quarta-feira, dezembro 30, 2015

Esquecidos: Casas Altas Branco 2008

O vinho branco está indubitavelmente a ocupar um grande espaço nas minhas escolhas. Efectivamente interessam-me, muito mais, os vinhos brancos que os vinhos tintos. A possibilidade em encontrar algo que seja interessante é grande e, em muitos casos, surpreendente. Os tintos, por vezes, chateiam-me. 


Não sei se interessa para o caso, para o vosso ou para o meu, mas este vinho foi dado a beber, sem estar a ver o rótulo, sem saber de onde era, sem saber puto do que se tratava. As perguntas que foram sendo colocadas, à medida que ia engolindo os tragos, eram simples e directas: o que achas que é? de onde poderá vir? gostas ou não gostas? quantos anos terá? À primeira pergunta, respondi simplesmente não sei, após uma porrada de tentativas sem qualquer nexo ou sentido. À segunda questão, respinguei que não era vinho do Douro e muito menos do Sul, por causa da frescura e vigor que mostrava ter. Relativamente à terceira questão, retorqui com um claro e preciso gosto francamente. Perante a última questão e se a memória não me falha, julgo ter dito que seria qualquer coisa que andaria por dois mil e doze.


Revelado o rótulo, mostrada a precedência, a surpresa foi efectivamente enorme. Tratava-se de um vinho branco de dois mil e oito, com uma cor brilhante, cheia de vida, com uma juventude e complexidade estonteante e inusitada. Vivo, tenso, nervoso e com (enorme) carácter. Em jeito de remate, e sem qualquer cuidado no uso dos adjectivos, atrevo-me a dizer que é uma das grandes surpresas deste ano, principalmente por não estar à espera. 

quinta-feira, dezembro 17, 2015

O Pingus gostou destes: Os eleitos de 2015

A lógica é a mesma, a ideia é igual. Não há qualquer alteração, nem tem qualquer intuito em ser aquilo que nunca foi e que nunca será. É o bláblá de sempre.


É mais uma selecção de vinhos e que partilho. Como sempre e para não destoar, a sua escolha assenta em aspectos muito obscuros, tendenciosos e amplamente emocionais. Não há, portanto, quaisquer critérios. São meras notas soltas. Todos eles respeitam uma condição: foram referidos ou mencionados no meu pasquim e não noutros lugares.

O resto, como devem perceber, são assuntos sem importância. Eu gostei destes e vocês gostarão de outros. Constatação normal na vida de homens e mulheres. 

E até para o ano, se a vida quiser!

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Gouvyas Cuvée OP 2000

E o ano encaminha-se para o fim e tudo foi quase igual como sempre. Nada de novo. Resumindo-se ao mesmo de sempre. Vinhos e mais vinhos. Provas e mais provas, com mais ou menos convites. Fotos e mais fotos. E lá andamos, todos, numa fila indiana mais ou menos organizada, com mais ou menos cotovelada. Faz parte.


Registo aqui no escaparate e para a posteridade, a minha, um dos vinhos que mais prazer deu na altura em que foi apresentado ao público. Andava esquecido nas calendas. 
Este vinho, entre outros, marcou um preríodo em que o mundo enófilo estava a despoletar de forma fervorosa, em que se falava de vinho de forma mais solta e sem qualquer constrangimento. A novidade era mesmo novidade, bem ao contrário do que acontece actualmente. Na verdade, naqueles tempos, tudo ou quase tudo parecia bem mais genuíno, bem mais inocente. Parecia. Autêntica Primavera.


Passados largos anos desde que o bebi pela última vez, foi com enorme surpresa que me apareceu pela frente. Este vinho não era e continua a não ser um vinho de modas. Era e é um vinho profundamente elegante, fresco e fino. Um vinho saudavelmente frio e estruturado para se beber do primeiro ao último copo. Um vinho tinto cheio de vida, que deu gozo enorme, que descontraiu de forma inusitada. E com isto tudo, já passou uma boa porrada de anos.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Remake: Somontes Touriga Nacional 2007

Apetecia-me dizer alarvidades, mas tentarei ser controlado na prosa e ela terá o valor que lhe quiserem dar. Adiante na prelecção que o que importa são outras coisas.
Quando falamos de Touriga Nacional e no que ela nos pode ou não oferecer, acabamos todos a debitar lugares comuns, palrar frases feitas e ideias pré-concebidas. Pouco sabemos.


Estamos aqui perante um vinho profundamente seco, muito fresco, com um carácter vincadamente vegetal, onde a fruta, a madeira e a doçura parecem não existir de todo. Se existem ou existirem estarão relegadas para lugares muito subalternos, bem lá no fundo da plateia.


Atreveria-me a dizer que será, neste momento, dos poucos exemplos, quiçá uma memória quase perdida, do que terão sido eventualmente os vinhos do Dão, no passado. Olhando para o rabisco que escrevi na altura, há quase três anos, devo dizer que não é preciso dizer mais. É vinho de memórias perdidas e uma muito feliz e desviante interpretação da Touriga Nacional.

segunda-feira, dezembro 07, 2015

1985

1985 foi um dos melhores anos da minha vida. Da minha vida juvenil, júnior. Consegui conciliar os bons resultados académicos com jogadas casanovianas que começaram a ocupar, a partir dessa altura, algum do tempo disponível. É certo que a maior parte das jogadas não davam em nada. Eram muito pouco profícuas e quase sempre desastradas. Ainda por cima, as paixonetas, as minhas e dos meus colegas, recaiam sempre sobre as jovens mais pretendidas, um pouco mais velhas e que faziam lembrar aquelas pin-up americanas. Faziam os deleites da rapaziada daquela altura.

Elegante e fresco. Para entreter.
Naturalmente as atenções de tais moçoilas não recaíam sobre jovens com penugem no buço, com erupções cutâneas, ainda com tiques de nerds, que tentavam largar a todo o custo.


Do outro lado, tínhamos as miúdas marronas, vestidas de forma colegial, que só mais tarde compreendemos a utilidade tal indumentária,  com golas e óculos de largo diâmetro e com borbulhas mais ou menos activas. Pioravam, ainda, quando esborratavam os seus lábios ou as suas sobrancelhas. Naturalmente fugíamos delas. Algumas, bem mais tarde, transfiguram-se em mulheres extremamente interessantes. Mas quem iria adivinhar?

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Setúbal, Península de Setúbal ou Palmela

Em Setúbal, na Península de Setúbal ou em Palmela, é irrelevante para o caso a denominação, existe uma clara divisão entre o novo e moderno e a tradição, o clássico e a história. A clivagem entre estas duas visões é bastante clara nos vinhos da região.


A proliferação de vinhos pesados, doces e sem alma, parcos em frescura é cada vez maior e com uma falange de apoio cada vez mais significativa entre consumidores e produtores. Os números apontam, segundo consta, para isso. 


Pessoalmente é com profunda apreensão e pesar que assisto, salvo raras excepções, ao delapidar dos velhos castelões, em que o AS de António Saramago (que combina o castelão com outras castas) e Horácio Simões Grande Reserva são perfeitos exemplos. Vinhos profundos e potentes, mas com carácter, com personalidade vincada que aguentam o correr do tempo de forma digna. Foram substituídos por vinhos normalizados, onde uma palete de castas migrantes fazem o deleite da multidão.


Nos vinhos brancos apostou-se na exuberância aromática, na linearidade de aromas e sabores. São fáceis, são imediatos, são, como nos tintos, normalizados. Raros são os casos em que podemos deslumbrar um vinho marcante, como o Hexagon e o Horácio Simões Vinhas Velhas Boal que conseguem ombrear com os melhores vinhos brancos deste país, capazes de marcar um momento. 


É com enorme angústia que vejo uma porrada de moscatéis sem qualquer vivacidade, vindos principalmente das areias do Poceirão e Fernando Pó, sem a complexidade que um vinho desta estirpe deve ou devia ter. A falta de frescura é em alguns casos, se não na maior parte deles, aflitiva. Cansam ao fim de dois tragos, na melhor das hipóteses.
Salvam-se os confirmados José Maria da Fonseca, Bacalhôa, António Saramago e a Casa Agrícola Horácio Simões que parece apostar, de algum tempo a esta parte, na criação de um património que poderá dar origem, no futuro, a um conjunto de vinhos incontornáveis.


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Oh Cistus! Que Surpresa!

Aproveitando alguns minutos de sossego interno, de algum distanciamento do rebuliço, disto e daquilo. Apetece-me palrar. Botar discurso, entreter-me com os meus botões, envolvendo-me com brincadeiras e jogos solitários. Falar de mim para mim, num jogo de monólogos vibrantes.

Oh! Que surpresa! 
Há dias em que se abre ou abriu uma garrafa sem qualquer objectivo, sem qualquer fim especifico. Abre-se porque se quer ou porque precisamos de libertar a cavilha da pressão, tentando evitar refluxos gastroesofágicos mais tarde.

A percepção de um vinho  (ainda jovem) com carácter que consegue cambiar bem a fruta directa com a frescura, sem nunca perder o interesse. Copo atrás de copo, vai-se esvaziando a garrafa sem dar conta. E fica a impressão de que é capaz de evoluir e bem no futuro.  Surpresa! Boa surpresa.
Escolhemos, ou tentamos, um vinho que potencie a alegria interna ou desfaça as tormentas e as dúvidas que incessantemente andam atrás de nós. Quando acertamos no propósito, ui, a coisa fica tão cor-de-rosa. Até parecemos outros.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

segunda-feira, novembro 30, 2015

Comemorando: 25 anos

No meio dos imbróglios em que nos vamos metendo dia após dia, esquecemos a porrada de motivos que temos para comemorar. Muitos deles achamos que não têm a dignidade para ser festejados, comemorados com pompa e circunstância. Para celebrar, pensa-se repetidamente, tem que haver algo grande. Um pequeno suspiro ou o simples facto de respirar, viver e olhar não merecem ou não costumam ter direito a comemoração. Julgamos que são normalidades sem direito a momentos mais ou menos solenes. Direitos.

Vinho comemorativo dos 25 anos da Quinta de Cabriz. Um vinho superlativo, cheio de garra e que combina a força com a enorme frescura. Vinho que parece ter sido idealizado para crescer, evoluir durante anos e anos. Nesta fase está novo, muito novo. Profundamente jovem. 

Creio até que devemos festejar as feridas, as marcas que vão ficando incrustadas no corpo. Lembram-nos os erros, as falhas, as apostas perdidas, as desilusões, os enganos que fomos acumulando ao longo do tempo. São sinais de que vamos sobrevivendo, com maior ou menor dificuldade. Algumas dessas chagas são mantidas, sabe-se lá porquê, ainda abertas, por sarar totalmente. Convém que doam, para não voltarmos a repetir o mesmo. Até essas merecem celebradas. E muito.

domingo, novembro 22, 2015

O Vinho: Uma Arma da Grande Guerra

Fui encaminhado por um amigo, personagem com vastos de recursos intelectuais, capaz de tornar uma mera conversa num estimulante desafio e que escuta o meu palrar inconsequente de forma bem paciente, tal irmão mais velho, para um tema bem curioso. E por causa dos seus recentes estudos sobre o envolvimento da China na Primeira Guerra Mundial ou a Grande Guerra, orientou-me para um assunto que não nunca vi discutido, abordado ou aflorado pelos diversos comentadores de vinho da nossa praça. Na verdade, pouco se escreve sobre a história do vinho, a relação deste com o homem e a sociedade, nos mais diversos escaparates. Apraz dizer que há mais vida para além de...
Ora tomem nota de algumas curiosidades sobre a dimensão do consumo de vinho no decorrer da Grande Guerra Mundial, no exército francês. A tradução e interpretação é da minha responsabilidade. 


Segundo consta, os soldados do exército francês, no início da grande guerra, tinham direito a ração diária de vinho, sendo que a cerveja e a cidra seriam também consumidas, em larga escala, pelos soldados. Principalmente pelos nativos das regiões mais a norte de França, como a Bretanha. Inicialmente teria sido cerca de um quarto de litro, aumentada para meio litro em mil novecentos e dezasseis e, finalmente, para setenta e cinco centilitros em mil novecentos e dezoito. Para quem vinha das tais regiões mais a norte, este teria sido, provavelmente, o primeiro contacto com o vinho.  


Em mil novecentos e catorze, ano em que houve uma colheita abundante, foram oferecidos mais de duzentos mil hectolitros ao exército, por diversos produtores, com o intuito de aumentar a moral entre as fileiras do exército franco. Ainda no mesmo ano, o Ministro da Guerra da altura, Millerand, tomou a decisão de distribuir vinho entre os soldados, passando a fazer parte integrante das suas rações de combate.


Em mil novecentos e dezasseis, o consumo anual do exército francês foi de doze milhões de litros por ano. Impressionante. O esforço de logística, para a altura, devia ter sido enorme. É referida a existência de quatro mil vagões-cisterna para transportar o vinho. Sendo que o vinho era encaminhado para grandes armazéns regionais em Béziers, Sète, Carcassonne, Lunel e Bordeaux. De lá sairiam comboios que transportariam, em média, cerca de quatro mil hectolitros para diversos locais e onde depois seriam transfegados para barricas de duzentos e vinte litros. As tais barricas ficariam posteriormente acantonados junto das estações ferroviárias, para serem, eventualmente, distribuídas pelos soldados na frente de guerra. 


A importância e o volume do vinho consumido, durante a Grande Guerra, foi de tal ordem que as chefias militares recorreram, quase no final da guerra, à requisição de um terço de colheita anual, incluindo as colónias. 
O vinho bebido pelos soldados seria, segundo consta, uma mistura de lotes de várias proveniências: Mâconnais, Beaujolais, Languedoc-Roussillon, Marrocos, Argélia e Tunísia. Teria uma graduação média de nove graus. 


Em jeito de conclusão e estilo ligeiro, atreveriam-me a dizer que, na Grande Guerra, também houve uma vitória do vinho sobre a cerveja. Ou o vinho superiorizou-se à cerveja.

Fonte: Vejam alguns relatos da frente de guerra.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Parte II: Quinta de Saes Caniças

Farto de ou da Touriga Nacional? Depende, da forma como ela é tratada, manipulada, apresentada. Sim, estarei farto da Touriga Nacional, se for servida de forma adocicada, plana, profundamente exuberante, excessivamente perfumada, tratada de igual maneira como as outras. Abastardando-a de tal forma que pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. Sem qualquer laivo de personalidade. Assim e desta forma, também estou farto.


Este Caniças é, acima de tudo, um vinho que dá enorme prazer beber, pelo seu carácter apelativo, mas firme que possui. Não é certamente um monstro de vinho, perdoem-me a ligeireza na linguagem, mas é um belo vinho, onde a casta é tratada, parece-me, sem grandes arranjos. Tratada de forma descomplicada e simples. É o que é.


Vinga pelo equilíbrio, pela coerência que apresenta. E por menos de oito euros, está muito bom e aconselha-se.

domingo, novembro 15, 2015

Parte I: Quinta de Saes Reserva Branco

É provável que a colheita de dois mil e catorze fique registada, acho eu, como uma das interessantes para os vinhos brancos. Paulatinamente vou provando um ou outro vinho e fico com a ideia que só não fará bem quem, eventualmente, não quiser, não quis ou não soube. Os vinhos parecem-me frescos e tensos, com doses de acutilância muito generosas. No Dão, em particular, o cenário afigura-se muito prometedor.


Este Quinta de Saes é um puro exemplo da limpidez, da presumível pureza que um vinho branco deve ou devia ter. Conjuga, de forma bem coerente, um conjunto de atributos que vão desde a longuíssima frescura, a tipicidade, a profundidade, a elegância e a não menos importante capacidade de envelhecimento.


Temos aqui, a preço controlado, um modelo do que pode e deve ser um belo vinho branco do Dão. Apetece dizer que a receita do como se deve fazer não se perdeu. Anda é desvirtuada, há muito tempo.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Morgadio da Torre

Sem qualquer cuidado no vocabulário escolhido, devo dizer que fiquei impressionado, admirado, surpreendido com este vinho. Fiquei impressionado, admirado, surpreendido porque não estava à espera, porque a expectativa era baixa ou não muito alta. O que me leva a pensar na razão da aquisição. Actos e comportamentos estranhos, reflectem, na maior parte dos casos, a minha enorme incoerência. 


Ando afastado, na generalidade, dos alvarinhos. O afastamento, deveu-se, acima de tudo, pela aparente falta de tensão, nervo e acutilância que pareciam exibir, nos últimos anos. Cimentei a ideia, eventualmente pouco fundamentada, que estava acontecer uma deriva no conceito, na abordagem à casta, tornando-a mais urbana, mais exótica, mais arredondada. 


Neste caso específico e sem querer estabelecer qualquer comparação com outros alvarinhos, encontrei o que não estava à espera e que particularmente aprecio. Um vinho branco quase másculo, coberto de tiques clássicos, despido de qualquer fruta exótica (espero não estar enganado), com uma frescura profunda a rasgar a boca em toda a sua largura. Um vinho branco que me pareceu ter uma enorme personalidade, bem como capacidade para envelhecer dignamente. 

segunda-feira, novembro 09, 2015

Ebriedade

Ebriedade! Estado que permite ao comum do mortal, soltar-se das amarras a que está sujeito, desde que nasce até que desapareça do cimo do chão. 
Ao coberto da ebriedade, tornamo-nos diferentes, para melhor ou para pior, deixamos cair as defesas, que balizam o socialmente correcto. O povo feminino costuma dizer que se queres conhecer um homem dá-lhe vinho. Tenho, assumo, que concordar com essa premissa. 

Belo espumante para uma sexta-feira à noite. Um tónico para o corpo, fazendo-nos entrar com um enorme sorriso no fim de semana. 
Há diferentes razões que nos encaminham até ao estado ebriedade: comemoração, felicidade, tristeza, para esquecer, para recordar. O leque de motivos é vastíssimo, sendo que, pessoalmente, o melhor motivo para a ebriez é não haver nenhum motivo. 


Bebe-se por que apetece e em alguns casos para ficar ausente do que se passa em redor, passando-se, desta forma, para uma dimensão onde, aparentemente, estamos melhor, mais alegres, mais soltos, menos pesados. O imbróglio são as horas seguintes. O regresso to the real life traz consigo um conjunto de danos colaterais: uma robusta dor de cabeça, devido ao aumento de peso que sofreu e olhos profundamente avolumados. O day after é assombroso. É também o único dia em que prometemos não voltar a repetir. Naturalmente, até à próxima vez.


terça-feira, novembro 03, 2015

Casa da Passarella: O Fugitivo Vinhas Centenárias

Antes da Ordem do Dia

Gosto de viver influenciado, profundamente dependente daquilo que gosto e não gosto. Não creio na independência. 

Há vinhos que, por uma razão ou outra, acabam por tornarem-se incontornáveis no percurso de alguém que goste (verdadeiramente) de vinho. São vinhos que trazem, de facto, mais valias, novas abordagens, novas visões ou tentam fazer ressurgir/recuperar métodos e tradições que tendem a desaparecer: back to the past. Dizem-nos que é possível, apesar de tudo, recriar, inovar. 


Quando se fala, em círculos mais restritos, de vinhos minimalistas, pouco intervencionados e desviantes de uma norma que tende a matar a diversidade, provenientes de vinhas bem antigas, onde o trabalho humano é desprezível e a natureza é assumidamente protagonista, este vinho é, sem qualquer cuidado nas minhas palavras, um perfeito exemplo. Cumpre as premissas que atrás foram superficialmente enumeradas. 


Será caso único? Claro que não. Mas é certamente mais um feliz acontecimento, do que se pode e deve fazer numa região que tem uma longa história, mas que opta, repetidamente e até à exaustão, por criar a régua e esquadro uma enorme falange de vinhos sem alma e sem carácter. Iguais lá ou aqui. Mas o que interessa, para o caso, é que estamos perante um dos melhores vinhos do Dão. Ponto!

quarta-feira, outubro 21, 2015

Quinta da Murta Clássico

Nada sabe melhor que encerrar o dia com um belo copo de vinho para limpar as más memórias, os desejos não cumpridos e desligar de (quase) tudo. Meter tudo para trás das costas e gritar calado: que se lixem! Com copo atrás de copo começamos a olhar para muitos dos desideratos de forma menos inquietante e muito menos preocupado com os desenlaces. É o que for

Quinta da Murta Clássico 2009

Estado perfeito de letargia é quando esse vinho, o tal que serenou, surpreende de forma (in)esperada. Surpreende-nos pelo (quase) perfeito estado de evolução, pela complexidade que demonstrou, pela inusitada capacidade de mutação que foi revelando. Umas vezes foi uma coisa, outras vezes outra. E no meio deste jogo, meio alucinado, vai-se adormecendo paulatinamente, até aos próximos raios de sol. E devia ser sempre assim. Sempre.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Quinta do Cerrado Encruzado: The New Label

Por vezes corre-se o exagero de dizer: é o melhor. Naturalmente esta expressão está carregada de aspectos emocionais. Concordamos ou discordamos dela, consoante a nossa posição perante determinado vinho. É normal que assim seja. Valorizamos ou desvalorizamos. 


Com o nova rotulagem, bem conseguida, por sinal, a nova colheita do varietal Encruzado, parece-me ser, eventualmente, a melhor de todas. De todas aquelas que já foram provadas ou bebidas, como queiram.


Vinho que mantém a frescura, a secura e a tensão que sempre foi apanágio do vinho. Desta vez, ganhou delicadeza e finura, tornando-o mais completo. Ficou, digamos, mais equilibrado, mais balanceado, sem nunca perder todo aquele nervo. Um salto qualitativo. E agora, haja paciência e dinheiro para ir seguindo os seus passos, vendo como ele se irá comportar no tempo.

quarta-feira, outubro 14, 2015

Poço do Lobo Arinto 1994

O prazer de beber um vinho branco com (alguma) idade proporciona, a quem gosta, um conjunto de sensações irrepetíveis. A idade cimenta a complexidade, potencia a descoberta de estímulos que vão para além do trivial, do imediato, do que está ali à mão de semear. Da normalidade.


É preciso ter paciência, tempo e disponibilidade para desfrutar, entender o que um vinho branco adulto, amadurecido pela idade, tem para oferecer. Não se compadece com impulsos juvenis e inconsequentes, que morrem assim que o interesse deixa de ter interesse. Há que ir mais longe e largar o que é supérfluo. Como na vida, ficam registadas as memórias do que foi difícil, não do que foi fácil. 

segunda-feira, outubro 12, 2015

Herdade do Mouchão

Não querendo explanar um discurso demasiado elitista, devo dizer que conhecer a Herdade do Mouchão, a sua génese, o seu percurso e os seus vinhos, faz parte das obrigações de qualquer tipo ou tipa que goste do vinho.


Mais uma vez, e de modo perfeitamente descomprometido, um grupo de indivíduos, sob a batuta de um aficionado incorrigível, foi desafiado para fazer uma prova com vinhos da Herdade do Mouchão. O mote era muito simples: procurar no mercado as colheitas mais emblemáticas do referido produtor, comprá-las e fatalmente bebê-las. Tudo simples. O produtor, a casa mãe, tomando conhecimento dos desideratos de uma dúzia de plebeus desencartados, e por iniciativa própria, teve a amabilidade de acolher o bando, disponibilizando as suas instalações, guiando uma visita, enquadrando todos os vinhos, que foram sendo provados. Juntaram-se, ainda, algumas surpresas mais recentes e que não estavam previstas por parte da presumível organização. Em registo ligeiro, altamente desprofissionalizado e sem qualquer cuidado nas palavras usadas, foram sendo ouvidos comentários, histórias e desmontadas algumas concepções alternativas.


Debaixo de um ambiente bucólico, cerceado por paredes caiadas e pelas leves ondulações do terreno, foi possível perceber que estávamos perante algo muito especial, onde os vinhos pareciam ser feitos quase à antiga, de forma minimalista, onde os lagares e o engaço fazem parte, ainda, da feitura do Mouchão. Pessoalmente, assumo, não estava à espera de ser confrontado com um processo tão pouco interveniente, com laivos de tipicidade e tradição. Mea culpa.


Sobre os vinhos, apraz dizer, não querendo alongar a prosa sobre o estado de cada garrafa/vinho, que foi perceptível em todas as colheitas, a frescura, a presença do tanino, os toques balsâmicos, a complexidade. Um conjunto de atributos que, de uma forma geral, não são identificativos dos vinhos do Sul. Ainda assim, registo para memória futura as colheitas de 1985, 1995, 1996 e um estrondoso 2002, servido em garrafa Magnum. Não esquecendo, naturalmente, a emblemática colheita de 1963.