quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Remake: O Produtor vs O Enólogo

Ao realizar uma leitura célere pelos escaparates, durante a manhã, detive-me numa passagem que merece séria reflexão, não por mim, mas por quem faz vinho e vive dele: "...um dia perguntei a José Bento dos Santos qual a marca que os vinhos de uma quinta deveriam ter, se a do enólogo ou a do produtor. Sabe a resposta dele? A do produtor. Eu concordo com ele! Infelizmente, os produtores não assumem as responsabilidades." 
E sem alongar-me mais sobre o assunto, pois corre-se o risco de repetir ideias já roçadas, a convicção pessoal é que a maior parte dos produtores parece não fazer ideia do que faz, o que pretende, se quer assim ou de outra maneira. Já agora, parece-me que toquei neste tema, algures no passado: "Há, não só em PT, qualquer coisa de clube de futebol na gestão de uma empresa viniculturalista (a palavra existe?). Contrata-se, ou tenta-se, o melhor treinador, o melhor enólogo, com o objectivo de ser, aceleradamente campeão. O problema, tal como no futebol, é que o produtor e o presidente parecem saber de tudo, menos do negócio que têm nas mãos. A coisa vai correndo, ou não, enquanto há dinheiro. A porca torce o rabo, quando ele começa a escassear. E a culpa, tal como no futebol, é de quem? É que nem sempre o Mourinho ganha."  


Raros são, portanto, os produtores que trabalham efectivamente a sua marca, que lhe dão um cunho pessoal, que transmitem aos seus vinhos um carácter próprio que os distingue dos outros. Na maior parte, das vezes, dizemos, ao invés, que aquele vinho tem o cunho de determinado enólogo ou assessoria enológica. São vinhos que, em privado ou não, baptizamos, justa ou injustamente, de vinhos de régua e esquadro. Impessoais e comuns. Raros são os produtores que são produtores.
E neste despachar de obrigações para os enólogos e suas equipas, os produtores desresponsabilizam-se do seu papel de timoneiros, de estrategas, de decisores. E os seus vinhos saem iguais aos do vizinho de que, por vezes, falam com desdém. É tramado.

2 comentários:

Hugo Mendes disse...

Esse é um tema sinuoso e com muita dificuldade em se encontrar uma resposta generalista.

A meu ver, deve seguir-se o mesmo padrão do vinho, ou seja, equilíbrio.
O problema real está no facto dos produtores não se envolverem no processo criativo ou, no facto de grande parte das empresas ter maus gestores. Eu inclino-me para a segunda.

No fundo, admito como válidas todas as opções desde que resultem num equilíbrio. O gestor tem de saber escolher as pessoas para o caminho que traçou (quantos definem visão, missão e objectivos, mesmo de forma empírica?)todo o mais é extra.
A chave está numa boa gestão e no equilíbrio. diria eu!

Pingus Vinicus disse...

Claro que sim. A questão, parece, é haver essa falta de equilíbrio.