terça-feira, junho 16, 2015

Pagar para fazer!

Devo dizer que divirto-me, um pouco, quando leio comentários elogiosos sobre alguém que faz alguma coisa. Naturalmente, é meritório para quem arregaça as mangas, vai à luta e leva avante um determinado projecto. Mas poucos o fazem com regularidade e sistematização. É de louvar, sim senhor. No entanto, a maior parte das vezes, são quase sempre fogachos matinais. Divirto-me, apenas, porque dá a ideia que são o último grito de alguma coisa, quando na verdade anda meio mundo a copiar outro meio mundo. 

Tão simples quanto isto: Meia dúzia de tipos procuraram no mercado as diversas colheitas Quinta do Roques Touriga Nacional para poderem provar. Vieram, portando, das mais diferentes proveniências. E ainda, por cima, convidaram o produtor. 
Fico, também, meio angustiado com tanto nervosismo e alarido como aquilo ou isto fosse a tal última novidade. Como se mais ninguém tivesse feito ou fosse fazer. Depois como tudo, o berreiro é potenciado ou não, consoante os interesses de determinado grupo, alinhamento ou postura. Uma questão, portanto, de clubite.

Quinta dos Roques Touriga Nacional 1995. Num estado fantástico. 
Elogio, perdoem-me o abuso, é quem paga para fazer. Pague para ter acesso, para perceber o que é e o que não é. Pague o que tenha que pagar, o que for preciso pagar para provar este ou aquele vinho. 

É um produtor incontornável na região do Dão. Os seus Tourigas estão num elevado patamar de qualidade. Naturalmente surgiram variações entre garrafas. Cada garrafa veio de uma proveniência diferente. Eram vinhos reais. Pessoalmente destaco as colheitas de 1995, 1996, 2002, 2005, 2008, 2010 e o promissor 20013.
Fala-se em enofília, em blogosfera, em apaixonados, em consumidores, em interessados pelo vinho, mas raramente se referem aqueles que, sem patrocínios, metem as mãos à obra e concretizam o que pensam, o que querem, pagando para ter. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, mas poucos, muito poucos, sacam do guito que têm no bolso para viverem aquele momento, para terem aquela prova, o quer que seja. Isto sim, meus caros, devia ser mencionado, referido e elogiado. Puros actos de cidadania enófila. Mas tenho que concordar que é muito mais fácil receber caché, para participar ou fazer.

3 comentários:

Anónimo disse...

Exmo. Senhor,

"Fala-se em enofília, em blogosfera, em apaixonados, ..., em interessados pelo vinho" - isto representa quanto dos consumidores de vinho? 1% ou menos

Deixe-se de tretas que o Zé da Esquina quer é o tinto carrascão e está-se a borrifar para o resto.

Cordiais cumprimentos,

Barroso

carrafouchas disse...

Por vezes as pessoas não percebem o sentido do que se escreve.
Fala.se aqui em enofília,mas o que realmente,para mim,tem sentido é no fundo a critica daqueles que gostam deste tipo de provas,mas à borla.Os chamados parasitas do vinho que consomem e fazem festas mas à conta de outros.
Gostei muito do que li.

Anónimo disse...

Curioso é verificar que desde que colocaram as provas pagas nas garrafeiras de Lisboa parece que ficaram vazias. Não se vê vivalma por lá comparativamente ao que se via. Será que foi boa política?

Mascarenhas