domingo, novembro 22, 2015

O Vinho: Uma Arma da Grande Guerra

Fui encaminhado por um amigo, personagem com vastos de recursos intelectuais, capaz de tornar uma mera conversa num estimulante desafio e que escuta o meu palrar inconsequente de forma bem paciente, tal irmão mais velho, para um tema bem curioso. E por causa dos seus recentes estudos sobre o envolvimento da China na Primeira Guerra Mundial ou a Grande Guerra, orientou-me para um assunto que não nunca vi discutido, abordado ou aflorado pelos diversos comentadores de vinho da nossa praça. Na verdade, pouco se escreve sobre a história do vinho, a relação deste com o homem e a sociedade, nos mais diversos escaparates. Apraz dizer que há mais vida para além de...
Ora tomem nota de algumas curiosidades sobre a dimensão do consumo de vinho no decorrer da Grande Guerra Mundial, no exército francês. A tradução e interpretação é da minha responsabilidade. 


Segundo consta, os soldados do exército francês, no início da grande guerra, tinham direito a ração diária de vinho, sendo que a cerveja e a cidra seriam também consumidas, em larga escala, pelos soldados. Principalmente pelos nativos das regiões mais a norte de França, como a Bretanha. Inicialmente teria sido cerca de um quarto de litro, aumentada para meio litro em mil novecentos e dezasseis e, finalmente, para setenta e cinco centilitros em mil novecentos e dezoito. Para quem vinha das tais regiões mais a norte, este teria sido, provavelmente, o primeiro contacto com o vinho.  


Em mil novecentos e catorze, ano em que houve uma colheita abundante, foram oferecidos mais de duzentos mil hectolitros ao exército, por diversos produtores, com o intuito de aumentar a moral entre as fileiras do exército franco. Ainda no mesmo ano, o Ministro da Guerra da altura, Millerand, tomou a decisão de distribuir vinho entre os soldados, passando a fazer parte integrante das suas rações de combate.


Em mil novecentos e dezasseis, o consumo anual do exército francês foi de doze milhões de litros por ano. Impressionante. O esforço de logística, para a altura, devia ter sido enorme. É referida a existência de quatro mil vagões-cisterna para transportar o vinho. Sendo que o vinho era encaminhado para grandes armazéns regionais em Béziers, Sète, Carcassonne, Lunel e Bordeaux. De lá sairiam comboios que transportariam, em média, cerca de quatro mil hectolitros para diversos locais e onde depois seriam transfegados para barricas de duzentos e vinte litros. As tais barricas ficariam posteriormente acantonados junto das estações ferroviárias, para serem, eventualmente, distribuídas pelos soldados na frente de guerra. 


A importância e o volume do vinho consumido, durante a Grande Guerra, foi de tal ordem que as chefias militares recorreram, quase no final da guerra, à requisição de um terço de colheita anual, incluindo as colónias. 
O vinho bebido pelos soldados seria, segundo consta, uma mistura de lotes de várias proveniências: Mâconnais, Beaujolais, Languedoc-Roussillon, Marrocos, Argélia e Tunísia. Teria uma graduação média de nove graus. 


Em jeito de conclusão e estilo ligeiro, atreveriam-me a dizer que, na Grande Guerra, também houve uma vitória do vinho sobre a cerveja. Ou o vinho superiorizou-se à cerveja.

Fonte: Vejam alguns relatos da frente de guerra.

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