segunda-feira, Junho 30, 2014

Sob o Signo da Falácia

O que vou talhar nesta página em branco não está, como sempre, relacionado com as ilustrações. Elas servem, como sabem, para aumentar o tamanho do post, dando-lhe um ar mais sério. A garrafa está vazia, porque o vinho foi bebido fresco, ao longo de uma tarde soalheira, debaixo de um telheiro, à sombra e em puro estado de letargia mental. Estado que invariavelmente se instala, pelas múltiplas razões. Serve esse estado, por exemplo, como protecção para o que vou observando na vida e lendo aqui ou acolá.


E quando estava a botar para dentro do copo os últimos restos do vinho, será escusado falar sobre ele, e em jeito de suspiro, sou assombrado pela convicção de que vivemos, pelo que me dá a entender, uma enorme falácia. Tudo o que nos andam a dizer é, na verdade, um logro. Um manto de nevoeiro que se lança sobre os incautos, fazendo-lhes acreditar que a opção, o caminho é outro, quando não o é. Nunca o foi.


Filosofias baratas à parte, creio que as nossas castas sustentadas naquela enorme variedade, dizem que são largas centenas, são ainda insuficientes e não chegam. Não são suficientes para fazer vinho com algum interesse. É preciso, e cada vez mais, que se use algumas coisas que vêem lá de fora. Os portugueses, gente com enorme capacidade de iniciativa, que adora estar na linha da frente no que respeita à globalização, não quer, por isso, ficar atrás. Desta forma, há que rapidamente enfiar nas suas vinhas cepas que lhe possam garantir reconhecimento nacional e internacional, tal toque de Midas. É que palavras como Maria-Gomes, Bical e Cercial são efectivamente nomes de outros planetas.

terça-feira, Junho 24, 2014

Quinta das Tecedeiras: Reborn

No jogo de mudanças que também vai acontecendo no mundo do vinho, a Quinta das Tecedeiras apresentou-se ao público com novos proprietários. Os mesmos que, neste momento, governam a Quinta de Covela: Marcelo Lima e Tony Smith. Coube ao segundo o papel de representar a dupla em Lisboa.
Com esta mudança de mãos, regressa Carlos Lucas que, como é sabido, foi o enólogo responsável no passado pelo projecto. Um projecto que conhece e pelo qual tem especial predilecção, segundo palavras do mesmo.


E foi debaixo destes ares de mudança que no Bistro 100 Maneiras foram apresentadas duas novidades: a nova colheita de Flor das Tecedeiras e um Porto Special Reserve. O primeiro encarna perfeitamente no estilo de vinho com fruta, equilibrado, franco, directo e saboroso. Um vinho que pretende alcançar o maior número de consumidores possível.


O segundo, o Porto Special Reserve, de que apenas foram feitas algumas centenas de garrafas, foi apresentado à plateia como um produto de luxo e exclusivo e independentemente do preço (proibitivo?) a que irá ser disponibilizado ao público (lá para o final do ano), devo dizer que gostei francamente.


Feita a apresentação das duas novidades, o cenário passou a ser outro. Pela mão de Ljubomir Stanisic, o Papa Quilómetrostivemos acesso a um menu que procurou o equilíbrio entre a comida e os vinhos que foram sendo servidos. E antes que comece a desenrolar as fotografias do sucedido, ainda vou a tempo de traçar umas breves notas sobre o Reserva 2003 que foi oferecido aos comensais durante o almoço.  Um vinho que estava em perfeita saúde, muito equilibrado e elegante. Um vinho que acabou por ser, palavras minhas, o momento alto do dia.




Sardinhas

Borrego: Costela e lombo.
Quinta das Tecedeiras Reserva 2003: O meu preferido.



LBV e Queijos.
A partir daqui, resta-nos esperar pelo que irá sair novamente da Quinta das Tecedeiras. Ao fim ao cabo é o regresso a casa de alguém. E os regressos são sempre motivo para festejar.

terça-feira, Junho 17, 2014

Uma questão de Cotas

Com a distracção que o dia a dia impõe, acabamos por não observar determinados acontecimentos da melhor forma. Andamos, por ali, sem perceber, ou a perceber de forma errada, o que efectivamente se passa ou passou. Por vezes, e porque julgamos ser senhores e reis do pedaço, não damos conta que o nosso discernimento está tolhido.



Basta mudar de cota, subir mais uns quantos metros até lá a cima, para perceber melhor o que se passa na realidade. De cima para baixo, ficamos a ver de forma mais clara a movimentação das peças do xadrez. Fica mais visível, quem é quem, como actua, como se comporta. A vida parece ter outra vida, observam-se pormenores que dantes eram imperceptíveis, que passavam completamente despercebidos. Os ares são, de facto, outros. Mais frescos, menos abafados, mais airosos.



De facto, a cotas mais baixas, tudo parece (nos) igual, semelhante e pouco clarividente. Feita a experiência com as diferentes cotas, percebe-se facilmente que lá do alto se fica em posição privilegiada. Depois resta tomar, se possível, as melhores decisões. 

quarta-feira, Junho 11, 2014

Fernando Soares Franco: Homenagem

É bonito homenagear e relembrar alguém. E se for feito com a devida dignidade, estamos perante um acto cheio de importância. É com respeito que se bebe um vinho que serve para homenagear um pai, um amigo, alguém que foi importante na vida de uma pessoa.


Gostos à parte, estes e outros vinhos do género devem ser bebidos com respeito, com cuidado. Escalpelizá-los pode parecer, no mínimo, tarefa despropositada e demasiado pedante. É vinho feito por alguém em jeito de dedicação, em jeito, como disse, de veneração, com o objectivo de fazer perdurar a memória de uma certa pessoa.


E geralmente, estes e outros vinhos do género, são feitos com o melhor que se tem e com a melhor das intenções. Por isso, basta-nos desfrutar, curtir o que se tem ali à frente. É a melhor homenagem que podemos fazer a quem o fez.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

sexta-feira, Junho 06, 2014

Clos Champ Bernard: O Quê?

Na minha aventura pseudo enófila-wine blogueira, ou coisa que o valha, dou comigo, mas só comigo, a pensar nas vantagens que poderão existir ao falar de vinhos virtualmente desconhecidos da maior parte dos consumidores, pelas mais variadas razões: falta de interesse, de conhecimento, de capacidade financeira, de tudo e mais alguma coisa. É tema recorrente e irá continuar a sê-lo.



E descontando os tamanhos dos egos, pois cada um tem o seu à sua medida, começo a pensar que tais tarefas são, quase sempre, meros actos de auto-satisfação, porque, a maior parte das vezes, apenas se ouve do outro lado: o quê?
Parece-me, apesar de normal e humano, que em tudo isto há apenas gabanço de um lado e vouyerismo do outro. E é só. Por isso, até ao próximo acto de qualquer coisa do género.

terça-feira, Junho 03, 2014

Extranea Mirabilis

Há que dar mérito aos que, insatisfeitos, não param de inventar, criar novas imagens, novos conceitos, novos rótulos, novas formas de garrafas, novas abordagens. Umas entendo, compreendo e aceito. Outras, por exemplo, criam-me estranheza, fazem espécie e parecem-me, no mínimo, rebuscadas e completamente forçadas. Tudo em prol da inovação.


Não consigo entender esta garrafa: o seu formato é estranho, pouco comum em vinhos tranquilos, aparentemente despropositado e cria sérios problemas com o seu acondicionamento. 


Eventualmente, os criadores ao projectarem um vasilhame com estas características tiveram o intuito de, e já prevendo a tal dificuldade de arrumação, obrigar a consumir o vinho logo que chegamos a casa. Sempre se evitam, deste modo, remodelações mais dispendiosas nos alvéolos das garrafeiras. De facto, o vinho também não pede por grandes estágios. Portanto, tudo pensado ao pormenor.

segunda-feira, Junho 02, 2014

João Portugal Ramos: Loureiro

Em tempo em que a vontade para pensar, analisar e até sonhar começa a ser cada vez menos intensa e porque, segundo parece, o bom tempo quer roçar-nos com mais frequência e intensidade e porque sabe-se lá mais o quê, nada melhor que alimentar este estado de amorfismo com mais um branco. A partir daqui e até ao longínquo mês de Setembro, apenas há vontade para muito pouco ou quase nada.
  


Um branco que vem aumentar o vasto portefólio de João Portugal Ramos: um Loureiro temperado com uma nesga de Alvarinho e que cumpre o desiderato a que foi proposto: refrescar e aliviar os efeitos da canícula, a um preço perfeitamente aceitável. Bebe-se, com ou sem comida, e agrada. Costuma-se, por isso, dizer: está porreiro pá.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.