terça-feira, janeiro 31, 2012

Simbolismos

A sociedade esteve, desde tempos que a memória não alcança, carregada de simbolismos. Qualquer acto ou atitude surge-nos, ainda hoje, coberta de sínais mais ou menos abstractos. Alguns deles, na maior parte,  parecem-nos injustificáveis, descabidos. São, quase sempre, pertença do íntimo de cada homem, de cada organização. Somos incapazes de os largar. Precisamos deles.


O vinho, produto manipulado, não é alheio a este modo de estar, de viver e de sentir. Homens, por uma razão ou outra, compram-no para comemorar, para relembrar este ou aquele momento. Ou simplesmente para catalizar emoções e sensações. É motivo para juntar e celebrar.


Guardam-se religiosamente garrafas, de determinada colheita, até que um dia se possam abrir, desde que respeitados todos os requisitos.


Chegado o momento, tal acto liturgico, o vinho é servido aos gentios como se tratasse de algo raro e infinitamente precioso. A maçada acontece quando a assembleia não lhe reconhece o valor devido. É que trata-se simplesmente de um vinho. Nada mais.

domingo, janeiro 29, 2012

Rolhas que dão rolhas

E porque há mais vida para além do vinho, da vinha, do rótulo, da classificação e da descrição, achei e acho importante que se reflicta, também, sobre os detritos que a indústria provoca. O que fazer com as sobras? Que destino a dar, por exemplo, às rolhas que alegremente, e de forma vistosa, sacamos das diversas garrafas? Soltam-se do gargalo e atiram-se simplesmente para o saco dos restos.


Sem querer entrar em discussões do foro comercial, não é objectivo deste articulado, apraz-me divulgar uma acção que a cadeia Continente está a desenvolver junto das escolas. Rolhas que dão Rolhas. Esta iniciativa decorrerá durante cinco meses, de Outubro de 2011 a Março de 2012, e visa sensibilizar a comunidade escolar, seus familiares e amigos.

Como agente que desenvolve a sua actividade profissional com crianças e jovens, e enófilo inveterado, só tinha que assumir a responsabilidade de divulgar tal desiderato junto da comunidade i-enófila, w-enófila. Apesar de conhecimento tardio e ainda vamos a tempo de participar. Basta só acelerar :)

sábado, janeiro 28, 2012

Port Day ou Dia do Porto

O título, meio ambíguo, não é nenhuma ode ao clube mais representativo da cidade que se diz invicta. É, antes de mais, referência ao festival em honra do vinho do Porto que decorreu um pouco por todos os cantos. Cá e Lá.


The International Port Day ou PortDay é ideia de interpretação simples e descomplicada. Resume-se a promover de forma informal o dito. Bastava, por isso, provar ou beber, comer e conversar. E não parece que fosse preciso mais.


Para os interessados em pormenores, de cariz mais intimo, e desejosos de saber o que se absorveu, apraz dizer que o Quinta do Noval Colheita 1997, Warre's LBV 2001 prontamente tomaram dianteira, desaparecendo dos vasilhames num ápice.


Mas como sina é andar em sentido contrário em relação a outros, deixo, ainda assim, as últimas flexões para um estranho e inusitado vinho datado de 1879.


Incapaz de desenrolar qualquer articulado organoléptico ou  chorar dissimuladamente, como carpideira, as virtudes da idade de um vinho, ficam apenas registadas duas palavras: Vinho incomparável. Parece-me suficiente.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Vidigueira

Por razões várias, e injustificáveis, nunca acompanhei com olhos de ver o vinho alentejano. Soava a facilidade. E como cresci, e vivi, emparelhado sob dois postulados que pouco, ou nada, têm a ver com o Sul, era impedido que visse para além da fronteira. Não serei, no entanto, o único.


Relembrando o primeiro axioma, diria que vinho fino e benefício foram, quase sempre, o mote para discussões eternas.  O segundo centrava-se, apenas, no vinho tinto, velho, e bem amadurecido. O país acabava, portanto, algures no rio Mondego. Para os apaixonados da história, bastará reportar, quiçá, ao século XII.


E como a contradição é, ainda assim, lema pessoal, e numa fase em que as ideias simplesmente escasseiam, proponho, apesar de tudo, um tinto arquitectado com Trincadeira e Aragonês. Alentejano, portanto. Opulento, calmo e pouco dado a complicações. Apto para simplesmente desanuviar a mona.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Catarina

Não há, para mim, qualquer dúvida. A confrontação com dois estádios de alma foi inequívoca. Duas formas de olhar para o assunto. A primeira, apesar de reconhecer o interesse do vinho, não despertou, por ali além, qualquer comentário de valor significativo. O segundo, e porque decorreu após o desembrulho, foi mais efusivo. Apresentaram-se razões de vária ordem. O rótulo, o vinho, as castas, o preço. Atributos, portanto, suficientes para colocar qualquer interessado em perfeito estado de entusiasmo, de exaltação enófila.


Um rótulo que foi modificado, um vinho que é branco, a combinação de castas que não é a mesma (em 2001 tínhamos Fernão Pires, Rabo de Ovelha e Tamarez. Em 2010 temos Fernão Pires, Arinto e Chardonnay). O preço, esse vector fundamental, ainda assim, continua dentro do mesmo intervalo.


O vinho, de agora e não o de 2001, perdeu interesse. Está despido de classicismo, de história. Está inócuo. Perdeu, são sei para quem, aquela ponta de cobiça que chegou a ter. Coisas da modernidade.

sábado, janeiro 21, 2012

TWA RR & AM

Não é nova série de uma qualquer marca automóvel, nem de aparelhagem estereofónica. Não são, também, códigos alienígenas.
São, meramente, siglas de um encontro patrocionado pelo grupo facebookiano TWA (The Wizard Apprentice). Sem qualquer pejo, ou controle de vocabulário, será ou é, nos tempos que correm, o ponto de discussão mais activo, e alojado em Portugal, onde o vinho é debatido sobre os mais diferentes prismas, ângulos, arestas ou vértices.


Saudavelmente indisciplinado, por vezes incontrolável, sem censores e sem caneta correctora. É uma montra do que se pensa e como se pensa. E em espaço aberto.
A segunda reunião, sobre o patrocínio TWA, tinha como desiderato interpretar, escalpelizar, se possível, o trabalho de dois enólogos: Rui Reguinga e Anselmo Mendes. E porque alguém já o fez, e bem, encaminho-vos para os devidos locais: Comer, Beber e Lazer e Adega dos Leigos. Evito, deste modo, repetição de enunciados.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Dão Selection

Pequei por actos e ofícios e, como tal, fui castigado. Prego, inúmeras vezes, contra pecadores e vendedores de sonhos irreais. Vocifero contra gentes sem espinha, que hoje estão aqui e amanhã estão ali. Diabos me carreguem. E por isso fui punido.


Estupidamente, e numa acção puramente irreflectida e só por causa do rótulo (mordi e mordo, ainda, a língua devido ao acto) tomei posse de um vinho que não passou do estado de inocuidade. Sem alma e sem qualquer rasgo de piada.


Nunca se aplicou tanto a missiva: faz aquilo que digo, não faças aquilo que faço.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Offerus, Remake

Naturalmente um Remake. Este, de 2008, está muito mais tenso, mais vibrante, mais sério, mais enérgico. Diferente do outro. Talvez mais interessante. 
Com boa carga vegetal e, por vezes, lagarento. A reportar-nos para estímulos, eventualmente, mais rústicos, menos imediatos.


E jogando com as palavras, atreveria a dizer, que anda ou andou, como queiram, próximo do conceito de vinho de terra. Certo para quem aprecia o estilo.

domingo, janeiro 15, 2012

Vivem, ainda

Uff. Dia cinzento. Sombrio. Sente-se a terra humedecida. Vai-se bebendo, projectando os próximos dias. Aponta-se na agenda as próximas tarefas. Fazer isto, fazer aquilo.


Os vinhos vão espevitando a adrenalina, activando ideias. Pára-se, por breves trechos, para olhar para eles. Distintos na Terra, semelhantes na forma como foram criados. Vinhos delicadamente elaborados. Enganosamente frágeis. Feitos com o intento de serem longevos. Vivem, ainda.


E volta-se para o trabalho.

Post Scriptum: Os vinhos foram oferecidos pelos Produtores.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Camarate, Castelão, Tinta Miúda e Preto-Martinho

Se os contra-rótulos são, em alguns casos, autênticos tratados de nulidade, de informação pouco clara, de replicagem de lugares comuns ou articulados óbvios, outras vezes, e por causa de pequenos detalhes, levam-nos à compra de determinado vinho. Curiosa contradição.


Em circuito, normalíssimo, feito por entre as prateleiras de uma área comercial, igual a tantas outras, sacou-se um vinho por causa do que se afirmava nas costas do rótulo.
O dito era resultado de uma combinação entre castas (muito) pouco usual. Camarate, Castelão, Tinta Míúda e Preto-Martinho. Se as três primeiras já tinham soado ao ouvido, sobre a última nem um zumbido.


O interesse da coisa, em discussão, poderia encerrar-se aqui mesmo, de qualquer modo e para os interessados em questões do foro mais organoléptico, apraz dizer que estamos perante um vinho de fruta, limpo, sem qualidades ou defeitos evidentes, não sendo notadas notas de diferenciação. Para beber, portanto, sem grandes cuidados.


Posfácio
Outra curiosidade. Sabiam que a Casa Santos Lima foi, até há pouco tempo, proprietária da Casa da Passarela?

domingo, janeiro 08, 2012

Enólogo vs Treinador, Presidente vs Produtor

Fala-se, e muito, sobre a importância do enólogo na feitura, no planear de determinado vinho. Exageradamente, por sinal. 
Não menos relevante, quiçá bem mais preponderante, será o papel desempenhado pelo produtor. Homem ou mulher que idealiza um conjunto de ideias quiméricas, um sonho, um projecto. Que ambiciona trazer ao mundo qualquer coisa de valor acrescentado. Eventualmente desavindo e pessoal.
São poucos, no entanto, os produtores que conseguem definir junto do enólogo o que querem, o que pretendem, o que desejam,  o que sonharam. Sem hesitações e sem concessões. Raros são aqueles que intervêm com conhecimento de causa sobre a matéria. O António Madeira toca ao de leve no assunto.

A foto é proveniente do site do produtor espanhol Bach. Tem função meramente decorativa do texto.

Há, não só em PT, qualquer coisa de clube de futebol na gestão de uma empresa viniculturalista (a palavra existe?). Contrata-se, ou tenta-se, o melhor treinador, o melhor enólogo, com o objectivo de ser, aceleradamente, campeão. O problema, tal como no futebol, é que produtor e presidente parecem saber de tudo, menos do negócio que têm nas mãos. A coisa vai correndo, ou não, enquanto há dinheiro. A porca torce o rabo, quando ele começa perigosamente a escassear. E a culpa, tal como no futebol, é de quem? É que nem sempre o Mourinho ganha.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

O contra-rótulo francês

Quando pegamos numa garrafa de vinho procuramos explicações. Mesmo não dando qualquer importância ao que vem  escarrapachado, ficamos mais descansados se lermos meia dúzia de bitates sobre o local de onde vem, as castas que o formam, as barricas que o guardaram, os aromas e sabores que, eventualmente, poderão oferecer. Geralmente estas informações encontram-se no contra-rótulo. Se vieram assinadas por alguém sonante, melhor ainda. Pura paz de espírito.


Ficamos desnorteados quando nada disto surge. Autêntico silêncio. Os franceses, nesta matéria, são peritos. Por cá, alguns mais valiam não dizerem nada.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Para ler, na Palheira

Ide à Palheira do António. Bom artigo. Poderá dar azo a uma boa discussão. Vão até lá e comentem. A seu tempo, se o tiver, farei os meus comentários.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Offerus

Está registado e publicado desde há muito, para memória futura, algum desdém, por quem decidiu num ápice abnegar o vinho português. Ele, é agora, líquido chato, normalizado, sem carácter, comum e parecido entre pares. Aplica-se, neste caso, a lógica do oito e do oitenta.
Uns argúem que é o melhor do mundo, outros, pelo contrário, refutam a tese. É do piorio. Criticam-se, ainda, os canais de distribuição, as garrafeiras, o status quo, que apenas permitem o trivial. A obscuridade governa. Não creio que assim seja. Mas adiante.


Caindo na contradição, e sem qualquer pejo pelo que já disse e defendi, apeteceu-me, (porque não?) beber de forma despreocupada tinto de além fronteiras. Poupo-vos, no entanto, prosa sobre produtor, margens ou inclinações, solos e climas. Haverá, por certo, gente com mais engenho e paciência para tal desiderato. O que interessa, para o caso, é reportar-vos meia dúzia de conjugações sobre o objecto em causa.


Vinho apelativo, saboroso, fresco e especiado. Com soupless e objectivos bem focados. Restando, simplesmente, aconselhar o seu consumo. Pergunta: Temos algo parecido por cá? Não sei.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Pedra D'Orca

É o nome do vinho (eventualmente) mais emblemático da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazem. Ivoca uma anta que existe à beira estrada, algures em pleno domínio de Gouveia.


Este clássico, à luz do que aconteceu com outros vinhos, recebeu novo rótulo. Moderno, mas sem excessos. Limpo, simples e, porque não, bem mais atraente. Na verdade, toda a gama apresenta, agora, uma imagem mais jovem e actual. Esforços para manter viva uma pequena Adega incrustada nos arrabaldes da Serra. Que continue a viver.


O vinho, um branco de 2010, mostra-se coerente com a imagem. Asseado, franco e fresco. De fácil trato, capaz de agradar a gentes do Dão, do Douro, da Bairrada, do Alentejo e do Algarve. Gentes de lá e de cá. Censurável? Não.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Entre Serras

Estava periclitante a minha ida até às rochas. Até ao maciço, até à Beira que foi Alta. Cousas de vida tendiam a prender-me por terras de Sul.


Em míseros três dias, ainda assim, consegui reavivar a memória de actos passados. Uma loucura de emoções, de cheiros e sentimentos. Captar o possível, sentir, como se fosse a última vez. Em contra-relógio.


Tempo suficiente, ainda, para encher o meu corpo com pão, chouriça, presunto e queijo. Servidos de forma deselegante, sem metria e sem regra. Apenas, com as mãos pingadas de gordura.


O vinho, esse maldito, sempre à frente, ia sendo fornecido a homens e mulheres na cadência necessária. Autêntico potenciador de conversa, de discussão, de ilusão.


Viagens pela minha terra.