nada de jeito. Dão, Bairrada, Verdes, Estremadura, Sado e restantes entretinham-se, por culpa própria, a lutar pelas sobras.
Pois bem, enfastiados, o povo conhecedor passou a falar de objectos diferentes. Cousas mais estranhas, segundo uns, cousas para intelectuais, segundo outros, esquecendo que algumas dessas cousas, salvo raras, muito raras excepções, comportam-se como puros alentejanos ou durienses.
Douro, Alentejo? Esqueçam isso, malta, que é cenário para imberbes. O que virá depois? Apostas?