segunda-feira, Novembro 05, 2012

Paulo Laureano, Bucelas e a Vidigueira

Dia escuro como o breu, sem qualquer luz lá no alto. Chovia a olhos vistos. O vento, sem sentido, cerceava-nos sem descanso. Foi dia pesado, complicado, quase apocalíptico, tal foram os imbróglios vividos.  Conseguiu-se, ainda assim, chegar ao poiso marcado.


Na mesa, gente já sentada ouvia com atenção as palavras do homem da ponta. Palavras pausadas, de ritmo cadenciado, quase melódicas, fazendo esquecer que lá fora a chuva caía copiosamente, sem dó nem piedade.


A sala, a meia luz, aquecia o corpo e enxugava a roupa. O vinho, esse, começou a cair no copo, em ritmo certo, na quantidade correcta. A alma, que vinha desnorteada, começava, por fim, a serenar. Tudo parecia mais Claro.



Espumante de Bucellas cremoso, com notas de barrica, bem envolto e cordial. Repetiu-se a dose, uma e uma vez mais. Em paz.


As palavras do homem da ponta, lá, continuavam a sair, de forma sentida, sem medos, assumindo mudanças, percebendo que não é vergonha dizer que no passado foi de uma maneira e que agora será de outra. Foi, variadas vezes, provocado e, variadas vezes, respondeu sem temor.


Vão, entretanto, caindo acepipes feitos pelo Vítor. Havia que combinar o vinho com a comida. Tudo, também, em ritmo certo e sem sobreposições. Estávamos ali, apenas, para curtir, para desfrutar. É que a noite, não se esqueçam, estava ruim.






Continuou-se em Bucelas, com um vinho branco, pois claro, que provocou sururu, tal delicadeza, tal frescura, tal harmonia. E falsamente frágil.


Encerrado o capítulo de Bucelas, era a vez de falarmos da Vidigueira, das suas características. Percebia-se pelas palavras embevecidas do tal homem, que é zona que ama, que conhece e, por conseguinte, explora até à exaustão. E mantendo o rumo da mudança, surge pela frente o Dolium Escolha branco, naturalmente feito, pois então, com Antão Vaz. E curiosamente, ou não, é-se confrontado com um vinho elegante, refinado, sem os aparentes, e quiçá, tradicionais exageros do passado. Bebe-se, ou melhor, bebeu-se sem fartar, em tempo algum.


E por que a noite, pelo menos esta, não era eterna, os copos foram finalmente servidos com umas valentes porções de Tinta Grossa. Casta, pelo que deu a entender, enche as medidas de quem o idealizou




Pareceu vinho, e também para não destoar, afastado das maluquices enológicas do novo mundo, mais simbiótico, mais proporcionado, mais genuíno, menos exagerado que outros. E como diz o Miguel, aqui, "tivéssemos nós mais vinho e mais tempo."


5 comentários:

sinnercitizen disse...

do Paulo Laureano já provei quase tudo, com a excepção desta nova aventura de Bucelas... aliás, o espumante escapou-me por horas numa visita á Vidigueira...

Pingus Vinicus disse...

O mais agradável para mim, é a aparente mudança de estilo dos vinhos de PL.

Anónimo disse...

o tinta grossa é uma gula... e tem um nariz... escravizante

rdmagic disse...

Não conhecia....e sou da zona. Em que sitio de bucelas? Tem a ver com o Chão do Prado??

Pingus Vinicus disse...

rdmagic, sim tem a ver :)