domingo, setembro 28, 2014

40 anos

Em quatro décadas, muita coisa aconteceu. Podemos dizer que durante quarenta anos, largámos uma vida semi-primitiva, subdesenvolvida, ainda com (muitos) laivos de medievalismo enraizados na sociedade ocidental-lusitana. 
Durante quarenta anos, passámos todos, os vivos e os mortos, por inúmeras esperanças e desesperanças, por sonhos e desilusões, por alegrias e tristezas. Andámos, a maior parte das vezes, atrás de uma cenoura que nunca comemos e dificilmente comeremos. A cenoura que, agora, está cada vez mais tísica, mais engelhada.


Ao longo de quarenta anos, muito vinho foi bebido e muito homem andou ébrio pelas mais diversas razões. Ébrio de ilusões.


E após os quarenta anos, aqui e além, lá surgem reminiscências felizes do que aconteceu há quarenta anos atrás. Sobre o futuro e que será passado, daqui a quarenta anos, que outros contem como foi.

quarta-feira, setembro 24, 2014

Carrocel

Diz-se, por aí na gíria popular, que a vida é um pouco como uma viagem de carrossel. Roda, roda e volta a rodar, acabando por tontear, apenas, os pensamentos de quem anda por lá. Diz-se, também na gíria popular, que se trata de uma viagem para a qual não comprámos bilhete. Quer dizer, então, que enfiam-nos no brinquedo, sem saber e sem querer. Estamos lá.


Mas já que por lá andamos, no carrossel, porque não aproveitar os barulhos, as músicas, as caras de quem cerceia por perto. Acreditem que há pormenores bem interessantes. As expressões mudam, consoante estamos fora ou dentro. São expressões reveladoras do carácter, da força de vontade. Mostram coragem, medo, apreensão, confiança, dúvida, despeito. 


E quando o carrossel lá aumenta a velocidade, consegue-se, ainda, observar quem tem estofo para a coisa. Quem aguenta todo aquele movimento alucinado e quem anseia que toque a sineta. E a maior parte, apenas, deseja que tudo chegue ao fim. Só que o fim, tanto da vida como da garrafa, é mesmo o fim. 

segunda-feira, setembro 22, 2014

Quinta dos Três Maninhos

Queira-se ou não, diga-se o que disser, mas as relações entre pessoas, a forma como elas se apresentam e se relacionam com o mundo, influenciam, em grande medida, as nossas escolhas. É normal, é humano, é mesmo assim. Quem disser o contrário, andará equivocado. Nós decidimos, optamos ao coberto de estímulos emocionais, sentimentais. Muitas vezes, quase sempre, injustificáveis.


Feita a nota introdutória da homilia, devo dizer que, desde algum tempo, nutro um carinho especial por este projecto do Dão. Um projecto pequeno, com uma carga familiar muito forte. E tal como o nome diz e indica, é da responsabilidade de três irmãos
E num mar de tantas propostas disponíveis, por vezes iguais entre si, conseguiram fazer um vinho que (me) enche as medidas, pela limpeza, pelo carácter que possui, pela capacidade de envolver. Um vinho que comprova e prova que é possível fazer (muito) bem, sem grandes apetrechos, sem grandes delírios, tornando-o grande.


Rematando as pontas soltas, urge levantar a seguinte questão: se os mentores em causa fossem indivíduos chatos, pretensiosos, carrancudos, teria bebido o vinho? Pelo menos uma vez, mais não. É sempre preferível beber, recordando bons episódios, boas conversas, caras de gente simpática.

terça-feira, setembro 16, 2014

Mafarrico

Realmente, e apesar parecer estar tudo mais ou menos descoberto, aqui e além ainda vão surgindo algumas coisas giras, curiosas, com nomes bem esgalhados, que fazem rir, recordar peripécias. Este vinho, que é do Douro e que não conhecia de todo, prendeu a atenção pelo curioso nome que ostenta: Mafarrico. Nome que faz lembrar aqueles putos traquinos, ariscos e travessos.


Putos que parecem ter o diabo no corpo, incapazes de estarem quietos, de não fazerem asneiras. E se tiverem cabelo dourado ou alourado, ainda são baptizados de russos de má pêlo. Sei o que é. Outra curiosidade, que não sabia, é que mafarrico é o nome de um jogo de cartas (da Bairrada), bem como de um habitante de Mafra.


Mafarrico é, também, uma personagem do elenco da série Noddy. Trata-se de um duende que se entretinha a fazer travessuras, jogadas menos claras, sempre com o intuito de prejudicar o insuspeito galã e seus amigos. Fazia par com o Sonso, o outro duende de coração bem menos malvado. Por tudo isto, apraz dizer que é possível beber um vinho e falar sobre múltiplas coisas. Se o vinho for, é claro, interessante. Como é o caso.

terça-feira, setembro 09, 2014

Maria Papoila

A foto, ou outra muito parecida, que ilustra o fascículo de hoje já andou pelas redes sociais. Registou, naturalmente, um mero acto de veraneio, descomprometido. De qualquer forma e independente disso, urge reforçar, agora, a surpresa e admiração com que fiquei, quando meti os primeiros tragos do dito pela boca abaixo. 


Outra questão que também importa registar, e também agora, é que ao fim de muitos vinhos bebidos, perdoem-me a alarvidade e a pouca elegância enófila, começam a serem raros aqueles que, efectivamente, nos prendem, acabando por ficar registados para memória futura. Há uma normalidade que enfastia, que cansa, que desmotiva.


E este vinho que não faço ideia se é ou se estava para ser algo extraordinário, de topo ou coisa que o valha parecida, continua a matutar na cabeça. Eventualmente, e parece que há vozes dissonantes, terei exagerado. Pessoalmente foi um vinho marcante pela profundidade de aromas e sabores, por ter algo que estava fora do baralho, da norma. Rematando, voltaria a insistir nele e creio que não ficaria defraudado.

segunda-feira, setembro 01, 2014

Batuta

A poucas horas de encerrar o playground e regressar ao dia-a-dia de sempre, aos assuntos e temas que alimentam a minha boca e a dos meus, e curtindo os derradeiros momentos de brincadeira, nada mais do que registar (aqui) que costumava perder algum tempo com as orquestras filarmónicas comandadas por Leornad Bernstein e Herbert von Karajan, quando surgiam no ecrã. Não comparem com os eternos e massudos concertos de ano novo, de que nunca consegui ser fã. 


Devo dizer, antes de mais, que ouvia e via, porque apreciava a postura dos dois ao dirigirem dezenas de homens e mulheres. As suas presenças eram marcantes e as batutas, nas suas mãos, marcavam o compasso, dizendo quem mandava ali.  Eram expansivos e exuberantes. Mais o segundo que o primeiro.


Se fizermos a transposição para the real life, e por muito esforço que se imprima, ter uma batuta nas mãos não está destinado a todos. Mandar, organizar, destinar, projectar, são tarefas para poucos e não para muitos. Pode-se querer ou até ambicionar, mas não se consegue. Apraz dizer que vale mais ser um bom tocador de ferrinhos do que outra coisa qualquer.