sábado, Setembro 29, 2012

Eno-Declaração

É declaração. Uma eno-declaração.
Gosto de quem assume que é parcial! Adoro quem diz que é dependente. Prefiro aqueles que afirmam preto no branco que têm preferências, sigo os passos de quem, sem qualquer vergonha, afirma que é influenciável, que é humano.


Irrito-me, tal ouriço espinhado, com os que batem no peito, tal virgem, ser puro, ou tal lobo com pele de cordeiro, afirmando: Sou independente! Sou exigente! Sou equidistante! Sou justo! Mas quem acredita nisto? Por isso, que viva a parcialidade e aqueles que a assumem. Têm espinha.

sexta-feira, Setembro 28, 2012

Quinta do Mouro

O ano dizem, os que sabem da cousa, foi estranho e maldito, sem ponta que se pegue. Dizem, também, que foi fraco em vinhos de estirpe elevada, com pouco para apontar. Errado.


São vários, e muitos, os exemplos de grandes vinhos (e que se lixe o exagero e o cuidado nas palavras) que nasceram em dois mil e dois. A lista não é nada curta.


Este Quinta do Mouro, que ilustra a breve palestra, cumpriu (plenamente) o que (eu) esperava dele: muito. Vinho de noite, vinho de introspecção, de solidão, vinho que embala para longe dos problemas, que apaga complicações, que consegue, mesmo por fugazes momentos, dar-nos a felicidade. Parecendo tudo tão fácil, tão bonito e tão ali à mão.

quarta-feira, Setembro 26, 2012

Tinto da Ânfora

Quer se queira ou não, teremos que admitir, de uma vez por todas, que existem vinhos impossíveis de serem descritos. Por isso, qualquer palavra que ultrapasse a fronteira da realidade, não terá sentido e será pior a emenda que o soneto.


Há muito tempo que não bebia este vinho (nem sei se alguma vez o bebi). De qualquer maneira, e independentemente do que bebi, provei ou não, agora, e sob a chancela Bacalhôa, direi que está abastardado, sem qualquer orientação e sem ponta que se pegue. Surge vulgar. Relembro que, no passado, era vinho com consideração, com respeito e com dignidade.


Numa prolongada noite de congeminação, onde se espiaram diversos fantasmas, medos e temores, em que se falou, de espada na mão, de tanta coisa, a goela foi sendo refrescada, amaciada por um Tinto da Ânfora, que foi capaz de calar a voz mais contestária. Foi vinho superior, grande, abastado de cheiros e sabores difíceis de falar. Tornou-se, meramente, num simbolo de apaziguamento. E assim fiquei calado durante o resto da noite. Para quê falar?

segunda-feira, Setembro 24, 2012

Duas Quintas

Estupidamente, deixei de consumir este vinho e as razões são, ao fim ao cabo, injustificáveis. Só a loucura pelos novos rótulos, novos vinhos, poderá justificar o pretenso abandono. Tem-se medo em ficar para trás dos outros e como tal enfatizamos, apenas, e apenas, o que é recente, o que é moderno, actual.


O clássico e o velho acabam, estranhamente, por serem conceitos distantes, relegados para planos subalternos, sem destaque, recuperados, somente, para dar a ideia que se é conhecedor de história, seja ela qual for.


Este branco, que resiste com o rótulo inalterado, é vinho denso, com a típica estrutura dos vinhos do Douro. Cheira e sabe a Douro Superior. Pujança, complexidade e frescura cambiam de forma coerente e homogénea. É vinho, e ainda bem, desavindo, sem qualquer ponta de tique ou respeito pelos ditames urbanos ou neo-urbanos, pouco consensual e despido de loucuras exóticas, sendo que, permitam-me que o diga é vinho português e ainda bem!

sexta-feira, Setembro 21, 2012

Abaixo as descrições organolépticas

Qual o sentido, qual o interesse, qual a vantagem em prosar inúmeras descrições olfactivas e gustativas?
De que vale, eu, estar a dizer que determinado vinho sabe ou cheira a X e outro, mesmo ao lado, estar a dizer que sabe ou cheira a Y? O presumível leitor fica esclarecido? Tenho dúvidas.


Por isso advogo que se abandonem todas, e mais algumas, descrições organolépticas. Não têm qualquer interesse e não esclarecem coisa alguma! Servem, apenas, para medir a capacidade eno-imaginativa de cada um de nós. Tenho dito!

quinta-feira, Setembro 20, 2012

Flor das Maias

Se há flor representativa da minha terra é a maia. É flor pobre, nasce ao desbarato por meio do mato, é rude, sem qualquer requinte. É flor de povo e, como tal, creio que não estará em mesa de nobre, burguês ou abastado. É a flor da giesta. Planta que servia para vassourar as ruas, os soalhos, a caca das capoeiras. É, a maia, flor da minha terra. É, também, a flor da terra da minha mãe. Acredito, tento, que ela ainda estará, certamente, a mirar para as suas maias.


Maia é Maio. Em Maio, segundo a tradição, faz-se a Festa das Maias. Lembro-me de qualquer coisa do género, enquanto novo. Agora, o mais certo, é ter sido extinta, resultado da limpeza populacional imposta ao Interior deste paupérrimo país.


Os enfadados leitores, desta pequena tarimba, estarão a questionar-se, por certo, sobre a eventual ligação que haverá terá entre o vinho que titula, e ilustra, e a pregação de hoje. Toda a ligação.


O vinho vem de uma encosta repleta de giestas que se tinge de amarelo por alturas de Abril e Maio. É vinho que reflecte, tal espelho límpido, o carácter da serra. É vinho silvestre, por vezes duro e intenso. É vinho de noite, longa e sem pressas. Vinho que fala serrano, vinho que nasce cerceado por pastos. É, portanto, vinho da minha terra. Da terra da minha mãe.


segunda-feira, Setembro 17, 2012

Ladeira da Santa: O Prólogo

Este post, de extensão reduzida, serve antes de mais como divulgação inicial de um projecto, do Dão, que apenas conhecia de nome: Ladeira da Santa. Não tecerei muitas palavras, pela simples razão, que a primeira abordagem foi rápida e exploratória. Não teria qualquer sentido, que enveredasse por escritos desfasados da realidade. Foi o que foi e nada mais, mas ainda assim com propósito definido.


É sabido, ou pelo menos sentido, que o Dão é, para alguma gente, apenas aquele espaço que circunda Viseu, mais Carregal do Sal, Nelas e Mangualde. Os restantes territórios são, assim parece, párias, filhos de um Deus menor, relegados para segundo plano. Servindo, apenas, como fronteiras distantes.
Zonas como Tábua, Oliveira do Hospital e Arganil, a sul, Aguiar da Beira e Fornos de Algodres, mais norte, fazem parte dessa mancha territorial.


Ladeira da Santa, tal como os produtores FTP e Vinho Donnaires, está incrustada em Tábua, já no Distrito de Coimbra, facto que faz aumentar, por si só, a curiosidade pelo projecto.
Os vinhos, tinto e rosé, sugerem ter estilo delicado, fresco e gracioso, cordiais no trato. Capazes de levar-nos a beber sempre mais um copo. E sem qualquer rodeios de linguagem, devo dizer que fiquei (muito)satisfeito com o que provei.

domingo, Setembro 16, 2012

Feira do Vinho do Dão ou a Festa de Nelas?

O evento, a feira ou a festa, como queiram, decorreu já algum tempo. Venho, por isso, com atraso nos comentários. Cousa rara nesta tarimba. Mas adiante nos considerandos, porque não tenho muito para ditar.


Foi a primeira vez que meti os pés em tal acontecimento e como tal acabou por ser uma investida exploratória, sem qualquer trajecto definido, sem qualquer objectivo preciso. Fui, apenas, à sorte e com a simples função de observador.


Reparei que os poisos, stands de produtores, era inumeros. Tudo bem, para um turista que vem ao desconhecido e descobre uma imensidão de bancas, com garrafas dispostas a serem devoradas. É bem.


Não percebi, no entanto, alguns efeites alegoricos, algumas passeatas com bombos e gaitas de foles. A feira ou a festa, que a é, oferecia também ao povo, ainda, alguns produtos que nada tinham a ver, julgo eu, com o vinho. Bordados, mantas, colchas, farturas, churros e afins.
Mas o que mais saltou à (minha) vista, enquanto deambulava pelo cenário, foi a falta de clientes, de interessados, de visitantes, a ausência de vibração, o silêncio estranho que percorria o recinto. Sinais de crise?



E comentários sobre vinhos? Infelizmente nenhum ou quase nenhum. Digo-vos que limpei a secura da boca, estava calor e sentiam-se réstias dos perniciosos incêndios que são mais uma doença incurável deste país, com um excelente rosé da Quinta da Vegia. É um rosé pujante, cor carregada e algo anacrónico. Diria que é completamente desviante da norma e para homem que gosta de coisas sérias. Sem concessões modernistas.



Refresquei-me, mais uma vez, e em jeito de despedida, com uns tragos de rosado, estilo mais floral, mais feminino, mas não menos interessante, da Ladeira da Santa. Projecto que tentarei falar com mais intensidade, um dia destes. E segui caminho que o comboio já apitava.




Balanço? Apesar de meia missa, meio confuso sobre a intencionalidade da feira, valeu a experiência, nem que seja para ver como é ou como foi. 

sexta-feira, Setembro 14, 2012

Quinta da Garrida

Não quero entrar em considerandos sobre o estilo deste vinho. Deixo tal reza para quem gosta de discutir o sexo indistinto dos anjos, isto é a eventual genuidade de determinados vinhos (estarei a mudar?). Por isso peço, e apenas para os interessados, que levantem aquela pequena túnica que cobre as partes menos nobres de tais criancinhas anafadas para ver quem é quem. Posto isto, avancemos.


O vinho, em causa, é poderoso, impositivo e duro. É vinho carregado, é vinho cheio. Com um cento de aromas e sabores que correram desalmadamente pela boca abaixo. Um vinho tinto que nasce, para quem não sabe, no meu Dão Serrano, terra de mãe, e como tal merece estar entre os meus eleitos. E não se preocupem com a minha parcialidade, com a minha falta de independência. É mesmo assim.


Mas voltando ao dito, o vinho, digo-vos que é um belo vinho, em que cada goticula parecia valer ouro.

quinta-feira, Setembro 13, 2012

Haverá?

Hoje preciso de vinho. Não de um qualquer vinho. Necessito de vinho para limpar a mona, esvaziá-la de maus pensamentos, de ideias conspurcadas. Um vinho que purificasse o corpo, que o tonificasse, e o elevasse a estádios de felicidade extrema. Ou que, pelo menos isso, provocasse uma leve, mas saudável, sensação de letargia mental.


O pior, eu sei, nós sabemos, surgirá quando infelizmente a transe findar. Será o regresso à dura e enviusada realidade que nos assola, a todos, sistematicamente, tal chibatada ritmada nas costas de um escravo.

terça-feira, Setembro 11, 2012

Evel Grande Escolha

É uma Verdade de La Palisse e, como tal, pouco haverá para acrescentar, e mesmo para quem opte por rodeios descritivos, mais ou menos inspirados, o resultado vai ser fatalmente o mesmo: O melhor vinho é aquele que soube ou sabe melhor. Não haverá, julgo, dúvidas com esta premissa. O resto, perdoem-me o exagero, não passa de eno-litania ou eno-ladainha corriqueira e sem sentido. Mas adiante.


Há muito que não passava pelo (meu) goto este vinho da RCV. Por determinada razão, por vezes sem qualquer fundamento, a opção tombava sobre outro vinho. E este vinho, o tal que não bebia há muito, está simplesmente soberbo.


Empachado de bons aromas e de bons sabores. E surpreendentemente, ou não, acabou por ser dos melhores vinhos que bebi este ano. Mas descontando todo o eventual exagero pessoal que as minhas palavras possam carregar, a verdade é que este tinto, de 2001, estava (muito) bom, saboroso e perfumado. Presumo que bastará. Ou não?

domingo, Setembro 09, 2012

Rosés de Portugal

Não quero fazer qualquer destrinça, nem palrar sobre eventuais escolhas pessoais, ou ainda referir que uns, segundo algumas correntes,  fazem licores e outros, segundo essa mesma corrente, fazem coisas genuínas (assunto que devia merecer alguma atenção por parte da comunidade - o que é um vinho genuíno?). Muito menos, quero ainda, fazer considerandos sobre regiões, produtores ou enólogos. Cada um saberá de si e um tal deus saberá de todos.


O que interessa, para o caso, é partilhar com vocês, assim o queiram, a convicção, minha, que os rosés made in Portugal estão bem mais interessantes e bem melhor projectados.
Digo-vos, sem qualquer receio em ser despromovido, que passei a ser consumidor habitual de vinhos rosé portugueses.

sexta-feira, Setembro 07, 2012

O que é?

Sei o que é, mas não apetece dizer. Imaginem, pensem vocês, mas se não tiverem qualquer paciência para tamanho exercício dedutivo, observem, simplesmente, para a tela.


No entretanto, e só para os mais audazes, pois sei que há muitos, mas muito acanhados, arrisquem. Vá lá.

quinta-feira, Setembro 06, 2012

Vila Santa

As minhas palavras serão parcas, não por causa da falta de qualidade do produto, que é vinho branco, mas por que o dito já foi apresentado, e bem, por diversos blogs. O Diogo Rodrigues debita uns bitaites aqui e o Janeiro dá um lamiré também aqui. E o Amândio Cupido, descobri mesmo agora, traçou uns rabiscos aqui


Resta-me, apenas, reforçar a ideia simples mas veemente, que o vinho é efectivamente bom e eu gostei francamente dele. Tem espírito, tem nervo, mostra energia e amplitude e aparenta ter estrutura, capaz, para evoluir bem.


Depois bebe-se, e bebe-se. E se houver mais à frente continuar-se-á a beber, sem qualquer problema. No fim, restar-nos-á, apenas, colocarmo-nos em pose de refastelamento no sofá, lugar santo para todo o homem, e dormir uma soneca merecida. E por ora chega de conversa.

Post Scriptum: O vinho foi oferecido pelo Produtor.

domingo, Setembro 02, 2012

Casa de Mouraz

Está calor, em demasia. Não gosto. O ócio, a indolência e a preguiça teimam em rodopiar, e em força, por estes lados. Um peso enorme, uma manta de inércia cobre as mãos, o corpo, a mente. Quase nada, ou nada, se consegue dizer ou fazer de jeito. Um fogacho aqui, outro acolá. Pouco mais.


Que se beba, então, que se desfrute mais uma vez e sem delongas. Que se adormeça, ainda mais, a carne.


Abriu-se, só, mais uma garrafa, alvitrou-se em segredo: só mais uma. Não fará mal. Amanhã, voltar-se-á ao trabalho. E o ciclo, o ramerrão (gosto desta palavra) continuará igual, cumprindo-se sem qualquer expectativa esperançosa os desideratos do dia-a-dia. Pura normalidade.


O vinho, que titula a epístola de hoje, é da Casa de Mouraz, é branco e é do Dão (sei que estão fartos da minha pregação) é cousa com enorme interesse. Líquido com requinte, sedoso e insinuante. Loucamente fresco. Maldito seja.


Bebeu-se até ao fim, sofregamente, como se o mundo ou o dia, para não ser demasiado fatalista, acabasse logo ali à frente. Pequei mais uma vez. Maldito seja.