quinta-feira, maio 29, 2014

Alambre 20 Anos: Uma Garrafa Vazia

Não existe nada mais honroso para um vinho do que ser bebido, deixando a sua garrafa completamente vazia. Vazia sem qualquer resto de nada, sem qualquer pinga para ser sorvida


O único senão, é ficar a olhar para o vazio, de cara tristonha, desamparado e confrontado com a possibilidade de não voltar a beber este ou aquele vinho


Pior se fica, quando se percebeu que se bebeu de forma louca, estonteante, julgando que o tal vinho iria demorar uma eternidade. Mas não. Ao fim de uns míseros minutos, o que restava eram apenas lembranças e saudades.


Mas como não há uma sem duas, melhor seria se fossem três, e porque a carpideira era geral, arrematou-se outra garrafa igual. Desta vez, bebeu-se com mais parcimónia, mas com igual prazer. O homem precavido...

terça-feira, maio 27, 2014

1995: Tinto Velho

O ano de 1995 foi miserável do ponto de vista pessoal. Não recordo nada de interessante, algo que valha a pena relembrar com orgulho e brio. Já tinha alvitrado qualquer coisa sobre o assunto aqui. Foi um ano repleto de asneiras, de passos mal dados, com decisões erradas. Diria, antes, com uma porrada de indecisões. Foi, o que se pode dizer, um annus horribilis. 


E a cada trago de vinho, a sensação de vazio era ainda maior. Minutos a fio a olhar para o rótulo, para o copo e népias. 1995 é, segundo parece, um ano que não existe ou existiu e/ou que não conta para mim. O que (nos) faz a mente. 


Salvou-se o momento com o vinho. Um vinho que marcou, isso sim, felizes episódios na alvorada do século XXI, que alimentou momentos de pura reflexão, de pura esbórnia, de tristeza, de tudo e de nada. Um vinho destinado, anos mais tarde, a marcar a vida. A minha.


E este vinho, como em outras tantas situações, sustentou, mais uma vez, uma daquelas ocasiões em que tudo é possível, em que tudo parecia fazer novamente sentido. Ao contrário do remoto ano de 1995.
  

quarta-feira, maio 21, 2014

MOB: Moreira, Olazabal, Borges

O que devo dizer sobre o vinho que ainda não foi dito? Circundo palavras sobre o dito, procurando qualquer coisa que não foi talhada, dita e ditada. De tudo o que li, ouvi, suspeitei e interpretei, salta à vista certa desconfiança sobre o vinho. Ou por um motivo ou por outro motivo, o que fica é apenas um certo melindre. Depois não entendo a demasiada cautela que os autores têm em falar sobre ele, em discuti-lo, em divulgá-lo. Tudo parece passar-se no segredo dos deuses. Porquê e para quê?


Apetece dizer que ambas as barricadas olham-se sob suspeita. Para mim, sem qualquer necessidade, porque o vinho merece que se fale, que se beba e que se aprecie. É, acima de tudo, um belo vinho branco. Um vinho repleto de finura e elegância, com uma souplesse que marca. Um vinho que sai da Quinta do Corujão, daquelas vinhas que agora, e de um momento para o outro, todos lembram e conhecem como a palma da mão.


Pessoalmente, e é o que interessa para o caso, trata-se de um vinho branco que gostei, que bebi, que soube pela vida ao ponto de ter repetido mais que uma vez. O fim, esse, foi o mesmo, mas o que importa foi a enorme alegria com que se ficou. O resto passa ao lado.

segunda-feira, maio 19, 2014

Independent Winegrowers Association 2014: 10 anos depois

Ao fim de dez anos continua actual, e com sangue na guelra, o caderno de encargos que deu origem ao projecto Independent  Winegrowers's Association. E ao fim de uma década de associação, pouco importa falar sobre cada vinho, traçar uma nota sobre o que se provou, mais uma vez. Parece-me despropositado e completamente desnecessário. Que se valorize o conjunto, o projecto, as ideias.


Eles, os produtores não precisam e dispensam os meus comentários. Seria, antes de mais, repetir o que já disse, o que já se escreveu e o que se irá, ainda, escrever nos próximos dias. Cada produtor apresentou o que quis, o que achou mais representativo do seu trabalho.



Mais uma aparição do Quinta da Vegia Superior.

A novidade da Quinta dos Roques.

Importa, antes de mais, valorizar o trabalho executado em conjunto pelos produtores em causa, sendo que este encontro anual, o único realizado em território nacional, é demonstrativo da elevada qualidade que patenteiam e imprimem no trabalho que vão realizando, culminando todos os anos no Ritz Four Seasons, onde aliam a qualidade dos seus vinhos à gastronomia. Diria que é o climax. Este ano, por razões óbvias, as expectativas estavam altas.



A gama de Alves de Sousa expande-se para os Tawny. Destaque para o 20 anos.

Solo 2011 e Solo 2013.

Desta vez, e porque o busílis do IWA circula essencialmente em redor da divulgação e promoção dos vinhos dos seus membros além fronteiras, a plateia de convidados foi brindada por uma pequena conferência em que o tema era sobre, como não podia deixar de ser, a exportação de vinhos. Coerente, portanto com o propósito.



Incortonáveis no portefólio de Luís Pato.
Na comemoração da efeméride, destaca-se ainda a apresentação de dois vinhos, também comemorativos. Dois vinhos brancos, carregados de carácter, vincada personalidade e forte pendor gastronómico: LARBE: vinho baseado em cinco cascas brancas: Loureiro (Quinta do Ameal), Alvarinho (Quinta de SanJoanne), Rabigato (Alves de Sousa), Bical (Luís Pato) e Encruzado (Quinta dos Roques) e uma Homenagem a David Lopes Ramos: Um varietal assente na casta Cerceal e idealizado por Luís Pato.

Um vinho comemorativo: Cinco produtores, cinco castas emblemáticas.
Uma Homenagem que dignifica a amizade entre dois homens.

Camarão, espargos brancos, puré de ervilhas e emulsão de citrinos.
Acompanhou o Quinta do Ameal Clássico 2007.

Peixe galo corado com manteiga de baunilha, alcachofras glaceadas, zest de calamodin e emulsão de giroles. Acompanhou com Homenagem a DLR Cerceal 2011.
Novilho charolês, crocant de jarret, condimento de legumes com vinagre de Modena 30 anos.
Acompanhou o Quinta dos Roques Garrafeira 2008.
Cabrito confit, permantier com trufa preta e cèpes.
Acompanhou o Quinta da Vegia Superior 2007.
Frutos vermelhos marinados com pimentão e manjericão, sorbet de líchias.
Acompanhou o Vintage Alves de Sousa 2011.
Em dez anos, a visibilidade do grupo aumentou e valorizou-se de forma sustentada. É uma marca, creio, com valor acrescentado. Um projecto que juntou sob a mesma alçada produtores de vinho oriundos dos Verdes, do Douro, do Dão e da Bairrada. E agora, que se dobrou a primeira década, que se caminhe, da mesma forma, na segunda década. O mais difícil terá, já, sido feito, digo eu. Posto isto: Parabéns e longa vida.

sexta-feira, maio 16, 2014

A Cor de Rosa Primeira Paixão

O nome é efectivamente sugestivo. Faz recordar as primeiras paixões, as últimas paixões, as paixões do passado, do presente e, quiçá, do futuro. Pensa-se no amor e em tanta coisa que anda em redor dele. É pena, no entanto, que o rótulo não seja ou fosse mais apelativo, dado a sonhos, a pensamentos, a suspiros. Se estampa e nome tivessem mais coerência entre eles, teríamos meio caminho feito, logo à partida. O resto seria bem mais fácil, mais imediato.


Ainda assim, uma coisa é certa e julgo, já, o ter dito remotamente: é exótico, ainda, beber um vinho tranquilo da Madeira.


Temos um rosé curioso, interessante, capaz de acompanhar uma refeição, dois dedos de conversa sem maçar, sem chatear pela doçura, pela fruta impositiva, pelo exagero aromático. Um vinho cordial, que deixa a boca seca, que se vai bebendo sem se dar conta que acabou. Um vinho, quem sabe, para acompanhar a tal paixão. Quando assim é, a função foi cumprida. 

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

segunda-feira, maio 12, 2014

A Febre dos Vinhos com Idade

Nem sei se sentem, pelo menos em núcleos mais restritos, mais fanáticos, mais dados a consumir coisas mais estranhas, com mais ou menos idade, que estará instalada um estado febril no que respeita a vinhos com alguma idade, particularmente em vinhos brancos. 


De uma assentada e de forma rompante começam a surgir por todos os lados, vinhos que há muito estavam esquecidos, que ninguém se lembraria de voltar a consumir (escuso de usar a terminologia finória: provar). 


E no meio de tanto vinho que agora bebemos, são raros aqueles que não gostamos. É como se vivêssemos em perfeita lua de mel quimérica. Tudo é bom.


Mas, começo a sentir, começo a pressentir que as coisas não serão perfeitas e que, não são poucas as vezes, alguns vinhos não merecem tanto destaque, que valem apenas pela curiosidade, pela carga histórica que possuem, o que, vá lá, não é o caso do vinho escolhido para ilustração desta curta publicação. Um vinho que respeitou os pergaminhos e emparelhou (muito bem) com o peixe mais famoso de Portugal. E quando assim é, vale a pena destacar.

sexta-feira, maio 09, 2014

Mar de Envero by André

Há posts que circulam na rede que carregam sobre si uma enorme inutilidade. Os meus encaixam na perfeição. É assumido e vivido sem qualquer complexo. E não querendo repetir-me no propósito, nem em jogos linguísticos, devo dizer que esta mera e simplória publicação tem, apenas, como objectivo agradecer. 


Agradecer ao André que se lembrou de uma distante troca de palavras sobre alvarinhos. E ele, homem de memória longa, não teve meias medidas. Apresentou-me um vinho com um nome que, só por si, é meio caminho para se gostar: Mar de Envero. As deduções fantasiosas criadas em redor deste vinho galego, como devem imaginar, foram imensas.


O que se pode acrescentar mais? Que gostei? Que pareceu diferente daquilo que conhecia? Que bebi um bom par de copos? Que mais o quê? Que o vinho cheirava e sabia a qualquer coisa? Que isto e aquilo? Não me parece que o André precise disto. 

terça-feira, maio 06, 2014

Quinta dos Roques: The Day

Quando se passa um dia em casa de alguém que é dono e senhor de um conjunto de predicados, é difícil escolher o que dizer, apontar aquele ou outro aspecto de maior relevância. Parece-me, sempre me pareceu, tarefa hérculeana, resultando, na maior parte das vezes, em algo massudo. Resta, portanto, o outro lado: o lado de meter pirraça, dizer eu estive lá.







Durante um final de tarde e uma noite, tomou-se o pulso, sob a batuta do mentor do projecto, a um conjunto de vinhos com a chancela Quinta dos Roques/Quinta das Maias. A cada gole, uma explicação, uma palavra sobre que se ali tinha à frente: porque aquele vinho era assim e não de outro modo, como foi a colheita, a vindima. Basicamente uma aula, em que professor fala e alunos ouvem. Pelo menos, assim se espera.






Entre uns e outros, entre colheitas com alguns anos em cima e outras bem jovens, ainda imberbes, a ideia que ficou é que continuamos perante um produtor que transpira saúde, que mantém acesa a mesma alma, o mesmo caminho traçado desde os primórdios da fundação. Apenas, parece-me, que foi ajustando aqui e além alguns pormenores.



Incontornáveis os Jaen, os Encruzados, incontornáveis outros tantos. Alguns deles, até, perfeitos desconhecidos até ao momento. Perdoem-me.



E, em jeito de remate, cimento a convicção que foi uma grotesca estupidez o afastamento a que votei durante algum tempo estes vinhos.